1 - Não só foste lutador de wrestling, como também treinador. Fala-nos sobre essa fase incrível da tua vida.

O meu início nos espectáculos diria até que começou por aí. Eu já era fã de wrestling desde pequeno. Aos 14 anos, ingressei numa academia em Lisboa, e em 2008 comecei a treinar mais afincadamente no Wrestling Portugal. Passei para lutador, fui árbitro e ajudava na produção. Em 2012, houve a necessidade de ficar à frente da academia com o Bruno Almeida, um dos fundadores e antigo aluno do grande Tarzan Taborda, e a dada altura já era eu responsável pelos treinos. Em 2015, por uma questão de agendas e porque tinha tido uma lesão, saí. Mas foi uma experiência porreira, porque o wrestling dá-te uma base de espectáculo muito diferente de tudo. O desenvolvimento da personagem e a interacção dão-te uma noção de entretenimento muito mais forte. Aquilo que eu gostava lá é o que tenho no stand-up: o contacto com o público, poderes durante uma hora de espectáculo ou 15 minutos de combate teres a atenção daquela malta e conseguires jogar com as emoções deles. (E sim, o 123 que uso à frente do nome em todas as redes sociais vem do wrestling.)

2 - Nem a seres patrocinado pela Gilette cortas a barba. Medo de perder a força ou esse super-poder em forma de humor?

Dá-me uma segurança muito grande, até porque quando eu faço a barba pareço um bebé gigante. Acaba por ser quase uma barreira, tenho uma barba muito grande, uns óculos de massa… se eu tiro tudo, ninguém me conhece. Só que tenho percebido que o número de carecas com barba e óculos é gigante, portanto não sei como é que vou fazer. A minha barba além ser a minha imagem de marca e já ser um tema de conversa, já tem um certo peso. Como os gajos das bandas de rock dos anos 80, tenho medo que daqui a uns anos a malta fique tipo “o que é que se passou na vida dele para deixar uma barba até ao peito?”. Talvez um dia tire e fique sem aparecer nas redes sociais. Gostava pelo gozo de ver as reacções: estive um tempo parado e quando voltei a fazer vídeos, tinha perdido 15 quilos.

3 - Intitulas-te o Rei do Underground. O começo pelos bares menos na spotlight está ao nível do fascínio pelos contrastes nas crónicas entre “o bairro e a mansão”?

Sim, eu cresci em Chelas e depois fui viver para a Encarnação. Estou habituado a viver em bairros, andei só umas estações na linha vermelha. Tudo isso faz com que sinta uma cultura associada às cenas da street, que teve muito impacto na criação da pessoa que sou hoje. E o wrestling dá-te aquela ideia de que os lutadores não são só homens que vão para dentro do ringue, são super-heróis da vida real. Foi quase um brainstorming: tens muitos comediantes cá em Portugal que são de classe média-alta e eu sou o gajo que está quase na contra-cultura disso. Já actuei em casas que não aconselho ninguém a ir, e por ter a malta a reconhecer-me percebi que tinha uma posição no underground. E quando olhei, não estava lá ninguém, por isso, pensei: “É meu! Sou o rei”. Claro que acharam que era de uma cagança descomunal; e é capaz de ser, mas é como a cena do ego trip no hip-hop, é uma constante. É quase uma homenagem à cultura de onde venho.

4 - Falas muito no hip-hop, inclusive nos teus vídeos. Há sempre um bom pretexto para alimentar os beefs criados no meio?

[risos] Oiço hip-hop desde pequeno, por influência da minha irmã mais velha. Sou um gajo muito ácido nas minhas opiniões. Aquilo que eu digo nunca é sobre os rappers em si, mas do trabalho deles. E quando eu não gosto 10, digo que não gosto 1000, faz parte da linha que quero criar. Adoro hip-hop, escrevi poesia durante muito tempo, tirei workshops de escrita criativa e tudo isso fez com que ganhasse gosto pelas palavras em si. E a passagem para o stand-up foi uma forma de juntar essas coisas todas. A cena que fica no ar é: mas se estou sempre a criticar o trabalho dos outros, porque é que não faço melhor? Porque não tenho voz, não digo nem os L’s nem os R’s. Se eu tentasse fazer uma cena no hip-hop, ia ser ridículo.

