Passaram quase duas décadas desde que O Homem que Mordeu o Cão arrancou em 1997. Gostaste mais dessa primeira metade anónima da tua vida ou preferes a actual?

Acho que é preciso destrinçar as coisas boas que há em todas as épocas, tenho um bocado essa ideia. Mas uma das coisas que gostava mais no anonimato, ainda antes d’O Homem que Mordeu o Cão, quando fazia rádio para poucos ouvintes e escrevia nas Produções Fictícias, era de facto ouvir pessoas a falar de coisas sem saberem que eu as tinha escrito, isso era muito libertador.

Não te fazia confusão não seres reconhecido por isso?

Não, incrivelmente não, às vezes irritava um bocado quando eram textos que eu achava “epá, este texto ficou tão giro”. Depois criava-se aquele fenómeno que era quando as coisas resultavam, “o Herman é muita bom”, quando havia um que não resultava e as pessoas não gostavam, “lá estão aqueles gajos a escrever para ele”, quando na verdade estávamos lá de uma maneira ou de outra. Mas acabou por durar pouco essa fase do anonimato porque quando começámos a fazer as manhãs passou pouco tempo até conseguirmos agarrar os ouvintes. Às vezes tenho algumas saudades de um pouco de paz que o anonimato traz, mas é uma mariquice estar a pensar nisso. Faço o que gosto e o reconhecimento das pessoas é sempre bom.

Então passar a dar a cara não foi uma estratégia de carreira?

Não, o momento de viragem de as pessoas ficarem a saber como é que eu era, houve primeiro um que correu muito mal, adoro contar esta historia porque é muito deprimente. O Homem que Mordeu o Cão já estava implantado mas as pessoas não sabiam como é que eu era, porque na altura não havia webcams nos estúdios. A Internet ainda estava a dar os primeiros passos em Portugal e eu descobri uns canais de vídeo que havia, já não me lembro do nome daquilo. Um dia que estava doente em casa, estava a fazer a emissão por telefone, decidi ligar esse sistema de câmeras e transmitir-me pela primeira vez em directo para a net, e disse na rádio que o ia fazer. Logo a primeira mensagem que apareceu foi uma senhora que disse “ah que desilusão, já tinha tido uma com o António Macedo e agora consigo também”. A senhora ficou desiludida por causa do meu aspecto que ainda estava pior do que é normalmente porque eu estava doente, foi uma péssima opção de carreira ter feito aquela transmissão.

E a exploração da nostalgia, foi interesseira?

Era algo que já estava dentro de mim há muito tempo, ia mandando uns comentários e contando umas histórias do passado mas nunca tinha pensado nisso como uma marca de humor ou alguma coisa que ia transformar numa rubrica como acabou por acontecer com a Caderneta de Cromos. Basicamente sentia falta que alguém tivesse feito esse trabalho antes, o de compilar as referências todas do nosso crescimento, as coisas que comíamos, as coisas que víamos, os brinquedos com que brincávamos, e foi claramente um caso daqueles “bom, se ninguém faz isto, vou eu avançar” e foi assim que nasceu esse lado do meu trabalho, esse dissecar de uma geração que é muito peculiar e cómica ao mesmo tempo.

Fotografia Bernardo Coelho

A primeira vez que apresentas um trabalho humorístico foi uma rádio-
-novela na Correio da Manhã Rádio, que fechou de seguida. Temes que isso leve a que ainda se lembrem por lá e nunca te queiram na CMTV?

O que se passa com o Correio da Manhã Rádio é que era tão diferente de todo o universo Correio da Manhã, era uma rádio para um público urbano e para um público cool, a música que passava era muito boa, os programas tinham todos uma classe tremenda e eu era ouvinte. Quando acabei o curso de jornalismo e me perguntaram onde é que gostava de estagiar, disse logo que queria ir para o CMR e assim foi. Foi aí que, apesar de ter ido como jornalista, um dia consegui começar a mostrar algumas coisas que sentia que era capaz de fazer em humor, e uma delas foi um programa de fim-de-semana chamado Para o Que Der e Vier, que dentro dele tinha essa radionovela A Saga de Abílio Mortaça o Vendedor de Enciclopédias que Descobriu o Sentido da Vida. E tudo isso são esboços daquilo que eu viria a fazer depois.

