Tiago Monteiro

Por Hugo Vinagre

15 de March de 2018

Ainda te lembras da tua primeira vitória?

Comecei pela Porsche Cup na altura tinhas um campeonato global e o campeonato B, que era para os não profissionais. Ou seja, a primeira vitória foi aí, mas não foi uma vitória à geral. A primeira vitória à geral foi na Fórmula 3 para aí em 1998 ou 1999.


E depois das Fórmulas, porquê os carros de turismo?

Sabes que quando eu saí da F1, a principal razão foi não poder estar, ou seja a equipa estava cada vez pior, com grandes dificuldades financeiras, com imensa gente a sair e eu não queria continuar naquela equipa, queria dar um salto para outra, mas sabes como é, sempre poucos lugares todos os anos. Quando saltei da F1 inicialmente era mais numa de, “Ok, vou saltar um ano para depois voltar para uma equipa melhor” e quando fui ver o que é que havia disponível para ficar no activo, queria um campeonato que fosse competitivo, que fosse internacional, que tivesse marcas envolvidas e tal, os GTs não estavam muito fortes na altura, quem estava muito forte era o WTCC, um campeonato do mundo, com carros de turismo e pensei, “Comecei na Porsche Cup, não é bem a mesma coisa mas são carros fechados, tenho alguma experiência de endurance, não deve ser assim tão difícil passar para os turismos”. Mas o que me atraiu realmente, mais do que o carro em si, foi o campeonato, queria mesmo estar ligado a uma marca e estava ligado à Seat na altura, era uma equipa oficial num campeonato do mundo da FIA, era isso que me interessava realmente.


Então quando saíste da F1 não imaginavas que ias fazer isto durante a década seguinte da tua carreira?

Exactamente. Nunca imaginava passar dez anos nesse campeonato, que ia gostar tanto e que ia ter tanto sucesso.


Ser operado antes de uma corrida por um director que também era dentista foi a coisa mais esquisita que te aconteceu na Fórmula 1?

Muito provavelmente foi o mais caricato que tive na carreira, quase de certeza. Para já teres um abcesso e uma inflamação no fim-de-semana de corrida nunca é fácil, nunca é agradável mas depois a coincidência de ter um dentista como patrão também é raro. E é uma pessoa que não é muito agradável, é brilhante, mas não é simpático e tinha um aspecto assim muito agressivo e tal, por isso era a última pessoa que escolherias como dentista e a relação que tinha com ele era profissional, não propriamente de amizade. Não estava nada para aí virado, mesmo cheio de dores, e imaginar que ia ser tratado pelo Colin Kolles, estava mesmo muito preocupado. Mas olha que foi uma grande surpresa, o homem tinha umas mãos de fada e foi incrível, muito bom mesmo.


Durante os teus dois anos na F1 a equipa teve três nomes. Sofreste com a instabilidade?

Obviamente, muitos dos empregados estavam era focados em não perder o emprego e preocupados com o futuro, mais do que propriamente em encontrar a performance do carro. E quando a equipa está à venda, é óbvio que não há investimento dos donos actuais, fica tudo em stand by a ver o que é que aquilo vai dar, por isso em dois anos tivemos ali momentos de crise complicados, não só a nível do pessoal, mas também com a falta de injecção de capital que seria normal haver na temporada. Não tinha um carro tão competitivo como poderia ser, nunca ia ser uma equipa de topo, mas podíamos ter tido melhores resultados. As duas, três últimas equipas estão sempre nessa situação, ali a tentar sobreviver, continuam, não continuam, se vendem ou não vendem, a F1 sempre foi assim, faz parte do jogo.


E a corrida em que chegaste ao pódio foi a mais estranha da tua vida?

Foi também algo muito muito caricato, inédito até hoje, toda a gente se lembra dessa corrida, aquele boicote dos concorrentes com os pneus Michelin e obviamente que foi aquela grande oportunidade, estávamos no sítio certo, na altura certa, mas nesses seis era preciso estar o mais à frente possível e a luta lá atrás era feroz mesmo.


Então sentiste a pressão.

Ah sim, talvez a maior da minha carreira. Porque eu estava consciente que era uma oportunidade única. Era um fim-de-semana onde podia haver oportunidade de pontos, mas nunca imaginámos que seria assim, que houvesse tanta adesão ao boicote e iríamos ser só 6 carros. A partir do momento em que vimos que éramos seis ainda foi pior. Um dos meus concorrentes na altura era o meu colega de equipa, a luta era muito renhida entre nós e qualquer um podia ter acabado em terceiro. Felizmente naquele fim-de-semana estava muito forte, confiante. A equipa a meio da corrida, quando eu estava já com um bom avanço, deu-me indicações que havia uns problemazinhos da temperatura de caixa, etc., e que tinha que abrandar um bocadinho o ritmo e eu não queria. Não queria perder a concentração, manter aquele meu ritmo, estava confortável assim e não queria estar sobre pressão no final da corrida. Por isso continuei a atacar ao máximo até aos três quartos dacorrida. Se perguntares quem fez quarto, ou quinto ou sexto, quase já ninguém se lembra, por isso foi mesmo importantíssimo estar ali em terceiro. Se aquilo foi bom ou mau, não tenhas dúvidas que aquilo não foi fantástico para a F1, mas faz parte daqueles pontos na história que eles se lembram, a bem ou a mal, tanto faz, mas o importante é que estava lá e agarrei aquela oportunidade.


Lê a entrevista completa na edição de Março. Já nas bancas.

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