O que levou o Rock in Rio a vir para Portugal?

Já tinha acontecido três vezes no Brasil, mas com intervalos muito alargados. Quando volta em 2000, o Roberto tinha o sonho de internacionalizar o projecto. A primeira edição nasce para promover o Rio de Janeiro a nível internacional, para dar voz a uma geração que estava batalhando por liberdade de expressão há muito tempo, e a música foi escolhida como ferramenta de comunicação. Nasceu da cabeça de um publicitário e não de uma pessoa apaixonada por música, numa fase onde o Brasil não recebia grandes shows internacionais, os poucos que tinham ido lá deixaram o país com uma fama péssima. Tinha de ser algo muito especial, a única grande referência até então era o Woodstock, que não tinha sido feito de uma forma tão organizada. Então nasce o conceito da Cidade do Rock, um espaço desenhado para ser permanente, para o evento acontecer mais vezes seguidas, com alta infraestrutura, casas de banho de verdade, shopping, praça de alimentação... Só que sem a gente saber exatamente porquê o governo manda embargar as obras. Descobrimos dez anos depois, pela boca do próprio presidente da Câmara da época, que executou a ordem do governador, que a preocupação era que o Roberto, que estava com uma imagem muito forte junto da juventude, quisesse ser político. “É jovem, fala bem, atrapalha o caminho dele” e aí o embargo da cidade do Rock quase inviabilizou a realização do evento. Os prejuízos financeiros foram brutais, só deixaram construir a Cidade do Rock com o Roberto assinando um documento que dizia que podia ser destruída no dia seguinte a terminar o evento. O que se pensou na época foi que se o evento for um sucesso isso vai ficar sem efeito, mas no dia seguinte eles estavam lá destruindo tudo, um investimento que tinha sido feito para ser rentabilizado ao longo do tempo. Todo o mundo gostou muito, o país ficou feliz, mas o prejuízo financeiro foi enorme.

Como é que conseguiram regressar?

As grandes tournées começaram a ir ao país, para ter uma ideia só foi possível fazer o primeiro Rock in Rio porque os Queen emprestaram o equipamento de luz deles para todas as outras bandas, tinha que ser tudo importado e não era viável. Cinco anos depois a Pepsi entra no Brasil com Pepsi Music, e era Michael Jackson, Madonna, então a Coca-Cola pede para o Rock in Rio acontecer de novo. O Roberto não queria fazer de jeito nenhum, mas teve um incidente pessoal, o sequestro, que em vez de deprimindo fez com que ele tivesse muita vontade de mostrar que estava vivo, então ele volta com uma gana muito grande. Acontece o evento mas no Maracanã e foi tipo uma camisa-de-forças, porque o propósito do Rock in Rio sempre foi juntar pessoas em volta da música e não assistir a shows. Foi transmitido pelo mundo todo, mas não fazia sentido. Dez anos passam e as pessoas continuavam pedindo para o Rock in Rio acontecer porque tinham marcado a vida delas, e aí começa o publicitário também pensando “espera aí, tenho uma marca que as pessoas estão a vir atrás e não estou fazendo nada com ela”. Aí decidiu voltar a fazer mas para usar a música como plataforma de divulgação de causas maiores, é quando aparece o projecto social. Nessa decisão de voltar nasce o sonho de internacionalizar o projecto. O sonho mesmo naquela época era parar logo o mundo todo, porque a gente fez três minutos de silêncio no Brasil, foi super lindo, mas ele queria fazer no mundo todo.

E porquê Lisboa?

