Achas que como António Ferrão terias uma carreira idêntica?
A verdade é como o azeite, independentemente do nome, se ele for bom, vem sempre ao de cima. Portanto não é pelo nome que se lhe dá. O marketing é muito importante, de facto e já aos 5 anos me chamavam Toy no bairro onde eu vivia. Quando fiz o primeiro disco, Dias de Paz, com o nome António Ferrão, comecei a ir à rádio e os ouvintes ligavam. Eu tinha 25 anos, ou 23, já não me lembro, e diziam “Sr. António Ferrão” e um gajo com o cabelo pelos ombros, brinco na orelha, era estranho. Na minha vida toda fui sempre o Toy, em casa, para os amigos, para a família, e portanto só tive que trocar o nome na capa do disco. Se teria o mesmo sucesso? O futuro apenas o universo o consegue definir, eu não consigo.

Emigraste para a Alemanha aos 17 anos, por amor. O frio e ter que aprender aquela língua estranha não te fizeram hesitar?
Não. Costuma-se dizer que se deve pensar duas vezes antes de fazer e eu continuo a fazer duas vezes antes de pensar. A impulsividade foi sempre o meu acelerador de vida. Já me dei algumas vezes menos bem com isso e outras muito bem, mas como sou autêntico e a verdade prevalece sempre, não tenho problema nenhum. Tenho as costas largas e a mente perfeitamente aberta a qualquer tipo de situação. Gosto de conversar e perceber. E, se calhar, não é por acaso que tenho neste momento uma versatilidade musical que vai de crianças de 3 anos a mandarem vídeos a cantarem a minha música ou lares de 3ª idade a fazerem coreografias, já para não falar de queimas e recepções ao caloiro. Isto deve ter a ver com a impulsividade. Portanto não há frio, não há neve... A minha impulsividade nunca foi de ir para caminhos escuros. Nunca iria a um clube de swing e nunca colocaria o meu pénis dentro de um buraco sem saber quem estaria do outro lado. Não sei se isto faz algum sentido, é uma imagem sexual, mas é uma imagem fixe.

Quando voltas já era com o objectivo de viver da música?
Sim, absolutamente. Tirei o curso de administração e comércio, depois acabei a contabilidade já na Alemanha, casado, por correspondência. Quis acabar porque fazia sentido, já tinha começado e não gosto de deixar coisas a meio. Bonito, bonito é aquilo que vocês sabem, feio, feio é deixar a meio e desleixo, desleixo... é deixar bater no queixo. Portanto, tirei o curso de contabilidade, mas não deixei de continuar na música como hobby. Tentei nunca perder tempo com coisas fúteis e dedicar-me sempre ao que gostava de fazer. Aprendi também a profissão de torneiro mecânico, porque fui trabalhar para uma fábrica, para ter dinheiro para comprar uma guitarra, uma mesa de mistura, um microfone bom, para depois poder dar o meu melhor. No fundo, passei uma vida inteira a tentar fazer o meu melhor, porque ser feliz é fazer os outros felizes, fazer com que sintam felicidade por nós porque são pessoas - ou inveja porque não são pessoas, são animais irracionais.

Fotografia - Bernardo Coelho

Depois do trabalho pesado que fazias na Alemanha, sentes que depois dos 25 nunca mais trabalhaste?
Não é o peso que faz o trabalho. Tudo aquilo que fazemos e nos dá cansaço, nos descoordena a própria vida, é uma obrigação. Quando essa obrigação está paralela a um prazer... imagina que eu era uma prostituta, e adorava como adoro sexo. Era uma obrigação ligada ao prazer, é um bocado isso. Faço o que gosto e ganho dinheiro com isso, mas não deixa de ser trabalho. Costumo dizer, “Agora já não gosto de fazer sexo, gosto mesmo é do orgasmo”, porque é a parte que custa menos e dá mais prazer. O sexo dá muito trabalho e faz transpirar. Neste momento, eu também gosto muito do concerto, mas gosto acima de tudo do encore. A única diferença é que hoje trabalho com prazer e antigamente trabalhava com obrigação, muita dureza e rudez. Mas sabia que ia ajudar a atingir os meus objectivos e acabava por ter um prazer quase masoquista no meio disso tudo.

