O teu single Dr. Bayard foi um cartão de visita enganador: acabou por ser como codeína para agarrares o público, e de repente dás a chapada da realidade com uma estética sonora completamente diferente de tudo. Não tiveste o receio de defraudar os que te acompanham?

Acho que várias pessoas que me acompanham sentiram-se defraudadas pelo Dr. Bayard. Portanto, acho que algumas pessoas que só me conhecem por causa desse single ficaram do tipo “what the fuck?”. Aquilo que eu lancei foi diferente do que tinha feito antes e criou mixed feelings também a mim. Mas, era isso que estava à espera e, nesse sentido, funcionou perfeitamente.

Nunca estiveste numa zona de conforto no panorama português, mas aqui arriscaste mesmo com uma fusão de elementos desde baladas, auto-tune e universos coloridos. Vês este disco com uma espécie de hiato entre o que já criaste e o que vai definir o teu futuro, ou é essa posição híbrida em que queres investir?

Em retrospectiva, eu fiz isto fiz simplesmente por instinto. Não estava a querer que fosse o meu futuro ou quebrar com o passado, mas sem dúvida que levo a bagagem e a auto-libertação. No entanto, aquilo que eu já estava a imaginar para o meu próximo trabalho, não tinha muito que ver com o Inter-Missão. Agora que o fiz, há coisas que vão transitar para o novo. Talvez não este total freestyle de estilos, mas porções disso.

Dia 2 de Fevereiro vai ser a prova de fogo no concerto de apresentação no Estúdio Time Out, mas já vais avaliando o impacto até agora. Não temes que esta tua personagem satírica e meio surrealista possa tirar credibilidade no meio à tua música ou esse desafio foi um dos combustíveis?

Foi mesmo isso. O que é a credibilidade? O que é um rapper hoje em dia? Porque é que há coisas que têm que estar em certos formatos? Ao mesmo tempo que o meu tom possa ser irónico e satírico, acho que estou a falar bastante a sério, e isso não está só nas entrelinhas. Visualmente, as coisas podem tomar assim um tom mais wild, mas se olharmos para o Kanye West, o Tyler, The Creator, o Pharrel, o Chance the Rapper ou o Childish Gambino, já existe uma geração de artistas que nos levam para universos assim mais aleatórios sem descuidar a seriedade da sua arte. É nesse registo que eu quero estar.

Fotografia Rita Umbelino

Escolheste um disco ilustrado que conta a história deste álbum. Tal como a BD navega em realidades paralelas, conjecturemos isto: se não tivesses tido um desgosto amoroso e uma epifania após a queda de bicicleta, irias dar esse salto de fé nas canções? E sem BD, conseguiriam as músicas na sua crueza sobreviver?

Foi o resultado de todos esses acontecimentos na minha vida que fez com que fizesse este trabalho. Eu ia fazer a sequela do Justiceiro e este trabalho pôs-se no caminho porque precisei mesmo espiritualmente, animicamente, de experimentar outras coisas. Houve um cheirinho daquela coisa de ver a vida a passar à frente e precisei de me libertar de algumas frustrações. Isso criou coisas um bocado aleatórias entre si e o aparecimento da oportunidade de fazer a BD, que foi mesmo a cola disto tudo. O Miguel Peres enviou-me o livro dele com uma dedicatória, e fiquei super contente que alguém desse universo que eu adoro me tivesse como referência e inspiração, e de repente comecei a pensar que todas aquelas músicas que eu tinha se e que se podiam colar se incluíssemos este formato. Na verdade, essas duas perguntas estão ligadas porque foi a maneira de eu tornar possível contar uma história contínua com tanta variedade sonora, assumindo que estamos realmente num universo paralelo e numa coisa de imaginação dentro da minha cabeça. Dei autorização a mim próprio para poder estar em sítios diferentes esteticamente. Não vou estar aqui com meias medidas: é um disco que poderia ter guardado em casa, mas decidi lançar isto porque quero que as pessoas estejam a testemunhar as minhas experiências e o resultado delas. Estou a quebrar com essa concepção de os artistas terem que seguir determinados caminhos só porque os públicos assim o esperam. E a BD foi o pacote onde puderam caber todas estas cores do arco-íris.

E foste longe ao ponto de usar um sample de Amália Rodrigues. Já tinhas tido uma aventura com Santa Maria n’ O Justiceiro; como foi desta vez? Com tanto flirt com a portugalidade, podemos sonhar com uma colaboração com o teu pai, o mítico Quinzinho de Portugal?