5 - Já tens 53 mil subscritores no YouTube, muito devido à Eurovisão. Como vês o futuro da plataforma na companhia do monstro do Artigo 13?

[risos] Eu tinha 4 mil subscritores e depois dos vídeos da Eurovisão passou para cerca de 25 mil. Li um comentário “faz um react à música de Israel” e fez com que o meu canal crescesse imenso. E depois ou trabalhas ou agarras-te só à sorte. O Artigo 13… Desde que o YouTube não sinta uma pressão muito grande junto das entidades reguladoras ao ponto de sair da Europa, por mim está tudo óptimo. Espero é que não impeça o surgimento de novos nomes na plataforma: sem o YouTube, continuavas a ter um mercado que só operava na base de 3 ou 4 produtores que pegam em gajos e os agenciam, e continuava a ser um círculo fechado. E se não vão com a tua cara, não arranjas trabalho; com o YouTube, fazes a tua cena e se o pessoal curte, paga (à Ticketline, para ir ao meu espectáculo). Por isso, espero que haja uma legislação que defenda os direitos de autor, mas que não feche a totalidade da criação e, acima de tudo, da recriação. Voltando ao hip-hop, é muito normal usares um beat de outro rapper, é quase uma espécie de homenagem, e aqui isso não está contemplado. “Estás a criar algo com base no meu trabalho, logo estás a ganhar dinheiro que deveria ser meu”. Estás a fechar as portas a canais de covers, análises a filmes, canais de trailers… N conteúdos que consomes deixam de estar disponíveis, por isso é que o Artigo 13 é tão assustador, é extremamente radical na abordagem.

6 - Começaste em 2015 e só agora é que vais ter a tua estreia ao vivo a solo. Era um dos doze desejos para 2019 ou já podia ter acontecido?

Já tinha actuado a título individual em bares e teatros. Acho que nunca vou ser um daqueles gajos associados aos grandes espectáculos, pela minha linha de trabalho. Mas a passagem para o São Jorge pela primeira vez é quase um statement. Porque eu quando comecei a ir para o YouTube, tinha aquela malta a dizer “este gajo é aquele comediante que agora está aqui, não é dos nossos”; e depois os comediantes ficaram tipo “ui, este agora é o gajo que faz vídeos”. Ou seja, o pessoal às vezes até se esquece que sou stand-up comedian antes de ser YouTuber. Actuei com o Fernando Rocha no Pi100PÉ, estou numa fase fixe, se vou conseguir fazer mais no mainstream… quero acreditar que sim, mas não vivo a sonhar com as luzes. Só quero é fazer com que o meu trabalho se torne incontornável, porque aí é que ganhas um estatuto diferente; não interessa se esgotas, o que interessa é aquelas pessoas que vieram, que as tenhas influenciado de alguma forma, assim como o mercado e os novos comediantes. Esse é o meu principal objectivo.

7 - Estás em redes sociais, espectáculos, podcasts, crónicas… mas preferes a experiência stand-up ou um palco virtual entre ti e o público?

