1. Porquê recomeçar?

Não editava nenhum disco há quatro anos, desde o Soul Notes, e neste período passei por algumas experiências que me fizeram amadurecer como mulher. E isso reflecte-se no meu trabalho profissional, é impossível desligar uma coisa da outra. Iniciei novos capítulos também, e tudo isto me fez sentir que estava a recomeçar, a começar novamente e do zero.

2. Esse tempo entre álbuns era o ideal ou aconteceu?

Acho que é um misto dos dois. É óbvio que durante estes quatro anos dei por mim muitas vezes a sentir-me ansiosa, o “está na hora de lançar agora, já passou tanto tempo”. Mas agora, no final de tudo, sinto que tinha de acontecer, tinha de passar por estas coisas todas, de parar. Foi um processo necessário para que saísse este trabalho desta forma e com o peso que tem, acho que faz parte.

3. Logo com o primeiro álbum gravaste ao vivo nos Coliseu dos Recreios e ganhaste o Best Portuguese Act da MTV. Sentiste a pressão de ter que manter o nível?

Sente-se um bocadinho, porque o público também te faz lembrar isso constantemente, está sempre “então quando é que sai o próximo disco?”, “achas que é bom?”, “achas que vamos gostar?”, e é normal que esta pressão te cause ansiedade, com muita responsabilidade à mistura, porque queres estar à altura da expectativa das pessoas. Mas também é bom sentir isso um bocadinho, que temos de ir além dos nossos limites, para que lancemos o melhor trabalho possível e as pessoas continuem a ouvir.

4. Actuaste no último Rock in Rio brasileiro com o Boss AC. Porquê ele?

O convite surgiu da parte do Zé Ricardo, o responsável do palco Sunset do Rock in Rio. O conceito é misturar músicas e cantores de estilos diferentes. E é aí que está a piada da coisa, é um desafio porque às vezes até podes pensar que o artista proposto não está directamente relacionado contigo, mas é engraçado ver como as coisas depois nos ensaios se encaixam... Construímos espectáculos de raiz, fizemos isso com The Black Mamba e com Boss AC, de forma a que tudo parecesse muito coeso e fluído. Assim que surgiu o convite aceitámos na hora, tanto eu como o AC, e foi um desafio que me deu imenso gozo, foi maravilhoso trabalhar com ele.

5. No entanton não tens nenhum dueto no disco. Não é algo que aprecies?

Não aconteceu, é óbvio que aprecio, e já fiz com o Adam Lambert, com o Nikolas Takács, da Hungria, fiz com o Héber Marques cá em Lisboa, na apresentação do meu segundo disco. Não calhou, mas vai voltar a acontecer em concertos, claro que vai, faço questão disso.

6. Os produtores deste álbum têm um currículo impressionante, nomeadamente a Cindy Blackman Santana. Foste em busca de um som específico?

Senti necessidade de romper um bocadinho com aquilo que já tinha feito e de procurar uma sonoridade nova, uma linguagem ligeiramente diferente. O nome da Cindy veio através do meu manager, que já tinha trabalhado com ela para um disco do Paulo Gonzo. Estive a investigar coisas, como é óbvio, trabalhos dela, e soube que trabalhava com pessoas que para mim são influências musicais muito fortes, como a Joss Stone e Lenny Kravitz. Enviámos o disco, ela gostou e era complicado conciliar as agendas, porque ela andava em tour a tocar com o Lenny Kravitz, mas conseguimos arranjar uma altura. Em Novembro fui para Las Vegas e numa semana e qualquer coisa gravámos. Aprendi muito, até só de os ver a trabalhar, porque são músicos incríveis... Estava habituada a o baterista gravar primeiro isolado, depois grava-se outro instrumento, depois outro, e eu gravo no final de tudo, sem contacto visual com ninguém. Ali gravámos todos juntos, numa sala, à antiga. Falámos muitas vezes disso durante as gravações porque tentámos que o álbum ficasse com um feeling muito live, uma coisa muito orgânica e acho que conseguimos fazê-lo, está coeso, acho que se nota que estamos juntos e na mesma sintonia, penso que foi um ponto muito positivo para este disco.

7. É fácil focar no trabalho em Las Vegas?

Muito, muito fácil. Não me identifiquei com Las Vegas. Para além disso fiquei hospedada no hotel onde era o estúdio, então saía do quarto, descia e ia para o estúdio, foi pouco o tempo que passei fora do hotel. Prefiro outras zonas dos Estados Unidos, mas o hotel era incrível e o estúdio também.

8. Nenhum milionário quis convencer-te a ficar por lá?

Não aconteceu, não entrou nenhum milionário pelo estúdio adentro.

9. Tudo isto também revela vontade de actuar para outros públicos?

Claro que sim, venham eles. Mas quero é dar a conhecer a minha música e adoro o nosso país e tocar aqui. Já tive oportunidade de tocar algumas vezes fora, mas estou muito focada mesmo é em mostrar a minha música cá em Portugal e ver como é que as pessoas recebem este trabalho, que está um bocadinho diferente dos outros. O resto, o que tiver de acontecer acontece.

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