Começando pela pintura… como é que começaste a pintar?

No fundo a pintura foi uma coisa que esteve sempre muito a par e passo connosco. A minha mãe era daquelas mães saudavelmente galinhas que gostava que os filhos estivessem sempre ocupados e não andassem a fazer asneiras na rua. Então, todos os nossos tempos livres serviam para irmos para o Museu Nacional de Arte Antiga (quando estávamos em Lisboa durante o Verão), ou então para o parque Marechal Carmona (quando estávamos a viver em Cascais). Além disso havia umas oficinas onde trabalhavas com tudo: com linóleos, com barro, tintas de água, tudo e mais alguma coisa, havia ali um admirável mundo novo.

A pintura é um escape. Numa fase difícil da minha vida, recebi um convite do Rodrigo Moreira Rato para uma exposição no Salão Nobre da sede do ACP. Disse logo que sim e acabei por fazer aí a minha primeira colecção.

És uma pessoa que se lança de cabeça para as coisas?

Sou, sou!

Pensas depois se “terá sido uma boa ideia”?

Não. A primeira coisa que faço é pensar “consigo ou não consigo”? E se sinto que tenho capacidade para fazer, atiro-me de cabeça e não olho... deixo ficar os meios de lado. Só tento ter sempre uma consciência enorme e disponibilidade — isto é uma palavra que me segue — e eu acho que podes estar a envolver-te nos projectos que tu quiseres… se não tiveres uma disponibilidade interior não vais a lado nenhum.

Já te arrependeste alguma vez...

Não, ainda bem que não. Acho que sempre tive experiências de algum modo gratificantes e que recolhi sempre coisas muito positivas.

Foi importante viveres nos Açores para baralhar tudo ou não...?

Foi. Numa dada fase da tua vida, onde tens tudo organizado e equilibrado, de repente tiram-te o tapete do chão e dizem-te “agora vais viver para outro sítio, culturalmente muito diferente e sem amigos”. Tens 15 anos. Estás a solidificar as tuas amizades, a ter os teus primeiros casos amorosos… de repente tudo muda. Mas acabei por me adaptar e hoje em dia tenho grandes e bons amigos nos Açores, na Terceira e sempre que vou faço questão de estar com eles.

Fotografia Bernardo Coelho

Voltaste para o continente com 18 anos...

Voltei com 18 e é aí que a coisa toda da moda começa. Na verdade a origem está na Terceira quando no liceu a minha amiga Helena Fraga vem ter comigo e diz “Ricardo não queres entrar num espectáculo e fazemos uma passagem de modelos para a festa dos finalistas?” e eu disse “embora”. A coisa foi um bocadinho surreal. Quem nos ensinou a desfilar foi uma Miss que tinha ganho um concurso em Angra do Heroísmo; o grande patrocinador era a Carnaçor sendo o título da dita Miss Carnaçor. [risos]

Correu bem e comecei a fazer todos os desfiles da Milú Stewart, que tinha a loja mais fashion da altura. Mais desfiles de trajes regionais e outros que tais deixaram ficar o bichinho. Quando cheguei a Lisboa andei uns dois ou três meses a visitar várias escolas e a assistir a várias aulas para perceber se me identificava com aquilo ou não. Não me identifiquei. E há um dia que entro numa agência de manequins e, no meio daquilo tudo, aprendo a ser modelo fotográfico.

E entras para o mundo da moda?

Sim. Lembro-me que o meu primeiro anúncio foi para uma marca de cigarros. Fiquei conhecido por esse anúncio mas o verdadeiro sucesso eram uns ténis da Nike em pele que tinha trazido da Terceira, comprados na base das Lages, que era coisa que não havia. Eu era “o gajo dos ténis”!

Quem cresceu nos anos 80 sabe que as festas e eventos da altura tinham um fascínio especial…

Completamente. Era engraçado porque as pessoas conheciam-se todas e davam-se todas bem. Lembro-me de, uma noite de Carnaval, ter ido jantar com um grupo a casa de uma amiga mascarados de ciganos (era a época dos Gipsy Kings). No final fomos até ao Plateau e, à medida que subíamos as escadas íamos cantando o Djobi Djoba. De repente, toda a gente que por ali estava, estava a cantar connosco. Nessa época havia um encanto na noite. As pessoas arranjavam-se mesmo para sair, ao contrário dos actuais ténis, jeans e t-shirt. Os VIP eram mesmo VIP e escusavas de tentar entrar para junto deles porque não entravas, ponto final.