Antes ainda há um registo no IMDB do teu primeiro trabalho como argumentista e actor, A Vida Com Jugal do Casal Ventoso. Queres falar sobre isso?

Isso vem do tempo do curso, fiquei logo a dar-me muito bem com uma das pessoas do curso, o Carlos Gomes, que tinha alma de humorista e nós tínhamos referências humorísticas parecidas e decidimos fundar um pequeno grupo assim uma espécie de um micro Monty Python adolescente, e decidimos escrever um guião e fazer o filme com pessoas do nosso grupo, da nossa turma do Cenjor onde se encontrava por exemplo a Catarina Furtado, que depois veio comigo para o Correio da Manhã Rádio quando acabámos o curso. Nem sabia que estava no IMDB, fico muito orgulhoso. A SIC Radical soube desses vídeos e conseguiram arranjar cópias deles, esse e o outro filme que fizemos a seguir, O Lado Meigo da Megera, passaram os dois na SIC Radical muitos anos depois. Chamava-se A Megera, o nosso grupo, e foi óptimo para exercitarmos um bocado o humor.

Também há lá uma entrada como argumentista para o Ai, os Homens. A que nível estavas envolvido?

Isso aí foi de facto um dos primeiros trabalhos realmente profissional, o primeiro foi escrever para a rubrica de rádio do Herman, As músicas do Herman, em 95. Em termos de escrever para a televisão, para um grande programa de entretenimento o que me calhou foi de facto o Ai, os Homens, clássico programa da Teresa Guilherme, apresentado por José Figueiras. O que eu e a equipa fazíamos era escrever o segmento do António Feio, a personagem Johnny Bigode, que era uma rábula cómica que havia lá pelo meio. E foi muito interessante porque mostra bem a diferença de como as coisas se produziam na altura, nós trabalhávamos com tempo e se calhar com menos pressão, e lembro-me que tivemos reuniões muito longas para definir a personagem do Johnny Bigode, a back story, o que é que o move, parecia que estávamos a escrever uma peça de teatro séria para definir aquela personagem. Depois assim que mandamos o primeiro texto apercebemo-nos que não ia valer a pena aquele esforço todo, era uma personagem cómica muito simples que o António Feio representou brilhantemente, como sempre. Foi também nessa altura que recebi o primeiro, talvez o único, não me lembro de ter voltado a receber assim, o primeiro grande raspanete profissional da minha vida a um ponto que quase chorei. E foi-me dado por quem? Teresa Guilherme. Porque me atrasei vergonhosamente na entrega de um texto, e lembro-me de ficar sem palavras enquanto a Teresa Guilherme me dava na cabeça e me destruía a alma.

Quando fizeste O Perfeito Anormal, onde foi lançado o Gato Fedorento, sentiste que tinhas ali um Cristiano Ronaldo?

Na altura eu, o Quadros, depois o Ricardo, o Góis, o Tiago, o Zé Diogo, todos estávamos a escrever para o Herman e para a Rueff dentro das Produções Fictícias, e o que acontecia era que o Ricardo era muito bom de facto a… imagina, estávamos a escrever e testávamos o texto no Ricardo, ele fazia vozes, contava muito bem histórias, fazia-nos chorar a rir a todos, era brutal. Todos gostávamos de escrever mas o Ricardo tinha esse lado acrescido, para além de escrever, o interpretar era do outro mundo e percebíamos que tinha um talento gigante que era mal empregado estar só no pátio das Produções, ser só uma cobaia de textos à medida que a gente os está a escrever. Depois quando o Alvim começou o Perfeito Anormal já se estava a formar o colectivo Gato Fedorento e rapidamente se percebeu que estava ali uma possibilidade, a SIC Radical dava para experimentar tudo, não havia dinheiro mas havia espaço para experimentar. Foi esmagador logo nos primeiros episódios e a partir daí foi muito rápido o boom dos Gato Fedorento.

