1 - O jogo tem perguntas desde a década de 80 até esta em que nos encontramos. Apanhaste temas recentes que desconhecias e te fizeram sentir menos jovem?

Tinha obrigação de dizer que não, a minha cultura geral é de tal maneira tremenda que já nada me espanta, tudo me soa a déjà vu. O que me assusta nestes jogos é que acabas por descobrir o pouco que sabes, mesmo nas décadas que dominas. Por um lado é inquietante, por outro o que torna estes jogos tão viciantes é que te estás verdadeiramente a pôr à prova. Dá-me a sensação que uma das razões do sucesso específico deste jogo é que tem esta função maravilhosa de não ostracizar gerações, nem sequer os mais velhotes. Basta pegarem no telefone e aprenderem a usar o dedo, não há aquela coisa dramática dos comandos que os faz assustar imenso. Noutro dia recebi uma mensagem do Dubai, de uma miúda, que dizia assim: “Muito obrigado por a sua voz nos fazer companhia e matar saudades de Portugal sempre que jogamos aqui.” Faz parte de um grupo de portugueses a trabalhar no Dubai, que se juntam para jogar. Só quem está fora é que percebe estas pieguices. Hoje percebo perfeitamente que estar em Newark e poder comer umas sardinhas assadas é absolutamente fascinante.

2 - Qual é o teu jogo preferido, independentemente do formato?

É este, que eu não tenho tempo para jogos. Gostava muito de jogos de cartas, antigamente, depois a minha vida ganhou um ritmo de tal maneira avassalador... Tenho de escrever também muito material que faço para televisão, por isso é que te digo que este é verdadeiramente um caso à parte. Considero-o mais um fenómeno que propriamente um videojogo.

3 - Tens conseguido adaptar-te ao novo mundo, como mais recentemente ao Instagram. São os meios que levam a que chegues a esses fins, ou há ideias que tens na gaveta e muitas vezes ainda não é relativamente simples colocá-las em prática?

É tudo espontâneo. Mantenho a minha característica dos 16 anos, 17, é como se os anos não tivessem passado e eu vivesse no quarto típico de filho único, com essa maravilhosa ajuda chamada net, que permite meter o nariz em tudo, em todas as áreas, e essa feroz curiosidade eu mantenho e acho que não a vou perder até ao final. Quando surgem este novos meios, tipo Instagram, eu já brincava àquilo há anos, com umas máquinas de filmar pequeninas da Sony, para uma coisa para a Sapo, que eram os Incorrigíveis. Os outros, que eram o Ricardo Araújo Pereira, Bruno Nogueira, filmavam-se cinco minutos, por exemplo em frente a uns livros, em casa. Eu na altura já tinha necessidade de montar coisas visuais, com música e truques. É como se de repente este progresso finalmente chegasse àquilo que eu precisava para me exprimir, e não ao contrário. Não sou eu a adaptar-me aos novos meios.

4 - Se contasses a algum destes jovens aqui na Lisboa Games Week, nascidos numa Europa sem fronteiras e com uma moeda única, que te obrigaram a escolher a nacionalidade portuguesa e ir à tropa, ou a alemã e abandonar o país, sendo que só não nos deixaste porque entretanto aconteceu o 25 de Abril, pensas que acreditavam em ti?

Acho que sim, porque hoje em dia o mundo continua muito complicado. Basta imaginar que neste momento vão não sei quantas pessoas a caminho da América, com o sonho de serem americanos, ou a quantidade de miudagem que ainda hoje tem de sair do país, a caminho de Londres e de outros sítios, para ver se conseguem ter uma vida um bocadinho mais original… E é numa época em que a Direita volta a ter expressão e orgulho, quando era uma coisa mais ou menos envergonhada. A um jovem de hoje em dia acho que é fácil de entender. Curiosamente, àquela geração que nasceu nas grandes liberdades, talvez seja mais difícil de perceber. E depois há coisas da democracia que se alteraram, as leis do terrorismo foram pretexto para se tirarem imensas liberdades às pessoas. São as regras do jogo.

5 - Achas que quem ainda se lembra do tempo sem telemóveis, Facebook, YouTube e assistiu a isto tudo a aparecer vive na época mais fascinante de sempre?

Absolutamente. Não imaginas o que sofri com a ausência de telemóveis. As coisas horríveis que me aconteceram, como por exemplo ficar sem embraiagem às quatro da manhã, no meio do Alentejo e não ter como contactar ninguém. Ter de esperar pela manhã seguinte dentro do carro, para ir a pé não sei quantos quilómetros, ao primeiro café para ver se conseguia telefonar a alguém para mandar vir um reboque. As pessoas nem se lembram. A dificuldade que era teres um guião de um programa de televisão, do Tal Canal, por exemplo, era uma lista telefónica que tinhas de ir entregar em mão, não tinhas outra hipótese. Lembro-me de estar em 1977 em Macau e dar na televisão uma grande inovação, que era o fax. Mas só se instituiu bem passado uns anos e não te atrevias a mandar 180 páginas, mandavas duas! É inacreditável o que as coisas evoluíram.

6 - Gostavas de ter vivido em qualquer outra fase da humanidade?

Não, não, não. Acho todas as fases uma desgraça, sobretudo por causa das doenças. Gostava de viver numa fase mais à frente, em que a pessoa não precisasse de morrer de formas atípicas e cruéis. Em que não existam mortes como as por cancro, que são miseráveis, as escleroses laterais amiotróficas, tudo o que implique grande sofrimento das pessoas e das famílias. Acho que a humanidade do futuro vai um dia poder adormecer serenamente, quando tiver de ser, se calhar combinando com o seu médico assistente. Já muito cansado, algures aos 108, 112 anos, tomar um caldinho de galinha com uma substância que o faça ficar a dormir durante a noite. Isso seria para mim o ideal e esse tempo há-de vir...

7 - Achas que ainda vais ter tempo para fazer tudo o que desejas?

De maneira nenhuma. Acho que quando perceber que vou morrer, vou ficar completamente furioso. A menos que tenha uma morte rápida e sem dar por isso, o que não me importava nada.

8 - Além obviamente da família, quem convidavas para a ceia de Natal, seguida de um jogo de Saber é Poder enquanto esperavam pelo Pai Natal?

Tenho alguns colegas que certamente convidaria, que estão comigo há muitos anos e que eu estimo. Tenho alguns amigos, poucos, não tenho grande espaço para cultivar grandes amizades. Estou convencido que o jogo mais divertido seria com aqueles meus colegas históricos, a Rueff, o Monchique...

9 - Já escolheste resoluções de Ano Novo?

A partir de uma certa altura, nós só temos uma única resolução: manter a qualidade de vida e artística mais um ano. Não perder cabelo, não partir a anca, não ter problemas na próstata, manter a voz boa, essas coisas todas. É sempre manter o que está bom e não estragar.

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