Prova das 9: Paulo Bragança

Por Hugo Vinagre

16 de April de 2018

Depois de um exílio auto-imposto, o fadista regressou a Portugal e às gravações: primeiro entre os escombros de 1755, com um dueto num tema dos Moonspell, e agora com o EP Cativo, que abre o apetite para um novo longa-duração quase pronto.


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Estiveste onze anos a deambular pela Europa. O que é que te fez voltar?

Se não fosse a música eu não existia, não existia da mesma maneira. Foi a música e o medo, posso morrer daqui a um minuto, se não for agora pode não ser nunca, ou pode ser ainda pior. E o pior era ainda o que mais me assustava, por exemplo, imagina que chego aos 60 anos e digo “Podia ter feito, não fiz e isso é que me dói”. E eu pensei, “Não”, eu posso gostar de estar aqui e enveredar numa carreira académica, mas eu ia gostar, ia adorar aquilo, depois não seriam mais quatro anos, seriam mais oito, ou até mais e sabe-se lá onde o mundo nos leva.

 

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E o que te fez partir... mudou o suficiente para te sentires bem por cá?

O que me fez partir foi acima de tudo estar aborrecido. Eu não me aborreço muito, mas aborreço-me comigo, comigo tenho sempre batalhas grandes, o meu maior inimigo sou eu próprio. Não era propriamente com nada nem com ninguém, mas comigo próprio, cheguei a um ponto de estar desinteressado, um amargo de não fazer nada, estares farto de tudo, tudo. Houve alguém que um dia me disse, “É o Paulo Bragança que está zangado com o mundo ou o mundo com o Paulo Bragança?” e eu nem resposta tive. Nem sei o que é que era, estava num estado de não-graça, a graça sem graça, que é a “des-graça”. Naquela altura, fruto de muitas situações, dias, minutos e horas, estava completamente fora de mim. Cansado. Achei que se calhar o refúgio era ir sem sequer saber se voltava, eu tinha dito mesmo, “Nunca mais voltarei, nunca”. Enganei-me. 


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E agora um EP com sete temas, seis deles versões. Porquê esta opção?

A opção é muito clara. Gosto muito de repetir temas, mesmo que não sejam meus ou que eu não tenha gravado, é uma coisa que adoro mesmo fazer. O que vou dizer é pouco ortodoxo, mas adoraria desmanchar uma obra de arte de um escultor e voltar a fazê-la. Gosto muito de fazer isso e depois tenho muito trabalho, muitas músicas, temas, letras escritas, porque tive muito tempo para isso. Às vezes as pessoas perguntavam-me o que estava a fazer e eu dizia que estava a pensar. Tive muito tempo para pensar, gosto de ler coisas e de fazer perguntas e tentar arranjar respostas, que sejam de alguma forma válidas. Então, a filosofia permite fazer isso. O Remar Remar já tinha sido gravado, há uma versão no YouTube na Expo 98. Já eram temas que eu conhecia, não tem nada a ver, estás a ver o que está aqui implícito? O oportunismo de uma desgraça, um tributo a, não, não é um tributo a nada, eu nem sabia sequer se estava doente, se estava saudável, não sabia. A última vez que estive com eles foi no Johnny Guitar, uma noite qualquer, como tantas outras que houve e acho que eles nem sabem que eu fiz a versão, até hoje nunca me disseram nada, daí presumir que não sabem. Se sabem e nunca me disseram nada, nem têm que me dizer, porque eu é que quis fazer, não lhes pedi autorização, em Portugal não é necessário. 


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Fizeste ainda outras escolhas que não são originalmente fados. És influenciado por todos os tipos de música?