E agora Refrigerantes e Canções de Amor é o teu regresso aos argumentos, depois de uma paragem desde 2010. Foi uma escolha?

Na verdade este é muito anterior. Tinha escrito uma longa-metragem em 2003 para um telefilme que foi o Rádio Relâmpago, feito pelo José Nascimento, passou na RTP e desapareceu, era uma história baseada nas minhas experiências nas rádios piratas. Fiquei sempre com vontade de escrever longas-metragens porque adoro cinema e esta foi escrita em 2007, nem sequer foi de uma maneira calculada do género “apetece-
-me escrever uma longa-metragem e vou vendê-la”, vem de um lugar muito visceral e de um acontecimento muito específico do fim do meu primeiro casamento. Há um dia que tenho de levar a cabo uma rotina que fazia a dois e que de repente tive que fazer sozinho, que é ir ao supermercado. Quando me vejo sozinho no supermercado a comprar coisas é que pensei “a solidão está agora a bater-me com uma força incrível” e foi bastante deprimente esse momento em que pensei “oh que caraças, estou sozinho no supermercado”. Então fui para casa exorcizar essa súbita dose de solidão escrevendo o primeiro esboço daquilo que viria a ser agora este filme, que era a historia inicialmente de como o lugar mais banal e frio do mundo de repente se pode tornar no inferno absoluto.

Lidas bem com ter coisas prontas na gaveta?

Lido mal no início, tenho mais dois argumentos, um deles foi escrito há pouco tempo, portanto está fresquinho, ainda não se considera que está na gaveta. Quero muito fazer tanto o Por Ela como o outro que escrevi entretanto, o Manual de Instruções e estou tentado a experimentar realizar a meias com alguém. O que se passa é que a partir do momento que vendes um argumento a alguém, aquilo deixa de ser um bocado a tua visão exclusivamente, é a tua visão filtrada por outros olhos.

Fotografia Bernardo Coelho

Não achaste que uma dinossaura cor-de-rosa como personagem principal podia ser demasiado alucinado ou como é o Markl, as pessoas iam entender?

Não achei alucinado e por quê, se fores a um supermercado o mais provável de acontecer é que de facto encontres lá uma dinossaura cor-de-rosa ou uma hipopótama cor-de-rosa se pensares na Popota. A dinossaura de facto cria uma exuberância visual muito grande e eu sou muito visual, gosto de desenhar, portanto tudo isto na minha cabeça já se estava a passar um bocado como um desenho animado. Mas, por outro lado, calha ser a profissão dela e portanto deu ao filme um look mais psicadélico mas vistas bem as coisas a história é muito linear, muito normal, ela tem como profissão ser dinossaura de uma marca de sumos.

Foi desenhada por ti?

Não, fiz um esboço inicial monstruoso, a minha primeira ideia da dinossaura cor-de-rosa fazia um contraste ainda mais extremo com a pessoa que estava lá dentro, era gigantesca e gorda com uma cauda tremenda, cheguei a fazer uns esboços e rapidamente se percebeu que na prática não ia funcionar. Então o José Costa Reis, que é aquele mítico figurinista e cenógrafo português fez um design elegante sem deixar de ter umas marcas muito fortes de boneco e tinha de ser uma coisa prática, para a actriz que está lá dentro, neste caso a Victória Guerra, não morrer, não colapsar com o calor e com a falta de mobilidade.

Como é que foi ter o poder para fazer com que ela se despisse ou não?

Na verdade, a partir do momento em que vendi a história deixei de ter poder para o que quer que fosse, mas enquanto foi minha, achei que a questão de sair ou não sair do fato ia criar algum suspense e é giro de gerir. Ao mesmo tempo que o escrevia estava a pensar “a pobre pessoa que estiver aqui dentro tem que ser muito especial para lidar bem com esta ideia de ‘ok, vou passar 99% de um filme dentro de um fato de dinossauro’”.