A noite banalizou-se ou está diferente?

Acho que está diferente. Hoje há muito mais oferta, há mais pessoas, os públicos estão muito mais separados uns dos outros. Continuo a sentir que não existe uma discoteca para a malta da minha geração. Os cinquentões não têm um espaço, que podia ser um Plateau ou Lux, onde ainda houvesse cuidado com o requinte e o pormenor.

A noite dos anos 80 era também a noite de excessos, do Sex, Drugs & Rock&Roll…

A única diferença que eu te posso dizer em relação aos tempos de Sex, Drugs & Rock&Roll é que na altura tudo era como um bom produto biológico… não tinha químicos. [risos] Não digo mais nada!

E as cantigas vêm desde o tempo dos Ibéria?

Isso foi um projecto que aconteceu muito rápido. Ensaiávamos em Santo António dos Cavaleiros. Não tinha escola nenhuma. Dão-te um microfone para a mão e dizem-te “agora canta”. Houve aí uma fase que andei um bocadinho aos papéis. Mais tarde cruzei-me nos Olivais com um grupo de amigos de canto gregoriano. Aí sim foi muita giro e comecei a aprender alguma coisa relacionada com o canto.

És católico?

Sou católico não praticante. Fui educado assim e sinto-me bem com tudo isso. Eu sou de largo espectro em relação às religiões, acho que andamos todos à procura do mesmo. Se calhar não diria tanto que sou católico, sou mais cristão.

Nunca te vemos a ter uma posição política forte. É um assunto que evitas?

Evito estar sempre a falar e sempre que dou o meu apoio é a uma pessoa, não a um partido. Os partidos estão cada vez mais estão fechados entre quatro paredes, dentro dos seus contextos, conceitos e estratégias. Às tantas acho que eles se esquecem que trabalham para as pessoas, um bocadinho como a igreja. Não estou a criticar de todo a igreja católica, acho que graças a Deus apareceu-nos um Papa Francisco que está a abrir a cabeça de muito boa gente. Como actor, sou completamente apartidário, até para que as minhas opiniões possam ser ouvidas sem vícios.

Fotografia Bernardo Coelho

A Lusitânia Expresso é a tua porta para a televisão?

Para a televisão e para a representação. Um dos primeiros fotógrafos com quem trabalhei foi o Paulo Miguel Forte. Anos mais tarde, vinha eu de uma tournée da Lacoste, e encontro-o num avião, onde ele me fala do projecto Lusitânia Expresso. Coincidentemente estava a começar a pensar na carreira de actor e, depois de várias conversas, acabei por abraçar o projecto. Na altura aproveitei também para fazer algumas curtas-metragens com o Zé Pinheiro, com o Manuel Amaral da Costa, com a própria Gabriela Sobral (hoje na direcção de programas da SIC).

O Conservatório não era opção?

Estive na dúvida mas todos me diziam “vais-te encher de vícios”. Se fosse agora e da forma que o ensino evoluiu teria ido de certeza absoluta.

Mas não foste e mais tarde aconteceu o Claxon.

Foi a primeira série que fiz para a televisão e foi uma coisa épica e fascinante. Usávamos película de cinema… tudo era diferente, tudo era surpreendentemente diferente. Eram as ruas do Porto mas como não havia dinheiro para as fechar, inventava-se.

Achas que havia espaço para um Claxon agora?

Aquele Claxon teve o seu tempo. Hoje teria de ser feito de outra forma, com outros meios. Mas com a divulgação bem feita e com o horário adequado, teria seguramente o seu espaço. Há uma diversidade de público e a produção atingiu níveis incríveis. Algumas novelas da Globo parecem autênticos filmes.

Achas que ainda andamos a reboque do que se faz no Brasil?

Acho que estamos todos a tentar fazer cada vez melhor. Já não estamos a reboque de ninguém mas sim a ter a capacidade de arriscar. E com os prémios que temos ganho a nível internacional, temos essa obrigação.

E com tanta qualidade, não é frustrante ter a concorrência a combater esse produto com Reality TV?

