1- Usas elementos de cultura pop e humor. É algo teu ou foi uma estratégia de sedução que desenvolveste?
É uma forma de entender a política e a ciência política. Não acho que os padeiros façam pão só para padeiros, tal como a ciência política não é escrita só para especialistas, sendo assim não ajudamos a melhorar a sociedade com o nosso conhecimento e isso é a nossa obrigação para devolver à sociedade o que ela nos dá, que é financiar a nossa profissão. Uma ciência política útil tem que ajudar a que a sociedade se entenda a si mesma e para isso utilizar as referências que a sociedade conhece. Temos que ajudá-la a que faça esse caminho. As pessoas que têm educação musical gostam de ópera, mas nunca começam por aí. Tens que utilizar o cinema, a literatura, o que as pessoas consomem, descodificá-lo, desconstrui-lo e devolvê-lo, assim entendem e compreendem-se a elas mesmas. São ferramentas de conhecimento.

2- No livro fazes leituras sobre James Bond, Batman, Rei Leão, Aladdin, Matrix… Pensas que essas mensagens subliminares se entranham mesmo nas pessoas?
Não são bem subliminares, isso são as captadas pela retina mas que não vemos, como uma mulher nua no gelo de um copo de whisky. A verdade é que existem mensagens políticas por trás dos filmes. No James Bond anterior, ele luta contra Julian Assange e o WikiLeaks. Até o actor que faz o papel de mau, o Carlos Bardem, é parecido com Assange. É um filme muito conservador e inteligente, porque assume que o ocidente está a fazer as coisas mal e tem que pagar um preço, por isso a chefe dos serviços de espionagem tem que morrer, mas nesse momento ela diz a Bond que lhe entrega todo o poder para que continues a defender o ocidente dos seus inimigos. No Batman ocorre algo semelhante, luta contra o Occupy Wall Street. Assumem que o sistema se enganou e os que se levantam ocupam Wall Street. Mas a mensagem é “cuidado, se acabas com Wall Street, o teu dinheiro não valerá nada, por isso não lutes contra o sistema”. No final quem salva as coisas não é o povo que se revolta, o que é sempre um problema, mas sim um rico, que é um grande empresário, e a polícia. Os que se revoltaram vivem como ratazanas no subsolo, são mensagens que constroem uma maneira de pensar e são funcionais para o status quo, para que as coisas se mantenham. Às vezes funciona como uma estratégia que a antropologia estuda muito, chamada O Dia dos Loucos. Um dia por ano entregas o poder da comunidade aos loucos, aos marginais. Esse dia torna-se um grande desastre, o que faz com que as pessoas peçam que tudo volte a ser como antes e o poder não será questionado. O cinema de Hollywood, sobretudo desde os anos 70, tem uma vontade de servir como ajustador do sistema, cada vez mais ligado à estrutura militar e industrial. Isto não significa que tenham deixado de existir filmes que criticam, mas a maioria não questiona e vai disciplinando a cidadania.

3- Mesmo quando dás exemplos do passado, como quando os índios baptizaram um porco para que o pudessem comer numa sexta-feira santa, são maioritariamente divertidos. Rir é o melhor remédio?
O humor é revolucionário. O riso é quase sempre irreverente. Questiona a ordem das coisas e provocar o riso é romper com o pré-estabelecido. É um elixir que te torna invulnerável frente ao medo que o poder te transmite. Serve para transmitir conhecimento, gerar tranquilidade e injectar coragem.

4- E o título do teu livro diz que é para gente decente. Os outros já não têm salvação?
Nos anos 60, por altura da guerra do Vietname e os grandes protestos do Maio de 68, Richard Nixon, o presidente que seria obrigado a demitir-se, por mentir, disse que existia gente que se manifestava contra a guerra, mas existia uma maioria silenciosa que o apoiava. Fico preocupado com as maiorias silenciosas. Em Portugal uma maioria dos cidadãos tem sido atacada pelas políticas da troika. Quando a maioria volta a votar nos partidos que aplicaram essas políticas, é um mistério que tem que ser explicado. As vítimas votam no seu carrasco. Há uma tentativa de rotinizar a vida política e o riso é importante porque rompe essa rotina e ilumina os ângulos que estavam obscuros. Assim podes pensar que existem alternativas, enquanto o foco se mantiver num sítio, parece que é o único caminho. É importante romper com essa ideia, é o que faz com que o povo não questione a possibilidade de mudar. O êxito do modelo neo-liberal é que nos disse que não nenhum tipo de alternativa, tenta fazer da resignação uma política de Estado. Quando aceitamos a resignação, ficamos para sempre à espera do que a sorte nos trouxer. A mim preocupou-me sempre muito que essa maioria silenciosa não possa pensar porque tem medo.

