1- Estás a interpretar o papel de pai da Escrava Isaura. Viste a novela original?
Sim, quando regressei a Portugal para tratar de toda a burocracia tive a oportunidade de ver. Até para me conseguir situar, porque a minha personagem, o Miguel, existe na história da Escrava Isaura, onde ele tenta a liberdade da filha, mais velho, como é óbvio. A novela que estou a fazer, Escrava Mãe, é a prequela dessa história, quando os pais da Isaura se conhecem e tem como pano de fundo um clima de escravatura muito hostil que se vivia na altura, em 1803.

2- Como é que chegaste ao Brasil e logo como protagonista?
Foi muito curioso. Há uma agente de actores, das mais conhecidas no Brasil inteiro, a Mariana Nogueira, que já tinha ido a Portugal algumas vezes e reparou no meu trabalho, até tivemos uma reunião há uns anos. Até que, a meio de Janeiro, recebo uma chamada dela a dizer que a Record ia fazer uma mega-produção de época e estavam à procura de um galã português, dos 22 aos 35 anos. Já tinham visto todos os actores portugueses, pelo YouTube, páginas oficiais, enfim, e eu era um dos nomes para que estavam bastante inclinados. Fiquei muito contente, mas ia fazer mais uma novela na TVI, já estava a ler os capítulos e tudo, não quis criar muitas expectativas. Ela liga--me dois dias depois a dizer que era mesmo eu a pessoa escolhida e daí por três dias teria que estar no Rio de Janeiro, para eu e a Xuxa sermos apresentados à imprensa como as contratações da Record para 2015.

3- E estás a ser apresentado como galã português. Tem sido mesmo assim com as brasileiras?
Aqui é impressionante, a imprensa funciona a uma escala que não tem explicação, em Portugal não é nem um décimo. É muito intenso, um assédio enorme, fomentam muito isto das figuras públicas, dos artistas, e as pessoas na rua vivem muito isso, também são mais atrevidas do que em Portugal, existe essa grande diferença.

4- Antes disto fizeste uma personagem gay em O Beijo do Escorpião, agora entras numa novela brasileira de época, estás preparado para tudo?
Estou, quem me conhece sabe que gosto de desafios e convidam-me sempre para fazer personagens muito intensos, importantes e polémicos. Estou preparado para o que der e vier, quanto maior for o desafio, ainda mais gosto vou ter e acho que melhor vou fazer. Conheço-me e sei que ainda vou descobrir coisas na minha forma de trabalhar, é muito desafiante para mim enquanto actor. Ser camaleónico e versátil é gratificante e isso faz-me evoluir muito.

5- És português na novela. Falas normalmente?
No Brasil não estão habituados a ouvir o sotaque português, ao contrário de nós, que estamos habituados ao brasileiro. Tenho feito aulas onde atenuo o meu sotaque, mas não deixa de ser português, faço uma pequena alteração.

6- Já sabias andar a cavalo?
Já montava no pólo, mas nunca o tinha feito com cavalos de grande porte e selvagens, o que acontece muito nesta novela. O meu personagem é aventureiro, é o herói da história. Tenho muitas cenas arriscadas e aqui tive uma preparação incrível, essa é uma das grandes diferenças para as novelas de Portugal. Tivemos aulas de esgrima, de capoeira, equitação, seminários de história, para perceber toda a conjuntura política e social da altura, os costumes... Fizemos pré-ensaios, imensos testes de caracterização, os figurinos que usamos são feitos na mesma empresa que os do Game of Thrones, dá tudo muita segurança. Há uns dias fui gravar uma cena de uma perseguição, que demorámos duas semanas a fazer e em Portugal demoraríamos um dia.

7- Começaram a gravar sete meses antes da estreia. É habitual?
Nesta emissora e na Globo, sim. Trabalham com muita antecedência, neste momento já sabem as novelas que vão ter em 2017 e 2018. Não é por acaso que o Brasil é o rei das novelas. Em Portugal somos muito bons, mas eles têm muitos anos de avanço. É um rigor muito maior, até nos textos. E ainda não estreou, mas já a gravámos quase toda. A Record pela primeira vez está com uma audiência a nível de novelas muito maior que a Globo, para mim ser protagonista é um privilégio muito grande e uma pressão, mas positiva.

8- Essa zona onde filmam é isolada do mundo?
Há muitas cenas gravadas em África, com os navios negreiros em Moçambique e Angola, mas a partir daí gravámos em São Paulo, porque estamos a usar as fazendas onde se gravou a Escrava Isaura, como é a história que antecede, tem tudo que ser igual, as roças de café, as senzalas, para haver a continuidade da história. Agora estamos em Santa Gertrudes, que é perto de Campinas, e no Morro Azul, outra fazenda mais afastada ainda. Temos uma cidade cenográfica que serve de base a esta produção, é a vila de São Salvador, onde se passa toda a história. Já os estúdios são gravados num pólo de cinema, onde se fazem muitos filmes, norte-americanos e tudo.

9- Além da TV, gostavas de fazer cinema?
Cinema fiz muito pouco, em Portugal o circuito é reduzido, infelizmente é um núcleo muito fechado. No Brasil existem muitas produções independentes, o que é engraçado. O contrato que tenho agora no Brasil é só para este projecto. Gostaria que o meu futuro passasse por fazer muito mais cinema, embora queira continuar a fazer televisão, bons projectos. Tento sempre fazer as melhores escolhas na minha carreira, seja na televisão, cinema ou teatro, dentro do que é possível. Não mando em nada, e é muito bom haver trabalho.

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