Tiveste influência no casting? O Jorge Palma e o Sérgio Godinho foram ideia tua?

O Jorge Palma nem foi casting, ele estava no guião, era uma ideia de argumento mesmo, portanto todos estes anos vivi com a possibilidade de ele dizer que não queria. Meti-o no argumento porque a personagem principal é músico e está confinado a escrever músicas para anúncios de refrigerantes e produtos de limpeza e cereais, o que quer que seja, mas o sonho dele era ser de facto um cantautor respeitado, que não consegue. Já o rival dele conseguiu tornar-se uma estrela pop gigante. E eu na altura tinha visto há relativamente pouco tempo o Being John Malkovich e uma das coisas que adoro no filme é a maneira como introduzes numa ficção uma personagem real mesmo com o nome dela, e talvez isso me tenha inspirado. Felizmente o Jorge Palma gostou do argumento e disse que fazia, apesar de não ter experiência como actor, mas era para fazer dele próprio e eu acho que ele fez dele próprio com muita piada, está muito cool a personagem.

O resto não, nenhuma das personagens tinha cara, e a partir do momento que o Luís pegou nas rédeas do projecto eu fui recebendo a notícia das pessoas que estavam a ser escolhidas.

E o Gregório Duvivier, veio cá por causa do filme ou participou porque calhou estar em Portugal?

Sabíamos que naquela altura estava cá. Foi feito o convite e o Gregório gosta muito e é conhecedor do universo do humor português, conhecia as coisas que eu fazia e gostou do argumento. Aceitou e foi espetacular tê-lo, sem dúvida.

E agora tens cinco Coliseus para fazer com Uma Nêspera no Cu. Não tiveste medo das reacções quando te meteste naquilo?

Ficarás surpreendido quando souberes que eu é que os espicacei a eles para fazermos aquilo. Talvez tivesse um bocadinho, mas na verdade aquilo era um jogo que nós fazíamos os três, e não só os três, durante o Deixem o Pimba em Paz. Houve algumas sessões em que estive com eles e fazia lá um numero de strip-tease no meio, e vamos deixar só assim, pelo mistério da coisa não vou desenvolver mais. Sabia que eles já faziam este jogo e depois pude experimentar com eles nas viagens e aquilo fez-me chorar a rir, estes dilemas e este debate, perder tempo das nossas vidas a debater coisas tão parvas e impossíveis e tão nojentas e asquerosas e reles, tudo aquilo me fascinou e a dada altura eu disse ao Bruno e ao Filipe “epá, isto devia ser um podcast”. E o Filipe dizia “acho que o país não está preparado para isto, vai ser mau para nós” e eu, que devia ter mais pruridos do que qualquer um deles, porque faço a rubrica mais familiar da rádio portuguesa, de repente era eu que estava a espicaçá-los.

Sentes-te refém de ter que corresponder às expectativas do público?

Exactamente, uma coisa dos 40 anos foi tentar evitar isso, começar a sair da zona de conforto e começar a fazer outras coisas.

Mas preocupa-te a fragilidade disto tudo, que um dia te possam deixar de achar piada?

Estou sempre a pensar nisso, sim, por isso é que ando sempre com esta constante ânsia de tentar reinventar-me, seja a escrever argumentos, seja a fazer a Nêspera no Cu, acho que o que provoca esse tipo de reacção nas pessoas é a estagnação, é de facto as pessoas pensarem “pá, aquele gajo está num ponto da carreira onde estava há 20 anos, está a fazer a mesma coisa, se calhar já é demais vamos aqui virar-nos para outro lado” e é isso que me faz aceitar estas coisas. É esse medo de um dia perder a graça e a relevância.

Fotografia Bernardo Coelho

Imaginavas que podias estar envolvido numa das irritações do dia no Facebook e ser atacado daquela forma, como aconteceu no caso José Cid?