São opções, o que é que posso dizer. A mim preocupa-me porque estamos a embrutecer a sociedade. Estamos a ver uma data de miúdos que, em lugar de estarem a perseguir o seu enriquecimento intelectual, se estão a banalizar. Claro está que se há público, que exista. Agora se me perguntas se eu gosto, não gosto. Em todo o caso é um produto que está a cair. A novela é um veiculo de transmissão cultural e podíamos ter a capacidade de aprofundar ainda mais os assuntos e os problemas.

Foi violenta a entrada de uma “cara bonita” na televisão?

Houve preconceito e até há muitos poucos anos ainda senti esse preconceito no pêlo.

O teatro serviu para te ajudar a validar como actor?

Acho que há uma escola e um respeito que se deve manter por todos os actores que passaram pelo teatro e por aqueles que defendem o teatro. Não há dúvida que fazer televisão é mais fácil, mas se calhar um actor que ganha rodagem em televisão, ao final de tantos anos, deve estar disponível para ir para cima de um palco e fazer tão bem quanto. Agora que há uma tradição muito grande de representação do teatro e que ela deve ser preservada e salvaguardada é um facto. As tábuas ensinam muito, assim como o saltar para cima de um palco e estares à frente de uma multidão a cantar, ensina-te muito. É assustador? É mágico, eu acho que é desafiante. Termos o contacto directo ali com o público e sem rede é um grande desafio.

Não te assusta?

Nada.

Fotografia Bernardo Coelho

Apanhaste alguma peripécia mais forte numa peça tua?

Já me aconteceram as coisas mais surreais. Tive um grande susto em pleno Ricardo II, na peça com que me estreei em teatro. Aliás, o primeiro susto que apanhei foi quando subi para o palco e começo a olhar para a sala, olho lá para cima — para o galinheiro — e pergunto “como é que a minha voz vai chegar lá acima?”. Aí, felizmente, tive uma senhora chamada Glória de Matos que me deu aulas de dicção e me pôs a fazer com que a minha voz lá chegasse. Mais tarde aconteceu-me, nessa mesma peça, ter uma branca terrível. Tinha de dizer tipo “minha senhora, sua majestade” e varreu-se-me, e começo a ouvir a Cristina Duarte que era contra-regra a gritar-me o texto, de repente veio-me à memória e pronto saiu o texto com toda a naturalidade. Depois acontece tudo no teatro, acontece o ataque de riso, acontece por exemplo, no Parque Mayer, olhas para a teia e está uma pessoa lá em cima e começas a contar as pessoas todas da sala e “mas aquele gajo não faz parte da equipa, quem é?” e não era ninguém, se calhar era fruto da minha imaginação. [risos]

E fãs, alguma vez te assustaste verdadeiramente?

Não. Sempre me relacionei e continuo a relacionar muito bem com tudo isso. Parto sempre do princípio que, se temos pessoas que nos conhecem na rua, é porque caímos diariamente no prato da sopa delas. Portanto, só temos é de aprender a lidarmos com isso. Agora que falas nisso, por acaso assustei-me uma vez, era ainda manequim. Existia uma senhora que fazia apresentações de desfiles, de seu nome Maria Leonor, que era uma grande profissional da rádio e que estava a trabalhar no desfile onde eu estava. Era a altura do filme Oficial e Cavalheiro e o público do desfile eram revendedoras da Tupperware. Às duas por três entro eu de calcinha branca, jaquetão e chapéu de oficial na cabeça. Não tens noção. Aquilo começa ali uma excitação, um pandemónio, uma gritaria tal, que a Maria Leonor teve de gritar várias vezes “meninas, por favor, controlem-se. Isto não é nenhuma feira de gado”. [risos] Acontecem situações super engraçadas e divertidas.

E aquelas fãs que aparecem no camarim… tiveste de certeza?

Não tive, não. É engraçado que acontecem situações mais surreais hoje do que antigamente. Se calhar as mulheres estão mais emancipadas e de repente ouço com cada uma que... divirto-me com isso, não me faz confusão, de todo. Não custa nada desde que tenhas um sorriso na cara e sejas bem educado.

De todas as personagens que já fizeste, qual a que tens mais saudades de fazer?

Gostava de voltar a fazer de vilão! Já não faço de vilão há uns tempos e confesso que estou a ficar um bocadinho cansado de ser sempre o bom rapaz. E depois, o vilão é sempre mais divertido!

Ser vilão não te causa problemas na rua?

