Começaste por desenhar roupa para ti, por seres demasiado grande para o que encontravas. Se tivesses 1,60m eras empregado de escritório?

Acho que não, devia ser para aí cozinheiro, jardineiro, arquitecto, se calhar pintor, não sei.

O que é que o Porto tinha para um rapaz de Azeitão ir para lá estudar moda, em vez de optar por Lisboa?

Na altura, salvo erro não havia assim tanta oferta de cursos quanto isso, mas penso que o CITEX se impôs muito rapidamente com alguma consistência pela forma como os cursos estavam estruturados e foi uma coisa que as pessoas do meio se aperceberam. No caso foi o meu professor de Geometria Descritiva que me disse a mim e ao Buchinho “vocês não estão aqui a fazer nada, vão à vossa vida, existe este curso agora que está muito bem estruturado”. E se era aquele que era o melhor era para aí que devíamos de ir, se fosse na Cochinchina, tínhamos ido para a Cochinchina, acho eu.

No Portugal de há trinta anos era bem visto um homem que queria trabalhar em moda?

Não era e continua a não ser. Houve portugueses que evoluíram imenso, felizmente, mas há portugueses que se recusam a sair de onde estão e que gostam de manter as coisas como acham que são. Inclusivamente há muita gente que é contra o que os outros acham, que ainda é o mais grave, até posso perceber que as pessoas não queiram ser determinada coisa, agora custa-me perceber a necessidade de impor a nossa vontade aos outros e de querer que os outros sejam iguais ou parecidos a nós. Mas acho que a nossa grande riqueza é exactamente esta pluralidade do mundo, de repente estarmos aqui a conversar e alguém chuta uma maneira diferente e “olha nunca tinha pensado nisso, que giro, que interessante, vamos explorar”. Isso é que é a riqueza da raça humana, se nos fecharmos, se começarmos aqui a controlar e a proibir uns aos outros, o mundo que vejo dessa forma não será muito aliciante para mim.

Agora és comendador. Imaginavas ver o teu trabalho reconhecido desta forma?

Não trabalhas para estas coisas, fazes aquilo que achas que deves fazer. Realmente isto tem sido um grande esforço neste país, que não é fácil para fazer diferente, ainda temos tantos receios sociais uns dos outros, somos geograficamente muito pequenos o que muitas vezes complica e possibilita a imiscuidade das pessoas nas nossas vidas. Esta geografia pequenina em que toda a gente sabe quem somos, de onde é que vimos, essas coisas todas, nos EUA ninguém sabe de onde é que és, aquilo é tudo tão grande que é difícil de ver as coisas por aí. É um trabalho que fazes, em que acreditas, acabas por atrair a atenção das outras pessoas e o respeito profissional, mais que não seja. Ao mesmo tempo com isso acho que dignificas o teu país e levas o seu nome além fronteiras de uma forma completamente diferente.

De onde vem a paixão pelos símbolos nacionais que usas nos teus trabalhos?

Tem muito que ver com uma cultura familiar, o meu pai era apaixonado por história, e sempre que se falava de alguma coisa relacionada com o tema ele tinha tanto orgulho e punha tanto empenho naquilo que parávamos encantados a ouvi-lo. Uma coisa é a história chata que nos é injectada nas escolas e é uma grande chatice, outra coisa é teres alguém que fala de alguma coisa como quem fala de poesia, como quem canta uma grande música, e foi esse fascínio que ele me conseguiu passar.

Viste aí também uma oportunidade de negócio por explorar?

Há muita gente que acha isso, não é, seria muito mais fácil teres um Nuni Gamini, uma costela italiana aqui no meio, ou fazeres isto igual ou parecido a muitas outras coisas, é muito mais difícil a via da diferenciação, cada vez que és diferente há uns que ficam com medo, há outros que têm dúvidas. É mais fácil fazer parte do rebanho que impores a tua ovelha negra.

Passas o dia inteiro na loja. É uma paixão, ou não consegues delegar mais?

