Sei que não se deve falar da idade a uma senhora, mas este ano chegaste a um número redondo. Dás importância a isso?
Não, na medida em que me sinto igual a ter 39 ou 38. Se calhar quando tiver 50 já dou um bocadinho pela diferença, mas para já tudo tranquilo. Uma ruga aqui, um cabelo branco mais ali, mas nada que não se tire ou que não se pinte.

Com que idade começaste nos The Gift?
Com 16 ou 17 anos. Juntámo-nos em 1993, tenho 40.

Chegaste a ter empregos?
Muitos. Ao mesmo tempo que estava no liceu, vendi numa loja de souvenirs, aos fins-de-semana trabalhava num restaurante e à noite ainda abria um bar. Normalmente levava-me até às quatro ou cinco horas da manhã e depois às oito ia para as aulas. Mas como era naquela altura que só se tinha três disciplinas no 12º ano, dava. O bar era uma coisa que já mantinha. Comecei a trabalhar com 15 anos à tarde e quando fiquei maiorzinha passei para o turno da noite. Depois fui para a faculdade e continuei a trabalhar no bar.

Quando é que percebeste que não tinhas de te preocupar mais com isso?
Na realidade, não trabalhava por dinheiro ou por falta de dinheiro.

Estou a perguntar quando é que percebeste que a banda ia ser a tua vida.
Isso só em 1998. Estava no terceiro ou quarto ano da faculdade e foi quando os festivais começaram a acontecer, o Sudoeste, já com o Vinyl. Lembro-me que em 2000 estávamos a caminho ou a voltar da China, e foi nesse Verão que pensei “Não tenho tempo para fazer os exames, vou deixá-los para Dezembro.” Não disse foi em Dezembro de que ano. E lá ficaram os exames por fazer.

Vocês os quatro conhecem-se desde crianças ou Alcobaça não é assim tão pequena?
É assim tão pequena. Conheci o Nuno não tinha mais do que cinco anos. Ainda que não fossemos da mesma turma, as escolas tinham organizado uma despedida da 4.ª classe aos nossos professores e nós andávamos no mesmo sítio a ensaiar a peça que íamos fazer, ainda que andássemos em diferentes escolas. Era num infantário dirigido por freiras, ainda que não tenha educação religiosa.

No primeiro ensaio em que cantaste estavas longe de imaginar que ias passar boa parte da tua vida com aquelas pessoas?
Estava. Aquilo para nós era um hobby. Depois da escola juntávamo-nos ali à tarde não só a fazer música, mas também a ouvir, mas não, não fazia ideia. A ideia era ir para faculdade, ser antropóloga, e a partir daí ter futuro numa coisa que não tinha nada a ver com a música. Claro que não sabia, não é?

Como é que aprendeste a dominar o teu instrumento?
Fui aprendendo ao longo destes 20 anos. Tive duas ou três aulas com uma professora de canto já muito mais tarde, quase a chegar aos 30, porque achava que se soubesse cantar como devia ser e colocar a voz, fazer as respirações e aquelas coisas todas, achava que me podia cansar menos, mas não. A minha professora disse-me “está tudo bem, é a tua maneira de cantar, posso ajudar-te a cantar as canções dos The Gift que te custam mais.” Já tinha tentado entrar no Conservatório, tinha 20 anos, e não me tinham aceitado para canto. Aos 12 anos já tinha pensado em ir tocar flauta porque tocava numa orquestra mas o meu pai não me deixou. Ainda bem, se calhar hoje a minha vida era completamente diferente. E pronto, fui aprendendo a dominar por mim e a ver também os meus limites e percebi que isto afinal era mais fácil do que aquilo que podia julgar.

Como é ser a mulher do grupo. Para eles és mais um gajo?
Sou. Para eles sou mais um gajo, depois de vez em quando lembram-se que sou uma gaja. Nós nem fazemos distinção nem nos teores da conversa, não é por causa de a Sónia estar que se deixa de falar de futebol ou de gajas, é-me igual. Eu também falo, ainda que não perceba nada de futebol, percebo um bocadinho mais de gajas. Às vezes, quando vêem as minhas fraquezas, é que se lembram que sou uma gaja, mas não é por isso que deixam de ser atenciosos, amigos e protectores. São os meus melhores amigos, portanto, quer dizer, é um bocado indiferente.

