Pedro Pinto - Foto: Bernardo Coelho

Porquê Eleven?
Chama-se Eleven Sports porque é o número de jogadores que tens por equipa de futebol e o canal arrancou com um grande DNA ligado ao futebol, encontrar direitos exclusivos dos grandes produtos de futebol no mundo, portanto é essa a razão. Estamos presentes em 11 mercados, o português é o décimo primeiro e estamos a arrancar com muita força, com a Liga dos Campeões, Liga Espanhola, Liga Francesa. Anunciámos recentemente a NFL, a Bundesliga também já a partir desta época, temos desportos de combate, e podem surgir mais direitos também bastante bombásticos para o mercado português, que podem já ter sido anunciados quando a entrevista for publicada.

Este projecto existe há apenas três anos. O que é que levou a quererem entrar já em Portugal?
Porque surgiu uma grande oportunidade de adquirir os direitos da Liga dos Campeões. O dono do grupo é uma pessoa que tem contactos inigualáveis no mundo do desporto. Ele já está neste negócio há muitos anos, agora é também presidente do Leeds United, é o Andrea Radrizzani. Ele tinha uma empresa de direitos, a MP & Silva, que controlava muitos dos grandes campeonatos do mundo, anda nisto há muitos anos e chegou-lhe aos ouvidos que havia uma oportunidade de comprar a Liga dos Campeões para Portugal. A matriz da Eleven é entrar no mercado e tentar mudar um bocadinho a percepção que as pessoas têm do desporto e da forma como o desporto é tratado. E ele, também através dos conhecimentos que tem, achou que Portugal era um mercado que era controlado por um só canal de desporto há muito tempo, e que havia uma oportunidade de criar um projecto com um estilo novo e uma filosofia nova. Juntou-se esta oportunidade da Liga dos Campeões a um país onde, de acordo com os estudos que ele viu e da informação que tinha, se podia na verdade fazer alguma coisa diferente.

Foi isso tudo que te fez aceitar o convite?
Foi. Repara, isto para mim, a Eleven não é uma maneira de voltar aos ecrãs, honestamente não é. Eu tenho um cargo de Director Não-Executivo, o que me aliciou mais foi a oportunidade de poder estar em Portugal, um país onde já não morava há 11 anos e criar um novo canal de desporto. Foi uma oportunidade que não podia rejeitar. Já tinha decidido sair da UEFA no final do ano passado, vinha com intuito, e é isso que estou a fazer agora, de criar uma empresa para gerir a comunicação e os interesses comerciais de atletas, jogadores de futebol e não só. Quando surgiu a oportunidade de colaborar também com a Eleven tive de aceitar porque acredito que o mercado de desporto em Portugal precisa de levar um grande abanão e que o desporto em si precisa de ser celebrado, precisamos de deixar de especulações, de polémicas, de denegrir o nosso próprio produto e de festejá-lo com uma comunidade que está pronta para algo novo, algo mais divertido, mais leve. Na minha vida, felizmente, as coisas a nível de timing têm batido certo, muitas vezes. Aconteceu o meu regresso a Portugal, com esta oportunidade da Eleven, conheço o Andrea há vários anos, vi a final da Liga dos Campeões em Kiev com ele e nessa altura iniciámos um bocadinho a discussão relativamente áquilo que eu podia fazer cá. Mostrei interesse, fui a Londres, falei com ele e depois acertámos mais ou menos qual era o meu cargo cá e a influência que ia ter e espero que seja um projecto de sucesso.

O que é que significa exactamente o teu cargo não-executivo?
Como não estou a trabalhar lá a tempo inteiro, tenho um contrato de consultoria com eles, não posso ser Director Executivo, isso implicaria estar lá sempre, porque hoje o nosso trabalho é praticamente 24 horas por dia, graças aos telemóveis. Não era isso que eu queria. Neste momento, como não há um Director Executivo, tenho ajudado a tomar todas as decisões. O canal vai contratar um Director Executivo, a partir desse momento eu trabalharei com ele, farei parte do board para tomar essas decisões.