Para mim não é um trabalho, isto é a minha vida. Alimento-me de tudo isto, as coisas dão-me energia, continuo a ter vontade de olhar para o mundo, de fazer a minha génese daquilo que vejo e podê-lo compartilhar com os outros, é isso que acaba por fazer um bocado a diferença de uma marca e acho que é um bocado isso que acaba por ser o conceito Nuno Gama de alguma forma.

Fotografia - Bernardo Coelho

Porquê também barbearia na nova loja?

Porque também precisamos de barbearias e nunca gostei muito de ir cortar o cabelo a sítios onde estão as minhas amigas a fazer barulho e onde falam tudo e mais alguma coisa, e secadores, e lacas, e montes de confusão. É um momento de relax, em zen o mais possível, e faz sentido para mim que haja um espaço onde quem se identifica com isto possa vir usufruir desse serviço. Ao mesmo tempo uma das questões que cada vez mais temos é que muitas vezes os clientes chegam sem saber gerir estes processos todos e às vezes estão impecavelmente vestidos, mas falta o detalhe que é cortar ou não o cabelo, onde e o que é que me ficará melhor.

E tens um espaço para atender clientes privados. Como é que isso funciona?

Essa parte é muito aliciante, porque contactas com o público directamente e percebes o que é que as pessoas querem, e é muito boa para aferires o teu gosto, perceberes se a tua teoria está certa, o que é que tenho de evoluir. Estamos sempre a corrigir o trabalho, são os clientes que patrocinam toda esta estratosfera de alguma forma, e com o privado estás muito próximo das pessoas, na grande maioria das vezes crias um link privado de alguma forma. As pessoas param as suas vidas para vir aqui fazer as coisas e tu também páras para os servir, depois é a tradição da alfaiataria a funcionar, perceber o que a pessoa quer, reagires com propostas, depois de aceites é tirar as medidas, fazes protótipos, dos protótipos fazes peças, tudo corrigido, tudo direitinho, e clientes felizes no final que é o mais importante. É uma coisa muito gratificante, as pessoas dizerem-me “nunca fui tão elogiado na minha vida”, “a minha mulher disse-me que nunca estive tão bonito como naquele dia”, whatever, é isso que nos faz ganhar o dia.

E não sentes que estás a perder nada lá fora?

O que é que posso perder? Tudo o que me diz respeito está aqui, já não tenho idade para ir atrás de nada nem da vida, as coisas acabam por chegar no seu devido momento, já me diverti, já fiz as festas todas, já fui um diabinho à solta, fiz o circuito todo e mais algum, neste momento já nada disso me chama. Se me disseres “olha, vamos ali a uma festa de amigos”, na boa, mas tenho muita coisa para fazer, sabes? Quero fazer o perfume Nuno Gama, voltar ao circuito internacional à séria, continuar a fazer desfiles, e isso implica muito trabalho, muita cabeça, muita concentração, muito lapidar de diamante.

Mesmo assim tiveste tempo para saberes os Lusíadas quase de cor.

Pudera, quase um ano e meio/dois anos com os Lusíadas de manhã, à tarde e à noite, é normal que isso aconteça.

A relação com o país é só paixão ou também há coisas que te irritam?

As que me irritam são aquelas que me ajudam a valorizar mais o país, entendes? É como tudo na vida, quando és miúdo e queres namorar o fruto mais apetecido não é o que está à mão de semear, é aquele que está ali ao fundo e que não te dá tréguas e que te faz ser melhor e mais inteligente e arranjar uma estratégia para lá chegar. A raça humana tem uma necessidade intrínseca de fazer mais, de ir à procura, de suplantar a si próprio e é muito por aí.

E nunca te deu para entrar na política?

É um mundo pouco fascinante para mim, tenho um espírito forte de entreajuda e gosto de me envolver pelas pessoas e nas situações, não tenho medo de, como muita gente às vezes diz, “vais meter-te nisso, vais arranjar lenha para te queimares”. Não somos uns seres muito fáceis, claro que não, mas quando estás de coração nas coisas e estás pelo bem, não me assusta. Se me magoar, olha, paciência, levanto-me e vou continuar.

