Prova das 9: Daisy Dee

Por Rafaela Andrade

24 de August de 2018

A Revenge of the 90’s convidou-nos para um acontecimento muito especial. O veleiro da nostalgia levou-nos pelo Tejo e um recanto na Amora abriu-nos os seus portões mágicos. Ficou ali baptizado por nós como a Terra do Nunca, porque o síndrome da juventude eterna de Peter Pan invade-nos sem aviso. E ainda bem. Sob o pretexto de sunset prolongado numa pequena grande mansão, abraçámos os termómetros e subimos ainda mais a temperatura. Quando pensa que se lembra de todas as pérolas que marcaram a década de 90, há sempre mais uma. Entre o pop, rock, hip hop (e até aqueles clássicos bem “tuga”), muita animação e muita loucura, foi um daqueles festões à American Pie. E como cereja, a mergulharmos na madrugada, a piscina transformou-se em palco.

A surpresa da noite ficou guardada momentos antes connosco: Daisy Dee. Uma das responsáveis pelo mítico Pump Up the Jam, e a banda sonora de uma geração, trocou ideias com a PLAYBOY sobre o fenómeno Technotronic, a evolução do mundo e da indústria e, claro, os 90’s.

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É curioso que muitos dos fenómenos dos anos 90 vieram ou tornaram-se de alguma forma gigantes na Alemanha. É algo que eles punham na água ou são as raízes com que cada um de vocês nasceu?

Os alemães foram um dos primeiros públicos de massas que aceitavam esse tipo de música. No início dos anos 90, não era visto como cool, mas mais como trash. Nós [Technotronic] viemos da Bélgica e começámos acidentalmente: não queríamos lançar um grande sucesso, só queríamos ajudar o nosso produtor porque precisávamos de um estúdio. Era apenas eu e a Manuela no início, queríamos ser cool; não queríamos propriamente fazer música techno, porque pensávamos que não era fixe. Éramos demasiado jovens, a Manuela tinha 14 anos quando escreveu a Pump Up the Jam. E mais tarde, aquele estilo tornou-se um fenómeno que toda a gente tinha que seguir. Portanto, não sei se era a água… mas a Alemanha era um sítio incrível para começar porque era gigante. 

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Sempre que pesquisamos por dance music no Youtube, 80% dos comentários são sobre os “bons velhos tempos”. A nostalgia pode ser algo perigoso ou é um gatilho para aprender com as eras douradas e fazer algo melhor?

Eu acho que cada período tem a sua beleza e a sua monstruosidade. O que as pessoas agora chamam de “os bons velhos anos” vai definitivamente ser o mesmo para o meu filho, quando ele tiver os seus 30. É sempre divertido quando és jovem, porque não sentes que tens alguma pressão da vida. Mas, claro que quando regressamos àqueles tempos, parecem mais inofensivos. As redes sociais dão muita informação, mas também causam muitos danos por ser tudo demasiado. E algumas coisas precisam de permanecer um pouco “sexy”, misteriosas. Hoje, apenas tens de publicar qualquer coisa que queiras e projecta-se. Na altura, tu tinhas mesmo que ter uma voz. Lembram-se do que aconteceu com os Milli Vanilli nos anos 90? Um dos membros matou-se por causa daquele escândalo. Conseguia ser tudo muito secreto. Agora, ninguém quer saber, já está tudo exposto. Portanto, isso é talvez o bonito e o feio dos tempos de hoje. Claro que parecia que toda a gente era mais feliz. Hoje em dia, as pessoas são mais stressadas, porque vêem a verdade, e na altura nós não sabíamos, era tudo incrível; era uma mentira, mas as pessoas adoram viver mentiras, porque desfrutamos mais do que da verdade. A verdadeira realidade da vida é que eu vou passar dos 90 anos, se tiver sorte, e depois desapareço. Quem é que quer saber disso? Aproveita, tem cuidado contigo e tenta tirar o melhor partido das coisas – os 90’s representam essa era, de felicidade despreocupada. 

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É curioso que a última pergunta que eu fiz numa festa destas foi “e hoje já sabes o que é o amor?” (ao Haddaway) e agora estou com a mente por detrás de Love is the Answer. Qual foi a intenção dessas letras?

Fui eu que escrevi essa música. Nos anos 90, estávamos todos conectados. O Haddaway e eu ainda somos muitos próximos. Eu lembro-me que quando o single dele saiu falou para imensa gente. As pessoas sentiam “exacto, what the fuck is love??!”. Muitas músicas eram sobre o amor porque conectava toda a gente. Seja o que for que aconteça, se ficares doente, rico, pobre… se não tiveres amor, não tens nada. 

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E o aumento dessa conexão através das redes sociais… é real ou segue um novo tipo de regras?

O novo tipo de regras que tu precisas de seguir é ser o melhor educado possível, e por um lado, as redes sociais são um impulso para isso. Por outro, preocupam-me porque o meu filho de 15 anos parece um jovem de 18, porque sabe demais. Não há filtros. Não há nada que diga “se tu escreveres a palavra «sexo», vais encontrar alguém a foder”. Para encontrar a romantização de “fazer amor”, tens de acrescentar «beijo». Tens de ser específico hoje em dia. É difícil, mas estou feliz porque o mundo está aberto. Tu podes ver o bom, o mau, o feio e se tiveres algumas pessoas a guiar-te, ajuda. Eu gosto que se esteja a evoluir desta forma. E odeio.

