Quantas vezes? As que nos apetecer

Por Ana Garcia Martins

23 de July de 2017

Se aos 20 as conversas sobre sexo giram muito em torno de novas conquistas, novas posições ou novas fantasias, muito ao estilo “fiz e aconteci”, aos trinta (e muitos) o tema deu uma volta de 180 graus e é mais do género “quantas vezes é que é normal ter sexo?”. O assunto, invariavelmente, é puxado por gente casada e/ou que já está numa relação para aí desde 1750, e que começa a perceber que, ao que tudo indica, os tempos áureos da vidinha sexual já lá vão.

A culpa é de todos e não é de ninguém. É do factor novidade, que já morreu faz tempo e que requer paciência (ou mesmo um milagre) para ser ressuscitado. É da vidinha de todos os dias, que mete filhos, e trabalho até aos olhos, e compras, e rotinas que não acabam. É do cansaço que se apodera de nós e que faz com que às seis da tarde, mais coisa menos coisa, já estejamos a sonhar com um pijama que de sexy tem zero. É de vermos o sexo como mais uma tarefa que temos de acrescentar às tantas que já nos ocuparam o dia, quando tudo o que queremos é ficar a vegetar em frente à TV, o cérebro meio dormente por qualquer coisa que esteja a dar num canal por cabo. Um programas de remodelações, um show de talentos, um BBC Vida Animal, qualquer coisinha serve.

Quando o sexo se torna muito mais uma obrigação do que uma vontade, o caldo está entornado ou, pelo menos, perto de transbordar. Às vezes há boas surpresas. Parte-se para a coisa sem grande expectativa e até com alguma contrariedade, na base do “isto tem de ser feito” e, quando damos por nós, até estamos envolvidos no processo e a agradecer a todos os santinhos termos contrariado a preguiça (às vezes é só mesmo disso que se trata, preguiça). É mais ou menos como ir ao ginásio, o que custa é a tomada de decisão, porque depois até sabe bem estar lá e até já estamos a pensar na próxima vez.

Antes que venham já para aí de dedinho apontado e a dizer “fala por ti”, eu chego-me à frente e assumo: esta pode não ser uma realidade aplicável a todos os casais com relações longas e, confesso, tive preguiça de ir pesquisar se havia estudos nesse sentido (lá está, a preguiça novamente) mas, do que vou falando com amigos, esta coisa do sexo mais espaçado é um “mal” que atormenta muita gente. Ao ponto de a pergunta “quantas vezes é que é normal ter sexo?” vir constantemente à baila. A maioria dos meus amigos queixa-se que não tem sexo tantas vezes quanto gostaria. Já a maioria das minhas amigas diz que anda cansada, que a vida de todos os dias lhe suga a energia, que eles são demasiado exigentes neste campo, mas não lhes sinto tristeza na voz. É mais um “é o que temos, quem estiver mal que se mude”. Curiosamente, nunca aconteceu o contrário, ter uma amiga a queixar-se que tem pouco sexo e ter um homem a queixar-se que anda esgotado com o trabalho e que ela nunca está satisfeita. Se os homens parecem ter razões para reclamar quanto à assiduidade sexual, as mulheres parecem viver relativamente tranquilas com a ideia de que, no que toca a “cama”, o forrobodó de outros tempos já lá vai.

Não acredito que haja um número correcto, uma verdade aplicável a toda a gente, caberá a cada casal encontrar o seu ponto de equilíbrio. E até conheço alguns (poucos) que dizem estar em sintonia, em que ninguém se lamenta de andar a ter sexo a menos. Para mim, acho que isto é por fases: há alturas em que se está mais para aí virado, há alturas em que se está menos, há alturas em que não se está de todo. Mas uma das coisas boas de uma relação longa também deve ser essa, haver cumplicidade e paciência suficientes para se perceber que há alturas, e ritmos, e predisposições. E que numa fase pode ser a loucura total e na outra… só um beijinho e dorme com os anjos.

Ohlala.sex, It’s Just Love

Tags