1 - Porquê escolher o nome do tema da revista que vos convidou para título do livro?

FILIPE MELO O convite que nos foi lançado pelo Carlos Vaz Marques deixou-nos um bocadinho desarmados porque ter banda desenhada numa revista de literatura fez-nos enfrentar o desafio com muita responsabilidade. Depois como nos entusiasmámos e fizemos muito mais do que era suposto, não ia caber tudo na Granta e decidimos lançar este livro. É quase uma extensão do convite para algo que se tornou mais pessoal. Foi uma espécie de semente que foi crescendo e ultrapassou o convite original. Portanto, o título pareceu-me lógico porque uma das histórias é sobre comida, outra é sobre bebida e também relaciona com o que deu origem ao projecto.

JUAN CAVIA Às vezes pensava nisso, houve um momento em que o pus mais em dúvida, também não o mudámos porque não apareceu um melhor. Agora à distância é um título muito simples, o livro é simples e as histórias são simples, e de tão simples que é pode-se começar a procurar um sentido mais profundo. Por outro lado, é um nome que permite ao leitor tirar as suas próprias conclusões.

FILIPE É um título muito impessoal que acaba por não o ser. A história é sobre comida e sobre bebida, mas é sobre muito mais do que isso. É sobre as memórias afectivas que relacionamos com os sentidos. De vez em quando ouve-se uma música, ou vê-se uma fotografia e desperta uma série de memórias e é esse tema que estávamos a explorar.

2 - Uma das histórias é verídica. Era algo que já conheciam e estavam à espera do momento certo para usar?

Foi partilhada por uma grande amiga minha que se chama Nádia Schilling, vinha no diário da mãe dela, sobre o avô da pessoa que estava a narrar, portanto o bisavô da Nádia. Pareceu-me também um desafio muito grande adaptar uma história verdadeira, era uma coisa que há muito queria fazer. Falei com o Juan e entretanto surgiu uma segunda história que era ficção. Falámos bastante sobre qual é que havíamos de fazer e sentimos que eram dois capítulos de uma mesma história, apesar de se passarem com 40 anos de distância, em países diferentes e de não terem nenhum personagem em comum.

3 - Depois da guerra colonial em Os Vampiros, agora Majowski, a primeira história, passa-se durante a II Guerra Mundial. Há mais acontecimentos históricos que gostavam de explorar?

FILIPE N’Os Vampiros abordámos a guerra como uma personagem central, ao ponto de quase ser uma manifestação física deste conceito abstracto da guerra. Neste aqui a guerra funciona com um contexto e concentramo-nos numa pessoa, os conflitos internos da personagem. Isso acho que foi talvez o objectivo maior, perceber como é que aquele homem pensa, como lida com determinadas situações e foi isso que nos interessou. Não temos propriamente um objectivo de carreira, concentramo-nos sempre na história, no que queremos contar naquele momento e muitas vezes o contexto aparece naturalmente.

4 - De onde é que surgiu a segunda história, Sleepwalk, relativa ao comer?

JUAN Não me lembro. A origem não me recordo.

FILIPE Também sinceramente não me lembro. Muitas vezes, tanto eu como o Juan passamos facilmente meses à procura da resposta para um problema de uma história, esta aqui foi daquelas que apareceu assim quase como uma raspadinha cheia de dinheiro. Tenho a impressão que foi a tensão do convite. Quando o Carlos Vaz Marques nos abordou na Feira do Livro para fazer aquilo eu juro, pela minha saúde, que pensei que fosse um convite de cortesia, tipo calor do momento.
E quando de facto aconteceu fiquei com aquele pânico que normalmente pode ter dois resultados: o falhanço total ou então de repente aparece qualquer coisa. Apareceu assim do nada. O que me deixa a pensar que se calhar há aquele fenómeno sobrenatural da história querer ser contada e nós sermos apenas veículos, uma coisa que oiço bastante na música, depois uma pessoa fica a pensar: “Quem me dera que isto me acontecesse um dia”. Se calhar aconteceu com a banda desenhada. Soa mais arrogante do que aquilo que é, não estou a comparar com nada. Estou só a dizer que a história apareceu do nada, como se quisesse ser contada e isso foi uma grande bênção, acho eu, para nós.

5 - Continuam a trabalhar à distância e da mesma forma desde o Dog Mendonça e Pizzaboy?