5- Achas que os políticos que governam têm sido piores de que lado da fronteira?
São iguais, a diferença é que em Espanha temos o movimento dos indignados, que nos permitiu identificar os políticos sem vergonha e isso está por fazer em Portugal. Lá temos mais pistas e provas do que o povo português.

6- Um dos problemas que identificas no livro é que os canalhas se deixaram de atirar das janelas. O que é que levou a que se tenha perdido a vergonha?
A impunidade. Só se atira da janela quem sabe que tem que apresentar contas, à sociedade, à família, aos vizinhos, aos empregados. Os grandes empresários da actualidade são predadores. Vivemos isso agora em Espanha com a Coca-Cola. É uma empresa que tem imensos benefícios e decide fechar uma fábrica em Madrid só porque pode importar o produto da Europa de Leste e poupar algum dinheiro. Isto é um insulto, era uma fábrica que ali estava implantada e produzia para aquela zona, porquê gastar ecologicamente ao importá-la e destruir postos de trabalho, quando estás a receber benefícios? Para a Coca-Cola vai dar ao mesmo e o seu director nunca se irá atirar da janela, mesmo que deixe cem mil pessoas na rua, já não têm o mínimo compromisso com a sociedade.

7- Portugal e Espanha poderiam estar neste momento a preparar um Mundial de futebol em conjunto, caso a candidatura tivesse sido escolhida. Não deveriam existir ainda mais objectivos ibéricos comuns?
Creio que isso está nos nossos horizontes, mas requereria que falássemos mais. Portugal e Espanha continuam virados de costas, sobretudo por culpa de Espanha. Portugal tem sempre medo do seu irmão maior que o possa vir a silenciar. Os povos tem que voltar a criar esse diálogo, Portugal está ao lado da Galiza, da Estremadura, da Andaluzia. Somos parte de uma mesma cultura e juntos estaríamos melhor, encontraríamos uma solução para a periferização que nos está a condenar na Europa. Somos a porta para a América Latina e o Brasil, uma Ibéria unida ajudaria a que achássemos uma vantagem para contrapor a esta força terrível da Europa central, alemã.

8- Frequentemente vão surgindo novos desafios, como esta crise dos refugiados. Vês alguma solução para o problema?
Se olharmos para a história do século XIX, os emigrantes foram construtores de uma parte dos direitos sociais e políticos para todos os europeus, como foi evidente na comuna de Paris, em 1871. Os refugiados actuais são culpa das políticas europeias. Não há refugiados israelitas, nem da Arábia Saudita ou do Qatar. São de zonas que os europeus ajudaram a bombardear. Toda a ruptura do norte de África e médio-oriente começa com a invasão do Iraque, onde o espanhol Aznar e o português Durão Barroso ficaram na fotografia nos Açores, onde se deu início à guerra do Iraque, em busca de armas que sabíamos que nunca existiram. Ao lado da foto do menino Aylan Kurdi, afogado numa praia na Turquia, devemos colocar a de Aznar e Barroso, rindo-se nos Açores. Aí começou a destabilização que culmina na crise dos refugiados. Que não são um problema, são um desafio a que temos que responder.

9- Em Portugal ainda existe alguma resistência conservadora em relação a uma revista como a Playboy. Como cientista social, achas que tem um papel importante?
Depende dos conteúdos. A possibilidade de colaborar em posições sexistas e de alimentar as diferenças entre homens e mulheres, o machismo, existe. Depende do tratamento que a revista dá aos temas e de como trata as próprias mulheres, se as converte em meras mercadorias, para ganhar dinheiro. É normal que um sector intelectual despreze um produto que, como os concursos de beleza, ataque a dignidade da mulher. Não conheço os conteúdos da edição portuguesa, mas assumo que se a editora que publica o meu livro propõe à Playboy que me faça uma entrevista, é porque faz a leitura que é uma revista que transmite algo mais do que o imaginário de mulheres nuas poderia levar a pensar.

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