Sim, tive vários. Há uns anos, a fazer a novela Ninguém como Tu, ainda para a TVI, e o meu personagem tinha uma relação estável mas a dada altura acabou por se envolver com a cunhada… pumba! Um belo dia, estou eu numa loja de roupa num centro comercial e, do lado contrário a um cabide cheio de calças começo a ouvir uma voz masculina, marcadamente grave e zangada “francamente!”. Passados alguns segundos repete “francamente! Não tem vergonha nenhuma?”. Casado com uma mulher extraordinária e anda embrulhado com a irmã dela!”. Desviei as calças e lá estava do outro lado, sentado e com um ar zangadíssimo, um senhor a olhar para mim.

E tu?

Rasguei um sorriso, como habitualmente faço, dirigi-me calmamente a ele e disse num tom condescendente “O senhor anda a ver novelas demais! Vá por mim… não leve tanto a sério”. Não há dúvida que a televisão tem sido ao longo destes anos um factor de companhia muito grande, principalmente para as pessoas mais velhas, e nós fazemos parte da vida dessas pessoas. É inevitável.

Fotografia Bernardo Coelho

E como é que acontece a música?

Não é por falta de trabalho nem por falta de fazer. Graças a Deus nesta altura da minha vida não me falta trabalho. É mesmo por paixão. É um enorme desafio a mim próprio. Vem do tempo de miúdo. Assim como havia o desenho, também havia cantorias a torto e a direito e nós fazíamos espetáculos sobre o Festival RTP da Canção. Se bem te lembras, na altura o país parava com o Festival da Canção. E isto acontece ao final destes anos todos, uma espécie de culminar lógico. Havia imensa música em minha casa. A minha mãe cantava lindamente fado… cantava e canta! E depois há ainda o meu tio João, que também tem veia de fadista. Portanto as cantorias foi uma coisa que sempre aconteceu na minha vida desde tenra idade. Acabavam sempre as almoçaradas e jantaradas com tudo a cantar. Mas ainda há mais coisas que contribuíram. Por exemplo, quando eu estava naquela fase de transição de manequim para actor, fui trabalhar para um bar que se chamava Bar Bairro Alto e, nesse bar, conheço o Octávio Pimenta que na altura tinha uma banda que se chamava os Bla Bla Magazine. Um belo dia estou eu no escritório e começo a ouvir Genesis. Aquilo estava a ser tocado e cantado de uma forma única e começou a fazer-me bastante confusão. De repente desço as escadas e vou lá abaixo ver quem é que estava a tocar aquilo. Era o Octávio que estava a ensaiar! Começamos então a falar e quase sem perceber já estávamos os dois a cantarolar ali umas coisas. Correu muito bem esse dia. De tal forma que passados uns tempos o Octávio sobe-me as escadas do escritório a correr e diz-me “Ricardo, queres concorrer ao Festival da Canção?” e eu fiquei a olhar para ele. Comecei por rir mas depois percebi que ele estava a falar a sério.

E como sempre na tua vida…

…disse-lhe “Bora”! Então ele lá explicou “olha, eu já tenho dois outros rapazes e duas raparigas. Precisava de mais uma rapariga para ter os três rapazes e as três raparigas…”.

E não correu nada mal.

Pois não. Ficámos em segundo lugar no ano em que ganhou a Dulce Pontes com o Lusitana Paixão, o que para Curriculum é fantástico! E foi muito giro. Foi uma experiência excepcional e esse bicho ficou. Ainda chegámos a fazer juntos alguns espectáculos e algumas participações. Entretanto a coisa caiu porque a ideia era termos ganho para poder projectar mais além. Não deu, não deu, paciência. E há coisa de sete anos, quando volto para Cascais, começo a desenvolver um projecto juntamente com a Maria Helena na Associação Cultural. Transformámos tanto as cavalariças da Fortaleza de Cascais como depois o antigo Universal em salas de teatro. Sendo estes dois espaços muito transversais, permitia que houvesse mais concertos que antes da transformação. No meio disto tudo, um dia o Hugo Reis vira-se para mim e diz “tens de começar a cantar”. Isto porque já me tinha apanhado a cantarolar e, a partir daí e de quando em vez, fazíamos umas brincadeiras sozinhos. Nesse dia o Hugo vira-se para mim e diz-me que vai ter de ser. A banda do Miguel Jesus que já lá estava predispôs-se logo a acompanhar-me e de repente, no final de toda as actuações programadas, entro em palco e canto três músicas. E o bicho definitivamente ficou. Depois tive várias pessoas que me incentivaram, que me deram força. Mais tarde e de novo após um concerto convidam-me para cantar uma canção, o Rogério Charraz desafia-me depois para “fazer estrada” com ele com um projecto que fizemos os dois, juntamente com o pianista dele, o João, e tudo foi andando até que de repente tive a necessidade de construir mais qualquer coisa. Outros músicos juntaram-se, outras pessoas encontraram-se, e de repente termino com esta nova formação com que apresentei o novo disco no Casino do Estoril, com esta Malta do Norte, um conjunto de músicos excepcionais.