Conseguias gerir facilmente a tua vida pessoal, por exemplo, namorados, com estar numa banda que andava a dar o litro numa carrinha pelo país?
Nunca tive grandes namorados. Tive um primeiro namorado dos 14 aos 20, vá lá, e depois a partir daí nunca mais tive nada de sério, portanto também não era por aí. Mesmo que tivesse, tínhamos 20 anos, as coisas são todas relativas na altura. Andar às voltas por aí numa carrinha para um namorado meu era motivo de orgulho, as coisas não eram assim tão sérias.

Estava a falar da distância.
Não, nessa altura essas coisas não se põem, põem-se agora com 40, que tenho o Fernando e tenho um filho. Agora sim, essas questões colocam-se e, sim, é difícil. Mas antes não, por favor, nem pensar.

Fotografia - Bernardo Coelho

Qual é o segredo para esta relação durar mais que muitos casamentos?
Não sei. Acho que sobretudo é a música. Podia estar aqui a inventar um monte de coisas fantásticas e românticas mas não, é a música. É o facto de sabermos que funcionamos bem os quatro assim. Não é que não tenhamos pulado a cerca uns com os outros, participei em alguns projectos, o Nuno noutros, mas acabamos sempre por perceber que são só projectos paralelos, nada de muito importante para o futuro, porque os The Gift são efectivamente o nosso casamento, a nossa relação e, sobretudo, o nosso compromisso.

O Nuno e o John ainda vivem no estrangeiro?
Vão vivendo. O Nuno vai vivendo em Madrid e o John vai vivendo no Rio de Janeiro.

Como é que a banda lidou com essa mudança?
Quando estamos em concertos claro que vêm para cá mas, felizmente, isto é uma profissão que nos deixa viver em qualquer ponto do Mundo porque é só acertar as agendas, marcar as datas para ensaiar, tudo o resto faz-se pela net, por Skype. Hoje não temos de estar os quatro juntos, e ainda bem. Já passamos tanto tempo juntos que não dá para ter muitas saudades porque, volta e meia, dia sim, dia não, estamos juntos. Até fazemos a piada sempre que nos despedimos: “Pronto, então se tiverem saudades minhas para a semana liguem-me, não há problema.” Claro que não vamos ter saudades.

Como era Alcobaça em 1994?
Alcobaça em 1994 tinha muito mais coisas a acontecer do que hoje, culturalmente falando, infelizmente. A noite era muito mais engraçada, havia imensos bares, havia o tal bar onde começámos os nossos primeiros concertos, o Bar Ben, onde ganhámos o segundo prémio. Éramos mesmo muito chavalos. Nesse bar, por exemplo, passavam lá muitas bandas conhecidas: os Blind Zero, os Objectos Perdidos, os Capitão Fantasma, neste meio mais underground passaram essas bandas todas. Alcobaça era uma cidade muito pequena e tudo o que aparecia consumíamos alarvemente, fosse teatro, fosse música, fosse o que fosse. Hoje essas coisas estagnaram um bocadinho e a cidade virou-se mais para o turismo e não tanto para os locals.

O Samuel Úria deu uma resposta parecida sobre Tondela. Sempre que ia lá alguma coisa as pessoas agarravam com força porque queriam responder à visita.
Sim, claro. Para nós era fantástico. Estávamos a 100 km de Lisboa, não tínhamos carta, não tínhamos carro. Lembro-me que ia à boleia para as entrevistas com o Nuno. Inclusivamente falhámos a primeira inscrição na faculdade porque não apanhámos boleia, estávamos pendentes dessas variáveis todas que agora não existem. O Mundo mudou imenso em 20 anos, imenso, e ainda bem.

Não serem da capital condicionou-vos ao saberem desde o início que tinham de se esforçar muito mais?
Nada, nunca achámos. Por que razão tínhamos de nos esforçar mais se na realidade aquilo que precisávamos de fazer não tinha nada a ver com o facto de estarmos em Alcobaça, em Lisboa ou no Porto? A única coisa que tínhamos de fazer em Lisboa era contactar os media, entrosarmo-nos mais ou menos no meio, e foi isso que fizemos. Também estamos em Alcobaça, a 100 km, não estamos propriamente no deserto do Saara, portanto as coisas são fáceis. Não tem nada a ver com o facto de vivermos em Alcobaça. Se calhar, se vivêssemos num sítio qualquer, fazíamos uma música completamente diferente, por aí sim.