Chegaste a estudar música?
O meu pai ensinou-me a fazer o dó maior na guitarra e segunda de dó nos ranchos folclóricos, que era o sol de sétima, foi a música que estudei. Não estudei mais música nenhuma, aliás andei na colectividade a aprender o solfejo e na segunda aula desisti, porque aquilo era uma seca do caraças.

Mas nos concertos até na bateria dás uma perninha.
A arte é uma coisa que nasce com a pessoa, não se aprende. Podes aprender a ser o músico do primeiro violino da orquestra mas numa serás o solista. A não ser que tenhas nascido com talento, aí nem precisas de papel de música. Há músicos excelentes a quem tiras o papel da frente e ficam a olhar para o ar, não sabem o que hão-de tocar. Há outros que pões o papel e interpretam aquela cena de uma forma fantástica. Ou seja, há a chamada música erudita e a música não erudita. Erudita é a música que é estudada. Eu era uma espécie de António Aleixo da música. Olhava para o papel no primeiro ensaio e ouvia. No segundo, já fazia exactamente o que lá estava, mas sem saber ler. Ouvia e tirava aquilo tudo.

Com os outros instrumentos também foi assim?
Com todos. O primeiro foi bateria, depois foi guitarra e mais tarde teclas. Sou uma alma que toca tudo.

Já ouve algum que tentaste pegar e que desististe?
Não, nunca desisti. Não sou nenhum instrumentista, considero-me um compositor e cantor. Gosto muito de escrever, componho por inspiração e não por transpiração, e como músico dou uns toques. Por exemplo, estamos em gravações e digo ao baterista “Faz-me aquele ritmo, não consigo explicar, olha faz isto” e sento-me a fazer. Tens que tocar todos os dias, eu não toco obviamente todos os dias. Toco nos concertos porque me apetece e não estou a prejudicar ninguém.

Já disseste que tens mais de três mil composições da tua autoria. Como é que isso é humanamente possível?
Houve uma altura da minha vida, em que cheguei a Portugal em 1988 e vou à editora Discossete. Fui lá, comecei a cantar e adoraram a minha voz. Eu já trazia gravações feitas na Alemanha, que não tinham nada a ver com os dois temas que depois gravei. Imagina que eu trazia o Highway to Hell, dos AC/DC e de repente dizem-me, “Agora tens que gravar o Aperta, aperta com ela, do José Malhoa”. Trazia o álbum num contexto e quiseram gravar dois temas noutro contexto. Um deles eu tinha escrito na altura para dar ao Marco Paulo, ele já tinha gravado músicas minhas, mesmo quando eu estava na Alemanha já enviava canções para Portugal. E na editora disseram, “Não dê isso a ninguém, cante você isso e grava”. Gravei essa canção, foi disco de prata na altura, 30 mil exemplares. E a partir daí houve o tal motivo que é: há venda, há comércio, há razão para dar continuidade.
A Discossete apostou e eu continuei. Depois ali a seguir disseram-me, “Toy, você tem aqui uma senhora para fazer um disco, são 10 temas, ela precisa de gravar amanhã”. Nesse dia escrevi os 10 temas e enviei por correio uma cassete com a voz e viola gravada para todos. No dia a seguir, enquanto ela os decorou, fui para o estúdio fazer os arranjos musicais e quando ela chegou deu voz. Em quatro dias, digamos assim, fizemos um álbum.

Fotografia - Bernardo Coelho

Fazias em série, é isso?
Podia agora fazer uma canção assim, “Como é bela a Rafaela, mas o que eu guardo é o Hugo e o Bernardo, porque esta noite vamos ter uma bela vista, quando estivermos a ouvir esta entrevista”, podíamos começar aqui já a improvisar. Sinto muita facilidade em escrever e depois tenho muita inspiração, carinho, amor e ternura, tenho mesmo. Eu gosto de pessoas, de amar, de ser feliz, de partilhar, gosto do toque. E se a comida e a bebida são alimentos do corpo, a arte é o alimento da alma, do espírito, do que quiseres. Como diria o filósofo, “Penso logo existo”. Não existimos porque temos corpo, existimos porque pensamos. Muita gente debaixo da terra está viva e muita gente que está viva já morreu.

