The Legendary Tigerman

Por Playboy Portugal

07 de February de 2018

Com a chegada de Misfit, que além de um disco também é um filme, Paulo Furtado deixou de ser um tigre solitário. Aproveitámos para conhecer melhor o homem por trás da lenda, sempre pronto para desafios como gravar no deserto ou ser o pai de Eusébio.

1. A one man band foi um truque que entretanto se gastou

?Não é que se tenha gasto, quer dizer, por um lado sim, gastou-se no sentido de, no True acho que levei a coisa um bocado longe demais na maluqueira do one man band e no que eu conseguiria fazer como one man band, e até o processo todo de composição, foi composto na sala de ensaios, e sempre muito tendo em vista o formato e tentando levar as fronteiras do formato do que o que é que eu conseguia fazer até um limite um bocado estúpido em que eu perdia mais tempo a ensaiar coisas técnicas do que propriamente a criar coisas novas. Acho que foi como o Paulo Segadães entrou a tocar bateria, uma coisa do género mesmo “Já estou farto de tocar sozinho, preciso de mudar um bocado disto”, depois o Cabrita foi também entrando, não foi uma coisa premeditada, ou seja, acho que me fartei mesmo do formato, por agora, pelo menos, e tinha necessidade de fazer outras coisas e fundamentalmente não estar limitado a esta coisa que fiz durante cinco álbuns, de só gravar o que conseguia tocar ao mesmo tempo. O que, apesar de ser uma limitação, era uma limitação muito fixe porque me criava um caminho, mas estava a precisar de fazer outras coisas.


2. Não ponderaste acrescentar um “and the” qualquer coisa?

Tinha sempre uma estratégia que era trocar o “a” de Tigerman por um “e”, que é mais simples, mas ainda não estamos lá, acho eu, no sentido em que isto ainda não é exactamente uma banda. Eu continuo a fazer as canções, toda a gente dá obviamente dicas e dá ideias e dá um contributo super importante, mas ainda não chegámos lá. 


3. Por norma as coisas acontecem-te sem as planeares?

Sim, aliás, a maior parte das coisas importantes da minha vida às vezes até têm a ver com erros que depois se transformam em outras coisas, mas sim, acho que tu tens alguma tendência, quando o tempo passa e ficas mais velho, a intelectualizar um bocado as coisas. E eu tento contrariar, quer dizer, por um lado não tento contrariar e aceito isso e gosto dessa profundidade, por outro lado às vezes para compor as coisas que sejam mais no fio da navalha tens que deixar isso um bocado para trás, essa intelectualização, e tentar fazer as coisas muito rápido. 


4. Mas desta vez, começares por fazer um filme que inspirou um álbum que virias a gravar no deserto da Califórnia exigiu planeamento, correcto?

Exigiu, mas lá está, ao mesmo tempo que houve esse planeamento, acho que só agora à distância é que percebo exactamente o que é que quis fazer a mim mesmo. Na realidade escrevi o filme em rodagem, ou seja, todas as manhãs escrevia o diário do filme, o diário de cada entrada e à noite escrevia as canções, ou seja, o grosso disto tudo, apesar de na realidade depois haver, sei lá, um ano de trabalho antes e provavelmente um ano de trabalho depois, numa série de coisas, mas o grosso do filme e do disco foram escritos em 14 dias, o que nos remete outra vez para esta coisa de te obrigares a não pensar muito e a ser mais instintivo em relação às coisas que fazes. Só agora também olhando para trás é que percebo o enorme risco a que me propus, quando decidi fazer as coisas assim, na realidade se no primeiro dia de escrita as coisas tivessem corrido mal duvido muito que em duas semanas, ou que mesmo no ano a seguir conseguisse fazer alguma coisa de uma viagem de um filme mal sucedido, com composição mal sucedida numa série de coisas. Ou seja, acho que me coloquei um bocado deliberadamente no fio da navalha, parecendo que era uma coisa muito planeada, que exigia muito planeamento antes e depois, e no momento da criação foram duas semanas. 


5. Saiu tudo como querias?

Saiu, sim. Mais do que o que queria, acho eu. Quando fomos para o deserto a primeira vez, não esperava minimamente que fizéssemos uma longa-metragem e acabámos por fazer, pensei que faríamos uma curta, vá lá, uma média no máximo, uma coisa de 30 minutos, e de repente havia material para se fazer um filme. E com o disco acho que fiquei também muito contente, é um disco mais do que qualquer outra coisa de rock ’n’ roll, que acho que era o que estava a precisar e também era o que faria sentido, em contraponto também com o filme.


6. Quem é este Misfit?

Este Misfit tem obviamente muito de mim, tem muito do Tigerman, ou seja, acho que há sempre estas coisas das máscaras e tu aproveitas para estar atrás das máscaras e a tentar dizer coisas que provavelmente não dirias sem máscaras, e acho que este Misfit numa primeira camada tem muito a ver com o Tigerman e com essa máscara que eu coloquei depois por trás, também estou eu, mas este Misfit também é tudo o que é a estrada americana e tudo o que tu encontras e tudo... E esse perigo já não sentes tanto na Europa, pelo menos eu não sinto, não há nenhum sítio em que sinta que ao virar da esquina alguma coisa, qualquer coisa maluca pode acontecer de bom ou de mau, ou o que quer que seja. Acho que isso existe muito na estrada norte-americana, e daí eu ter planeado esta viagem entre Los Angeles e Death Valley. E tem tudo isso, tem coisas que aconteceram comigo há 15 anos, tem coisas que aconteceram comigo ali na altura, tem ficção, tem muitas coisas que foram inspiradas por tudo o que sou e pela viagem.


Lê as 20 perguntas que fizemos ao mítico Tigerman na revista de Fevereiro.


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