Era mais por estarem longe das editoras.
Na realidade não estávamos assim tanto porque era marcar um dia e ir às reuniões, fazer o trajecto de Diário de Notícias, Público e irmos lá com as nossas maquetezinhas e convidar as pessoas para os concertos. Íamos sempre nós pessoalmente, assim como também íamos colar cartazes.

Fotografia - Bernardo Coelho

Ao contrário dos fãs, que sempre foram enchendo os vossos concertos, e da crítica internacional, que tem recebido muito bem Altar, o vosso novo álbum, a nacional nunca se apaixonou por vocês, chega mesmo a parecer que tem um gosto especial em bater-vos. Alguma vez percebeste de onde isso veio?
Foi no início, quando éramos considerados do underground e, de repente, porque vendemos mais uns milhares de discos que não era suposto, deixámos de ser. Só por isso, porque a música continua a mesma, os nossos princípios continuam.

Depois do Vinyl?
Depois do Film já, quando chegou o Fácil de Entender. O Vinyl e o Film foram ainda bastante aclamados pela imprensa, portanto nós fomos disco do ano tanto com um como com outro para o Diário de Notícias. Lembro-me que o Público e o Diário de Notícias andavam sempre taco-a-taco a ver quem é que descobria as bandas primeiro mas, de repente, depois do Fácil de Entender, e depois de termos feito uma canção em português e chegado a muitas pessoas, parece que os The Gift se tornaram massificados pela pouca qualidade das canções que tinham e não pelo facto de estarem a chegar a muita gente. A qualidade das canções continua a mesma, a maneira de as fazer continua a mesma. Lá está, os nossos princípios continuaram os mesmos, as nossas cabeças continuam na mesma e de repente ficámos com o público do nosso lado mas com a imprensa completamente borrifando-se para nós. Também não importa nada porque hoje também nos borrifamos completamente para ela porque felizmente hoje não precisamos dos jornais para vender ou para sermos conhecidos. A rádio é outra coisa, a rádio são outros quinhentos.

Por que altura é que perderam a inocência? Foi nessa fase?
A inocência em que sentido?

Perceber como é que o Mundo funciona.
Nós percebemos como é que o Mundo funcionava a partir do momento em que saltámos do Bar Ben e decidimos orientar um plano de estratégia, à luz daquilo que os Madredeus fizeram, mas fazendo-o em Portugal. E a partir do momento em que conhecemos a editoras, conhecemos os jornalistas, conhecemos como é que o meio se move, fizemos a nossa própria editora e, pronto, de inocente já não tínhamos nada.

Em Altar, o lendário Brian Eno parece ter acabado por ser quase um quinto elemento da banda e depois o Flood a produzir… Tiveram tudo o que queriam, um alinhamento perfeito?
Acho que sim, não podíamos querer melhor. Quer dizer, Brian Eno e Flood... O Flood foi um daqueles nomes que sempre tivemos em cima da mesa porque, apesar de ter feito os discos de Depeche Mode, PJ Harvey, os Editors e muito mais coisas boas, pareceu-nos sempre um sonho mais concretizável. O Brian Eno foi uma feliz coincidência e quis o destino que ele entrasse na nossa vida, ou nós na dele, e o Flood curiosamente veio depois do Brian Eno por sugestão do próprio e nós ficámos: “OK, fantástico era mesmo isso que nós queríamos. Flood, Flood, Flood, Flood, melhor ainda.”

Trabalharam imenso tempo com o Brian antes de o anunciarem. Como é que se consegue manter a boca fechada com uma coisa destas?
Sim, ainda andámos dois anos a trabalhar praticamente. Lá está, é compromisso.

Não contaram mesmo a ninguém?
Não. Sabia o Fernando, o resto da banda, sabiam os músicos que trabalhavam connosco, enfim, os parentes mais próximos, de todos, mas, quer dizer, era uma coisa que nós nem sequer fazíamos questão, nem era de manter em segredo, queríamos esperar para ver o que acontecia para depois então dizer ao Mundo que sim ou que não. Se me dissessem que estava a trabalhar com o Brian Eno dois anos antes de o termos feito se calhar ficávamos com expectativas ainda maiores e a ideia é go with the flow. Já temos 20 anos de banda, encarámos esta cena como uma coisa descontraída, uma possibilidade de se calhar levar o disco mais longe, ou as nossas canções, ou o nome dos The Gift, mas nunca como se de repente o Mundo virasse completamente ao contrário só por causa do Brian Eno e que nós de repente fossemos os U2.