Essa empresa que estás a criar, já tinhas criado também uma do género há uns anos...
Tinha, quando saí da CNN da primeira vez.

E não correu bem?
Recebi um convite para trabalhar na UEFA, não podia dizer que não. Saio da CNN em Agosto de 2013, começo a fazer cursos de media training com alguns clubes, alguns jogadores, faço 3/4 meses, estava a trabalhar para um canal inglês, o BT Sport e o Michael Platini que nessa altura era o presidente da UEFA, num jantar faz-me o convite, “Queres vir trabalhar comigo para a UEFA?”. E a minha vida mudou completamente nesse momento, não que eu tivesse aceitado logo mas fez com que iniciássemos uma conversa e fui para a Suíça em Janeiro de 2014.

Se o Cristiano Ronaldo não tem saído da Liga Espanhola, tinham o melhor do mundo em exclusivo a nível de clubes. Foi um golpe na vossa estratégia?
Nós temos o Cristiano Ronaldo em exclusivo na Liga dos Campeões. A única pergunta em Itália é se a Juventus vai ganhar por 7, 11, 15, 17 ou 23 pontos. É mais valioso ter o Cristiano Ronaldo na Liga dos Campeões, onde ele vai tentar ajudar a Juventus a vencer um título que tem escapado desde os anos 90. É uma história mais aliciante, depois do impacto inicial. Um Juventus-Sassuolo, Chievo ou Udinese não tem nem de perto nem de longe o mesmo impacto que uma Juventus contra qualquer equipa da Liga dos Campeões. Estamos a focar a nossa associação com o Cristiano Ronaldo no fito que ele tem de ganhar a Champions pela sexta vez.

Estamos a falar antes do playoff da Champions. O Benfica entrar ou não na fase de grupos deixa-vos dois cenários extremamente diferentes. Isso preocupa-vos? Como é lidar com esse tipo de decisões a serem tomadas sem que possas ter qualquer influência?
Já deixei de ser adepto de um clube há muitos anos, porque os interesses pessoais chocam constantemente com os interesses profissionais. Desde o momento em que fui para a CNN e depois principalmente na UEFA, quando se lida directamente e proximamente com o desporto, com uma modalidade, com uma equipa, deixa de ser ter essa parte emotiva. Se me perguntas como português, seria óptimo ter duas equipas portuguesas na Liga dos Campeões, mesmo para o nosso ranking, para podermos, possivelmente, voltar a ter duas garantidas ou três mesmo na Liga dos Campeões. Como profissional da Eleven Sports, ainda mais puxo pelo facto de ter duas equipas portuguesas na fase de grupos. Depende, obviamente, daquilo que se passa dentro do campo e às vezes tem a ver com uma situação de milímetros. Neste caso é o Benfica, podia ser outro, mas obviamente nós queremos muito dois clubes portugueses na Liga dos Campeões, porque dá-nos logo sempre, exclusivo, pelo menos uma equipa no nosso canal.

As três principais operadoras são accionistas da concorrência, é algo indiferente para a vossa relação com os consumidores?
Afectou a forma de entrarmos no mercado português. Temos uma parceria inicial com a NOWO, porque é a única operadora independente. Esperamos até ao momento em que esta entrevista seja publicada que pelo menos uma, senão duas, ou mesmo todas as outras operadoras tenham assinado já com a NOWO. A Eleven não está envolvida nas negociações, é a NOWO que nos representa. Obviamente que afectou a nossa entrada no mercado, mas não afecta de todo, acreditamos, a nossa relação com o consumidor, porque temos toda a confiança que estes acordos vão acontecer. Para nós é impensável os adeptos em Portugal não terem acesso à Liga dos Campeões, à Liga Espanhola. Também temos disponível a aplicação, por € 9,99 podes assinar um mês, depois deixares de assinar, voltar a assinar, fazes como quiseres, e temos um pacote anual por menos de 100 euros, que representa praticamente três meses de assinatura da nossa competição. Neste momento obviamente que seria uma grande mais-valia já ter garantida essa penetração em todas as operadoras, mas acreditamos que isso vai acontecer, especialmente com os direitos que vamos anunciar nos próximos tempos.