Quando acaba a edição de 2001, nesse período aparecia um rapaz chamado Felipe Resnikoff, um brasileiro que vive em Portugal há quase 30 anos e chegava lá com projectos e não sei quê tentando convencer a trazer para cá, a gente ainda não estava com espaço mental sequer, sempre foi uma organização pequena, e então ouvir falando de Portugal não tinha espaço para fazer essa conversa. O Felipe foi ao Brasil durante três anos. Quando acaba 2001 a gente estava renovando o contrato para fazer 2003 no Rio com a American Airlines, que tinha sido patrocinador da terceira edição, só que acontece o 11 de Setembro, os Estados Unidos param e o contrato pára. Nesse momento veio o Felipe de novo, cada vez que o Felipe chegava eu já dava risadas. E a gente montou uma estratégia para ele parar, “diz para ele que se conseguir marcar uma reunião com o presidente da câmara e tiver acordo para dar as infraestruturas necessárias para o Rock in Rio acontecer a gente vai lá”. Mas isso era para o Felipe desistir. Em duas semanas ele marcou a reunião, era Santana Lopes na época, em mais duas semanas o Roberto estava aqui, em um mês o protocolo estava assinado. A história do Rock in Rio tem muito a ver com isso, pessoas que fazem as coisas acontecer. Tem vida própria, não está nas nossas mãos, o de Madrid aconteceu assim, começou a aparecer o amigo do amigo, começou a insistir, fez os contactos, e fomos parar lá. Os Estados Unidos agora aconteceu assim, em cima de pessoas que se apaixonam pela ideia e não largam o osso até as coisas acontecerem.

Alguma vez tinhas pensado em viver fora do Brasil?

Vivi fora do Brasil por seis meses quando fui estudar para Los Angeles, mas era numa de sair um bocado dali. Odiava a minha faculdade, porque a bem ou a mal já estava trabalhando há um tempo e a faculdade era muito teórica. Estava pedindo para ir estudar fora há muito tempo e aí finalmente os meus pais disseram “pode ir” e lá fui eu seis meses, pura curtição, foi muito giro e voltei. Quando foi para vir para Portugal eu não pensei que ia morar fora, tinha uma tarefa, montar o Rock in Rio. Foi muito engraçado porque nesse primeiro ano estava muito sozinha, teve uma coisa boa nisso eu me aproximei da cultura muito rápido, porque tinha a consciência clara que quem tinha de entender como as coisas funcionavam era eu, não podia querer fazer como no Brasil, não ia correr bem. Quando acaba a primeira edição a gente decide que ia ficar, eu estava completamente encantada com o país. Foi uma identificação mesmo de personalidade com a cidade, com Lisboa, com as pessoas, eu me sinto muito feliz aqui.

Já cá tinhas vindo?

Zero. Pior, o meu avô é português e eu nem lembrava. Faleceu eu tinha 11 anos e ele não tinha muito sotaque, Portugal não estava nessa conversa de casa. Portugal não estava no meu mapa. O Brasil é muito americanizado, não é todo o mundo que fala de Europa. A gente estuda muito Portugal até 1500 e depois acabou, criou-se um distanciamento com Portugal brutal e acho que tem uma certa incompetência de Portugal em conseguir manter uma imagem atualizada.

Os jovens portugueses que estudam e trabalham no Brasil já começam a melhorar a imagem que têm de nós?

Já é mais próxima a relação entre os países, uma linguagem muito mais moderna, óbvio que o Rock in Rio tem um contributozinho mas quem fez uma diferença grande aqui foi o Scolari, porque ele aproximou os países de uma forma que nunca tinha visto. Em 2006 tinha bandeiras de Portugal a ser vendidas no sinal do trânsito, em geral o que se vende ali faz sucesso. Nunca vi o Brasil torcendo por país nenhum, a gente já tinha saído da Copa com uns vexames quaisquer lá. Agora sim, tem muito jovem indo estudar e nos locais mais bacanas da cidade, como a moeda lá é desvalorizada em relação ao euro, eles vão todos para Ipanema, Leblon, nas melhores ruas, são miúdas giríssimas, miúdos giros, inteligentes, super modernos, existe uma diferença muito grande das novas gerações para as gerações mais velhas.

Fotografia Bernardo Coelho

Foi complicado largares toda a gente que conhecias ou teve que ser e pronto?

Aconteceu assim. Uma das coisas que me fez ficar em Portugal foram os amigos que fiz. Até estava namorando uma pessoa na época e hoje em dia acho que já fazia, por uma relação já me mudava, mas na época? Imagina se um homem me vai prender a algum lugar, nem pensar. [risos] Tenho tido o privilégio de ir muito ao Brasil. Aliás, foram sete anos dentro do avião, eu morava em Lisboa e era projecto na Roménia, projecto na...