É a segunda formação que tens?

É a segunda formação que eu tenho. Pegámos no projecto original, portanto o projecto continua a ser o meu mundo.

É tudo teu?

Não é tudo meu. Se calhar quase nada é meu… Cinquenta por cento é meu e não é, de algum modo pedi às pessoas aquilo que eu gostaria de cantar. Obviamente a minha opinião é sempre a última, e houve alguns temas que o Paul da Silva já tinha prontos. Mandou-me e eu disse “é esta linha, gosto!”, e com estes temas todos de repente surge esta nova formação e a coisa ganha uma dinâmica completamente diferente, em que nesta altura, confesso-te, dá-me um gozo do caraças estar em cima do palco. Divirto-me imenso e tenho uma cumplicidade com os músicos todos enorme. Acho que o produto final está francamente bom.

Há perigo do Ricardo Carriço passar a ser só cantor?

Vou continuar a ser o Ricardo Carriço: um gajo completamente chanfrado e que vai a todas. [risos] Talvez a todas seja um exagero… não vai a todas mas vai a algumas. Gosto de me divertir com aquilo que faço e acho que a vida tem de ser um acumular de experiências e de desafios. Sinto que de algum modo também temos de nos desafiar a nós próprios.

Fotografia Bernardo Coelho

Entraste em tudo com resistência do “poder instituído”. A música também tem essa resistência?

Claro que está a ter! E de que maneira! Recordo-me de ter uma conversa com um amigo músico. Um dia perguntei-lhe “adoro cantar. Dás-me uma ajuda?” e ele quase ofendido respondeu “Tás parvo?”. Íamos de viagem de Lisboa para o Porto e eu calei-me. Não disse mais nada. Não voltei a falar no assunto. Portanto, há pessoas que são mais receptivas e outras menos receptivas. E depois também tenho um outro grupo de amigos meus, de infância/adolescência, que são músicos hoje em dia. Sinto mesmo que eles estão muito curiosos a tentar perceber o que é que vem aí. Ou seja, acho que há um lado de curiosidade há um lado — naturalmente — de reticências. Acho que nós em Portugal temos uma sociedade um bocadinho fechada. As pessoas com mais facilidade dizem mal, do que se disponibilizam para ouvir ou para tomar conhecimento e depois então sim comentar.

Não achas que se devia misturar mais os géneros e gerações, como no Brasil?

Sinto que finalmente esta geração mais nova está muito mais disponível para que esse tipo de coisas aconteçam e estão ávidos de novidade. São muito dinâmicos e curiosos. Obviamente que depois há uma outra camada de músicos mais antigos que estão parados no tempo, não saem dali, e que entra em choque com este pessoal mais novo e que vem cheio de ideias, cheio de vontade de fazer coisas novas, de novos desafios. Sinto isso quando malta mais nova vem ter comigo e diz “epá, Ricardo, quero dar-lhe os parabéns pela sua coragem! Admiro isso em si e revejo-me um pouco em si!”. Isto é uma coisa que me tem acontecido muitas vezes nos últimos tempos. Oiço e fico a pensar para comigo “é a melhor crítica que podia ter ouvido nos últimos tempos” porque dá-me uma força e uma vontade para continuar incríveis.

Se tivesses um lema na vida seria “Prefiro arrepender-me do que faço”?

Quase. Acho que não me arrependerei nunca daquilo que faço porque os erros fazem com que nós também possamos aprender e crescer. Portanto, acho que faz tudo parte disso, não quero é nunca deixar de arriscar.

Onde é que foste mais feliz no meio disto tudo?

Penso que tenho sido bastante feliz com tudo o que tenho feito. E quero continuar a ser! [risos]

Partilha isto: