1- A carreira do teu pai, o futebolista Jorge Plácido, levou a que vivesses em muitas cidades, nomeadamente Paris. Foi decisivo para a carreira que escolheste?
Definitivamente. Tendo em conta que passei parte da infância e toda a adolescência em Paris, o meu gosto musical e a minha formação enquanto indivíduo deu-se toda lá. Tudo aquilo que faço hoje no fundo acaba por ser um reflexo dos anos que lá passei e que influenciaram definitivamente a minha maneira de ser e também a de fazer música.

2- Dizes que não há público como o da cidade do Porto e assumes-te como adepto do FCP. Foi preciso ser corajoso para tomar partido numa divisão Norte/Sul ou nem pensas nisso?
Não penso, porque acho que isso é uma coisa natural. No fundo as pessoas não se devem inibir de dizer aquilo que pensam, mesmo que por vezes isso implique que vás contra certas coisas. No meu caso, não poderia fingir em relação a coisas que sinto verdadeiramente. Tenho tido a oportunidade de percorrer o país de norte a sul, dar concertos nas ilhas, e os meus melhores concertos foram sempre na cidade do Porto, porque acho que é um público inacreditável. No que diz respeito ao futebol, não se pode fingir em relação ao clube que se apoia e o meu é o Futebol Clube de Porto, faço questão que as pessoas saibam que sou portista.

3- E o teu pedido de casamento até foi notícia de jornal. As fãs não ficam desiludidas?
Não, de todo. Quer dizer, pelo menos não parece. Claro que houve algumas a dizer “não te cases” ou “não te cases já”. Mas acho que há um tempo para tudo e cheguei a uma altura da minha vida em que já vivi bastante e acima de tudo acho que aconteceu porque me encontrei como indivíduo e sei o que quero para a minha vida. A carreira de músico é uma coisa muito bonita, toda essa exposição e carinho que recebes das fãs, só que lá está, isto tem um prazo de validade e irá chegar uma altura em que não terei mais essas pessoas a apoiar-me e quando não as tiver, sei quem é que vou ter ao meu lado. É mais por causa disso que tomei essa decisão, mas no fundo o que importa é que as pessoas gostem da música que faço, isso acaba por falar sempre mais alto que as outras coisas todas.

4- O teu último álbum chama-se Fvmily F1rst e fazes uma oração com os músicos antes de cada concerto. És o sonho de qualquer sogra?
Isso vais ter que perguntar à minha sogra. Acho que ela gosta bastante de mim, não diria que sou o genro perfeito, mas penso que sou um bom genro.

5- Tu e o Valete recriaram a batalha de Waterloo para o canal História, em que tu fazias de Duque de Wellington e ele de Napoleão. Queremos saber que cara fizeste quando te apresentaram a ideia e se só aceitaste porque sabias que ias ganhar?
Gosto de desafios e acima de tudo sou uma pessoa muito competitiva. Eu e o Valete temos uma relação super aberta, antes de sermos músicos também somos amigos e aceitámos esse desafio na desportiva, sem considerar o facto de alguém ganhar ou perder, foi mais pela parte artística e pela oportunidade de fazer uma coisa dentro do rap diferente daquilo que estamos habituados a fazer. Pudemos dar uma interpretação nossa dos factos, diferente daquilo que se aprende na escola. Normalmente não te ensinam que Napoleão Bonaparte foi um tirano, dizem que foi um grande estratega, mas não que foi um déspota e um sanguinário. Podemos dar essa interpretação dos factos, para o nosso público, que é relativamente jovem, acho que o nosso contributo está principalmente aí.

6- Tens feito muitas colaborações, é um meio pequeno em que toda a gente se conhece e são todos amigos?
De maneira alguma. Tem um bocado a ver com a forma como cresci e os artistas que ouvia, era rap francês, nem foi tanto o americano. Esta questão das colaborações a meu ver é enriquecedora, tanto para o artista que convida como para o convidado. Se convidar um artista que o meu público não está habituado a ouvir, é benéfico para ele, porque vai chegar a quem habitualmente não chega, e para mim, porque posso estar em estúdio e partilhar o método e vivência musicais com alguém que aprecio. Embora aqui em Portugal ainda haja uma certa reticência em os artistas se envolverem e colaborarem uns com os outros, porque as pessoas sentem sempre que têm qualquer coisa a proteger e defender, acho que isso é extremamente saudável, aliás, grande parte da minha carreira incide sobre participações por esse motivo.

7- Tens ganho vários prémios, no ano passado palco actuaste no palco secundário do Sudoeste, este ano no palco principal, ainda tens muito por onde crescer por cá?
Acho que sim, no fundo estou sempre à procura de fazer coisas que acrescentem valor à minha carreira e penso que, até agora, 2015 foi de longe o melhor ano da minha carreira. No espaço de seis meses ganhámos dois prémios de votação pública, é importante salientar isto, não são prémios fabricados nos bastidores ou nos lobbies, em que há três ou quatro pessoas a decidir porque têm determinados interesses. Tendo em conta que sou um artista independente e que estava a concorrer com artistas que estavam a trabalhar ao abrigo de editoras majors, na Sony, na Universal, por exemplo, poder ganhar denota que no final do dia a música fala sempre mais alto. Se tens o público contigo, não há como contornar isso. Apesar de ter sido um ano muito bom, há sempre mais coisas a fazer, a nossa ambição é maior do que o que conseguimos fazer até agora. Foram palcos grandes, bons palcos, vou fazer este ano 80 ou 90 concertos, qualquer coisa assim, isso é de louvar porque com uma estrutura totalmente independente é uma coisa um bocado inédita em Portugal. A partir de agora o nosso desafio é fazer música nova, boa música e criar coisas que as pessoas não estejam à espera, tentar surpreende-las sempre.

8- Esse lado independente é o que faz sentido nos dias de hoje?
Ambas as coisas fazem sentido, agora cabe ao artista perceber o que é que serve melhor os seus interesses. Para mim tudo isto fez sentido até agora, a estratégia foi toda pensada por nós, o investimento é todo nosso, tudo gravita à nossa volta, não há aqui pessoas de fora com poder para opinar sobre o caminho que queremos seguir. Num futuro próximo, caso se justifique, poderei trabalhar ao abrigo de uma editora grande, se me sentir confortável nesse sentido. Acima de tudo é importante ter autonomia, tanto para decidir como artística. Se isso suceder, poderei estar numa major.

9- Em 2013 estreou um filme chamado Jimmy P, que por cá recebeu o subtítulo Realidade e Sonho. Qual é o teu sonho?
Tenho vários. Um dos grandes sonhos que tinha era lançar um álbum independente, já tenho dois. Outro era ganhar um prémio de melhor artista nacional, também já o concretizei. Nesta altura o meu maior sonho é ser pai. E ser um bom pai.

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