Fotografia - Bernardo Coelho

Além da localização, qual é a diferença entre a Moda Lisboa e o Portugal Fashion?

Não vejo grandes diferenças. São calendários muito próximos, acho que não justifica muito a duplicidade de eventos que temos, num país tão pequeno, sinceramente não percebo e acho que é um pena que ambos não consigam chegar a um projecto comum de interesse nacional, menos preocupados com o seu umbigo, acho que era importante.

Quanto tempo demora a preparar o desfile da Moda Lisboa?

Esta tem um tempo demasiado grande, a ideia da colecção começou no dia da apresentação de há um ano. Já tinha usado Fernando Pessoa e nunca tinha tocado nos Lusíadas e era uma coisa que me é muito querida, inclusivamente tenho uma excelente memória de uma professora, brasileira por acaso, de Português que tive algures na primária, e que era completamente apaixonada pelos Lusíadas. Lembro-me que não gostando de Português e estava naquela fase que a gente quer mesmo é correr, queres ar, tudo menos que te prendam e que te acorrentem, aquela mulher fazia-nos correr completamente para as aulas porque era apaixonada por aquilo, apanhávamos um voo ou um barco e estávamos a viajar com ela. Se calhar é uma das grandes responsáveis por esta história dos Lusíadas, versão Nuno Gama.

Agora foi a segunda parte dos Lusíadas na Moda Lisboa. São mercados que te interessam?

Isso não faz sentido, repara, não temos propriamente um mercado índico em Portugal, nem um mercado asiático. Temos uma proximidade com África mas isso é uma coisa que é nossa, haja o que houver não podemos fugir dela, é muito mais do que histórica, hoje em dia África faz parte da cultura portuguesa. Ouvi muita gente em tempos dizer que a Cesária Évora era portuguesa, por ser tão próxima, por a língua ser quase comum. Quando as pessoas gostam e têm orgulho querem que as coisas lhes pertençam, olha como eu, muita gente discute se sou do Porto ou se sou de Lisboa. Não importa, sou português, e o facto de ter vivido 27 anos no Porto, só estive lá porque estive muito bem. Costumo dizer que metade do meu coração é do Porto e a outra metade é para onde eu for a seguir, não é por aí que me vou stressar.

Como surgiu o primeiro convite para a Moda Lisboa?

Foi através do Mário Matos Ribeiro e da Eduarda Abbondanza, acho que havia a ideia de criar um evento de moda com alguma consistência em Portugal, e eles conheciam-me porque já estava a desenhar colecções com a indústria. Acharam que se calhar podia ter estrutura e capacidade para desenvolver um trabalho a uma escala diferente. Fizeram-me a proposta e porque não, vamos ver o que é que vai acontecer. E passaram não sei quantos anos, trinta...

Dormes com a colecção na loja, na véspera dos desfiles. Até lá onde é que ela fica?

Só chega mesmo em cima do acontecimento, é uma regra que criei, até por uma questão de prazer profissional. Se tiver as peças aqui, em quinze dias a olhar para elas sou capaz de desenhar uma coleção completamente diferente, porque estou sempre a pôr as coisas em causa e à procura de fazer diferente e melhor. Se fosse hoje já faria completamente diferente, só que nestas coisas há dias em que tu tens que tomar decisões, naquele momento, e força, vamos a elas.

Até lá está onde é fabricada?

Sim, só vem mesmo na altura que é para montar e geralmente isso são coisas que se fazem com umas directas em cima, porque faz parte, vir a pizza, as bebidas que não bebes durante o ano inteiro, todos reclamamos e estamos com sono mas no fim há aqui uma energia especial, que depois vai para o backstage, para os manequins, porque há tanto esforço, tanto empenhamento ali à volta que as pessoas sentem isso.

Nos castings dos teus desfiles procuras homens diferentes. Foi fácil ter coragem para contrariar o mercado e não ir às agências?