Porquê essa decisão de colocarem um intermediário a negociar?
Honestamente, não estava lá ainda, portanto não vou comentar, mas foi uma estratégia do canal, já tiveram estratégias semelhantes noutros mercados e acabou por funcionar muito bem. Mas creio que a NOWO também emocionalmente se ligou muito a este projecto, quis fazer parte de um novo player no mercado português e essa ideia seduziu muito a direcção da Eleven.

Foram rapidamente apelidados de Netflix do futebol. O futuro está no Over-the-top, dispensando as operadoras?
A OTT, pegando numa plataforma de streaming com conteúdo on demand é uma parte muito forte da nossa estratégia para o futuro. Isso não quer dizer que neste momento e nos próximos tempos as operadoras não sejam muito importantes para o nosso negócio. Para já não quero dizer mais nada, mas se olhares para o que aconteceu em Itália, onde só temos um canal OTT, em Inglaterra neste momento só temos a plataforma OTT... Há mercados que estão mais maduros nesse sentido, em Portugal contamos muito com as operadoras para chegar a toda a gente.

Apesar de ter perdido conteúdos, a Sport TV já anunciou que não vai baixar preços. Isto faz com que, na prática, a curto prazo vocês vieram tornar o desporto mais caro para os portugueses. Achas que os consumidores vão reagir bem a este primeiro ano em que vai ser assim?
Nós viemos tornar o desporto mais entusiasmante para os adeptos portugueses e eles irão notar isso, não imediatamente, mas quando arrancar especialmente a Liga dos Campeões, vamos tentar marcar a diferença. Todos os consumidores têm uma escolha, o nosso produto com os direitos que temos achamos que é muito acessível.

Até agora a Sport TV dava-se ao luxo de não ter concorrência, o que lhe permitia chegar à própria semana de arranque de competições como a NBA sem garantir direitos. Vão ter uma posição agressiva nos outros desportos?
Nós vamos atrás de tudo aquilo que pensamos que possa ser relevante para o mercado local. Estamos abertos mesmo a transmitir novas modalidades, que nunca tiveram o relevo que se calhar justificavam. O canal já mostrou, tanto em Portugal no pouco tempo em que está activo, como noutros mercados, que, quando quer ir atrás de um produto fá-lo de forma agressiva e responsável, obviamente. O que achamos é que a concorrência é boa para toda a gente. Todos ganham, porque o produto melhora. Acreditamos que há espaço para dois canais de desporto em Portugal e esperamos trabalhar para que o nosso seja o melhor e que tenha o melhor conteúdo.

Há um plano a médio prazo estabelecido, por exemplo para cinco anos?
Para entrar em Portugal, acho que a decisão foi tomada este ano, antes do Verão, portanto é um grande desafio. Eu entrei nisto dia 16 de julho, um mês antes de o canal ir para o ar e posso dizer que tem sido alucinante.

Mas sabem quando vão acabar outros direitos que neste momento são exclusivos?
Claro, sempre. Por exemplo, os direitos da Premier League vão começar a ser negociados para o mercado português nos próximos meses.

A partir de que temporada?
Para o ciclo 2019/2020 até 2021/2022. Acho que é a partir de Setembro que eles vão abrir o mercado. Nós não colocamos de parte um dia trabalhar com a Liga portuguesa, porque não? Em Inglaterra também tiveste a BT Sport a entrar com muita força e houve espaço para a Premier League ter duas casas e agora tem três, porque a Amazon também está a transmitir jogos. Nós, através destas fortes relações que o Andrea Radrizzani tem, está sempre em contacto com os donos das maiores competições e os detentores dos maiores direitos do mundo, sabemos sempre quando pode existir uma oportunidade.