O fado aqui para mim é o que está implícito na palavra, porque antes de ser música, é palavra, sem fadista não havia fado. E o fadista está ali a dizer coisas, por isso é que eu digo que o Nick Cave ou a Édith Piaf, há tantos fadistas no mundo… Fadistas somos todos nós porque todos nós somos humanos e temos uma vida, e essa vida é um fado. O fadista cantava ao fado, cantar ao fado é cantar à vida. Cantar a sua vida, fosse ela boa ou má. Acho que os temas ali são muito fortes, por exemplo Remar Remar, há algum país que tenha remado mais que Portugal? Acho que não, em todos os sentidos. Mesmo a letra não sei com que enquadramento a fizeram, eu percebi-a deste modo, percebi que aquilo dava um excelente fado. Gosto de provar que fado não é só a questão daqueles tradicionais que nós temos e outra coisa, se nós tivéssemos todos ficado a ouvir o rock como os Beatles o fizeram só tínhamos Beatles por todo lado, era tudo Beatlelada. Não havia Massive Attack, não havia hip-hop, não havia nada. Se o fado fica rendido só àquela matriz, fica ali estagnado. É natural, o tempo não pára, isto é inerente ao tempo.


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Apesar da irreverência de alguns elementos da nova geração, o fado continua a ser um meio extremamente tradicional. Achas que vai ser sempre assim?

Eu odeio a palavra fado. Sim e não, isto é, sim de uma maneira, não de outra. Não, porque a Amália teve uma posição, e eu sei por conversas que tivemos muitas vezes juntos, cruzámo-nos várias vezes. Lembro-me de ter feito uma viagem de Boston a Nova Iorque com ela e a Ana Zanatti. A Amália tinha uma certa consciência, mas não tinha, ela ia fazendo porque era o que sentia. Ela sempre disse, “Só sou fadista sei lá porquê, porque isto é a própria vida”. Eu lembro-me de dar uma coisa na televisão em que ela vai a tribunal, um tribunal fictício, não era no sistema jurídico, mas era na praça pública, que às vezes é pior. E ela dizia, “Não sei porque é que estou aqui, não me revejo naquilo que me estão a acusar”. Estavam a acusá-la de cantar Camões, não se podia cantar Camões, porque o estaria a rebaixar e ela achava que não. E achou muito bem. Acho que o fado em 2018, que me perdoem, mas eu não vejo assim nada de mais. É por porem mais um instrumentozinho? É por porem mais uns ferrinhos e mais uns acordes e mais uns sons? Em 1991, também eu fiz isso, mas também já o tinham feito, não fiz nada de novo. Eu que sou apontado por alguma imprensa, marquei um período. Ok, de alguma forma sim, mas também não fiz nada de mais, limitei-me a ser eu e a fazer aquilo que era o meu fado. Não me preocupando com aquilo que as pessoas vão pensar ou gostar. Um artista quando se propõe a fazer alguma coisa, pelo menos quer ser verdadeiro. Um artista quer dar o melhor que tiver, que souber e verdade. A verdade acima de tudo, isto é, quando eu faço alguma coisa dessas é porque de facto estou a senti-la.


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Um tema em gaélico irlandês, como apresentas neste, também é fado?

É, é o fado deles, desde há muito mais tempo do que nós cantamos o nosso fado enquanto fórmula musical e o que é que está ali? A essência de uma nação. A Irlanda é milenar. O que está ali naquele tema é uma grande consciência daquilo que eles são de facto. Eles têm um grande respeito, mas não é um respeito de reverência, é como o nosso canto popular. É como por exemplo o trabalhar no campo, aquele levantar e aquele dobrar das costas para ir à terra buscar o fruto, voltar a pô-lo na cesta, isto tem um movimento, há um compasso, um ritmo. Esse ritmo gera uma vocalização, gera um verbo, esse verbo gera uma melodia e essa melodia depois será uma canção. Daí a canção popular. E aquilo que está lá é uma canção popular. O fado não deixa de ser uma canção popular. A música pop é música popular, independentemente dos outros atributos ou não que metemos lá. Vem tudo porque nós, homem, ser humano, sentimos e ao sentir temos esta capacidade de poder sintetizar estas coisas. Nós, Portugal, sintetizamos neste fado, nesta fórmula musical, mas o sentimento é humano. Os romenos têm um fado bem mais pesado do que o nosso, os irlandeses igual e há muitos mais por aí. Hoje em dia as coisas estão é de outra forma, estão a ficar mais robotizadas devido à tecnologia. 


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Este Cativo foi lançado pela recém-criada editora dos Moonspell, com quem também cantaste um tema no último álbum deles. De onde vem essa ligação?

