Prova das 9: Sean Riley & The Slowriders

Por Hugo Vinagre

12 de October de 2017

Dez anos depois de Farewell a banda revisita o álbum de estreia, um excelente pretexto para o recordar em digressão, numa fase decisiva para o futuro dos rapazes de Coimbra, um ano depois do desaparecimento de Bruno Simões, o baixista fundador dos Slowriders.

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Ao fim de quatro álbuns achas que o primeiro é o mais fácil por ser uma espécie de best of de tudo o que a banda criou até àquele dia?

Há muita gente que tem essa teoria, nomeadamente porque depois quando há aquela dificuldade em fazeres um segundo álbum, as pessoas dizem sempre, “tiveste mais tempo para fazer o primeiro do que todos os outros”. É uma perspectiva romântica de ver as coisas, mas por outro lado há outras coisas que servem como combustível para fazer os álbuns seguintes, nomeadamente quando passas a tocar ao vivo, a levar a tua música a mais pessoas, a perceber exactamente que impacto essa música tem. O primeiro é sem dúvida especial, agora mais fácil ou mais difícil, não sei se será bem por aí, até porque há uma coisa muito boa no primeiro, que é a ingenuidade, isso é difícil de voltar, não saberes exactamente o que estás a fazer nem como vai acontecer. Essa ingenuidade para mim é a parte mais bonita e importante de um primeiro disco. É muito difícil voltar a ter esse registo. Acho que nós só voltámos a estar próximos disso no último álbum, porque abandonámos uma data de processos e já estávamos há algum tempo desligados dos concertos, de alguma forma conseguimos voltar quase a esse reset.


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Além dessa ingenuidade o que é que o álbum tem de especial para ser agora recordado dez anos depois?

A ideia começa basicamente porque já não havia discos à venda no mercado, fazia sentido fazer-se uma reedição. Já entendia que devia ter sido feita há mais tempo, mas obviamente que um aniversário é sempre um bom motivo para fazeres essa reedição. Não discutindo o impacto que tem ou não nas pessoas, para nós, banda, é um disco que tem uma importância muito especial. Marca uma época e de alguma forma alterou o curso das nossas vidas. Quisemos homenagear esse momento das nossas vidas, não só fazendo a reedição, incluindo faixas novas, fazendo também pela primeira vez edição em vinil, algo que já desejávamos há muito tempo e tínhamos agora a desculpa perfeita para o fazer. E fazendo isto tudo porque não juntar à ideia fazer uns concertos e ter o prazer de voltar a tocar aquelas músicas, obviamente que uma banda com quatro discos não consegue tocar muitas músicas de cada um, visitando salas como a ZDB e o Passos Manuel, fizemos questão de escolher espaços por onde tínhamos passado com a tournée do Farewell.


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Essas faixas inéditas estavam na gaveta?

Foram gravadas na altura em que o álbum saiu, há uma canção, Bring Your Boy Home, que não foi editada no álbum por opção e depois há duas versões de canções que integraram o disco, o Moving On e o Lights Out. Nós depois regravámos versões alternativas e abandonámos as primeiras versões, para quem gosta tem piada ouvir as originais e perceber as diferenças.


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Ainda vale a pena lançar discos físicos num mundo cada vez mais digital, é isso?

As vendas como toda a gente sabe são baixas, completamente incomparáveis a outros tempos, mas nós somos uma banda que sempre gostou disso, toda a nossa maneira de estar na música, os artistas de que nós sempre gostámos sempre fizeram isso, os vinis, as edições especiais, as séries limitadas, todas estas coisas que só se podem fazer se avançares para edições físicas. Percebo a conveniência do formato digital, tenho assinatura de Spotify, entro no meu carro, ligo o telemóvel em bluetooth e vou ouvir um álbum numa viagem. E acho fantástico porque acabei de ler uma review online e três minutos depois estou a conduzir e a ouvir o disco. Se eu gostar daquele álbum vou mandar vir um LP e ouvir o vinil na minha sala, descansadamente. Ao sábado à noite não vou pôr um iPad a tocar. Há espaço para tudo. Para nós faz sentido e até nos provarem o contrário vamos continuar a editar sempre em formato físico.

