Prova das 9: Bordalo II

Por Hugo Vinagre

09 de November de 2017

ATTERO é a primeira grande exposição do criador de arte urbana que se apresenta como Bordalo II e que decorre em Lisboa. Não se trata de uma galeria nem de um museu, mas sim do espaço de criação do próprio artista, no Beato, mais propriamente na Rua de Xabregas. Falta acrescentar que a entrada é livre.

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Como é que surgiram estes animais que se tornaram uma espécie de tua imagem de marca?

Se calhar posso contar a história do porquê de eu ter feito o primeiro. No primeiro festival de arte pública onde fui, ainda andava a fazer experiências com o lixo e com os materiais, não sabia exactamente qual era o caminho que queria seguir e na construção de uma peça que foi feita em Rabo de Peixe, havia umas crianças muito irrequietas, que não me deixavam trabalhar. Andavam sempre a chatear toda a gente e a trazer caranguejos lá do meio das pedras, ao lado do mar e a fazer maldades aos caranguejos e eu sempre a chatear os miúdos para deixarem os caranguejos em paz. E num dos últimos dias do festival decido que ia fazer um caranguejo, feito de lixo, de sucata, um caranguejo robusto, grande, que se pudesse defender do homem. E foi assim que fiz o primeiro Big Trash Animal, basicamente.


2

É um conceito que te vês a alimentar por muito tempo?

Acho que sim. Mesmo que as peças possam mudar formalmente penso que o conceito se vai manter. 


3

É fácil arranjar o lixo que usas nas tuas criações?

Sim. Infelizmente lixo há em todo lado e com fartura, por isso é fácil encontrá-lo. 


4

O que é que te levou a escolher fazer a exposição fora de um museu ou galeria e escolher antes o teu atelier?

Já há muito tempo que gostava de fazer uma exposição num armazém grande, sempre foi algo que me motivou para ter uma liberdade, não sei, acho que é uma liberdade diferente. Não é que trabalhando noutro sítio não esteja livre, mas trabalhando no meu próprio espaço eu posso partir tudo, basicamente. Acabei por entender que este espaço tinha as características que procurava, porque era um armazém devoluto, mas fechado, ou seja, nós entramos e parece que as paredes estão a cair aos bocados, toda a arquitectura está bastante estragada e dá-nos quase a entender que estamos na rua, ou que estamos a trabalhar nos mesmos espaços onde eu construí muitas das minhas primeiras peças, que eram armazéns devolutos, espaços em ruínas.


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Ser de entrada livre é também uma tomada de posição?

Para mim é importante e faz sentido que tudo o que tenha a ver com a educação e com cultura esteja disponível para toda a gente. Por isso não faria sentido para mim cobrar uma entrada para um espaço onde quero que as pessoas venham e reflictam sobre aquilo que estão a ver. 


6

Como é que se vive desta forma de arte? Crias peças por encomenda ou coisa do género?

Sim, também. A maior parte do trabalho são festivais de arte urbana, são projectos com curadoria de museus, de festivais também de música e há sempre as peças mais pequenas, as chamadas peças de galeria, que acabam de certa forma por compensar e por nos dar a possibilidade depois, monetária por assim dizer, de fazer todas as peças da rua que muitas delas acabam por ser ofertas à cidade. 


7

A partir de que momento é que percebeste que era o que querias fazer na vida?

O meu background é graffiti ilegal, portanto desde muito cedo que tenho contacto com o espaço público. Ainda antes disso tinha contacto com o trabalho do meu avô, desde que me lembro de existir, basicamente, porque aos fins-de-semana costumava ficar na casa deles a vê-lo a pintar e ele deu-me bastantes luzes sobre pintura desde o início. Portanto não sei, se calhar na altura em que nós crescemos e decidimos ter uma profissão, eu percebi que a minha profissão era capaz de ser de ir atrás das coisas que sempre gostei e mostrá-las assim, até conseguir construir um trabalho que deve ser aquele que eu apresento nos dias de hoje. 


8

Nesta série "Big Trash Animals" tens 88 peças espalhadas por três continentes. São feitas cá ou nos locais?

Não, as peças são feitas nos locais. Com o lixo dos próprios locais. 


9

O Orangotango foi feito para o Festival Iminente em Londres e depois estava também no de Oeiras. Transportam-se bem e ficas descansado que vão chegar inteiras?

Há peças que é mais difícil de transportar que outras, algumas diria que são praticamente impossíveis de transportar, mas nesse caso a peça foi feita de forma a ser transportada de um sítio para o outro. E ainda vai para outro sítio, é suposto ir para o museu de arte urbana que vai abrir em Cascais.


Attero

Rua de Xabregas, 49, Lisboa

De 4 a 26 de Novembro, entre as 14h e as 20h

Entrada grátis

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