Os nomes ajudam, a música é essencial, mas muitas vezes não chega. Como é que fazem para tentar espalhar o disco pelo Mundo?
Temos algumas agências que trabalham connosco país por país, temos uma agência na Alemanha, outra na América, vamos tendo contactos com o Brasil, temos um agente em Espanha e vamos fomentando assim o nome.

Fotografia - Bernardo Coelho

Neste momento estão no nível de exposição máxima que já tiveram à volta do Mundo?
Agora sim, obviamente. Passamos na BBC Radio 6, que é uma coisa formidável. Tenho pessoas, ingleses, que de vez em quando escrevem-me para o Instagram a dizer: “olha, ouvi-te na BBC Radio 6, fiquei muito contente, o Brian Eno falou de vocês.” Isso significa que os The Gift já não são completamente desconhecidos, falando sempre num nicho mais alternativo.

Além da banda, os The Gift são uma máquina que já vendeu o registo de um concerto à saída do mesmo, já colocou dois tipos de bilhetes à venda, um low cost e outro premium com direito a descargas de álbuns, além de que conseguem que marcas enormes se associem a vocês. Quem é que pensa e trata disto tudo?
Normalmente, eu sou um bocado poupada no que diz respeito ao pensar nos marketings e nas estratégias, sinceramente não tenho muito jeito para isso nem me apetece. Felizmente temos um jornalista formado e um marketeer formado que se dão ao trabalho de pensar nesse tipo de coisas e naquilo que pode ser melhor para os The Gift. Mas, normalmente, as ideias nunca passam sem a aprovação dos quatro. Não há cá democracias, ou vai pelos quatro ou não vai.

Era essa a minha curiosidade, se tinham pessoas externas que trabalham essas áreas.
Não, não, somos nós. Por exemplo, agora temos a Sara, que trabalha connosco há pouco tempo, que é a nossa mais que tudo, é a nossa promotora, ela é que tem levado este Altar e os The Gift por aí fora. Mas sim, continuamos concentrados na criatividade, na música, mas também na parte da secretaria.

O Spotify e essas coisas, achas que é tudo positivo?
Não sei, não tenho, não faço ideia. Não tenho espaço no telemóvel para instalar o Spotify, também não tenho tempo para ouvir música. Mas sim, é tudo positivo na medida em que a divulgação é sempre positiva, fazer com que as pessoas comprem já são outros quinhentos, já é outro departamento.

Quando andam pelo país chegas à conclusão que o número de visualizações no YouTube tem alguma correspondência com o mundo real ou por vezes andam distantes?
Não faço ideia. Não vou ao YouTube. Sei que depois dos concertos, obviamente, temos um maior número de pessoas a aceder às nossas redes sociais, para se “tagarem” porque também estiveram lá e felizmente temos tido concertos cheios de pessoas. Têm sido milhares de pessoas. Mas em relação ao YouTube não sei, não faço a mínima ideia e também não me interessa. Sou old school, essas coisas não são para mim.

Ao fim de mais de vinte anos, e com o peso da carreira que têm, é preciso puxar cada vez mais pela cabeça ou continua a ser igual ir gravar mais um álbum?
Já o nosso grande amigo dos Scissor Sisters nos dizia há uns anos, em Nova Iorque, num jantar, que estava a passar por uma fase em que precisava de trabalhar o dobro, ou o triplo, ou o quádruplo, só porque já não era novidade. A partir do momento em que já não se é uma banda nova, ao contrário do que as pessoas pensam, tem de se trabalhar mais porque o factor novidade já não abona a nosso favor e sim a favor das outras bandas que nascem todos os dias. E esses têm sempre destaque garantido só porque existem, e ainda bem. Acho que a música portuguesa está a levar um grande empurrão no que diz respeito a bandas novas. Temos pena que se descuidem um bocadinho com os mais velhos, não os do Restelo, mas os que andam cá há mais tempo, e não digo só os The Gift. Mas acho que sim, que temos de trabalhar nesse sentido, para nos mostrarmos, para estarmos na rádio, para nos mantermos taco-a-taco com a novidade. Aí sim, é complicado. A música e a criatividade não têm nada a ver. Não me interessa nada quando estou a fazer um disco ou quando estou a compor qualquer coisa o que é que as pessoas vão pensar. Primeiro tenho de agradar a mim e aos meus colegas, tal como os meus colegas o sentem e fazem, e essa foi sempre a nossa mais-valia. Depois se as pessoas gostarem, tanto melhor. Agora, se fazemos coisas a pensar se vai vender ou não, nem pensar. Para isso tínhamos feito um disco em Português agora e se calhar estávamos com a música num programa qualquer e andávamos aí muito contentes, mas não. Decidimos arriscar por uma coisa que não tinha nada a ver e muito provavelmente o disco nem ia sair, ia sair um bocadinho ao lado em Portugal, pensámos nós. Mas as coisas estão a acontecer, os concertos têm estado cheios e as pessoas começam a cantar as canções novas.