E nos anos em que fazem noutros países, sais de cá por uns meses para ajudar na produção?

Agora menos, mas em Espanha foi literalmente viver nos dois países ao mesmo tempo. Tinha uma casa em Espanha, uma casa aqui e ficava 15 dias em cada. Preciso de melhores amigos, a gente tem de fazer um esforço muito grande para entrar na vida das pessoas e cada vez que eu ficava com períodos muito fora, mesmo os bons amigos que tinha feito, chegava e tava sempre no fim-de-semana errado. “Não, a festa foi na semana passada.” Aquele período foi muito divertido e continuo adorando abrir países, mas começo a ter outras necessidades. Lembro que eu falei vou comprar um cachorro porque vai-me obrigar a ter uma casa e a voltar para ela, porque tenho de dar comida para o cachorro. Deu super certo, menos de um ano depois já tinha o marido, namorido escolhido, mais dois anos a filha, estruturou tudo, o cachorro foi super.

Uma filha pequena vai obrigar-te a estabilizar daqui para a frente, não é?

Sim, mas é tão bom. Trabalhava das 8 à meia-noite, da meia-noite às 8, não tem limite, são muitas horas dedicadas e com a Lua eu posso mas não quero. Quem sabe daqui a uns anos, quando ela já estiver mais independente, talvez volte mas neste momento pelo menos é muito fácil a decisão de que a prioridade é a família. Já nos Estados Unidos fui apenas as vezes necessárias para fazer as entrevistas, para comunicar e 40 dias no final do período de produção.

Quanto tempo antes começa o trabalho numa edição do Rock in Rio?

A gente terminando uma vai fazendo a próxima só que isso vai por pacotes, isto é, antes de terminar uma edição a gente já está conversando com os patrocinadores para a próxima, muitas vezes a gente anuncia a próxima edição dentro do próprio evento já com alguns patrocinadores comprometidos, então começa a equipa comercial, atendimento a fazer pós venda tem toda ali uma gestão dessa relação com as marcas. Depois à produção vai entrar um ano e meio antes mais de 500 contratos entre fornecedores, artistas, é muita coisa então começa agora, a vida mais agitada em geral começa Outubro antes, são oito meses, que é quando a gente começa as campanhas de comunicação, a gente já está no ar 8 meses antes, para a gente está rolando desde Outubro, aquilo é acontecimentos constantes.

Consegues tirar férias quando este acabar?

Já começo a pensar nisso, agora a gente começa a se organizar para dividir equipas, quando surge Estados Unidos, Brasil, Lisboa... Depois do Brasil não conseguia, é muito intenso, foi em Setembro e não tinha tempo porque aqui já estava começando a comunicação dessa edição. Daqui para o próximo evento é que tem um gap maior, a não ser que os Estados Unidos se confirme para Maio porque a gente está discutindo datas.

Fotografia Bernardo Coelho

E consegues ter um dia-a-dia normal, cozinhas, essas coisas?

Agora? Zero normal. Se eu conseguir ver a minha filha é um grande negócio. O ano passado consegui fazer ginástica até Julho, acabou e até hoje não consegui voltar. Hobby nesse momento é conseguir estar com a minha família. Consigo ainda fugir e jantar com uns amigos, mas é muito pontual porque o nível de exaustão... Desde Fevereiro é uma maluquice o ritmo de trabalho que a gente tem.

Tinhas a certeza que num país pequeno como o nosso era possível colocar 80 ou 90 mil pessoas num parque?

Não sei se pensámos nisso tudo, a gente vinha testar o modelo que acreditava que fosse internacional. Depende do ano mas Portugal sempre foi muito privilegiado com a localização e a aceitação do público. Apesar de ser pequenino os artistas vêm a Portugal, então existia um histórico que mostrava para a gente que o potencial existia.

Mas não era a esta escala.