Além das transmissões, vão ter programas próprios na grelha?
Sim, mas vamos arrancar só com transmissões. Não vamos ter espaços de debate, posso já garantir, não vamos ser o 37º canal a ter pessoas a discutir umas com as outras, não faz parte da nossa filosofia. Vamos ter programas sim, à volta dos directos, vamos ter um canal mais de entretenimento do que um canal de informação. É o que eu gosto de chamar infotainement, que tem uma componente muito forte de entertainement. A partir do início da Liga dos Campeões vamos ter programas e queremos que eles sejam diferentes também, queremos estar mais no estádio e menos no estúdio, mais presentes nas ruas com os adeptos e muito menos ter uma postura de distância deles. Vamos ser mais informais, queremos engagement com o público português e temos já mostrado isso a nível das conversas que temos online, tanto no Facebook, como no Instagram e no Twitter com os adeptos, tentar explicar-lhes e responder a perguntas que eles têm sobre o canal, estamos a tentar responder a tudo. Mesmo quando há reacções negativas, que é normal, ou perguntas com um tom mais crítico estamos a tentar interagir com todos e explicar a razão pela qual, por exemplo, a Eleven ainda não está presente em todas as operadoras. Queremos ter esse diálogo com os adeptos e esperemos que continue durante todas as nossas transmissões.

Dizes que vão ter menos estúdio e mais estádio, mas neste primeiro ano só vão ter a acontecer em Portugal os jogos da Champions. Também planeiam fazer isso no estrangeiro?
Vamos viajar e estar presente noutros estádios. A Liga dos Campeões posso-te dizer que sim. A nível da Liga Espanhola, quando existirem oportunidades iremos, porque acreditamos que é importante estar presente para contar mais histórias, não podemos contar essas histórias estando no estúdio, só nas cabines de comentário. Faz parte dessa estratégia. Agora se vamos para um Getafe-Alavés, não vamos, vamos para um clássico, ou um jogo que tenha também interesse para o público português, relativamente aos jogadores que podem estar dentro de campo.

Estes dois horários novos da Champions (17h55 e 20h00) serão benéficos em termos de audiências para Portugal?
Vamos ver o calendário e como a UEFA vai dividir os jogos. Não te esqueças que as emissões das 18h, porque acho que passou de 17h55 para as 18h, são mais os que vão acontecer no Centro e Leste da Europa. Acho que a grande maioria, sem estar a fazer garantias porque ainda não sabemos qual é o calendário, vão ter o slot das oito. E há muitas pessoas que já seguem os jogos no telemóvel enquanto estão a trabalhar ou a seguir a sua vida e nós acreditamos que através do telemóvel, dos tablets ou do portátil, vão ter acesso a mais jogos. Antes tinhas de escolher um de oito jogos, agora tens a escolha de dois slots e podes ver dois jogos por dia, se quiseres e tiveres oportunidade.

O streaming em dispositivos móveis ainda tem imenso para crescer.
Tem. Nós por acaso estamos com curiosidade para ver como é que essa parte do mercado se desenvolve em Portugal.

Tem mais a ver com os pacotes de dados das operadoras e quanto mais liberdade existir, mais tendência terá a crescer.
Exactamente. Mas também mesmo em casa, as pessoas vão à aplicação, podem pôr em streaming na televisão, a qualidade é HD, portanto tens acesso onde quer que estejas.

E em relação aos streamings ilegais, há coisas que se podem fazer?
A pirataria é um desafio para todos e o mercado de desporto, obviamente que é dos mais procurados. É uma preocupação que nós temos, como todos os detentores de direitos, é um desafio. Temos tecnologia e especialistas que se estão a encarregar de tentar minimizar os danos, mas é um desafio para todos.

Antes da Sport TV, há 20 anos víamos pouco mais que a final da Taça de Inglaterra e as finais europeias. Achas que o lado pedagógico de tentar explicar que as transmissões só existem se os clientes quiserem pagar por elas também pode de alguma forma ser mais trabalhado?
Para te ser honesto nunca pensei nisso. Mas também acho que as gerações de hoje em dia não compreenderiam o difícil que era para a nossa geração ver futebol e ver futebol internacional. Tínhamos um minuto de Domingo Desportivo onde mostravam os golos de Itália, de Inglaterra e de Espanha talvez, só dos jogos grandes. Depois existia o directo dessas finais e ficava por aí. Tínhamos as transmissões dos clubes portugueses na Europa, mas se não passassem dos oitavos-de-final, não vias os quartos, não vias as meias. Não vias! É difícil para o público hoje em dia compreender isso, porque têm futebol quando querem, onde querem. E não é só isso. Repara, é muito graças aos detentores de direitos que os próprios campeonatos têm o perfil que têm e geram o dinheiro que geram. Se nós não estivéssemos lá, não teriam expressão fora daquelas comunidades. É um ponto interessante mas não sei se a geração de hoje em dia percebe isso.

