Vamos falar de sexo. Mesmo!

Por Ana Garcia Martins

30 de May de 2017

Se tivesse de apontar um dos grandes flagelos do século XXI, diria que a falta de comunicação estaria no meu top 3. É uma desgraça. Não sei se é uma coisa nossa, cultural, mas acho que tendemos a ser pessoas de poucas palavras, sobretudo no que toca às relações. Os homens, diz-se, são pouco dados a esses temas, começam logo a revirar os olhos de impaciência. As mulheres, diz-se, são vistas como umas chatas que querem estar sempre a falar sobre tudo, a debater até ao mais ínfimo pormenor cada detalhe da vida. Como mulher, digo já que é uma acusação injusta. Se nós queremos falar é porque somos mais espertas (sempre fomos) e percebemos que uma boa comunicação é meio caminho andado para evitar uma carga de problemas do tamanho do rabo da Kim Kardashian. Somos preventivas, cautelosas mas, muitas vezes, acabamos por não dizer nada que, às tantas, também já só queremos é sopas e descanso.

Mas se há sector onde não nos podemos calar, homens e mulheres, é na cama. Aí, parou tudo! Há uns tempos foi publicado um estudo patrocinado por uma marca de preservativos que garantia que 95% das mulheres admitem nem sempre atingir o orgasmo durante a relação, mas que até vivem relativamente bem com isso. Uooooooh, oh, oh, calma lá! Como assim, vivemos bem com isso? É, diz que sim. Sabe-se lá porque carga de água, assumimos que o orgasmo masculino é mais importante do que o nosso, e se eles estão satisfeitos, então o mundo está satisfeito e estamos todos na paz dos anjos. O problema é que não, que o orgasmo é uma coisa demasiado valiosa para se abrir assim mão dele, sem sequer nos questionarmos.

Segundo o estudo, uma das causas para esta desgraça reside no facto de nós, mulheres, não sermos lá grande coisa a dizer o que queremos. Temos alguma vergonha, não queremos embaraçar o parceiro ao dizer-lhe “mais para a esquerda” ou “mais para a direita”, e então lá vamos comendo e calando. Literalmente. O que é um contra senso. Ora se nós somos meninas para estar sempre a falar de tudo e mais um par de botas, depois não temos coragem para explicar o que nos satisfaz na cama? Como dizia um amigo meu, com o qual falei sobre este assunto, “aquilo que faz uma mulher chegar lá é um mistério insondável, pelo que é melhor não estar a tentar adivinhar. Ganha-se tempo e pode-se voltar a ver a bola mais rapidamente”. Ok, a primeira parte da explicação faz sentido, a segunda é só parva. Mas é mesmo verdade que para as mulheres o orgasmo é uma coisa menos óbvia, envolve mais factores, precisamos de outro tipo de estímulos, por isso mais vale deixarmo-nos de pudores e dizermos logo o que queremos.

E deixemos de lado pensamentos do século XV, do género “o que é que ele vai achar de mim?” ou “será que vai levar a mal?”. O máximo que um homem pode achar de um mulher que diz aquilo de que gosta na cama é que é confiante e decidida, com o plus de ser uma coisa altamente sensual. Pelo menos é o que dizem os meus amigos: que gostam que lhes dêem dicas, que não se importam nada, que acham que apimenta muitíssimo a relação e que não se sentem menos habilidosos por causa disso. Sentem só que conseguem que as coisas funcionem melhor para os dois e que saem todos a ganhar. Claro que também convém dizer as coisas no tom certo, se se saírem com um “ó meu anormal, estás aí há meia hora e ainda não fizeste nada de jeito”, é bem provável que se acabe logo ali a brincadeira.

Posto isto, mulheres deste meu país, falemos. Digamos o que nos faz feliz, lutemos pelo nosso orgasmo, porque se não formos nós a lutar, ninguém lutará. Posto isto, homens deste meu país, incentivem as mulheres a falar, mostrem-se receptivos e cumpram os pedidos de cara alegre, que isto é para o bem de todos. E, como dizia outro amigo “desde que os pedidos não passem por cozinhar ou levar o lixo à rua, faço tudo!”.

Ohlala.sex, It’s Just Love

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