Já têm planeado o que vão fazer a seguir?
Alguma coisa. Não somos como as bandas tradicionais, que têm pelo menos um ano de trajecto já todo esquematizado ou, pelo menos, alinhavado. As coisas vão acontecendo e isso é um pau de dois bicos porque tanto sabes o que vais fazer daqui a uma semana como de repente as coisas podem mudar completamente e é isso que acontece com os The Gift. Mas sim, temos obviamente alguns objectivos que se marcam a partir do momento em que sai um disco. Aquilo que um disco traz inerentemente já são coisas que todos os outros trazem, que é a digressão, os festivais, são os festivais lá fora e por aí fora.

Fotografia - Bernardo Coelho

Mas chega ao ponto de pensarem “Em 2020 temos de lançar um disco”?
Não, não, em 2020 ainda não pensamos. Pensamos só até ao fim de 2018. Normalmente é assim.

Só aceitaste cantar Amália porque era com o Nuno ou também tens vontade de abraçar desafios diferentes?
Só. Tenho vontade de aceitar outros desafios mas depois ao mesmo tempo não tenho vontade nenhuma porque gosto muito mais de ficar em casa e os The Gift já me dão trabalho que chegue. Só aceitei por causa do Nuno, porque é das poucas pessoas em que tenho mesmo confiança plena e sabia que qualquer coisa que ele fizesse ia agradar-me e que ia identificar-me. E ele também contava comigo, portanto jamais lhe diria que não e ficaria bastante chateada se ele tivesse convidado outra em vez de mim para cantar.

Isto na altura provavelmente foi falado, mas não me lembro bem e provavelmente os leitores também não. O Paulo Praça já trabalhava convosco?
Não. O Paulo Praça juntou-se a nós precisamente no Amália Hoje, ele e o Fernando.

Como é que eles lá foram parar?
O Paulo Praça e o Fernando Ribeiro saem da cabeça do Nuno porque a Sony propôs-lhe fazer alguma coisa sobre a Amália a propósito dos dez anos da morte mas que não fosse um fado tradicional, claro que se fosse isso iriam pedir a outras pessoas para fazer. Era mesmo transformar a Amália em pop, era isso que se pretendia fazer. O Nuno pensou em mim, pensou no Paulo Praça, porque achava que era um dos melhores cantautores de Portugal, uma pessoa do Norte, com um sotaque forte, um camaleão, porque já tinha participado em tantos projectos e adaptou-se sempre tão bem a tudo o que fez, e no Fernando por ser o homem da voz grave, o homem que ia declamar, o homem que ia dar ali a parte da poesia, tendo em conta os livros que escreveu e o passado que tem, pela literatura. Não pelo heavy metal, mas sim por ser um personagem cativante intelectualmente e que ia dar um bom cunho aos Amália Hoje.

Ninguém se conhecia, é isso?
Não, conhecíamos daí.

No documentário que lançaram assiste-se ao palco da Aula Magna a ser invadido pelo vosso público. Tens mais momentos assim incríveis de que te recordes?
Sim, vamos tendo. A última imagem que tenho presente é o MEO Arena quase lotado e aquelas pessoas todas ali à frente para nos verem é uma sensação formidável. Uma coisa é tocar num festival com milhares de pessoas à frente, mas pronto, vão lá outras bandas, nunca se sabe se é para nós ou se é para os outros, mas ver o MEO Arena completamente cheio é das imagens mais fortes que tenho presentes nestes 22 anos.