Em todos os meus discos quero ter elementos da cultura portuguesa ou músicas reinventadas, porque acho que isso é um bocado a minha trademark. Desta vez, foi mais um desafio, porque estamos dependentes da autorização dos herdeiros dos direitos dos compositores da música, não propriamente da Amália porque ela era apenas intérprete. Curiosamente, foi a primeira música que fiz antes de começar isto tudo, achei muito boa para começar a contar a história, porque é uma música progressiva. Sempre se usou o fado no hip-hop, agora quis fazer com uma roupagem mais Travis Scott, uma cena mais moderna. Acho que o resultado foi incrível, é a música mais streamada do disco. Na verdade, isto começou tudo porque o Rui Miguel Abreu uma vez falou-me num projecto em que tinha acesso aos masters da Amália, da Valentim de Carvalho, e ia convidar uma série de artistas para remisturar os temas. Essa ideia ficou-me implantada na cabeça e depois materializou-se. Acho que não há limites na arte. Até há coisas bem mais fracturantes do que aquilo que eu faço. Os limites são o público dizer se gosta ou não, ou a comunidade artística. Já tinha feito o Dr. Bayard que também tem essa lógica de referência à cultura portuguesa, mas num formato mais genérico. A ideia aqui era mostrar o que me apetecesse. Óbvio que isso tem consequências a nível comercial e de carreira, mas eu assumi o risco. Quanto ao meu pai, aquilo que eu fiz agora naquela edição do Cabaret da Coxa foi um exemplo disso. Nunca pensei em sentar-me com ele e fazer música com ele, e acho que ele já viveu muita coisa e agora está na hora de descansar. Mas sim, porque não? A coisa mais difícil de reinventar e tornar cool é, sem dúvida, o pimba. Aquela música mais foleira portuguesa é o mais difícil mas também é o que dá mais pica; como aconteceu com os Santa Maria, que não é bem pimba, mas está dentro dessa categoria em Portugal. Eu já tenho algumas ideias para temas portugueses que quero usar, depois tudo depende se é fácil ter autorização.

Se por um lado este álbum transmite ser anti-processo, por outro é bastante conceptual. Qual foi a fórmula para conseguir libertar um resultado experimental e, ao mesmo tempo, ter tudo tão bem orquestrado?

Obrigado por isso. O processo é mesmo aleatório. Eu tenho muito aquela obsessão com o conceito, e aqui foi sentar-me ao computador e ao piano, e começar a tocar e a cantar sem pensar em nada – daí saíram músicas como a Capacete, por exemplo. Depois houve outras que foram um processo mais regular, do género “tenho aqui este instrumental, vê lá o que é que fazes”; pego no instrumental, mas tento fazer um refrão como não estou habituado. Depois houve outros temas como a Caixa Negra, que foi o J-K que disse “tenho aqui um tema, queres entrar?”; fizemos a música e eu perguntei “vais pôr isto em algum lado?”, e foi para o meu disco. Depois foi pô-las umas ao lado das outras e ver para onde é que iam. Criou-se um caminho da estética d’ O Justiceiro, começou a evoluir para uma coisa mais estranha e no final um formato mais genérico de trap – mais Think Music, que é a editora e quis fazer justiça a essa sonoridade. Há ali uns solavancos, mas decidi criar uma viagem: isto é de onde venho, é o que me está a passar pela cabeça agora, mas eu também sei fazer isto. E a seguir logo se vê.

Fotografia Rita Umbelino

Numa era de pastilha elástica, decidiste assumir um disco com cerca de meia hora como um álbum e fugir do rótulo EP. O que é que te move a não usares o YouTube como principal muleta comercial para ir lançando músicas pontualmente?

Eu decido chamar-lhe um disco, que podia ser um álbum ou um EP. Isto é um álbum não só de música, mas também de BD. Essa discussão aconteceu durante meses comigo e com a editora. No final, felizmente, o Kanye West veio validar-me. Acho que hoje em dia com o rápido consumo de música, é na boa fazermos álbuns mais pequenos. Em relação ao Youtube, eu tenho sempre que encaixar as coisas numa embalagem, num conceito; é como um artista que faz uma exposição numa galeria ou um estúdio de moda que lança uma colecção de roupa. Os singles soltos são uma coisa que eu começo a equacionar agora, porque de facto têm melhores resultados. Os que funcionam melhor vão parar a álbuns por causa da resposta do público. Isto tem tudo que ver com estratégia e eu ainda sou um bocado nabo, porque ponho outras coisas à frente da monetização. O que ponho em primeiro lugar é o conceito e a arte. Pode ser um bocado ingénuo da minha parte, mas vamos ver como é que acontece no futuro. Não descarto essa hipótese de fazer singles soltos, mas custa-me sempre que uma música fique por ali perdida como uma boia no meio do mar e não faça parte de um navio. Nos Estados Unidos, continua a acontecer o contrário, eles vêm qual é a música que bate mais e fazem um videoclip. São processos, eu assumi o meu e tenho noção que isso me pode levar para um espectro mais indie do que a maior parte dos rappers. Mas, acho que estou disposto a assumir isso pela longevidade, para um dia olhar para o meu projecto e pensar “fiz as coisas como eu queria”.