Fernando Ribeiro e extensível a Moonspell, mas eu vou dizer Fernando Ribeiro, porque é a pessoa com que falo mais , não que os outros não sejam meus amigos, ou não tenha relação com eles. Não. Tenho até muito forte, mas o Fernando é a pessoa que me convidou, é a pessoa que fala, é a pessoa que está mais visível. Para mim o Fernando Ribeiro é um irmão de alma. Isto começou tudo de uma forma muito simples. Eu tinha-os conhecido nuns prémios Blitz há anos e anos, nos anos 90, e apertámos a mão. Entretanto eles, em 2016, vão tocar a Dublin. Eu vejo, numa dessas cenas culturais, fui à Moonspell Official Band Page e deixo lá uma mensagem. “Daqui fala o fulano tal, não sei se se lembram de mim, eu estou aqui há vários anos e gostava de ir ao concerto, para o qual já tenho o bilhete, e gostava de vos mostrar, se tiverem tempo, os sítios que não estão visíveis”. Dublin tem imensos segredos, aquilo tem tanto para ver. Mas não recebi resposta nenhuma. Nada. Silêncio absoluto. Acabei por nem ir ao concerto, tive obrigações académicas, dei o bilhete a outra pessoa que podia ir. Mas não levei nada a mal, o que pensei foi “Se calhar nem são eles a ver aquilo e uma banda destas deve ter milhões de pessoas a enviar-lhes mensagens, por isso é bem natural que a minha se tivesse perdido no meio”. No dia 1 de março de 2017, eu, que não sou muito de Facebooks nem dessas coisas, mas de vez em quando lá vou uma vez ou outra, agora mais porque é um instrumento de trabalho, tal é o meu espanto quando vejo uma mensagem do Fernando Ribeiro. Dizia “Peço desde já as minhas desculpas, alguém que trata das redes sociais não viu aquilo”, foi extremamente humilde e depois vinha imediatamente o convite, “Olha fizemos um tema, vamos fazer um álbum em português”, explicou mais ou menos ali em duas ou três palavras a génese do álbum e indicou que gostariam que eu cantasse com eles e deixou o telefone e o e-mail. Tivemos longas horas de conversa ao telefone, várias, várias, tive o tema nas mãos antes, venho para Portugal com Moonspell no bolso, isto é, com um tema para gravar com eles, mais nada. Então aí, o Fernando Ribeiro é responsável, de alguma maneira. Não totalmente, porque eu já vinha gravar com o Carlos Maria Trindade desde 2012, depois de seis anos sem pôr cá os pés. Sem obrigações, eu até dizia ao Carlos, “se me acontecer alguma coisa, trata disso. Deita-o fora se não valer nada ou então analisa para onde tem que ir”. Vinha logo implícito que eles tinham uma editora e que se eu quisesse ficaria na editora, mas o Fernando sempre me disse “Quero o melhor para ti e não quero que te sintas obrigado de alguma maneira por termos feito a canção juntos”. Eu não fiz confusões, nem eles, não quero que eles me esfreguem as costas porque eu sou quem sou e vice-versa. Eu disse, “Se isto não ficar em condições como queremos, não saí e só assim é que eu brinco”. Quebrou-se logo o gelo. Porque é difícil, acabar de conhecê-los realmente e ir logo para a cabine. Assim aconteceu. Entretanto, ainda fui sondar algumas multinacionais, não me agradaram as propostas, acho que a via independente é completamente diferente porque te dá mais liberdade em todos os aspectos e então disse logo imediatamente ao Fernando, “Seja Alma Mater, seja Alma Pater, estou contigo”. E assim foi.


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O mundo do metal já te interessava?