Em relação aos teus discos, vão-te surgindo ideias e tomas notas ou quando é para compor fechas-te uns dias e escreves tudo de seguida?
Depende, depende. Uma vez liga-me o Luís Fialho Rico e diz-me “Estamos a pensar fazer as novelas agora com músicas originais, escrevemos as novelas e depois fazemos as músicas adequadas”. Eu escrevi a canção dos Olhos de Água e mais três canções para a mesma novela. Canções adequadas à história, tive que ler a sinopse e escrevi consoante aquilo, o que fazia sentido em cada personagem. Depois ir para o estúdio, fazer os incidentais, ou seja, num incidente dramático ou numa cena divertida, a mesma música tocada de várias formas. Foi um trabalho delicioso. Fiz o Nunca Digas Adeus, depois fiz o Último Beijo, esse tipo de trabalho tem metade inspiração e metade de transpiração. Por exemplo, escrever para o Buéréré, eu quando fiz aqueles temas todos para a Ana Malhoa, crianças, tinha que ser uma coisa pop, mas que tenha uma componente infantil, até didáctica e nasceu. Também é inspiração com transpiração. Agora contam-me uma história qualquer e pode ser tão interessante que chego a casa e a partir desse momento escrevo uma canção.

E agora quando decidires lançar o teu próximo álbum?
Faço o mesmo que neste, fui para as Maldivas por acaso de férias, com a minha mulher, e como lá não bebia álcool era só mesmo praia e sexo. Sexo é muito bom, ainda por cima liberta-te. Aproveitava os momentos mortos para escrever e trouxe 12 a 13 baladas feitas. Depois cheguei cá e fui cantar a uma discoteca, uma danceteria ou uma coisa qualquer e vejo aquelas senhoras fantásticas com 40, 50, 60, 70, 80 anos, lábios pintados, olhos e cabelos arranjados, extensões, aquelas cenas todas, de salto alto a dançar e fico “Fogo, isto já não é como no tempo da minha avó”: o homem divorciava-se e a mulher morria para a vida. Hoje não. A mulher liberta-se, solta-se, e é aí que nasce esta canção. Chego a casa e “Tenho que fazer uma canção para isto”. O coração não tem idade, as pessoas não têm que ficar a vida inteira sacrificadas a viver com quem não amam. Têm que sair e procurar outro amor. E dizem, “Mas já tinha 70 anos, havia necessidade?”. Havia. Tem o direito a ser feliz enquanto estiver viva. Comecei a escrever esta coisa e “O que é que um gajo vai fazer?”. A melhor coisa a fazer depois de se soltar e libertar é, olha, “vou beijar, vou dançar, vou hmm hmm”, ficou assim. “Até me cansar, vai ser toda a noite.”

Não há explicação para ter saído há dois anos e só agora estar em alta?
Não, aconteceu. Não sei porquê. As coisas aconteceram simplesmente. Essa resposta não te posso dar porque não sei. Não fiz nada, nem sequer mostrei o pirilau. Foi mesmo porque teve que acontecer assim. Eu até meti no Facebook no outro dia o vídeo de Agosto de 2016, quando a cantei num programa da SIC. Até que há uns putos nos EUA que plagiaram a canção, a deles é lançada em Outubro de 2017.

Fotografia - Bernardo Coelho

E já atingiram 18 milhões de visualizações no YouTube. Porque é que lhe chamas plágio?
Uma cópia é tu pegares numa canção que é feita pelo Zé Maria, cantas e dizes “Quem fez esta música fui eu” e a canção é exactamente igual, isso é cópia. Outra coisa é plágio. O plágio não é uma cópia a 100%. Por exemplo, a Madonna gravou uma canção cuja introdução é dos Abba. Ela pediu autorização para utilizar, negociaram não sei o quê e escreveu o nome dos autores dessa introdução. Ou seja, esses rapazitos usaram o meu refrão. Na minha opinião, deveriam pagar pelo refrão uma percentagem daquilo que estão a ganhar enquanto autores da música, porque a música não é toda igual à minha, apesar de ser construída numa base muito idêntica. Vou-te dar um exemplo também, “Sim eu sei, que tudo são recordações”, não é plágio, não é cópia, é apenas o aproveitamento de um sucesso francês, conseguir construir uma canção com o mesmo ritmo, com os acordes muito idênticos mas com uma melodia completamente diferente, em vez de ser de baixo para cima, ser graficamente de cima para baixo. Ninguém pode pegar nisso, não é plágio, não é cópia, o Tozé Brito fez um trabalho perfeito porque ninguém pode pegar. Mas ele fê-lo perfeito. Estes dois rapazinhos não fizeram perfeito, tem uma estrutura igual e quando chega ao refrão é cópia, as notas e os acordes são iguais.