Lembras-te de algum dia que tenha corrido especialmente mal?
Há. Como tudo na vida. Não somos perfeitos, longe disso. Há sempre coisas que correm mal, mas no fundo o balanço é positivo porque acaba sempre tudo por correr melhor do que pior. Apesar das intempéries, as coisas vão.

Mais para vocês do que com o público.
Sim, são coisas internas, claro.

No meio disto tudo és mãe. Consegues não perder muita coisa?
Consigo, porque não faço mais nada que não seja trabalhar e estar com o meu filho. Não tenho férias, não tenho fins-de-semana de lazer, não tenho hobbies, portanto todo o tempo que não estou com os The Gift, estou com a minha família porque são realmente eles que me fazem falta e nada mais.

Fizeste uma digressão com ele dentro de ti. Foi muito diferente das outras?
Não. Foi um bocadinho mais cansativo para o fim, porque foram muitos concertos comigo já com uma grande barrigona. Parei de cantar aos oito meses e tal, portanto já estava mesmo no limite e os últimos concertos já foram complicados. Mas desde que ele estava na minha barriga passei pelo Canadá, pela América, fui ao Brasil, fizemos 20 e tal concertos entre Portugal e Espanha já com o Primavera/Explode, que foi um mix que decidimos arranjar para que não fossem duas horas comigo aos pulos, porque era impossível, fiz um disco com ele na barriga... Se calhar foi por isso que ele não dormiu durante os primeiros dois anos de vida.

O Mundo onde ele vai crescer deixa-te preocupada ou isto sempre foi assim e agora está amplificado pelas redes sociais?
Deixa-me bastante preocupada, por isso é que me mudei definitivamente para Alcobaça, para ter a certeza que ali vai ter uma infância como eu tive porque as coisas não mudaram assim tanto desde então: a melhor das educações, o melhor dos professores, o melhor dos amigos, a tranquilidade de uma cidade fantástica onde conheço toda a gente, onde o meu pai vive a 20 km de distância. Vivíamos em Sintra e eu achava este lado, Lisboa, Sintra, tudo um pouco mais sombrio. Preferi escolher um sítio onde o Fausto crescesse onde eu já estava familiarizada, que eu não tenha grande coisa para descobrir, ele sim. Portanto, completamente mãe manipuladora, já a pensar que vou manipular os professores, que vou manipular toda a gente ali à volta, com uns binóculos atrás do bloco C para ver se ele está a fumar.

Estamos a fazer a entrevista no dia em que boa parte da Grande Lisboa foi acordada por um sismo. Tens medo de coisas que não controlas?
Ah foi? Não me digas. Olha, não notei nada. Tenho sempre a certeza que nunca vai haver sismos em Alcobaça nem atentados terroristas, ainda que o sismo de 1755 tenha afectado gravemente o Mosteiro de Alcobaça, portanto pode chegar a Alcobaça. Mas não, não tenho medo das coisas que não controlo, finjo que elas não existem. Normalmente tenho sempre aquela máxima que é I’ll cross that bridge when I’ll get there, por isso depois logo se vê.

Curiosamente o terramoto de 1755 é o tema do próximo álbum dos Moonspell, a banda do Fernando Ribeiro. Vocês falam de trabalho em casa, como as pessoas que têm empregos normais?
Claro que falamos, porque para mim a opinião do Fernando conta muitíssimo e creio que a minha palavra também conta muito para ele e trocamos ideias. Não estamos sempre a falar de trabalho, como é evidente, mas ele é o meu companheiro, é o meu melhor amigo, é com ele que resolvo os problemas, portanto se tenho problemas no trabalho é ao Fernando que normalmente vou pedir conselhos e ele a mesma coisa.

Estava a perguntar se falavam de coisas do dia-a-dia ou se é tipo “não me venhas falar de bandas.”
Ah não, claro que contamos, nem tinha piada não contarmos. “Então como é que foi o concerto?”, “Foi normal, igual aos outros todos”, aí não há nada para falar. Mas se, por exemplo, havia um buraco no meio do palco e eu caí, claro, essas coisas nós contamos.

E sabes o que queres fazer no dia em que tudo isto acabar?
Sei. Quero ser directora do Mosteiro de Alcobaça.

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