Já! Eu gravei o meu primeiro álbum em 1991, nem 20 anos tinha. Morava mesmo em Cascais, o mar quase que entrava pela casa dentro e eu fazia muitas vezes aquele paredão que faz Cascais à Azarujinha, ao final da tarde, ou à noite ou até altas horas mesmo, e ouvia em headphones, com aquelas coisinhas de cassete, o Wolfheart, dos Moonspell, Blasted Mechanism e Bizarra Locomotiva, tanto que eu dizia que andava sempre bizarrado, dizia isto aos meus amigos e eles gozavam comigo. Gosto muito do Rui Sidónio, tenho uma admiração imensa por ele. É uma pessoa fantástica, não só como artista. Eu não tinha propriamente amigos fadistas, porque não havia muita gente, tinha o Camané e a Aldina Soares, mas na altura já não estávamos tão juntos, as pessoas tomam o seu próprio caminho. Eu andava sempre muito sozinho, não porque estivesse muito triste ou “coitadinho de mim”, tinha amigos obviamente, mas estas coisas eram só minhas, isto é, ouvia a música sozinho. O mundo do metal não era para mim nada que me chocasse, antes pelo contrário, uma das bandas favoritas que tenho, não é favorita porque eu não tenho bandas favoritas, tenho bandas que gosto, é Bathory. Depois vim a saber que também é a do Fernando. Mesmo depois, quando vinha a Portugal e apanhava aquele festival de Metal em Grândola, eu ia. Havia pessoal que me reconhecia lá, público como eu, e ficavam um bocado espantados. Sempre ouvi muita coisa, até mesmo música clássica. Não gosto, obviamente, mas ouvia. Não tenho preconceitos. Destas três bandas que disse, acho que marcaram Portugal, aliás, acho que hoje existe o que existe porque os anos 90 foram tão produtivos. Nos anos 90, todos nós, fosse em que área fosse, desde padeiro a qualquer outra profissão, trabalhámos para que Portugal fosse o que é hoje. 


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Já tens na manga um próximo álbum de originais, intitulado Exílio. Esse nome é simbólico ou vais mesmo abordar esse período da tua vida?

As duas coisas. Porque retrata coisas que fui vivendo, aquilo que lá está é dito por mim. Ou se não são coisas escritas por mim, são co-escritas, ou escritas por alguém que me conhece muito bem. Andei de limousine, andei nos Champs-Élysées. Mas também andei nas maiores espeluncas carregadas de pulgas e tudo quanto havia em todo lado. De modo que o Exílio vai ser isso. E porquê? Só fiz isto agora porque era normal, depois de ter chegado a Portugal, gravado com os Moonspell, e ter começado a fazer aqueles concertos todos, Entremuralhas, Caixa Alfama, Mexefest, Bons Sons, Museu de Fado, já nem sei o que mais, são uns cinco ou seis. Este álbum vem como eu dizer assim, “Aqui está encerrado aquele Verão de chegada”. Cheguei em Maio, fiz aquilo tudo e agora tinha a hipótese de fazer já o Exílio, este é como se fosse o prefácio ao Exílio. O Exílio tem muitos temas, eu até dizia que ia fazer uma trilogia, mas depois é que me convenceram, “Onde é que há potencial económico para fazer isso, lançar três discos num ano”, não tenho noção. Eu acho que ainda é possível, mas também não estou a pensar nisso agora. O Exílio são temas originais e há duas ou três versões, tinha que ser, porque eu gosto muito de fazer isso. Adoro andar ali a descascar aquilo tudo e voltar a reinventar um bocado um tema. Não quer dizer que muitas vezes saia bem, até pode ser uma grande merda, mas eu gosto de fazer. Mas basicamente vão ser temas que fazem o triângulo Lisboa-Dublin, Dublin-Istambul e volta a Lisboa. Eu estava a pensar para Junho. Mas como o tempo é a coisa que mais odeio, a minha mãe diz que já quando eu era puto dizia, “Mas porque é que existem relógios?”. Realmente é uma coisa que odeio, se eu fosse Deus acabava com o tempo. É uma merda, de repente passa. Ainda agora cheguei, já vai fazer um ano que estou em Portugal. É absurdo. Depois começo a pensar, “ok, o Cativo saiu em Março, eu não posso por um disco cá fora em Junho”. Obviamente que vai ser em 2018, falta só por vozes finais, faltam ali umas coisas que quero pôr e está pronto. Não sei o que o amanhã me trará, o mais lógico é que seja em Outubro de 2018.


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