Não. Lembro-me que ainda não havia Facebook mas havia os clubes do Yahoo e os fóruns da Rádio Comercial e já aí havia laivos de que as pessoas se irritavam com pouca coisa. O aconteceu no Facebook foi que se começou ali a criar o desporto da irritação e da indignação, as pessoas ficaram muito mais indignadas umas com as outras partir do momento em que apareceu este fórum de comunicação total e completa. Acho que o Facebook acabou por contribuir muito para esta explosão de politicamente correcto exacerbado. Nada se compara com o que acontece nesta era, quase que acordas naquela de “com o que é que eu me vou indignar hoje? Eu estou doido”, as pessoas querem zangar-se umas com as outras por qualquer coisa, é absolutamente ridículo. Um gajo está sempre a ser perseguido hoje em dia pelo que diz e faz. Comecei a habituar-me a viver com isso, costumava dar trela aos haters mas de há uns dias para cá fiz um post e disse “acabou, não vou gastar mais tempo e energias com os haters a partir de agora só respondo com flores e smiles” e já está a acontecer.

Também imagino que nunca passasse pela cabeça ao Nuno Markl adolescente que um dia irias anunciar uma separação?

Não, porque na adolescência achava que nunca ia ter nenhuma relação na minha vida, logo para começar. Mas aconteceu, eu e a Ana sabíamos que isto ia ser uma pequena hecatombe nacional, porque a nossa relação foi um conto de fadas não só para nós, mas para várias pessoas, para os caixas--de-óculos, geeks, que acharam “se calhar há possibilidade de conseguirmos encontrar o amor com uma miúda gira”. E portanto quando decidimos que estava na altura de fecharmos a nossa relação uma das coisas que pensamos foi “epá, isto vai ser um massacre tremendo, para as pessoas vai ser uma tragédia, para os fãs, e para as revistas vai ser um manancial de escarafunchanço para tentar perceber o que é que aconteceu”. Então achámos que tínhamos de poupar tudo isso largando nós próprios a história no mundo.

Achas que é um talento que tens, terminar bem relações?

Sou um perito em terminar bem relações. Eu sou um paz de alma e acho que tanto num caso como noutro elas são mulheres incríveis e portanto tudo foi falado, as conclusões a que se chegou foi tudo em simultâneo e portanto não havia razão para haver zaragatas nem mal-estar em nenhum dos casos. E o mais engraçado é que o primeiro deu aso à escrita do argumento do Refrigerantes e Canções de Amor e agora a separação com Ana deu azo à escrita do argumento chamado Manual de Instruções. O Filipe Melo está sempre a dizer “tu tens que te separar para escrever grande guiões”.

Lidas bem com a exposição da tua vida privada?

Lido, são exposições controladas. Como incluo a minha maneira de ser no meu humor as pessoas já têm uma ideia do que é que eventualmente posso ser como homem fora da rádio. Tenho uma tendência que herdei do meu pai para ser muito centrado em mim mesmo, não no sentido egoísta da coisa, mas no meu universo, na minha escrita, nos meus desenhos, no meu universo criativo.

Tens raízes austríacas. É algo que já exploraste?

O meu avô era luso-austríaco. Não fui e quero ir proximamente, é uma vergonha que com o nome que tenho não saiba uma palavra de alemão e nunca tenha lá ido.

Fotografia Bernardo Coelho

E deste lado de dar entrevistas, gostas, ou preferes o lado oposto?

Prefiro sempre o lado de criar coisas. Não me importo de conversar e de falar e de dar entrevistas, muitas vezes o que acontece é que os entrevistadores vêm pouquíssimo preparados. Lembro--me sempre de uma historia incrível, isto chegou a um ponto em que um dia recebo uma chamada de um prestigiado órgão de comunicação e o senhor que está do outro lado da linha diz “olhe eu sei que você vai lançar um livro chamado Caderneta de Cromos que é baseado numa coisa qualquer que você faz na rádio, nunca ouvi, não sei o que é, mas tenho de o entrevistar por isso diga-me lá o que é isto” e houve ali um momento em que me passou uma coisa pela vista e eu disse “epá, não quer ir antes à Wikipedia, ou fazer uma pesquisazinha?”. Quando são entrevistas bem preparadas, dá-me gozo estar à conversa.