A gente veio com uma escala do Brasil e na verdade teve de ajustar muita coisa aqui. Lembro de chegar e falava que ia andado ali de São Sebastião para a Bela Vista e as pessoas ficavam muito assustadas, 4 quilómetros no Brasil não é nada. Se a primeira edição desse certo a intenção era fazer três, foi dando certo, foi dando certo, e estamos indo para a sétima.

E esse modelo de dois em dois anos que fizeram em Portugal agora também estão a fazer no Brasil. É o ideal ou o possível?

Acho que é o ideal, mas tem diferenças. Aqui a gente vinha com ideia de quatro em quatro, à la Copa do Mundo, e chegamos no número de dois em dois conversando com o mercado. O investimento é muito alto então fazer todo o ano não era possível, mas mais de dois para as marcas era um gap muito grande em termos de utilização desse conteúdo. Quando a gente volta para o Brasil aplica o mesmo modelo e super resulta. O ano off dá saudade, dá expectativa, valoriza o produto. Mas chegamos nos Estados Unidos com a mesma lógica, e o mercado é muito agressivo, a oferta é brutal e aí funciona diferente. Um ano off, com o volume de impacto que um consumidor recebe é capaz de ele esquecer que você existiu, não se consegue comunicar na media sequer regionalmente, você comunica localmente. A gente lançou o evento em Time Square, claro, era óbvio. Ia fazer em Las Vegas e como a gente constrói projectos nacionais, lança em Nova Iorque. E os americanos “mas o que é que vocês estão indo fazer em Nova Iorque?”. Acho que na cabeça do americano era mais ou menos lançar Rock in Rio Berlim em Lisboa. Fez sentido, mas não há cheque que pague o que a gente queria fazer, a gente aprendeu muito já fazendo o evento. Então as conversas que estão agora acontecendo é que eles querem que a gente faça todo o ano.

Em relação à escolha das bandas como é que é funciona, intuição, fazem estudos de mercado?

Tem um pouco dos dois. São trinta anos de experiência, e tem pesquisas de mercado que são a olhar o que está rolando, o que é que as rádios estão tocando, os especialistas do mercado o que é que dizem, as ferramentas do Spotify e etc., em que você consegue avaliar o que é que o consumidor gosta e a gente vai compondo assim. Agora tem muito de intuição. Quando a gente levou por exemplo o Bruce Springsteen para o Brasil não era seguro e foi brutal, quando a gente trouxe Stevie Wonder para lá e para cá foi brutal. A gente agora fez uma aposta mais ousada, Hollywood Vampires, que foi um show incrível no Brasil mas que as pessoas não fazem a mínima ideia de quem eles são e aqui está a ser mais desafiador explicar que é uma super banda que se junta de vez em quando.

E esse para lá e para cá é uma questão comercial ou criam-se laços?

Se você avaliar o volume de bandas possíveis para ser headliner de um evento como este, são muito poucas. Metade delas estão de férias este ano, a outra metade estão fazendo show no mundo inteiro, e os festivais têm uma desvantagem que é você dizer para o sujeito o dia que você quer que ele esteja e ele diz “não, não, a minha tournée só começa um mês à frente”. E aí ou é muito caro você antecipar a tournée ou ele não vem. Então, a gente em geral, em termos de headliner está sempre circulando nos mesmos porque é um evento mainstream. Por exemplo, agora tem Arcade Fire no Alive, beleza, ali é na medida certa, para o Rock in Rio foi o dia mais fraco. A dimensão é de facto muito grande, então fica muito restrito em relação aos headliners.

E nessa parte da intuição, quem é que toma a decisão final?

Roberto Medina. Aliás artístico é com ele mesmo, graças a Deus, eu não faço nada nessa área, nada.

Fotografia Bernardo Coelho

Há bandas que chegam em pacote, por exemplo para terem os Queen têm que contratar também o Mika, ou isso não existe?

Em geral é possível que um headliner traga indicação, um pedido suave, para encaixar uma ou outra banda. Acontece, mas não é tão comum assim.

É fácil lidar com os egos das bandas, compreendem bem se forem a 2ª ou a 3ª da noite?