E voas com a tua Caixa Negra. É a tua principal missão superar as expectativas ao não seguires o rebanho e manteres-te relevante, ou isto não é uma ego trip e queres fazer justiça pelo hip-hop português e romper as convenções na indústria?

São ambos na verdade. Óbvio que o meu trabalho é egocêntrico, é sobre mim. Mas também é esse desafio de apelar ao público e às pessoas que trabalham na indústria que não há só uma maneira de fazer as coisas. Agora o hip-hop está a ter imenso sucesso, então querem todos fazer as coisas da mesma maneira e ganhar o máximo de dinheiro possível. E quando isso acabar, o que é que sobra? O que é que fica? Se a maior parte dos artistas vai desaparecer, então para que é que isso serviu? Eu prefiro ter uma continuidade, contar mais comigo e com o meu conceito do que propriamente com aquilo que acontece a nível de reacção – porque isso é extremamente volátil. Aquilo que nós fazemos para nós fica para sempre. Não quero ser hipócrita e dizer que não me interessa ter sucesso; obviamente que quero, o desafio é até onde é que posso levar a minha ideia e mesmo assim ter sucesso.

Acabaste de cumprimentar os 30, e já apontas uma janela de 20 anos para a possibilidade de não seres rapper. Com essa vontade de fintar tudo, já há uma estratégia delineada com e sem Mike El Nite?

Há uma coisa que eu digo a mim próprio: não me esquecer de que posso fazer coisas que não são rap. Ainda assim, eu alterei várias vezes o formato, mas todas as faixas neste disco têm um verso de rap, pelo menos. Só é muito raro ver-se rappers com 50 anos continuarem a ser relevantes ou na sua forma máxima; de repente, entram na cena um bocado ridícula de “um gajo já não tem idade para fazer isto”. Porque é que eu não posso daqui a não sei quantos anos converter-me num Pedro Abrunhosa, Rui Veloso ou whatever? Não sei o que o futuro reserva, mas sei que não posso ter só uma porta. Porque senão, as coisas afunilam e tornam-se aquilo que eu não queria, que era uma coisa repetitiva e chata. Eu quero ter uma profissão desafiante todos os dias e que me leve para ideias novas constantemente. Não quero ser um funcionário público da música. Por exemplo, temos o caso do Eminem: continua a ser muito respeitado como rapper e foi uma das minhas maiores influências, mas os discos dele hoje em dia, para mim, estão fora da órbita. Ele está a mostrar que rima bué, as produções são datadas, mas se calhar já não sabe fazer outra coisa. Eu quero saber fazer outras coisas quando chegar a essa idade. Se eu quiser fazer agora um álbum de música clássica, quero poder sentar-me num estúdio com uma orquestra e mandá-los tocar. Provavelmente teria que matar o Mike El Nite antes, há uma aventura qualquer em que ele vai morrer [risos]. Para já, vou andar a girar com este disco e acho que ainda vou estar na fase rapper bastante tempo. Onde eu quero mesmo tocar este ano é em festivais como Paredes de Coura, Bons Sons, Tremor, porque acho que é um disco que fica bem ao vivo nesse tipo de ambientes. Mas, também vou tocar às viagens de finalistas dos miúdos do secundário e às semanas académicas. No fundo, eu quero estar em todas. Acho que o mais difícil vai ser depois deste move com o Dr. Bayard, continuar a ter receptividade das pessoas que trabalham num espectro mais indie, que podem não ter apanhado o resto da cena. Ainda estamos a perceber como é que a nível estratégico isso vai ser. Mas, para todos os efeitos, continuo a ser o DJ do ProfJam, da Da Chick e continuo a ter o meu DJ set, que são coisas que também me dão alguma rentabilidade; também estou a preparar um formato “DJ On The Mike”, onde canto alguns temas que fazem sentido num DJ Set, os mais dançáveis, os mais banger. Portanto, isto é ir descobrindo maneiras de fazer a coisa. Temos que ir arranjando fórmulas para sobreviver no meio, porque está em constante evolução e, hoje em dia, especialmente no hip-hop, há mega concorrência. A ideia é criar um produto que não haja e que as pessoas queiram.

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