1- Vou começar por querer saber se os cinco Nameless Ghouls são sempre os mesmos, com qual deles estou a falar e porque é que nunca deixam o Papa dar entrevistas?
Eu toco a guitarra principal, formei a banda e escrevi a maioria do material, logo estou desde o início. Existiram algumas mudanças, mas há uma base sólida de pelo menos três pessoas que se mantêm. E obviamente trocamos de Papas de vez em quando. Houve alguma rotação nos bateristas e baixistas. Em relação ao Papa, ele não está interessado em dar entrevistas. E tens que perceber que ele é uma personagem, seria como se quando o próximo Star Wars sair um jornalista ligar para a produtora do filme e dizer “quero fazer uma entrevista com o Han Solo”.

2- Os Ghost têm um som pesado com uma sensibilidade pop. Foi uma decisão racional ou simplesmente aconteceu?
O que fez nascer o projecto foi a criação de algumas canções que tinham um sentimento muito especial. Senti com grande convicção que era um som que nunca tinha ouvido. Como é óbvio, conheço várias bandas que têm um ou dois aspectos semelhantes, se fosse para os Mercyful Fate teria as partes pesadas e os elementos de horror, mas para ouvir grandes coros exuberantes, tinha que saltar para os Genesis ou Journey. Senti que seria porreiro misturar vários elementos e encontrámos uma maneira de o fazer sem partir a espinha. Às vezes as pessoas tentam ser tão originais que só o são porque ninguém quer ouvir aquilo. Como numa cozinha, por vezes é difícil fazer com que as coisas funcionem. Mas é assim que nascem coisas fantásticas. [risos] Isto parecia um desses casos, em que tinhas um gelado de gengibre, vinagre e morangos. Uma combinação estranha, mas sabe bem.

3- Tanto as bandas que mencionaste como as de que fazem covers, como aconteceu com os ABBA ou os Beatles, são dos anos setenta e oitenta. Gostam de alguma coisa recente?
Claro que gosto, mas infelizmente tenho que dizer que não aprecio muito o hard rock e metal que foi feito após os anos noventa. Existem excepções, mas o movimento em si durante os últimos quinze, vinte anos, não faz o meu género. Sou alérgico a tudo o que lembre Nu metal, que é a maioria do que saiu nesse período, portanto em relação ao metal sou bastante old school. Mas apesar disso adoro Mastodon, Deathspell Omega e algumas bandas assim, mas não é esse o som das bandas de hoje em dia. O que nos influencia é definitivamente dos anos sessenta, setenta e oitenta. Temos uma lista de coisas que queremos gravar, duas delas são dos anos oitenta, uma banda sueca chamada Imperiet e a segunda é Echo & the Bunnymen. Vamos ver como acontece.

4- Vocês chegam a tocar em palcos enormes como o Rock in Rio Brasil, mas em Portugal vão actuar num espaço bastante pequeno. Como é que se adaptam em termos de produção do espectáculo durante uma digressão?
Para a preparação mental digo bastantes palavrões. Queres é tocar no Pavilhão Atlântico, para poderes fazer o espectáculo que queres mesmo trazer, mas obviamente não podemos fazer isso, temos que começar num nível diferente. Vai ser bom, tentamos criar um formato que funciona, acrescentando ou retirando um pouco a cada noite. Mas por vezes o oposto também é difícil, quando tocamos no Rock in Rio, para aquele palco ficar porreiro tens que levar basicamente tudo o que levarias para o Pavilhão Atlântico. Quando és uma banda que não faz espectáculos desses todas as noites, não tens esse tipo de produção. Foi como quando nos pediram para ser cabeças de cartaz no Hellfest, porque o Danzig tinha que sair mais cedo. Estamos a falar de um palco grande ao ar livre, quando íamos lá para tocar numa tenda, durante a tarde. Como é óbvio não tínhamos tudo connosco. Acabou por correr muito bem, ficou um dos nosso festivais preferidos para a eternidade. São dores de crescimento de uma banda que é convidada para tocar no Rock in Rio, Hellfest, mas também no Paradise Garage ou Hard Club.