Hoje em dia acho que já, no Brasil a gente já teve grandes debates, discussões sobre isso mas quem dita a regra é quem vende mais ingresso, e quem é mais raro também. Às vezes pode ter uma banda portuguesa ou brasileira que até vendem mais que uma ou outra americana mas em relação à notoriedade, os gringos às vezes ficam mais para cima. Mas hoje já é mais tranquilo, e parou aquela chatice de não tocar de dia.

Apesar da enorme oferta que se tem vindo a registar em Portugal, há nomes gigantes como Eminem que nunca nos visitaram. Há estilos que acham que não funcionam?

Tem estilos que podem não funcionar, o Eminem depende do país, fica no limiar ali de fazer sentido ou não. Acho que seria um show bacana no Rock In Rio, mas é um bocadinho mais nichado, a gente tem de ter cuidado, por isso a gente tem o palco Vodafone que fala com esse público mais alternativo. Mas quem vende ingresso continua sendo o pop, rock, o tradicional.

Apesar de estarem a comemorar os 30 anos do festival, só há três bandas por dia no palco principal, quando na primeira edição costumavam ser seis. Foi uma decisão financeira?

Há três bandas e um espectáculo musical. Acho que a gente já está com quatro shows há um tempo. Teve de seis mas eram construídos com um perfil muito diferente. Talvez uma parte tem a ver com a dinâmica da própria cidade do rock, vai ficando complicado gerir e encaixar tanta coisa, porque a gente aposta na diversidade de atracções e que não fiquem ali concentrados só no Palco Mundo. A decisão deste ano é muito diferente, fazer um musical é mais caro do que botar um artista.

E estão confiantes que as pessoas vão achar que valeu a pena?

É uma decisão claríssima, uma inovação de conteúdo apostando cada vez mais em entretenimento, isso não é uma brincadeira, trazer um musical para dentro de um evento deste perfil é um desafio grande. São trinta anos através da música, para o pessoal cantar da primeira à última, com pequenas histórias envolvendo artistas que vão sendo contadas nesse percurso de contar a história das várias edições.

E em relação a artistas brasileiros também houve uma clara diminuição, só a Ivete Sangalo se mantém. Não funcionam bem?

Não funciona. Não é ruim, mas não é um grande diferencial. A Ivete Sangalo vende muito sempre, então onde a gente vai ela vai, aquilo dá super certo. O que a gente percebeu foi que, por exemplo, o rock brasileiro nunca entrou aqui muito bem. Só faria mais sentido se eles fizessem um trabalho importante para entrar no mercado, as pessoas não conhecem bem e depois não têm oportunidade de dar continuidade à relação porque o artista não investe nesse caminho.

E na Cidade do Rock, já fizeram coisas que correram muito mal?

Não, graças a Deus não. Há uma que não correu exactamente o que a gente queria. Logo na primeira edição a gente tinha a tenda Mundo Melhor, de debate, e aquilo só estava cheio quando estava tocando música e por causa do ar condicionado. [risos] O povo não queria pensar em nada sério então aquilo realmente não resultou.

Uma das coisas que o Rock in Rio trouxe de novo para cá foram as transmissões televisivas em directo. Esta forma de espalhar a mensagem é um dos segredos do negócio?

É uma das características, de segredo não tem nada. É uma das características do evento porque mais do que falar com as pessoas dentro do recinto, a gente está falando com milhão e meio no país, é um projecto de comunicação, onde a música é a ferramenta principal. O Rock in Rio é um projecto de comunicação e precisa entregar determinado nível de retorno, porque isto aqui é o ovo e a galinha. Você não vai achar som tão bom em qualquer evento aberto que você vá pelo mundo fora, a gente investe muito em tudo e isto só é possível porque tem patrocinador, com a venda de bilhetes essa conta nunca fecharia. Tendo patrocinador você precisa entregar retorno, no recinto não basta, precisa de meses de comunicação, conteúdos relevantes, e a transmissão faz parte desse pacote. Todos os patrocinadores fazem continhas, ninguém é maluquinho e fica dando cheque à toa por aí.

