Prova das 9: The Gift

Por Hugo Vinagre e Rafaela Andrade

23 de February de 2018

Com Altar a brilhar um pouco por todo o mundo, os The Gift vão até à Union Chapel, em Londres, antes de regressarem a casa para apresentar o álbum nos Coliseus do Porto e Lisboa, a 2 e 3 de Março. Depois da Grande Entrevista de há uns meses com Sónia Tavares, reunimos os homens da banda.

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Os Coliseus são muitas vezes o fim de festa para um álbum. Porquê fazê-los já?
NUNO GONÇALVES Não houve assim nenhuma razão especial. Nós tínhamos tocado em Lisboa, no início da digressão, onde fizemos o Centro Cultural de Belém; depois fizemos o festival Super Bock Super Rock, tal como no Porto tínhamos feito a Casa da Música; e achámos que o Altar devia ir a audiências maiores. E também pelo facto de o disco ter ganho uma dimensão grande ao vivo, que era uma coisa que ainda não se tinha conseguido no primeiro mês de edição. Em Abril do ano passado, o disco era tocado na íntegra ao vivo. Mas, as canções cresceram muito, nós remisturámos e rearranjámos muitas coisas, e achámos necessidade de tocá-las num sítio maior, para mais pessoas, durante mais tempo. Portanto, nós vamos também revisitar, através dos conceitos aprendidos no Altar, algumas canções da carreira mais antiga dos Gift. Assim como este Altar foi uma celebração da música, os Coliseus vão ser uma celebração deste Altar e da carreira dos Gift. E decidimos fazê-la agora porque foi agora que foi marcado. Não é de todo um final, o disco nem sequer um ano tem. Apesar de termos já avançado quatro singles deste disco, não é de todo um disco velho. E vamos ter inovações neste espectáculo.
JOHN GONÇALVES Aliás, a nossa ideia é começar o ano nos Coliseus. É o contrário mesmo. Tocámos recentemente na Madeira dois espectáculos, que serviram um pouco também de ensaios do modo como vamos estar a apresentar depois as músicas aqui. São os nossos espectáculos de início de 2018.

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O Altar é a expressão refrescante de uma longa jornada. Agora que o trabalho está feito, qual foi o impacto do disco na vossa carreira?
NUNO Mentimos se não dissermos que teve impacto. Teve impacto sim. Todos os discos têm, mas este especialmente porque, de um momento para o outro, todos os dias chegavam-nos notícias boas vindas de todo o lado: a Uncut deu-nos 8 em 10, a BBC põe o Clinic Hope em lista, nas rádios universitárias americanas estamos nos 100 primeiros; as melhores rádios russas não colocaram uma música em lista, mas sim o disco todo, que era uma coisa completamente impensável... Tocámos em Maio no Bush Hall em Londres, marcámos o Union Chapel que é três vezes maior. Portanto, as coisas estão a evoluir, estão a crescer e isto é impacto do Altar. Obviamente que sim. O disco felizmente chegou às pessoas, chegou aos meios – os meios gostaram, falaram, falaram bem e isso depois tem dividendos, obviamente. 

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A intensidade que colocam em cada interpretação sobrevive às barreiras linguísticas. Mas essa vontade em mostrar o Altar ao mundo inteiro esteve na génese de não ter nenhuma música em português?
NUNO É muito curioso que perguntes isso, porque o Brian Eno queria que cantássemos em português, uma ou duas músicas, porque achava que a língua faz parte da nossa identidade. Mas, não surgiu. Nós não fazemos canções em português ou inglês, consoante o mercado que queremos atingir ou o que queremos fazer. Não. Respeito quem o faça, mas nós nunca o fizemos. E, desta vez, não saiu nenhuma em português. Pode ser que no próximo saia. No disco Primavera, além do single homónimo, tínhamos mais uma ou duas canções em português. E aí calhou. Neste caso, não calhou. 
MIGUEL RIBEIRO E na música pop há imensos casos de bandas que cantam na língua-mãe, e que têm sucesso internacional. Estou-me a lembrar por exemplo dos Sigur Rós: da Islândia são a Björk e os Sigur Rós. Não conheço outros, mas se calhar há uma série de bandas a cantar em inglês ou em francês que nunca saíram de lá. Não acho que a língua seja uma barreira para a internacionalização, muito pelo contrário.
NUNO Eu até acho mais. Acho que seria melhor se cantássemos em português. 
MIGUEL Exactamente, pelo lado exótico que a maior parte das vezes a língua tem. Temos os grandes casos de bandas de França, hoje em dia já não tanto, mas que com músicas em francês foram um sucesso. Eu acho que as pessoas não se preocupam tanto com a língua. E aquela história que havia antes na música, e que eu ainda passei um pouco por isso (confesso que gosto de ler as letras), acho que hoje em dia, as pessoas ligam cada vez menos às letras e cada vez mais à estética. Não acho que seja de todo importante o que se fala. O tempo do Bob Dylan e do Leonard Cohen que eram grandes escritores já lá vai, não é?