Nunca vi isso por aí, repara, vejo a coisa de uma forma completamente diferente, a grande maioria das pessoas olha para a moda como uma coisa distante e inacessível, que não é para elas, é para os outros, é para miúdos ou é para miúdos estereotipados da forma X, Y, Z, não interessa. O que sempre tentei fazer foi perverter um bocado isso, envolver primeiro as pessoas que me rodeiam, basicamente são clientes meus, e colocá-los do outro lado, no ponto de vista de deixarem de ser clientes e passarem a ser eles os modelos.

Fotografia - Bernardo Coelho

Ao mesmo tempo estás a levar a moda para a rua?

No fundo é uma tentativa de democratização das coisas, mas não deixo de ter os manequins profissionais, acho que fazem sentido, aliás, são essenciais na história como são todos os outros. O resultado final não sou eu, somos todos nós que lá estamos envolvidos.

Nunca tiveste feedback negativo das agências por fazeres isso?

Nós todos somos muito mais ricos com isto, com a quantidade de manequins que já lancei, que dos desfiles vão directamente para as agências. E não vão mais porque o mercado está como está, há uns anos era muito mais fácil. De qualquer das formas os manequins portugueses lá fora devem ser dos mais cotados, há aí uma estratosfera muito bem reconhecida a nível internacional e quando se fala em manequins portugueses toda a gente pára e quer ver, porque a fama é boa.

Como é estar a chegar aos cinquenta anos?

É exatamente igual aos outros todos, de repente percebes que o tempo voou, que fizeste muita coisa mas que ainda podes fazer muito mais e o que me fascina é que a quantidade de coisas que sei hoje, a minha experiência e a minha maturidade permitem-me fazer muito mais e muito melhor de cada vez e isso é absolutamente genial. É muito confortável dizeres “já não quero, já não ando à procura”, aquela coisa que é a pesca do arrasto, atiras a rede e o que vier vale tudo, não, hoje já não vais por aí, vais objectivamente às coisas, é diferente e muito interessante. Não trocava com ninguém nem com nada, tenho sorte, para a idade não tenho propriamente rugas mas de qualquer das formas se as tivesse acho que não me ia stressar. Os ciclos por onde passas, a evolução que sofres, a forma como vais vendo as coisas a mim dá-me paz e capacidade de bem estar no geral.

Preocupa-te o que dizem sobre ti?

Não sou muito de me preocupar com isso, às vezes há coisas que me magoam um bocadinho e custam, quando as pessoas são injustas. Porque é que as pessoas têm necessidade de se valorizarem ou de valorizarem aquilo que acreditam a denegrir os outros? Faz-me confusão, não sou assim. Se cada um resolver disparar para aquilo que não gosta se calhar o mundo não existia. Tens que ter jogo de cintura, a cabeça arrumada, saber o que queres, tens de saber o que é que tu achas que é bem, mal, errado, certo, tens de definir isso muito bem, os 50 anos aí ajudam um bocadinho, é um trabalho que tens de fazer de ser objectivo e saber a direcção que queres tomar. Quem quer estar, está, quem não quer, paciência, temos pena.

Hoje já percebes mais facilmente quem são os amigos e os invejosos?

Não julgo as pessoas. Não mudo em função do que quer que seja, sou sempre a mesma pessoa em todas as etapas da minha vida, e acho que isto me dá alguma defesa, já tive momentos em que tive noção de que algumas pessoas se queriam aproveitar de alguma forma, queriam denegrir, destruir, ou coisas do género, só que quando se aproximam depois perdem a coragem porque percebem que estão no sítio errado. Se me disseres “Nuno, preciso da tua ajuda”, páro o mundo para te ir ajudar, como já parei imensas vezes. Se topar que me queres sacanear, roubar, ofender, ou coisa do género, foge depressa porque Touro com ascendente em Escorpião, entre marrada e afins, alguma coisa há-de sair.

Até pelo Facebook, o termo amigo está demasiado vulgarizado?