Fotografia Bernardo Coelho

E tens vontade de fazer isto a vida toda, ou queres reformar-te aos 50?

Reformar também não sei, não me parece bem ainda. Acho que se pensasse nisso ficaria mega angustiada, não tenho essa necessidade de saber o que eu vou estar fazendo com 50 anos. O que hoje tenho vontade é de fazer mais coisas, porque sendo extremamente desafiador, é novamente o Rock in Rio. Gosto muito de fazer, de tirar ideias do papel, mas hoje já tenho assim uns bichinhos me puxando para querer fazer umas coisas novas.

Coisas novas para ser uma criação tua?

Não tenho essa necessidade. Pode mudar o nome do boi mas entretenimento está sempre ali porque eu gosto mesmo de fazer isso, de ver as pessoas se divertindo, acho delicioso. A gente não faz nada sozinho, a ideia não precisa vir de mim mas tem de ser coisa gira e tem uma coisa que para mim é essencial, tem que ter significado, sou incapaz de fazer uma coisa que eu não acredito.

E quando começaste a trabalhar com o teu pai achas que foste levada a sério desde o início?

Quem não se levou a sério fui eu, esse é o primeiro problema, não está no outro, está na gente. Levei uns dois anos, quase três, para entender que afinal de contas eu fazia alguma coisa direitinho. Em relação às pessoas, acho que tenho uma característica que me ajudou, eu nunca fiquei prestando muita atenção no que estavam pensando. No início eu preocupava, então colocava óculos sem precisar. Sem dúvida nenhuma que os filhos de pessoas com destaque começam devendo, começa com -10, existe uma expectativa e um preconceito grande. Se prestar atenção nisso congela e não faz nada. O meu pai fez uma coisa muito bem-
-feita, não sei se de propósito, mas ele passou a responsabilidade e foi, me jogou dentro da jaula do leão, trancou e jogou a chave fora. Passados alguns anos a minha versão é um pouco adaptada, pegou, jogou na jaula do leão, trancou, guardou a chave no bolso e ficou lá espreitando atrás da cortina. Óbvio que ele estava por ali vendo tudo acontecer, eu tinha a sensação mesmo de que ele tinha jogado a bomba no meu colo e eu tinha de me virar. Isso fez com que as pessoas me respeitassem, porque não tinha opção, podiam não querer falar comigo mas não tinha mais com quem falar. Se ele estivesse lá eu nunca teria ganhado respeito de ninguém, então essa atitude dele facilitou muito a minha vida.

Passas o dia bem-disposta?

Depende, não sou muito irritada não, mas cara, de vez em quando… Ontem entrei na reunião executiva e estava com um mau humor, mas vê-se a TPM mesmo, é um negócio sinistro, um monstro que te domina por dentro. Não é um processo minimamente racional, mas aí pelo menos tive um toque de consciência, chego avisando “estou muito mal-humorada”. A partir daí já começa a rir, a gente tem que saber lidar com essas palhaçadas nossas. Agora, não sou muito mal-humorada.

O que é que te irrita?

Sou muito sensível às pessoas, acho às vezes que peco até, porque deixo, deixo, deixo, esperando que a criatura faça. Não tive uma formação formal, não tenho metodologias, no marketing a mesma coisa muda de nome dez vezes por ano, eu fico olhando para aquilo e não sei o que eles estão dizendo, não tenho a coisa muito da gestão estruturada, vem mesmo o empreendedorismo terrorista, aquela cena de “ah, começa a fazer, como é que faz logo se vê”. A empresa tá ganhando uma dimensão que isso começa a ser menos possível, graças a Deus tem pessoas que começam a organizar um bocado a casa em termos de ferramentas, de sistema de gestão, que eu acho tudo uma chatice danada mas é fundamental pela dimensão que aquilo hoje tem. Mas acho que peco por isso, oriento muito pouco, dou diretrizes mas não formo. Não fui formada, não sei como é que faz, vai e faz, se não conseguir avisa. Mas não tem muito essa margem, a margem é curta de não conseguir.

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