E o pay-per-view, vai ser explorado?
Não sei. Neste momento não sei.

Estás pronto para ler que és do Porto ou do Benfica? Ou achas que vão conseguir ultrapassar esse estigma de se querer sempre rotular toda a gente?
Irrelevante. Nós nem temos a Liga Portuguesa neste momento.

Mas por isso é que falei especificamente do Porto e do Benfica, basta a Liga dos Campeões para acharem que estás contra ou a favor do Porto.
Nós vamos sempre torcer pelos clubes portugueses da mesma maneira, e tendo profissionais na Eleven do Porto, de Lisboa, do Algarve, para nós é completamente irrelevante. Somos um canal internacional, queremos ter uma postura internacional, o futebol é global, não é regional e acreditamos que há uma oportunidade para o público português também deixar-se de intrigas e celebrar o futebol connosco. É isso que vamos tentar fazer. Depois deixamos à interpretação das pessoas. Creio que muitas vezes as pessoas que têm essa mentalidade são uma minoria, às vezes falam mais alto porque publicam mais posts, mas nós acreditamos na maioria dos adeptos de futebol portugueses e estamos aqui com uma mentalidade completamente neutra relativamente a todos os clubes portugueses. Especialmente para mim, estando fora 18 anos, às vezes tinha discussões com pessoas que estavam cá. Eu sempre que fosse o Porto, Sporting, Benfica, Boavista, Braga, Guimarães, Marítimo, quem estivesse nas competições europeias, o que interessa é que nós cheguemos longe. Não só para o ranking, mas para a nossa reputação, para a nossa exposição e acho que é essa a mentalidade que nós vamos ter aqui. As cores não interessam. Não estou a dizer isto para ser piroso, é mesmo o que queremos passar.

Estudaste na St. Julian’s School e na American International School of Lisbon, de onde seguiste para a University of North Carolina.
O plano da tua família sempre foi preparar-te para emigrar?

A minha mãe fez muita força para eu ter uma educação internacional. Para ela era importante eu e a minha irmã falarmos línguas. Essa parte do emigrar acho que ela hoje em dia tem momentos em que se arrepende, porque eu morei cá dois dos últimos 18 anos e a minha irmã mora fora já há muitos anos também. Para emigrar não sei, acho que era para ter uma visão mais internacional do mundo. Devo tudo a essa educação, sem ela não teria conseguido chegar onde cheguei.

O que é que te fez querer voltar em 1996, quando foste para o Caderno Diário da RTP, se já tinhas estagiado na NBA e MSNBC?
Para te ser honesto, nessa altura era muito difícil garantir um visto de trabalho nos Estados Unidos. Recebi uma proposta antes de me vir embora para ser repórter de um canal local da NBC, numa vila do North Carolina, nem era Charlotte, já nem me lembro se tinha para aí 100 ou 200 mil pessoas. Nos Estados Unidos tem muito a ver com o mercado regional e local, cada cidade tem a sua própria redacção, mas nesse momento era muito difícil garantir o visto de trabalho e acabei por voltar para cá. Deu-me a oportunidade de apresentar os meus primeiros programas cá, que foram o Um-Dó-Li-Tá, com a Vera Roquette, é um clássico da minha geração, depois o Caderno Diário e o Hugo, foi o meu primeiro directo. Ainda há muitas gente que se lembra do Hugo. Para mim foi uma oportunidade fantástica nessa altura. Fazer directos foi muito bom, acho que fiquei um bocado hooked nessa adrenalina.

