1 - O Kalaf no texto de apresentação do disco disse que “depois dos quarenta é que o corpo passa para segundo plano”. Isso reflecte-se num álbum mais introspectivo e num convite a cada um se interrogar se o entretenimento actual é apenas um condimento ou o prato principal das nossas vidas?

O lado introspectivo sempre foi uma constante naquilo que faço mas se calhar ganha outro contorno. Acabei por dar ao disco o nome Entretenimento?, porque a questão é um bocado essa: O que é que é? O que é que não é? Quais os seus limites? Qual é o meu papel no meio disso tudo? Às vezes dou por mim, estamos a ensaiar e eu estou a filmar para fazer uma história. Essas coisas já estão muito presentes, quase sem dares por elas. Não sei se dou muitas respostas, mas perguntas faço muitas.

2 - #Demasia é uma crítica à sociedade que vive uma realidade virtual, mas temáticas mais polémicas não têm sido o foco nos teus trabalhos a solo. A avaliar pela evolução das coisas, podemos esperar então roupagens mais cruas ou agressivas?

Talvez, talvez. Funciono muito por ciclos e às vezes preciso de renovar. Apesar de nunca fazer um disco só de músicas de amor ou só de crítica, enquanto Carlão, quando os últimos temas visíveis são mais canções de amor, por exemplo, mais cedo ou mais tarde vou ter que largar outra coisa enquanto single, porque preciso de ter esse lado presente, senão cansa-me um bocado.

3 - Esse single foi produzido e escrito com o João Nobre, o teu irmão. Se há muito que não ouvíamos o nome dele, pode ser isto um trampolim para o seu regresso?

O meu irmão vive em Cabo Verde, está à frente de uma agência. Ele sempre foi workaholic, portanto está super concentrado lá na cena da publicidade, mas eu sei que aquele gajo só vai parar de pensar em música quando parar de viver. Se mostra ou não, já são outros quinhentos, o bichinho está lá sempre. Estou muito contente porque puxa sempre um lado porreiro meu, há qualquer coisa na maneira de ele fazer música que gosto muito.

4 - O Slow J quando lançou o álbum de estreia fez questão de dizer que tu eras uma das suas grandes referências. Esta colaboração neste novo disco surge como um abraço retribuído?

Quando ouvi o álbum dele percebi que está aí um dos valores mais fortes da música portuguesa dos últimos anos. É uma pessoa muito completa, compõe, rima bem, canta bem, tem uma perspetiva muito única em relação ao mundo e em relação ao próprio hip hop.
É um gajo que também vem de bandas, até veio de cenas a ver com metal e a ligação dele com os Da Weasel passa um bocado por perceber que éramos uma amálgama de várias referências entre as quais algumas são as dele também. Isso tudo acaba por bater certo. Mas é mais do que um abraço. É também querer fazer música com alguém que considero bastante.

5 - Outra das colaborações muito especiais foi com o Manel Cruz. Como é que 14 anos depois de o teres levado para Casa, com Da Weasel, se gere um reencontro destes?

Eu tinha feito coisas para o Foge Foge Bandido depois disso, mas também já foi há muitos anos. Temos praticamente a mesma idade e quando nos conhecemos não havia filhos, entretanto ele tem três, eu tenho duas e as nossas vidas mudaram significativamente, mas acho que temos vindo a passar por processos muito parecidos. Fizemos os dois parte de uma banda que foi importante e depois acabou, temos ali muitos pontos em comum. Há muita gente que ouve falar nesta colaboração e obviamente pensa no Casa e vai ouvir o tema e aquilo é outra coisa completamente diferente. O Casa era um tema nosso, Da Weasel, e ele foi lá fazer um refrão, aqui a música é dele. Mal ele me manda o tema com uma ideia de refrão, eu disse, “Este verso que tenho aqui parado encaixa na perfeição” e isso é muito giro, esse encaixe, precisamente por estarmos numa fase da vida parecida. Estou muito satisfeito. Provavelmente é o próximo vídeo que vou fazer.

6 - Um “isto está fixe” fechou e confirmou um formato mais orgânico na canção com António Zambujo. O nome Bebe um Copo foi uma auto-dica para ti quando decidiste dar uma melodia mais cantável aos teus versos ou isso foi algo natural num registo tão intimista?

O Zambas, cada vez que a gente se encontra, regra geral é porque somos convidados para uma cena qualquer e não é o concerto nem de um nem de outro, vamos beber uns copos e temos sempre umas conversas muito boas. Já tinha alinhavado que queria fazer uma coisa com ele. Quando falámos, perguntou, “E em relação à produção para isto?”. E eu disse, “Produção? Não há produção nenhuma, não há arranjo nem nada, é mesmo por aqui, voz e guitarra, cena simples, que fica quentinho e bom”. Acho que não há fórmulas, há pessoas neste disco que eu nem estive com elas e também funcionam bem.

7 - No Quarenta, eras tu e jovens produtores a mexerem nos beats; a banda foi nascendo na estrada. Agora até com novo baterista, a composição deste novo disco em nome próprio acaba por beber os inputs de todos?

Há ali algumas coisas, por exemplo o Nuno gravou um baixo, há um tema do Gil, mas são coisas muito tímidas. O grosso da produção acaba por ser feito por pessoas externas, também comigo. O que acontece depois é que as músicas ao vivo, e isso é muito fixe, ganham cores diferentes que não se esgotam no disco e aí sim, a banda começa cada um a dar-lhe o seu toque, a sua interpretação, elas levantam ainda mais. Mas no disco, além de o Bruno obviamente ter uma preponderância muito grande, em termos de banda foi por aí.

8 - Esperaste três anos para lançar o Entretenimento?, já com três singles a entrarem nos ouvidos dos fãs; nas duas semanas entre o anunciares e efectivamente sair, o Eminem lançou um novo álbum sem aviso prévio. Numa era de imediatismo, devia ficar mais fácil resistir a planos para datas especiais?

Não sei. O paradigma da indústria mudou, não só da música mas de tudo e há coisas que, valham a pena ou não, é assim que és e que vais continuar a fazê-las, não é? Eu tento não ficar lá atrás, mas também não fazer tábua rasa a tudo o que vivi até agora, só na fuçanga das novas tendências. Acabo por tentar manter a minha identidade e adaptar-me sempre que possível. Há coisas que consigo, outras nem por isso. Queria muito lançar antes do Verão, mas as coisas atrasaram-se tanto, tivemos problemas na fábrica com a capa, que tem um tratamento especial e na verdade fiquei um bocado lixado. Depois íamos entrar no Verão e decidimos, se não sai agora, sai em Setembro, o pessoal vai entrar naquela onda da silly season e para comunicar um disco não é muito fácil. Às vezes há essa fuçanga do “Tem que ser agora”, mas há outros valores que se impõem.

9 - Saindo em cima do Outono, o que é que se segue, uma tour de teatros e auditórios?

Não sei bem. Gosto muito de auditórios pelo contacto que há com as pessoas, olhos nos olhos, esse lado mais intimista é porreiro. Sentir que realmente estão a perceber o que é dito, essa partilha para mim é muito importante, é quase como uma purga e isso perde-se um bocado quando são aqueles concertos muito grandes. Portanto, se houver auditórios para fazer, vou fazê-los.

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