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Para além de vos colocar ainda mais nos radares mediáticos a nível global, como é que ter Brian Eno na produção e Flood nas misturas do álbum inspirou os The Gift?
NUNO Por exemplo, o primeiro dia que trabalhámos com o Brian Eno no estúdio, qual primeiro dia da faculdade... É uma excitação, mas ao mesmo tempo medo - não é um medo, é “o que é que vai sair daqui?”
MIGUEL Insegurança talvez. Até porque há uma particularidade: o Brian, para além de produzir, compôs connosco. E aí, acho que sendo o Nuno o compositor da banda, este disco até foi peculiar porque normalmente ele já leva as coisas muito bem delineadas para o estúdio. Nós praticamente interpretamos aquilo que o Nuno já idealizou. E aqui, o Nuno acabou por compor o disco connosco e com o Brian. Eu acho que aí houve completamente uma mudança - não diria uma revolução, porque o compositor continua a ser o Nuno; o Brian ajudou na composição, tanto nas músicas, como depois nas letras. Mas, só isso acho que já foi algo de completamente novo na banda.

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O Altar já foi apresentado ao vivo noutros países, incluindo várias datas em Espanha e no Brasil, pelo que certamente não tocam só para emigrantes e luso-descendentes. Conseguem perceber que tipo de público vai aos vossos concertos pelo mundo fora?
NUNO Acho que maioritariamente são as pessoas locais, e depois há uma nova geração de emigrantes que vai também. E eu fico muito contente com isso. Há muitos anos, estávamos a tocar na Austrália – aí sim para a comunidade portuguesa –, e a primeira parte dos Gift foi feita por um rancho folclórico local.
MIGUEL Não foi bem a primeira parte, eram os festejos. 
NUNO É uma maneira de explicar. Não foi a primeira parte no sentido “opening act”. [risos] E então, um senhor no final, um emigrante de primeira geração que já devia ter a idade do meu pai, 70 e tal anos, diz-me assim: “Olhe, eu posso pagar-lhe uma cerveja?”. Ao que eu respondo: “Ah mas eu não bebo, ainda vou ter que ir desmontar as coisas”. “Então pago-lhe um Sumol”, diz-me ele; e acrescenta: “É que eu vou explicar-lhe uma coisa. Já estou cá há uma data de anos, e tenho sempre vergonha de trazer os meus amigos australianos, porque eles gozam sempre com a música que nós trazemos cá. E hoje percebi que, afinal, já os posso trazer. Se vierem mais bandas como os Gift, porque eu adorei, tenho a certeza que eles iriam adorar também.” Portanto, eu tenho pena que a comunidade portuguesa ainda não tenha, em definitivo, abraçado as novas gerações portuguesas, porque acho que ganharíamos todos. Primeiro, ganharia uma abrangência de mercado, porque não se levava só um estilo de música – o dito pimba ou o mais ligeiro, whatever; e também aproximava gerações novas, e aproximaria também os amigos locais de outros países. Mas, eu noto também que há uma geração nova de emigrantes, miúdos de 35/40, que são aqueles emigrantes ditos mais qualificados, que vão para as empresas, etc., e aí, nota-se que levam os amigos com gosto, “estás a ver, eu avisei que isto era bom”, e isso, obviamente, também é motivo de orgulho para nós.
MIGUEL E depende muitas vezes do sítio em que tu estás a tocar. Ocorre-me por exemplo uma situação parecida com a que o Nuno passou: a primeira vez que tocámos em França, no La Cigale. Havia um orgulho nos miúdos portugueses já nascidos em França, com uma cultura francesa, em ter algo que eles gostaram, e não era aquela coisa que os pais os levavam a ver; e alguns deles levavam amigos franceses – lembro-me do caso de uns miúdos que estavam com os amigos, e orgulhosos de nos apresentar no final do concerto. Fizemos um concerto no Central Park com o Arte Institute, que leva a tal cultura portuguesa. Já não é um rancho folclórico; embora seja vocacionado, muito mas não só, para luso-descendentes ou para emigrantes, percebes que tudo o que vem daquela organização tem um selo de qualidade, e as pessoas já não vão à espera da música ligeira ou como lhe quiseres chamar. Nós tocámos com os Dead Combo, por exemplo, e foi um concerto que teve ali uma representação de Portugal que, a meu ver, foi uma coisa credível.
NUNO Mas, lá está. Foste tocar ao Central Park e a maior parte das pessoas que estavam lá a ver eram americanas. Mas se levasse as 5 ou 6 mil pessoas que poderiam ter lá estado, era muito melhor para todos. Estava muito mais cheio ainda. Portanto, eu acho mesmo que as novas gerações de música devem apostar nas novas gerações de emigrantes. Mesmo. Porque faz todo o sentido. Faz lembrar aqueles rapazes que se mudam para Lisboa e depois têm vergonha da família que deixaram, não é? Isso é completamente provinciano. Acho que somos portugueses com muito orgulho, não temos problema nenhum e adoramos sê-lo, e devemos convidar sempre que vamos lá fora – quanto mais portugueses, melhor.