Eu actuo num bar durante meia-hora, tenho 100 pessoas a rir, é do caraças. Em casa, estás a gravar um vídeo com uma camisa vestida, mas da cintura para baixo estás de cuecas e o vídeo chega a 10 mil pessoas (com não sei quantos a dizer que sou um cabrão, etc). Mas, a adrenalina de ir a palco dá uma pica diferente. Se eu disser que escolho stand-up, estou só a olhar para o meu umbigo, não estou a olhar para a minha carreira; se disser YouTube, não estou a olhar para a parte humana, por isso é muito difícil escolher. Não quero ganhar dinheiro com o YouTube, quero chegar a mais pessoas para elas comprarem bilhetes. Mas, vai chegar uma altura que já não vou precisar e aí vou repensar o que vou fazer. Ou vai haver uma altura em que a comédia não é suficiente. Quando és visto como o gajo que conta piadas, o tecto é muito baixo a nível artístico. Num espectáculo que fiz o ano passado, estiveram a rir durante uma hora. Depois eu volto e digo “o espectáculo de stand-up acabou, agora vou contar-vos a história de como cheguei aqui”. E falo da morte do meu pai e da sua importância para o meu caminho. Ou seja, tu pagaste para ver stand-up comedy e sais de lá a chorar. Acho que se eu te der só a comédia, é só uma nota. Há músicas que se fazem com 4 acordes, mas prefiro ter uma orquestra de emoções a tocar.

8 - Entre motivação e inspiração, há um role model que influencie o rei?

Eu via o Levanta-te e Ri com o meu pai. Ele sempre foi uma pessoa muito bem-disposta e isso fez com que ganhasse um gosto pela comédia. Mas comecei a fazer stand-up sem querer. Tinha tirado um workshop sobre argumentação para BD e, na mesma altura, faço o curso de escrita pelo Rui Sinel de Cordes. No final, havia uma gala de stand-up e percebi que era mais importante para mim do que julgava. E claro que houve momentos como em 2016, em que vou actuar e vejo o Francisco Menezes a fazer soundcheck. Aquilo mexe contigo. E ser convidado pelo Fernando Rocha, que era o gajo de quem tinha os DVDs. Depois quase que os olhas como alvos e acaba por dar aquela motivação. A nível de influência internacional, bebo muito do Andrew Dice Clay e da Lisa Lampanelli, que é uma besta a falar com público. Gosto do desconforto de gozares com alguém. É como aquela goma de tijolo: metes à boca, fazes cara feia, mas ao mesmo tempo é muito bom. Uma vez estava a actuar e na primeira fila tinha um rapaz de cadeira de rodas, e eu disse “espero que gostem todos, menos tu”. Fica um ambiente de merda e disse: “Pá, é que se eles gostarem, provavelmente tenho uma ovação de pé, e de ti não vou tirar nada”. O gajo riu-se e falei com ele depois. Li uma frase que era “a compreensão é a maior falta de respeito”. Se tu aceitares tudo é sinal que nem te interessas. E aqui seria uma falta de respeito eu gozar com toda a gente, mas com ele não.

9 - Com um mercado a florescer cada vez mais de humoristas, tens algum mecanismo para as ideias não se esgotarem ou sempre soubeste que bastaria jogares com o teu carisma?

Acho que é a parte do carisma e tu escolheres o que é que vais ser. Eu conto muitas histórias. À conversa com o Fernando Rocha, ele disse “mas tu queres que a tua carreira acabe daqui a quanto tempo?”. Uma história demora 10 minutos, um espectáculo de stand-up demora uma hora, estamos a falar de uma história engraçada a cada dois meses; se não tens isso, a tua vida é bue desinteressante. O facto de sentir que aquelas pessoas têm mesmo uma ligação comigo é muito melhor do que ir a palco e dizer “epá, vocês já repararam nas gajas que usam aqueles filtros no Instagram?” Estou-me a cagar. Qualquer pessoa pode dizer isso. Agora quando eu digo que a minha ex-namorada acabou comigo e trocou-me por um chinês, no dia em que vir outro gajo a dizer isso, vou ter que dizer “puto, ou a tua vida é muito parecida à minha…”. Eu prefiro expor-me, e acho que isso é que dá longevidade ao trabalho. Acho que o segredo é seres tu próprio, desde que isso seja fixe. Se fores uma merda de pessoa, epá não vale a pena.

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