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Tu gravaste uma poderosa versão de This Beat is Technotronic, que se tornou numa das músicas mais populares nas discotecas. O teu propósito era que as pessoas exorcizassem os seus demónios através da dança?

Nós fomos o primeiro grupo de techno do mundo. Chamávamo-nos Technotronic, porque era música electrónica, a que os produtores belgas se referiam como música da tecnologia. Não foi planeado ser techno. Eles pegaram na tecnologia da música electrónica e tornaram-na mais profunda. Eu tinha 17 anos quando foi lançado This Beat is Technotronic, não pensava propriamente em como é que isso ia afectar as outras pessoas. Quando és jovem, tu pensas apenas em ti mesmo. Vejo isso pelo meu filho, digo-lhe “hey, apanha isso”, e ele responde-me “porque é que não apanhas tu?” [risos] Eu só pensava em quanto do meu ADN estava pelo mundo e o quanto eu me estava a divertir. O Eric escreveu essa música originalmente, no mesmo beat de Pump Up The Jam, porque achava que as raparigas é que estavam a fazer tudo no grupo. E foi um flop, não tinha a mesma energia. Depois disseram “precisamos de pôr uma rapariga nisto. Daisy agarra isso.” E eu agarrei. E foi explosivo. 

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Esse tipo de techno ramificado em hiphouse ou eurodance foi provavelmente o único estilo que ficou realmente cristalizado numa era. Enquanto consultora artística, porque é que achas que isto aconteceu?

E quando é que percebeste que era altura de dizer adeus?Bom… as tuas perguntas são incríveis, já agora. Tens de imaginar que a era da música nunca pára. Agora chamam-lhe “eurodance” porque vem da Europa, apesar de ainda actuarmos globalmente e todos nos conhecerem. Tu tens de ir apenas com o flow. Se ouvires uma música da Beyoncé de hoje e de há 10 anos, vês a mudança da era. Portanto, automaticamente, tens que seguir o ritmo dos jovens, porque é o que a música te faz a ti também; não se torna velha. Tens que seguir os millenials. Não se sente que é altura de dizer adeus, apenas se evolui. E continua-se em movimento. 

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Em 1998, fundaste uma produtora que representou artistas como o teu irmão, Pappa Bear, ou os Backstreet Boys. Como é que foi gerir este sucesso estratosférico com o teu próprio percurso?

Comecei essa empresa com o meu ex-marido, Toni Cottura. Ele era um dos melhores amigos do Puff Daddy e eu apenas queria que nós fossemos como a Beyoncé (e a Daisy de hoje [risos]). Mais uma vez, eu não pensei, só fiz. O Toni estava em tour pelos Estados Unidos e o manager dos Backstreet Boys perguntou se ele podia escrever algumas canções. Eu escrevi também, Get Down e muitas outras, assim como para os *NSYNC. E, de repente, estávamos no meio de negócios de milhares de dólares e não éramos experientes o suficiente para conseguir gerir aquilo. Foi muito difícil, porque não percebíamos o que significava. Eu era uma apresentadora de televisão, actriz, tinha a minha própria empresa e ainda nem tinha 25 anos.

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E além de tudo isso, também és designer. Se um miúdo entrar e perguntar “quem é a Daisy Dee?”, qual é que sentes que seja a melhor definição?

Acho que sou uma produtora. Porque todas essas coisas mencionadas, eu tenho de as produzir. Nada acontece num estalar de dedos, tem de se criar. Eu acabei de chegar de Marrocos, e quando lá entrei, perguntaram-me a minha profissão, e eu coloco sempre produtora; e as pessoas perguntam-me “tu produzes o quê?”, e eu “bom… isto, isto, isto, isto….”. Sinto-me confortável com isso porque é a verdade. Sou uma criadora. 

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Toda a gente diz que quer o passado de volta, quando ouvem as tuas músicas. E tu, não queres a tua própria “revenge of the 90’s”?

Ui… Dá-me de facto uma óptima sensação entrar agora em palco e ver toda a gente a cantar. Faz-me feliz. Mas eu adoro a minha vida de hoje, também. Sei muito mais do que sabia naquele tempo, não podia fazer esse tipo de erros. E é muito bom sentirmo-nos jovens nos dias de hoje e saber que a história é uma parte da mudança positiva do mundo. E é óptimo sentir que tenho uma pequena percentagem de responsabilidade nisso – como o techno, que desabrochou como Techno tronic. [risos] Sabe bem saber que és parte disso. Mas, não sou uma pessoa nostálgica que pensa “oh quem me dera…”; tudo o que eu fiz teve uma boa fluidez para mim. Gostava de ter podido fazer mais com a minha voz, fazer mais pelas crianças, pelas mulheres… Mas, ainda estou aqui, portanto estou a fazer tudo o que posso para continuar a evoluir e redescobrir-me todos os dias.

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