Em 1998 vais para a CNN, onde te tornas a cara do desporto...
...Uma das caras que apresentavam as notícias de desporto, sim. Muitas pessoas ficaram completamente confusas, como é que um gajo que estava no Hugo em Maio ou Junho de 1998, está a apresentar programas de desporto na CNN em Agosto de 1998. Foi um salto brutal, mas nessa altura eu deixei o meu currículo, não vou dizer centenas, mas foram muitas dezenas de vezes na redacção de informação e desporto da RTP e não tive sequer oportunidade de falar com ninguém. Foi mesmo um cold call para os Estados Unidos, para o número central da CNN, nessa altura a net era muito fraca, não foi através da Internet nem nada, foi uma chamada para a CNN em Atlanta, tentar falar com alguém do desporto e começar a mandar currículos e cassetes durante praticamente um ano. Eles convidaram-me para ir lá fazer um casting e correu muito, muito, muito bem. Depois não me pagavam o visto de trabalho, tive de ser eu a pagar o meu próprio visto, porque era um rookie. Foi um investimento nessa altura brutal para mim, porque não tinha grandes poupanças, tive que pôr isso em cartão de crédito e depois pronto, the rest is history.

Nesses cinco anos que passaste lá, sentias-te no topo do mundo?
Sentia-me privilegiado por ter tido esta oportunidade incrível que satisfazia um sonho, que era o de trabalhar com desporto e em televisão. Sempre tive uma paixão por televisão, por imagens, tenho uma memória visual muito forte e a minha mãe fazia sempre troça de mim, porque quando nós tínhamos oportunidade de viajar, a primeira coisa que eu fazia ao entrar no quarto do hotel era ligar a televisão. Com os meus amigos, quando éramos miúdos, nós fazíamos imensos programas de televisão no gozo, com as antigas video cams e então para mim ter a oportunidade de trabalhar em televisão, com o desporto e num canal como a CNN, tendo acesso a entrevistas com as maiores estrelas do mundo, mesmo agora falando sobre isto ainda me causa bastante impacto, foi um sonho tornado realidade.

Na CNN entrevistaste muito dos grandes desportistas da última década. Faltou alguém?
Entrevistei quase todos. Na altura teria gostado do Tiger Woods. Nunca o entrevistei porque eles tinham especialistas de golfe e normalmente eles é que faziam as entrevistas com o Tiger. Tinha interesse, apesar de todos me dizerem que ele não era nada simpático e nada acessível, mas a nível de figura, o Tiger esteve para aí uma década em que se não era o número um, estava no top 3 dos desportistas mundiais. Mas tirando o Tiger, não me lembro de ninguém que quisesse ter entrevistado e não entrevistei. Tive a felicidade de ter quase todos os cromos na caderneta.

E o teu espanhol, melhorou desde que provocaste um ataque de riso ao Roger Federer?
Aprendi espanhol porque tinha muitos amigos sul-americanos e centro-americanos na universidade, na Carolina do Norte. Eu era o único português na universidade, believe it or not.

Porque é que foste parar lá, à Carolina do Norte em específico?
Porque me deram uma bolsa de estudo parcial. Não cobria todos os meus estudos, obviamente, mas cobria uma percentagem. Nessa altura também, curiosamente um ano antes tinha conhecido uma miúda que morava lá ao pé e a minha mãe pensou, mesmo não se passando nada de sério com essa miúda, já a conhecia a ela, tinha conhecido a família, pelo menos se se passasse alguma coisa tinha lá alguém.

Era essa a universidade do Jordan?
Não, não. Ele esteve na UNC, fui a algumas festas lá, mas não era a minha universidade. Essa entrevista com o Federer, tenho malta em todo o mundo, aeroportos, restaurantes, bares, discotecas, que vem ter comigo e falam-me dessa entrevista. O Roger é top, não é ter sido a melhor entrevista, mas se alguém me perguntasse quem é que eu queria entrevistar amanhã, eu diria o Roger Federer outra vez, porque é uma pessoa tão normal, tão interessante, tão low profile, que fala contigo como nós estamos a falar aqui, adoro falar com ele.