Sendo um caso internacional, onde é que isto é julgado?
Fiz um e-mail à Sociedade Portuguesa de Autores, mandaram avaliar a especialistas, que eu já sei quem foram, vamos ter uma reunião porque eles acharam que não se podia considerar plágio. Eu continuo a achar que sim e como sócio cooperador número 835 da Sociedade Portuguesa de Autores, já tenho algum direito a ter a minha voz activa, na minha opinião. Portanto quero fazer uma reunião e insistir. Digo-te uma coisa, não é por uma questão financeira, é uma questão de justiça. Até posso pagar, mas que não deixa de ser plágio, não deixa.

As redes sociais foram as primeiras a ficar estupidamente apaixonadas, onde te tornaste o super-herói de milhares de memes – e com isso outros vídeos que te rotularam como um party animal. Nunca temes as consequências do efeito viral?
O meu público não é apenas entre os 15 e os 25, apesar de neste momento ser maioritariamente. Mas eu não vou descurar nunca as crianças que me adoram e as crianças dos 80 e 90 que me adoram e que passaram inclusivamente uma fase importante da vida deles a ouvirem as canções de há 20 ou 30 anos atrás. E é pelo respeito que tenho por essas pessoas que às vezes não sou um bocadinho mais, não sei se agressivo será o adjectivo certo, mas se calhar um bocadinho mais incisivo, nas minhas intervenções politicamente incorrectas. Porque dizer que sou a favor da liberalização da prostituição e das drogas é muito complicado neste país. Isto é como a história do aborto, é melhor que a criança nasça e que morra à fome do que não a deixar nascer. Eu também diria, se calhar, se houvesse condições sociais para que as crianças todas pudessem nascer, evitávamos o aborto, ainda era melhor. Agora com as condições que existem no pluralismo capitalista em que vivemos, então prefiro que a interrupção voluntária de gravidez seja de facto legalizada. Como a prostituição: é inacreditável que haja tanta perseguição a tanta gente dos impostos, se as pessoas que fazem a sua vida de trabalho pagam ou não pagam e são quase perseguidas como se fossem criminosos. E depois abrimos qualquer jornal e vês nas páginas centrais pessoas a vender o corpo, toda a gente sabe, só não está ali descrito, está 30 beijinhos, 38 pincéis, não interessa, mas está lá tudo. Ninguém é inspeccionado, as Finanças não se preocupam com isso, se há impostos, chama-se a tal economia paralela que se calhar dá jeito à banca depois de privatizada e as contas continuam a ser sigilosas, não as das empresas mas as contas privadas. E portanto, qualquer traficante de droga ou dono de casa de putas, que é mesmo assim, pode ter liquidez em contas no banco que não são inspeccionadas. Se calhar, é por isso que no pluralismo capitalista se privatizam coisas como a banca, a segurança social, mas isto já é uma questão política. Aqui entrávamos numa conversa seríssima daquilo que se deve fazer politicamente num povo que é culto ou não. Só acredito numa democracia com um povo culto. Numa sociedade inculta, a democracia não pode funcionar. Tu és a mãe, ele é o pai e há quatro filhos. Vamos decidir democraticamente o que é que vai ser o almoço e o jantar todos os dias. Democraticamente quer dizer que a maioria vence. Se os dois filhos não estiverem educados, vais comer todos os dias chocolates e gelados ao jantar. Porque eles vão ganhar sempre os quatro, até morrerem todos de diabetes. Numa sociedade inculta, que é o nosso caso, infelizmente, é igual e a culpa não é do povo, que esta história do estupidificar para reinar foi muito bem camuflada ultimamente por alguns políticos deste país. Antigamente, o Salazar dizia que ninguém era obrigado a ir à escola. Dava um jeito do caraças, quanto mais burra a malta é, mais eu posso mandar. Agora é mais ou menos a mesma coisa, só que está camuflado.

Tu não tendo medo das palavras, porque é que achas que tanto tempo depois do 25 de Abril ainda há hipocrisia e tão pouca gente a dar a cara pelo que acredita e acha justo?
Se antigamente o medo de falar de política era ser preso e torturado, hoje o medo é de ser posto de parte pela sociedade. Por exemplo, falas mal da igreja, os padres e as comissões de festa deixam de te contratar para cantar; falas mal deste ou daquele partido, os Presidentes da Câmara desses partidos deixam de não sei quê; falas mal da maçonaria, os maçons juntam-se todos e põem-te de parte; falas mal da Opus Dei… Eu não falo mal de ninguém, falo bem de quem eu acho que é bom e falo mal de quem eu acho que é mau. Mas também se me justificarem e me conseguirem provar que estou errado, sei pedir perdão e dizer, “eu estava errado, afinal não é bem assim”. E não sou perfeito, tenho imensos defeitos.

Com a popularidade que tens nunca pensaste tentar a política?
Não sou hipócrita. Eu não vou tentar, vou ser Presidente da Câmara de Setúbal. Mas é daqui por uns tempos, quando estiver farto e quiser fazer menos palco. Quero ser Presidente da Câmara da minha terra, onde eu nasci. Não tenho neste momento conhecimento político suficiente para estar à frente de um cargo tão importante quanto este, mas tenho pessoas que conheço e com as quais posso contar, que me podem ajudar a ter o conhecimento, não sobre o que quero fazer de bem pela minha terra, mas quais são os melhores caminhos para o fazer.

E o Vitória, só como adepto?
Futebol, sempre só como adepto. A não ser a minha escola de futebol, chamada Sonho 21. Onde quase que fui obrigado a pertencer porque me pediram ajuda e eu acabei por assinar uma sociedade, por ser um bocadinho ingénuo às vezes. A primeira vez que tu és enganado, és enganado, a segunda vez és parvo, à terceira já és mesmo otário. Eu só fui enganado ainda, mas resolvi a situação, temos uma associação onde sou apenas vogal, e neste momento estão 300 atletas inscritos. Vamos ver como é que a coisa vai funcionando, saiu-me da pele e do bolso. Enfim, é o que é. Em termos de órgãos executivos no futebol não, porque acho que é realmente o pior dos espelhos da sociedade que se possa imaginar.

Andas mesmo sempre bem-disposto?
Não, tenho momentos muito fodidos. Mas não sou aldrabão. Quando estou triste, estou triste e partilho a minha tristeza, mesmo em palco, peço desculpa e digo “Foi por isto”. Evidentemente, se tiver uma chatice com uma comissão de festas, ou um empresário antes de entrar em palco, não vou chegar e dizer “Zanguei-me com o gajo”, isso não. Além de honesto, sincero e verdadeiro, também tenho que ser profissional. As pessoas não têm culpa nenhuma de eu estar de diarreia ou mal-disposto antes de entrar em palco, chego e faço o meu trabalho.

A tua saúde levou um susto em 2010. Fez-te olhar para as coisas de um modo diferente ou hoje já relativizaste tudo?
Eu tive uma trombose há uns anos, um AVC verdadeiro. Para mim foi um episódio. Cheguei ao hospital, atingiu-me o nervo óptico e fiquei a ver a dobrar. E por acaso lembro-me muito bem de ter dito à enfermeira, “Olha que bom!”, e ela, “Então mas teve um AVC e está a dizer que bom?”. E disse-lhe, “Sabe o que é? Vou-lhe dizer. Você é gira, é boa, estou a ver duas, vamos dormir os três?”. Isto é rigorosamente verdade, isto aconteceu! O sentido de humor não se perdeu com o AVC e quando não se perde o sentido de humor, não se perde a inteligência. Durante seis meses fiz a medicação, e continuo a jogar à bola duas a três vezes por semana, estou em grande forma, faço 20 flexões por concerto e às vezes tenho três concertos por dia, que são 60 flexões.

Fotografia - Bernardo Coelho

Falas de mulheres e sexo a cada 5 minutos. No Alta Definição conseguiste controlar-te ou pedias para cortarem depois?
Os prazeres da vida desde que não sejam corrosivos não se devem evitar, e repara, por exemplo, o álcool faz mal, as drogas fazem mal. Quando digo drogas, não digo canábis, digo cocaína, anti-depressivos demasiado fortes, às vezes alguns comprimidos para dormir, alguns químicos que compramos na farmácia, tudo isso é corrosivo, tudo isso é mau. Tudo o que é vício é mau, tudo, como o jogo. Agora há um vício que não é mau, que é o do sexo, que é bom, dá saúde. E talvez por isso eu tenha mais vezes a naturalidade em falar em sexo do que de outras coisas. Até porque gosto muito, é um prazer que não prejudica ninguém. Só se o parceiro ou a parceira, ou os parceiros e as parceiras, não estiverem a gostar, aí estamos a prejudicar. Se a malta estiver feliz, fantástico. Independentemente das opções sexuais, não quero saber nada disso. No Alta Definição, o caminho da entrevista não foi por aí. Porque se tivesse ido, eu teria respondido exactamente da mesma maneira que respondo sempre. Vivemos numa sociedade infelizmente cínica e hipócrita. Mas é a sociedade em que tu vives. Eu acho que a responsabilidade de ser figura pública, quando tu és um jogador de futebol conhecido, um cantor, um actor, é que temos pessoas que nos ouvem e nos seguem. E que copiam, “este gajo disse, eu gosto dele, por isso vou fazer o mesmo”. Essa é a grande responsabilidade. Tenho a noção quando estou a dizer uma coisa que tenho essa responsabilidade. Por isso é que abomino a mentira e a injustiça. Há um vídeo que dizem que é o Toy a sair do elevador, que se grega todo e escorrega. Não sou eu, podia ser, mas não sou. Quem o fez, fê-lo de má-fé porque meteu o meu nome.

Além de que é de 2016 e só agora é que pegaram nisso.
Porque agora é que eu estou a ter sucesso. Há pessoas que têm a capacidade de gastar toda a energia a prejudicar terceiros. Eu prefiro poupar a minha energia para mim, do que estar a estragar a vida dos outros.

Achas que um estilo musical como o teu já passou a fase do preconceito ou ainda sentes a necessidade de te reinventar?
Isso foi um peido que já dei há muito tempo. Já não me apetece, já passou o cheiro, já passou o barulho, já não faço ideia. Não tenho paciência para pessoas que criam estigmas, palavras e adjectivos para se subdividir e para separar, no fundo, chama-se a isso racismo musical. Se temos preconceitos começamos a deitar tudo e todos abaixo e perdemos identidade. Porquê? Porque a puta da inveja tem que existir. O universo não melhora. O mundo continua a piorar.

Ouvimos dizer que és adepto do Reiki. Confirma-se?
Confirma-se, desmistificando a parte mística. O universo não é por acaso. Estás a falar com um agnóstico que se dá muito bem com o ex-bispo de Santarém, adoro Teologia. Li muito sobre a cultura oriental e descobri que tinha muito jeito, porque tenho mãos para tudo, tocar bateria, piano, guitarra e no curso de contabilidade tínhamos que escrever à máquina, portanto tenho força nos dedos. E faço massagens muito boas. As pessoas ficam mais aliviadas. O meu filho chegava a casa e dizia, “Pai, tira-me a dor de cabeça”, eu sentava-me no sofá, ele sentava-se no chão, eu abria as pernas, ele metia a cabeça e eu fazia a dor de cabeça ir embora, não era preciso comprimidos. Comecei a perceber que de facto o universo tem influência. Não é todos os dias que os animais estão preparados para a procriação, o universo tem influência sobre tudo o que são seres vivos e terá obviamente sobre nós também. Descobri que há pessoas que têm alguma capacidade, não porque são bruxos ou especiais de corrida, mas conseguem captar um bocadinho mais de energia universal que transformam em energia positiva ou negativa para a pessoa. Comecei a perceber que há pessoas que realmente nos confortam quando estão perto de nós e outras que nos incomodam e não percebemos porquê. É a tal beleza invisível. Senti que podia ajudar muita gente. Um dia o Rodrigo, que é amigo do meu filho, chega lá a casa e diz, “Tens que pedir ao teu pai para ajudar a minha mãe, que ela não consegue mexer o braço”. E eu disse para a senhora ir lá a casa. Tinha uma marquesa para dar massagens, que eu gosto e a senhora saiu de lá boa. Estás a falar com um céptico do caraças, mas a verdade é que a senhora já tinha gasto um monte de dinheiro nos médicos e estava sempre na mesma, não sabiam o que era e nunca mais lhe doeu até hoje.
Explicas-me isto? Eu também não te consigo explicar, mas aconteceu.

Mas estudaste?
Não. Eu sinto é que quando vou mexer e não tenho capacidade, prefiro não mexer. E também há dias que digo assim, “Hoje não”, esta merda é uma coisa inexplicável. A cultura oriental milenar é muito gira. Depois aquela história que tem que ser o mestre, que passou para o outro e o outro para o outro, isso para mim já é cagativo.

Fotografia - Bernardo Coelho

E fãs complicadas, também já tiveste de certeza.
Sim, tive. Mas pacificamente. Eu gosto de sair do palco e falar com as pessoas. Já tive episódios de esperarem por mim, sim. Estarem à minha espera para me abraçar, para me beijar, por aí. Um gajo feio como eu passa bem com isso.

Já foste considerado um sex-symbol.
Quem era o cego? [risos] Nós temos que olhar para o espelho e que nos saber avaliar intelectual e fisicamente. Costumo dizer por brincadeira, “Eu sei que sou feio, mas sou muita bom”. Mas a verdade é que curiosamente os homens são muito diferentes das mulheres na avaliação, enquanto pessoa para ter um caso, ou para se gostar. Nós olhamos para uma gaja boa, uma pessoa perde-se. Hoje com a minha idade já não, mais calmo, mas vamos muito pela embalagem. As mulheres embora também achem muita piada à embalagem (hoje em dia cada vez mais, aliás 80% das mulheres gosta de um homem com o abdominal definido, pena é que dos homens com o abdominal definido, 80% não goste de mulheres), a verdade é que cada vez mais uma mulher se interessa pelo âmago do homem e não pelo aspecto. Claro que o aspecto é importante, e é sempre. Mas um miúdo muito giro e muito perfeito que só diga merda, acho que não há mulher que aguente. Sabes porquê? Porque a mulher é o ser. A mulher é Deus. Se Deus fosse personificado em fórmula humana, teria que ser mulher e nunca homem. Sim, porque eu acho que Deus é amor, não acredito que seja um velhote de barbas brancas que mande nesta merda toda. A mulher tem mais força, mais capacidade intelectual, mais resistência física, mais capacidade de sofrimento, mais inteligência, mais perspicácia, o chamado sexto sentido, ou como quiserem chamar, portanto a mulher olha para as pessoas de uma forma diferente. Nós somos muito mais animais e a mulher é muito mais espiritual. Isto poderá eventualmente ter a ver com, este gajo é gordo, é feio, é não sei o quê, mas tem qualquer coisa. Se calhar é essa qualquer coisa, deve ter sido mais por aí. Mas também não é importante, importante é que a minha mulher goste de mim e que eu goste dela.

Foste um fortíssimo concorrente n’ A Tua Cara Não Me É Estranha e, em pleno horário nobre, conseguiste a proeza de fumar um charro em directo, que já não surpreende os mais atentos aos teus relatos natalícios com a tua família. De onde é que vem essa ousadia toda?
Só te vou dizer que a máfia sobreviveu muitos anos na América com a lei seca. Só começou a dedicar-se à droga quando o álcool começou a ser oficial. O álcool pode ser um vício, mas apanhar uma bebedeira duas vezes por ano é ser alcoólico? O jogo é um vício, ir duas vezes por ano ao casino é ser viciado em jogo? Fumar duas vezes canábis por ano? Eu nem sequer fumo tabaco, enjoei dos cigarros, passei a fumar charutos, depois deixei de fumar, faz-me mal à garganta, não fumo. Ninguém me proíbe de fumar erva uma ou duas vezes por ano. Tenho autoridade moral e humana para o fazer. Prefiro que um filho ou uma filha minha fume de vez em quando uma ervazinha, do que ande aí nos cantos a afogar angústias, a matar pessoas e a estragar as vidas dos outros.

Abriste as portas Na Casa do Toy a um reality-show praticamente pioneiro naquele formato. Tinhas noção da dimensão do sucesso que poderia atingir?
Tinha e ainda bem. Disse muita coisa que me apetecia dizer às pessoas. Repara bem, os automóveis mudaram desde os anos 20 até agora, os ABS, os volantes, os pneus mais largos, tudo mudou. A velocidade máxima continua a ser 120 km/h na auto-estrada. Isto não é uma estupidez? Achas que alguém que tem um Mercedes, um Porsche ou um Ferrari tem que andar a 120 km/h na auto-estrada com a segurança que o carro tem? Tirei a carta na Alemanha e lá não há limite de velocidade. É provavelmente, estatisticamente, o país que menos acidentes tem. Não se preocupem com a velocidade dos carros. Preocupem-se em dar a carta a pessoas que realmente saibam conduzir. Preocupem-se com a qualidade dos carros que têm ou não autorização para circular. Preocupem-se com as estradas estarem boas e com a cultura de quem conduz, não ir à esquerda a 60 km/h e não deixar ultrapassar só porque não lhe apetece.