5- E em relação à roupa, se estiver muito calor não podem aparecer de calções. São sempre confortáveis ao longo do ano, dia e noite, ao ar livre e espaços fechados?
Durante o Verão é óbvio que não são ideais, tocar de capuz, hábito e máscara, claro que não é muito confortável se estiverem quarenta graus. Mas não é um incómodo tão grande como se possa pensar, até porque já nos habituámos. E por vezes, especialmente no deserto, quanto mais usas, mais protegido estás. Com esse calor e sol directo, pode ser mais doloroso se estiveres de camisola de alças e calções. Mas se começarmos outra banda, garanto-te que não vai ter hábitos. [risos]

6- Já trabalharam com o Dave Grohl e bandas como os Metallica e os Iron Maiden elogiam-vos bastante. O que é que faz com que no meio gostem tanto de vocês?
Acho que os mais velhos, à falta de uma definição melhor, gostam de nós porque os lembramos de algo. A maioria de nós cresceu a ouvir Kiss, Alice Cooper, Bowie... Penso que o que nós fazemos mexe com essa geração mais velha. Por outro lado, também nunca nos armámos em parvalhões, não tentamos ser bacanos. É como em qualquer empresa, tu trabalhas para ir subindo, se fores simpático, quiseres entrar no jogo, ouvires, deres e receberes, não fores graxista, se as coisas saírem naturalmente isso pode levar-te longe. Há tantas bandas que são convidadas para tocar em festivais ou com bandas maiores, chegam lá, armam-se em parvos e desgraçam-se todos porque querem fazer toda a encenação do rock. Podes ter uma noite divertida, mas não te vão pedir para voltares.

7- Como é ser famoso na vida profissional e anónimo na vida privada? Preocupaste com coisas como penteados, ir ao ginásio ou ficar bronzeado?
Temos algum conforto por estarmos numa banda conhecida, mas que não é super famosa. O que é porreiro, porque as pessoas não nos incomodam como o fariam a uma figura pública. Eu e o outro guitarrista saímos ontem na nossa cidade e as pessoas vêm dizer-nos olá. Mas por causa do anonimato, normalmente são mais porreiras, respeitam que não queremos ser reconhecidos. Partilham o segredo, mas não é lá grande segredo se são dez pessoas por noite. [risos] Mas são simpáticas, conheço gente de outras bandas que é incomodada, do género, “és rico, paga-me uma cerveja”. Ou então pagam-te uma cerveja, mas querem ficar contigo o resto da noite e se disseres que estás ali com o teu irmão, ou a tua namorada, ouves um “vai-te foder, não queres estar com os teus fãs”. Mas eu não fui ali para estar com os meus fãs, vim com o meu amigo.

8- O que é que os Ghost fazem em digressão quando não estão em cima do palco? Gostam de futebol, vão ver o próximo Star Wars?
Claro, já marcámos o dia na digressão do Outono em que vamos ver o Star Wars. E adoro quando andamos a tocar no Verão e há um Mundial ou um Europeu, é fantástico. Não sou um fã enorme, não sigo as ligas todas e tal, mas adoro jogos entre selecções. Somos um grupo de gajos normais, viajamos pelo mundo, o que é divertido, alguns gostam de fazer exercício, outros de ir a lojas de discos, todos gostamos de boa comida. E se estivermos de folga e existir uma banda a tocar na cidade, claro que vamos ver. Essas coisas de que gajos normalmente gostam.

9- E com todo esse poder visual, como é que ainda não têm um DVD ao vivo?
Estamos a esperar até podermos dar um concerto próximo do que queremos apresentar. Obviamente que o Rock in Rio é um grande concerto, impressionante, mas não era o nosso palco. Agora estamos a começar esta digressão e demora algum tempo até estar mesmo afinado. Queremos ter uma setlist excelente, tocar num sítio bastante grande, de preferência esgotado e em frente a um público com vivacidade. Por isso é que se vai para Espanha, Portugal, Brasil, América do Sul. Há qualquer coisa fogosa no mundo latino, o que é fantástico se quiseres ter um bom DVD ao vivo. Odeio dizê-lo, mas não queres gravar um na Suécia, ou na Escandinávia em geral, porque as pessoas habitualmente só estão lá paradas, não é divertido de ver. Mas andamos a falar nisto há anos, durante este ciclo esperamos conseguir fazer um que retrate o que a banda é ao vivo.

Partilha isto: