1- É a tua primeira experiência no teatro?
Sim, fui convidada pelo Elmano Sancho, que já é actor de teatro há 14 anos. Foi agora premiado pela Sociedade Portuguesa de Autores, na categoria de melhor actor de teatro. Está a estrear-se no texto, já é director, encenador e actor. É uma experiência nova em tudo.

2- Como é que surgiu esse convite?
O Elmano quando idealizou o projecto pensou numa actriz com formação de teatro, mas depois quis alguém com background na área da pornografia e começou a fazer escolha de actrizes nos Estados Unidos, Espanha, e fez uma primeira selecção cá em Portugal em Abril. Em Junho entrou em contacto comigo e vim ter com ele a Lisboa. Ele disse que pela vivência, por eu ter estado fora de Portugal e termos mais ou menos a mesma idade e tipo de formação, achava que eu era a pessoa ideal para encaixar na peça.

3- O teu sotaque vem de onde?
Do Brasil. Cresci lá, foi onde passei toda a minha infância, até aos 13 anos.

4- O que é que essa morte do Eric Garner, que deu origem ao movimento I Can´t Breathe, teve de diferente em relação a outras vítimas recentes de polícias, de forma a inspirar a criação desta peça?
O Elmano estava nos Estados Unidos nessa altura e começou a reflectir sobre o assunto e achou que as pessoas hoje em dia estão sufocadas, porque têm que expor tudo, nas redes sociais, nos Big Brothers, senão fazem parte de um grupo pequeno, não existem. E estás obrigado a assistir pela televisão a assassinatos, violência, isso para ele é que é pornográfico, daí a analogia do tema da pornografia com o I Can´t Breathe. Uma amiga dele foi assassinada e ele viu a fotografia num jornal. Qual a necessidade de ele ter visto a amiga naquele estado? As pessoas não são obrigadas a ver esse tipo de agressão. As coisas entram na tua casa pela televisão sem filtro algum. A analogia que ele faz é essa. O guião não tem uma estrutura, nem uma narrativa e a pornografia tem essa imagem, é tudo sem filtro, não há uma narrativa nem personagens.

5- É fácil ensaiar uma peça assim, com poucas regras?
O teatro nunca é igual, todos os dias aparece uma coisa nova. E é um texto aberto, todos os dias há uma mudança, há sempre evolução.

6- Tu fazes de ex-actriz porno, ele de actor de teatro: a peça acaba por ser um espelho da realidade?
É uma mistura entre autobiografia e ficção, sem se perceber bem o que é o quê.

7- Quando entraste na pornografia não te preocupou ires ficar com esse rótulo de ex-actriz para o resto da tua vida?
No princípio é um bocado complicado, tens que conseguir encaixar toda essa situação, mas não é por estar a fazer os filmes ou achar que é algo errado. O problema não está no que se faz, mas no que as pessoas vêem e em que é que acreditam, a aceitação da sociedade, que tem um preconceito.

8- A pornografia é um capítulo encerrado?
Em princípio sim.

9- E o teatro, é para continuar?
Vivo um dia de cada vez, agora estou concentrada neste projecto, dedicada a ele, logo vemos o que acontece depois disso.

De 1 a 12 de Dezembro, no Teatro da Politécnica, em Lisboa. 3ª e 4ª às 21h00; 5ª a sáb. às 19h00.

Agradecimentos à Sexshop Museu Erótico, SB Nails e Preparação Fisica Imperatore Gym (Marco Antonio).

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