Já aceitaste que faças o que fizeres até ao fim dos teus dias, no teu obituário vai ser sempre mencionado o episódio da condução com o joelho?
Claro. Com o joelho aparentemente. Ninguém sabe o tamanho do pénis. [risos] Isto é na brincadeira. Fiz muitas viagens da Alemanha para Portugal, Portugal para a Alemanha de automóvel. Sabes que se fizeres 2500 quilómetros de viagem em 24 horas, como eu fiz muitas vezes, tens que te adaptar quando há algo para fazer, como o mapa para ver. Não havia GPS... isto não é conselho para ninguém. Mas a verdade é que vais adaptando uma série de situações e sistemas. Eu achei piada àquilo. Cheguei a fazer apostas que era capaz de ir de Lisboa ao Porto sem pôr as mãos no volante. Isto não é exemplo, eu costumo dizer sempre, o álcool, a canábis, e determinadas coisas só se devem fazer quando já se tem alguma estrutura humana e alguma capacidade de entendimento para não nos deixarmos viciar e ir atrás. Primeiro temos que começar a saber andar e depois é que compramos os sapatos. A brincadeira do joelho é depois de muitos anos de condução, muita estrada e ter noção do que estou a fazer.

E depois desse registo que fica para a posteridade, o público sentiu-se no direito de partilhar as várias fases da tua vida familiar. Há arrependimentos da exposição?
Não, eu não me arrependo de nada do que fiz. Tudo o que fiz de bom foi um prazer, foi óptimo, o que fiz de mal serviu-me para aprender, nunca o fiz com má intenção nem com maldade. Foi sempre na ingenuidade ou na vontade de ser autêntico, e às vezes o ser autêntico pode ser prejudicial para terceiros. E eu peço desculpa se o fiz e prejudiquei alguém com isso. Democraticamente, perguntei a uma sociedade culta, que eram as pessoas que viviam na minha casa, se estariam de acordo em fazer. Todos disseram que sim, entusiasmadíssimos. Eu disse “estamos à vontade e somos apenas o que somos, somos pessoas normais”.
O desmistificar a história que o cantor é um tipo que vive na lua, já valeu a pena.

Estás na melhor fase da carreira?
Curiosamente, estou. Na melhor em termos de felicidade profissional e realização, e na pior em termos familiares, de trabalho e de cansaço, porque não tenho tempo para coiso. Quer dizer, tenho, vou arranjando um bocadinho, mesmo assim, às vezes, tenho que a acordar. [risos]

Aos 55 e recém-avô, continua-se a aprender com a vida?
A vida é a melhor escola de todas e o tempo é o melhor mestre. Só tens é que aproveitar a escola e o mestre. No dia que tu achares que já sabes tudo é o dia em que te tornas a pessoa mais estúpida do mundo. Tudo o que sei até hoje é tão menos do que aquilo que eu pensava que era, percebes? Quanto mais sei, mais sei que tenho que saber.

Diz-se que o ser humano nunca se deve sentir totalmente realizado. O que é que te falta?
Falta-me concretizar os sonhos de ontem e de hoje a partir de amanhã, portanto falta-me tudo. O que já fiz está feito, está porreiro, agora continuamos por aqui fora. Diz-me lá assim: “Não gostavas de estar agora numa sala para 20 mil pessoas, todas muito bem vestidas, com a orquestra sinfónica de Londres atrás de ti e os arranjos de um dos grandes maestros, como o meu amigo António Vitorino de Almeida, com as tuas grandes baladas que passaram ao lado e ninguém as ouviu porque estavam na faixa 4 ou 5 do CD e porque a rádio portuguesa nunca passou música portuguesa, basicamente?”. Gostava de pegar nessas baladas todas e fazer um concerto romântico e intimista, mas com uma grande orquestra! Modéstia a mais passa a ser vaidade recauchutada, portanto eu sei que tenho boa voz, boa afinação, bom ouvido e que tenho muito jeito para cantar baladas românticas. Este é um sonho que me falta realizar. E depois ir com todos os elementos femininos da orquestra para a cama. [risos]

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