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Antes dos Coliseus, regressam ao Reino Unido, desta vez para actuar na Union Chapel. Já não há borboletas antes de pisar um palco internacional?
NUNO [risos] Acho que nesse vai haver, invariavelmente vai haver. Nós não tratamos concertos de maneira melhor ou pior; o grau de nervosismo, de responsabilidade... Agora sabendo, por exemplo, que o Brian Eno está a ver, ficamos logo mais um bocadinho em sentido. Mas, acho que pela maneira como os Gift se envolveram neste disco, a maneira como estamos a tocar, e a maneira como a estrutura está toda pensada, hoje em dia há um lado profissional à volta da banda que nos permite apenas e só desfrutar. Longe vão os tempos em que tínhamos nós que montar tudo. (Por acaso… agora em Londres até vamos montar, os dois roadies não vão; é curioso que estava aqui eu a armar-me em profissional e vou ter que montar tudo outra vez). Mas a equipa está mais agilizada e nós estamos talhados para desfrutar das músicas. E este é um disco que ao vivo sobrevive muito bem, sobrevive com distinção e dá-nos um prazer tremendo tocar. 

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E apesar de não diferenciarem os concertos, os Coliseus são os Coliseus. Como é que se faz um alinhamento para concertos de celebração como estes?
NUNO Escolho 53 canções e divido-as por dois. [risos] É mais ou menos assim que fazemos.
JOHN Há canções que vamos ter de tocar nos dois dias.
NUNO Óbvio. Nós agora temos 13 a 16 canções que dividimos entre os dois. Eu quero tocá-las e quero dividi-las. Claro que há os óbvios. O Altar vamos tocá-lo na íntegra, não pela ordem que está no disco, mas vamos tocá-lo todo. E depois vamos um bocadinho lá atrás, mas não vamos à frente. Não vamos tocar nada novo.
JOHN Nós, parecendo que não, já fizemos vários Coliseus, mas temos sempre de pensar e pôr os pés no chão: é a melhor sala portuguesa. É a sala com que nós sempre sonhámos. Por mais que tenhamos tocado em salas maiores, como o MEO Arena, acho que continua a ser sempre a sala de sonho. Se algum dia nos perguntassem qual é que era a sala cheia que queríamos tocar em Portugal, era o Coliseu. E então, nós não podemos nunca facilitar ou tirar o pé do acelerador com uma sala destas. E temos sempre que dar o valor que a sala tem, que as duas salas têm. São as salas que as pessoas que vão ver os nossos concertos dizem “vou ao Coliseu dos Gift”, porque sabem que lá vai-se fazer algo histórico, sempre se fez. E independentemente do Union Chapel serem as tais falsas borboletas. Mesmo que aconteçam coisas incríveis aos Gift em 2018 ou 2019, o Coliseu dos Gift com o Altar terá que ser histórico na nossa carreira. São momentos que não podemos facilitar ou aligeirar por termos ido lá várias vezes. Como foi o Coliseu do Vinyl, como foi o do Film, como foi o do AM/FM. Fizemos lá todos os álbuns, encerrávamos lá todas as digressões.
NUNO Aliás, nós temos uma particularidade neste espectáculo. Em 2000, fizemos isso pela primeira vez na Aula Magna: as pessoas podem levar o concerto para casa. Na altura era um CD, agora é um bocadinho mais moderno… Vamos vender os concertos – quer o Coliseu do Porto, quer o de Lisboa. Horas depois, as pessoas podem ouvi-lo em casa. E para isso, estamos também a trabalhar muito bem estas canções e a trabalhar o alinhamento, para as pessoas terem uma coisa em casa que mereça a pena.

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Quase 22 anos depois, sete álbuns e uma média de 60 concertos por ano, ainda há espaço para revisitar clássicos como Ok! Do You Want Something Simple?? (Assim em jeito de request.)
NUNO [risos] E assim em jeito de desejo cumprido, vai haver. Fizemos um remix muito interessante para o Ok! Do You Want Something Simple?, que é a que vai chegar lá. É curioso, porque só houve uma altura que nós não tocámos essa canção.
JOHN Foi esta digressão, o início.
NUNO Não, não só. A meio, houve ali qualquer coisa e nós não a recuperámos, não sei o que é que se passou. E é curioso, porque a Sónia no último concerto que demos em Madrid, enganou-se na letra. E é só a canção que nós mais tocamos. Trocou e nunca mais a apanhou! “Tudo bem, tu queres uma coisa simples”. [risos] Mas vamos tocar. Nós gostamos muito de tocar. Essa é por puro prazer.


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Depois de todas as estrelas tão alinhadas neste álbum, já há planos para o próximo?
NUNO Como nós nos Gift temos a nossa estrutura toda dependente das nossas ideias, no início de Janeiro fizemos uma reunião para planificarmos mais ou menos a nossa vida até finais de 2019. E sim, terá de haver um disco novo. Ou não. Mas se os Gift têm vontade de fazer coisas novas? Sim temos, claro. Até porque este disco, apesar de não ter um ano ainda, andamos a trabalhá-lo há dois anos e meio. Portanto, queremos mais, queremos outras coisas – com ou sem Brian –, mas queremos fazer mais coisas. E sim, já comecei a compor, ainda está só no telemóvel. Mas sim, nunca de se deixa de.


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