Sugeriste que fosse em tua casa. É por preguiça, para não perderes tempo em deslocações ou ambas?

Foi mais, estou de férias e tento ao máximo evitar ir a Lisboa. E ao mesmo tempo porque estou a fazer coisas aqui em casa, estou já a preparar coisas para a rádio e gosto de trabalhar aqui, de estar no sossego de casa a escrever. E também porque acho que este cenário caótico da cave é bom para tirar fotografias.

Quando o teu filho era pequeno conseguiste gerir bem a parte dos bonecos?

Sim, a verdade é que ele nunca se interessou muito, ele muito cedo ficou fã de Lego e portanto a única zona onde há problemas e de vez em quando desaparecem figuras e pedaços é naquelas construções enormes. O ritual é sempre o mesmo “papá, vou só levar este para brincar mas eu depois ponho cá outra vez”. Já sei que nunca mais vou ver aquela figura, nem ele. Há uma espécie de dimensão paralela nesta casa para onde as figuras vão e desaparecem. Quando há figuras de Lego que eu acho muito giras e que pertencem a estes conjuntos assim grandes, digo “Pedro, essa brinca se calha aí ao pé”. Se são um bocadinho mais indiferentes digo “pronto, leva-a lá” e despeço-me da figura, nunca mais a vejo.

Como é ser pai e continuar a ter uma criança dentro de ti?

É óptimo porque gera uma cumplicidade muito grande entre os dois. O grande desafio é que o nosso filho não olhe para nós com o devido respeito e olhe para nós como se fossemos um amigo dele de escola, tem de haver também o lado de ele perceber que eu mando, e às vezes temos discussões extraordinárias do género “porque é que eu tenho de comer sopa se o meu pai não quis comer sopa hoje?”. E eu tenho de lhe dizer “eu não quis comer sopa hoje porque sou o teu pai, tu tens que comer, não somos iguais, não estamos no mesmo escalão, tens de perceber que eu posso não comer sopa se quiser mas tu tens de comer sopa todos os dias”, ele vai percebendo essa lógica.

Fotografia Bernardo Coelho

Tinhas noção de como iria ser fantástico ter um filho?

Não, tinha ideia de que ia dar um trabalho tremendo, que deu sobretudo no início, porque ele teve cólicas durante mesmo muito tempo, foram muitas noites mal dormidas e a ter que trabalhar no dia seguinte e criar com pouquíssimas horas de sono. Essa foi a parte mais difícil e corroborando tudo aquilo que nos dizia muita gente, quando isso passa nós esquecemos, hoje tenho uma memória vaga desse inferno das noites por dormir, porque depois são as coisas boas que ficam.

Chegaste a pensar “O que fui eu fazer? Nunca mais vou recuperar a minha vida.”?

Não, isso nunca me ocorreu e percebi rapidamente que tinha no meu filho uma espécie de muso inspirador de comédia. Ainda estava na Antena 3 quando ele nasceu e fazia uma rubrica que era o Há Vida em Markl, e as minhas experiências de paternidade fizeram parte de muitos episódios, a um ponto que as pessoas já se estavam a queixar que eu não falava noutra coisa, mas o tema era inesgotável.

Se te saísse uma pipa de massa no casino já te reformavas, ou ainda há muito por fazer?

Não me reformava, mas se calhar começava a produzir os meus próprios filmes sem ter que recorrer a ninguém, sem subsídios e apoios. E por acaso tive uma noite extraordinária no casino há pouco tempo nos meus anos, fui com um elenco de estrelas, foi uma festa surpresa. Fui com o Ricardo Araújo Pereira, Bruno Nogueira, Filipe Melo, Alvim e com o Rui Pedro Tendinha para o Casino de Lisboa e o plano deles era fazer uma vaquinha e aquilo que se ganhasse no casino eles iam-me dar de presente, mas só perdemos.

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