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Nesta digressão o Farewell é tocado na íntegra, com mais uns bónus no fim ou como é que funciona?

É um bocadinho isso. Fizemos agora o primeiro concerto, nos Açores, e basicamente o álbum foi tocado de princípio a fim. O concerto consiste no álbum na íntegra e depois, dependendo do espaço, das pessoas, da noite, haverá com certeza sempre um encore e a ideia é irmos tocando músicas diferentes, dos outros discos, em cada encore. Duas, três, quatro, cinquenta, depende daquilo que estiver a acontecer.


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Estar nesta onda nostálgica depois do desaparecimento do vosso baixista, com quem compuseste este Farewell, não se torna demasiado emocional?

Todos os dias existem situações difíceis para lidares e de repente recuares dez anos na tua vida e pores-te no local onde o Bruno tinha e tem um papel tão importante, é delicado. A forma como nós encaramos isto é em primeiro lugar ser uma homenagem a esse disco, mas uma homenagem também ao Bruno, sem o qual este disco nunca teria acontecido. E por outro lado, ao interpretarmos estas canções, o que acaba por acontecer é, nós juntamo-nos, falamos, passamos por uma data de experiências que nos levam a bons momentos que tivemos nessa altura e de alguma forma recordamos e revivemos esses momentos. Acaba por haver um misto de tristeza com alegria, muita alegria também em todas as coisas maravilhosas que vivemos e que ao tocarmos estas músicas e relembrarmos esses tempos somos transportados para esses momentos que desta forma podemos continuar a viver e a valorizar.


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No início chegaram a tocar este álbum para meia dúzia de gatos pingados ou sempre arrastaram pelo menos a malta de Coimbra?

Demos poucos concertos para meia dúzia de gatos pingados, no nosso primeiro concerto tocámos logo num aniversário da Rádio Universidade de Coimbra e o Teatro Académico Gil Vicente estava à pinha. Algumas deslocações mais para Norte, mais para Sul, fora dos grandes centros, eventualmente estaria menos gente, mas não tenho assim memória de muitos concertos que fossem desastrosos, sempre apareceu algum pessoal.


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Quando lançaram no ano passado o vosso quarto álbum dizias que era o início de um novo ciclo. Esses planos mantêm-se, há um passo a seguir já definido?

Foi o início de um novo ciclo que entretanto já se encerrou também, pelas razões de que falámos à pouco, não vamos fazer outro disco com o Bruno. Neste momento temos duas situações que são possíveis, não voltarmos a fazer discos ou para o ano começarmos a trabalhar num disco novo. O Nuno é uma pessoa que sempre fez parte desta banda de alguma forma, foi roadie, road manager, chegou a substituir inúmeras vezes o Bruno no baixo, está dentro desta família desde o início. Mas tirando uma pequena participação numa banda-sonora em nome de Slowriders, mas que fui eu, ele e o Bruno que fizemos, não há muita experiência na composição clássica de canções com o Nuno. Ainda ninguém falou muito sobre isso, neste momento vamos tocar o Farewell, para o ano vamos ver, vamos perceber o que queremos fazer e acho que vai ser uma coisa muito imediata e orgânica. Se nos sentirmos bem a fazer música, vamos eventualmente avançar. Se houver algum tipo de desconforto, de tristeza, que não nos faça sentir bem, está na hora de pendurar as botas.


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Em 2007 apareciam também na compilação de Novos Talentos da Fnac. Uma década depois o que é se pode chamar a Sean Riley & The Slowriders?

Gostava que se pudesse chamar uma boa banda de música portuguesa. Obviamente que já não somos um novo talento, também não gosto da palavra “confirmações”… Sei lá, acho que somos uma boa banda, se nos virem dessa forma é suficiente.

Foto: Joana Linda

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