JUAN Sim, os anos vão-nos deixando velhos e custa-nos mais, este livro foi 100% feito à distância porque a última vez que nos vimos foi quando nos convidaram para a Granta, na Feira do Livro, e agora voltámos a juntar-nos para apresentá-lo. Mas seja a apresentação de um livro, a Comic Con, algum evento que o justifique, aproveitamos sempre esse tempo para a parte mais complicada, porque ele escreve e eu desenho, depois há o momento em que essas coisas se cruzam, no princípio e no final, em geral. No início porque há que encontrar a lógica, que é só uma, e o final são todos os pequenos detalhes. Esses são os dois momentos mais difíceis à distância, por causa da diferença de horários, mas também foi assim que começámos a trabalhar e estamos acostumados, faz parte da nossa relação.

6 - Neste caso tinham um prazo externo, mas normalmente conseguem prever quanto tempo vai demorar a fazer um livro?

JUAN Tratamos de traçar objectivos porque, caso contrário, como não é um emprego, é algo que fazemos os dois em part-time como podemos, se não puséssemos algumas datas poderia não resultar. Alguns livros requerem mais tempo, outros requerem menos. Este, por exemplo, se não entrássemos com as duas histórias na Granta, editamo-lo depois e foi assim que o tempo foi estabelecido. A que saiu na Granta foi uma opção, é a que funciona melhor estando sozinha. Começámos com a Majowski e a sangue frio demos prioridade à que funciona melhor.

7 - São como uma banda, nesta área só se vêem a trabalhar juntos?

FILIPE Não tenho dúvida nenhuma.

JUAN Diria que sim. Está claro que quem escreve o argumento é ele e quem desenha sou eu, o que vem e pinta e não me ponho a escrever diálogos, mas sei que os meus desenhos ficam melhores através dele, porque os vê com um olhar crítico, e esta é a parte mais difícil do ego de uma pessoa quando cria algo, porque vem uma pessoa e diz-te “isto aqui não se entende” ou “isto não funciona”. Sei que ele o vai fazer pelo bem do projecto e temos as nossas discussões mas no final chegamos sempre ao melhor resultado, não por uma questão democrática, “que seja 50/50”, não, às vezes é 70/30, 60/40, ou 90/10. Há vezes em que interfiro em questões de argumento, sei que é difícil para ele, mas são sempre coisas que a mim me fazem confusão, não é só para poder opinar. É um trabalho claramente em equipa.

FILIPE Também acho mesmo que isso é uma sorte tremenda porque ao longo dos anos fomos trabalhando como muitas pessoas em diversas áreas e as coisas começam, as coisas acabam e de facto é a primeira vez que trabalho há 10 anos com tanta regularidade com a mesma pessoa. Isso implica acima de tudo uma grande confiança e uma grande ausência de ego, o que nos motiva de facto é o resultado, é sempre uma experiência tremenda ver um livro acabado e que as pessoas o lêem, vai ser sempre especial.

8 - O Dog Mendonça e Pizzaboy foi inicialmente pensado para cinema e entretanto assistimos a coisas como o Fight Club ser continuado em BD. É o meio em que se consegue maior liberdade criativa?

JUAN Em alguns campos tem muitas limitações, em comparação ao cinema, por exemplo, é algo muito mais contundente e concreto, com lindas imagens, mas não tem música, não tem som, não tem montagem. Diz-se que é o cinema dos pobres, porque está um passo atrás, mas é de alguma maneira bastante similar.

FILIPE A primeira vez que me apercebi realmente das limitações que pode ter foi numa história nova que temos estado a trabalhar: começo a escrever a cena em que há um concerto, uma peça maravilhosa do Ravel, ponho aquilo a tocar e escrevo a cena e de repente, “isto é a melhor cena que já escrevi, é espectacular”. Vou dormir, no dia a seguir leio aquilo mas já sem a música e era uma merda. Tive de estar a rever aquilo tudo. Aquela sensação foi a música que deu, não foi propriamente o texto, e um gajo fica orgulhoso e de repente apanha a desilusão.

9 - Já estão portanto a trabalhar noutro livro?

JUAN Estamos a trabalhar num projecto grande e ambicioso. Está na fase inicial. A ideia vem de há muito, de antes d’Os Vampiros mas agora estamos a dar-lhe forma.

FILIPE Era um objectivo ter assim uma coisa com dimensão maior que o resto. Isso só seria possível fazer nesta altura em que de repente já temos algumas pessoas que lêem as nossas coisas, temos a liberdade de poder não fazer sempre a mesma coisa, sabemos que há pessoas que vão arriscar connosco, se calhar chegam a uma livraria e dizem, “Deixa ver o que é que eles andam a fazer”, e é isso que também nos dá liberdade de poder fazer, mesmo em termos de produção, um livro maior, e de ter uma editora que nos sustenta. Que nos sustenta é um bocadinho ingrato, ter uma editora que nos apoia, de repente queremos ter um livro gigante e eles estão connosco. Nesse aspecto é assim um caminho.

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