1- Esta setlist, que apresentaram há dois meses em Guimarães e vão repetir no Campo Pequeno é a vossa mais longa de sempre?
Sim, sem dúvida. É curioso que quanto mais velhos, mais tempo temos de tocar e esse é um exercício que nos mantém em forma e que feito muitas vezes (tal como nós o fazemos) dispensa dietas e ginásios. [risos] Mas agora a sério: sim é um concerto longo, o mais longo, a nossa história já é longa e há que percorrê-la agora ou nunca.

2- O pretexto para este espectáculo é o 20º aniversário do Irreligious, sendo que também já tinham comemorado um dos aniversários do Wolfheart. Mesmo ao fim de dez álbuns de originais, esses dois primeiros continuam a ser os mais especiais para a banda e os fãs?
Não há amor como o primeiro. Ninguém esquece a primeira vez, especialmente se a primeira vez for tão boa quanto a resposta que estes discos tiveram na altura e depois, através dos tempos. Quando se lança algo novo, há a vantagem de não haver ponto de comparação. Quando editámos o Irreligious em 1996, já havia o Wolfheart e alguma gente se incomodou mas o disco fez tanto sucesso que abafou as vozes que se levantavam desde logo. E isso foi muito importante para nós, calar essas vozes e aprender a não dar importância, coisa que fazemos até hoje. Mas sim são álbuns que definem tudo o que fazemos, não só musicalmente.

3- Quando o compunhas pensavas que ainda estariam juntos tanto tempo depois ou apenas desfrutavam do momento?
Muita gente me corrige quando digo que a música é um escape e que a arte serve tantas vezes de refúgio, de zona de conforto, de quarto escuro para chorarmos mágoas. Quem viveu os anos oitenta, sabe do que falo. Claro que também existe a parte em que a música nos obriga a fazer algo, a levantar a peida do sofá e ir para as ruas gritar ou para os concertos renovar a chama do contacto humano. Para quem cria a música tem também estes efeitos, entre tantos outros. Nós vivíamos uma altura complicada com o JP/Ares. Ele estava a revelar-se alguém com o qual não podíamos estar numa banda e isso era doloroso, todos os dias, sentir isso. Fazer o Irreligious, trabalhar na música e relevar as ofensas, os comentários depreciativos, foi uma espécie de salvamento da banda, que o Sin continuou. Era nisso que estávamos a pensar. E já nos ocupava a a cabeça por completo: sobreviver 20 minutos, 20 dias, 20 meses. Nunca vinte anos.

4- Foi anunciado que o concerto vai ser gravado em DVD. O que é que vai ser feito com esse registo?
O objectivo é lançar para o ano que vem. Este DVD não se reduz ao concerto, apesar de ser esse o prato principal. Queremos dar liberdade e tempo ao nosso realizador (Victor Castro) para encaminhar este projecto mais numa direcção de filme/concerto do que só um concerto. Estamos a recolher coisas do quotidiano, ensaios, família, etc. e depois juntar ao concerto. Os Moonspell são assim, lobos com família, alcateias, responsabilidades, filhos mas também rock, legalize it, amigos, com piadolas e códigos muito próprios. É esse mundo completo que queremos mostrar e não só o “glamour” do dia de concerto ou a adoração dos fãs. Há todo um processo para chegar a esse dia e também queremos documentar/mostrar isso.

Fotos: Paulo F. Mendes

5- Este ano vão lançar um álbum sobre o terramoto de Lisboa. Apesar de já o teres feito pontualmente nos Moonspell, o que é que te levou a desta vez querer cantar integralmente na nossa língua, foi o tema escolhido?
Foi o Vitorino e o Sam the Kid que finalmente me convenceram… not. Sim já o fizemos pontualmente, é verdade. Sempre recorremos ao português quando achávamos que o sentimento que queríamos expressar, não se traduzia em inglês. Caso do refrão da Alma Mater ou da parte final da Opium, com a citação de Álvaro de Campos. Neste disco novo que aí vem, em português temos uma história para contar, de entre as ruínas de uma cidade, com referências que são portuguesas, com nomes que são nacionais e como tal sem tradução. É por isso, e não por toda a gente andar a cantar e a encantar em português. Este disco não será, em definitivo, para os fãs de Capitão Fausto, por exemplo.

6- Tendo em conta que a maioria dos vossos fãs não fala português, como achas que vai ser recebido além-fronteiras?
Esse vai ser exactamente o factor de sucesso deste projecto. No Metal, apesar do inglês, as pessoas procuram o feeling genuíno, e tantas bandas que cantam em norueguês, islandês, etc. e fazem sucesso e têm reconhecimento com isso. Não temos medo algum nesse particular, pelo contrário acho que os nossos fãs de todo o mundo vão responder bem e claro em Portugal, Brasil, Espanha e América Latina há muita expectativa para ouvir o disco do terramoto.

7- E a editora, achou que enlouqueceram de vez?
Acho que foi por ter a capacidade de pensar fora do baralho que a editora nos contratou e que nos estendeu o contrato por mais dois discos! A nossa editora não é nenhuma multinacional, sempre com medo de tudo e de todos, a tentar proteger a sua boys banddos papões. É uma editora independente que em cinco anos se tornou uma das maiores do Metal e por isso está ela também entusiasmada com isto e a apostar forte no nosso disco em português.

8- Este ano comemoram também o 25º aniversário dos Moonspell. Além do álbum e DVD existem mais comemorações planeadas?
Sim. Todo este ano, que já passou por 2016 também, foi e será dedicado a estas viagens ao passado. Depois de Lisboa, vamos aos festivais e para a América Latina, onde somos esperados há muito tempo, desde o lançamento do Extinct. Por isso muita coisa, principalmente concertos, discos e uma biografia dos 25 anos.

9- Como é que convencias quem já vos viu 20 vezes a marcar novamente presença no Campo Pequeno?
Não convencia. Quem nos viu 20 vezes, sabe que este é o concerto a que não pode faltar. É um decisão entre acompanhar de longe e estar lá a mandar suor para as câmaras… é essa ideia que os tem de convencer, eu já não posso fazer nada sem ser acolhe-los da melhor maneira de cima do palco.

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