Como é que apareceste a apresentar sorteios da UEFA e galas da FIFA?
Eu volto em 2003 para Portugal, e começo a trabalhar com a Sport TV. Nessa altura apresento o sorteio do Euro, com a Fátima Campos Ferreira. Correu bem, depois a UEFA estava à procura de uma pessoa que falasse línguas e que tivesse experiência em televisão. Conheciam-me da CNN, tinha feito esse sorteio, portanto surgiu o convite e eu desde 2005, ou salvo erro 2006, só falhei dois anos nos últimos doze. E falhei porque estava lá a trabalhar internamente, como Director de Comunicação, então eles para não estar a ter esse cargo também, deram a outro apresentador. Mas depois quiseram que eu voltasse, portanto nos últimos dois anos fiz outra vez e agora vou fazer o desta época.

E a FIFA surgiu…
A FIFA surgiu com o facto de eles me me terem visto na UEFA, gostado do meu trabalho e me terem convidado.

E imaginavas que nem os presidentes da FIFA e UEFA eram intocáveis?
O que te vou dizer é muito honesto. Nunca prestei muita atenção à política do futebol antes de trabalhar nela. Quando entrei na UEFA, nunca me considerei uma pessoa política e trabalhando em televisão, o que interessa é o produto. Tive um grande choque quando entrei na UEFA, a nível de aprendizagem de influência política no futebol e não estou só a falar no aspecto negativo, estou a falar no ambiente. O futebol, felizmente ou infelizmente, é o que é, tem um peso tão grande a nível cultural, emocional e até às vezes religioso no mundo, que não é uma coisa que pode ser gerida de uma forma muito leve e sem grandes implicações políticas. Levei um grande curso de política e de corporate behaviour na UEFA quando entrei. Eu choquei muito, não estava preparado. Se me perguntasses antes de entrar, não te podia responder a esta pergunta porque não fazia parte, já tinha entrevistado várias vezes o Blatter, o Michel, mas não tinha interesses políticos. Não passava tempo nenhum a pensar nos temos políticos do futebol. Entrando lá, especialmente a nível da FIFA, acho que precisou de levar a limpeza que levou. O futebol só ficou a ganhar com isso.

Em tempos disseste que se arrisca muito pouco na TV portuguesa. Isso vai mudar convosco a partir de agora?
O que acho é que infelizmente os clubes portugueses se fecham muito à imprensa. Não sabem aproveitar oportunidades que têm para criar novos adeptos dentro e fora de Portugal. Saiu agora um estudo há pouco tempo em que 11 das 20 equipas da Premier League poderiam dar lucro mesmo com estádios vazios. Portanto a estratégia comercial e a visão de marca já é internacional. Não é de agora, nem de há 10 ou 20 anos atrás, sempre tiveram uma mentalidade de promover, querem exposição, estar presentes. A mentalidade dos clubes em Portugal tem sido sempre proteger, fechar. Os clubes portugueses, principalmente os três grandes, poderiam ser muito maiores do que aquilo que são, se investissem na educação dos seus activos, os jogadores, treinadores e os usassem como embaixadores dos próprios clubes e das próprias marcas. Portanto, nós vamos arriscar com os direitos que temos, criar novas oportunidades de engagement e acesso aos adeptos portugueses. Com a Liga Espanhola, temos os direitos, vamos criar uma parceria forte, com a UEFA estamos a desenvolver uma parceria muito forte, ajuda a minha presença também, para termos mais acessos e abrir mais portas. Arriscar nesse sentido. Arriscar mais nos comentários, se calhar não levar tudo tanto a sério. Acho que temos, pelo menos neste momento, talvez a vantagem de não lidarmos com esses clubes, com os clubes portugueses no mercado português. Vamos poder ser mais expansivos e mais criativos ao tratar de modalidades e de campeonatos que não tenham tanto aquela mentalidade do “Mas eles não podem dizer isto”, “Eles não podem fazer este comentário”, não nos vamos preocupar tanto com isso pelo facto de termos direitos internacionais e não necessariamente os portugueses nesta altura.

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