Sei perfeitamente quem são os meus amigos, não são elegidos por mim, os meus amigos revelam-se todos os dias, no abraço, na companhia, na atenção, no agradecimento, na amizade diária, é aí que o amigo se revela, não em pequenos instantes, flashes do que quer que seja. Ainda há pouco tempo estava com uma amiga com quem convivi durante uns cinco anos se calhar, éramos muito próximos, e a vida afastou-nos, não nos zangámos. Entretanto aproximámo-nos e foi exatamente como se tivesse passado um segundo desde aquele dia, ela não me pediu nada, eu não a julguei, não lhe disse “devias de me ter ligado e não me ligaste”, ela também não. O telefone existe para dois lados, não faz sentido isso.

Já caíste e te levantaste muitas vezes, mas tens sempre um discurso positivo. És mesmo boa pessoa?

Se calhar sou um gajo igual aos outros todos, com uma diferença que é a escola da vida, a grande escola. É essencial teres uma boa formação como base, isso é uma coisa muito importante e que mais tarde ou mais cedo se revela no teu trabalho, na forma como reages à vida, naquilo que és para as outras pessoas, por aí fora. Depois disso é a escola da vida que te vai obrigando e te vai levando nos caminhos que tem que levar, imagina um dia tens um incêndio em que perdes tudo e perdes-te a ti próprio, inclusivamente. É muito complicado, de repente nada à tua volta faz sentido, porque é que te levantas, porque é que comes, porque é que vais trabalhar, porque é que não agarras numa pistola e não dás um tiro a toda a gente… E perante esses cenários, se tiveres uma boa base de formação é mais fácil digerires as coisas e ganhares alguma aceitação em relação aos factos, perceberes que não foi o fim do mundo, aconteceu naquele instante, aquilo que estavas a fazer foi abaixo, só tens que continuar, reconstruir, a alternativa é ires para a porta do banco enrolado numa caixa de cartão e acabou-se.

Não deve ser fácil controlar as emoções em situações extremas como essa.

Passa-te pela cabeça em vez de dares um tiro aos outros dás um tiro a ti mesmo, subires à ponte sobre o Tejo, passa-te tudo, e de repente ficas cheio de dúvidas, cheio de medo, e nada faz sentido, que é o pior. À tua volta é tudo negro, é como se tivesses uma cabeça de alfinete, e não é a parte redondinha que tem mais apoio, é mesmo o biquinho, em que tu tens os pezinhos lá em cima e nada faz mais sentido à tua volta, e o que é que vais fazer perante isso? Como é que vais reagir? E depois percebes que podes refazer, reconstruir ainda melhor porque podes tirar a parte boa da parte má, pegas naquilo e consegues ainda mais e melhor a seguir, costuma-se dizer que aquilo que não nos mata torna-nos mais fortes e é uma grande realidade, às vezes o paizinho e a mãezinha gastam saliva a explicar, não ouvimos, e a vida depois encarrega-se disso. “Não ouviste, então anda cá outra vez que vou encarregar-me de te ensinar à séria.” [risos]

Fotografia - Bernardo Coelho

Falas muito na família. Acredito que pensas em quem irá herdar o teu império.

Claro que sim, não sei ainda, é uma incógnita, quem ficar com isto não vai receber uma pêra doce, porque é óbvio que vou pôr aqui um contrato de obrigações intermináveis, mas ao contrário do que se possa pensar, não estou nada preocupado em que seja alguém igual ou parecido comigo, a única coisa que me preocupa é que seja alguém que goste tanto disto quanto eu e que com aquilo que herdar que possa fazer muito mais do que eu fiz, de formas diferentes, como se tem feito recentemente com as grandes casas lá fora. No logótipo Nuno Gama, a cruz está sobre o O. Para alguém mais atento aquilo não é um O, é o mundo. O sonho da minha vida um dia é ver o globo cheio de bandeirinhas Nuno Gama. Não quer dizer que seja realizado por mim, é essa a missão da pessoa que vier a seguir, continuar com isto tudo, a falar português. É muito mais importante o nosso conceito do que o dinheiro que se possa ganhar, que é importante para pagarmos contas mas não é tudo na vida e hoje é muito fácil vendermos a alma por meia dúzia de tostões. Seria muito mais fácil se estivesse a fazer roupa low-cost ou a trabalhar para alguém, saía todos os dias a horas, tinha fins-de-semana, se calhar tinha um carro novo, uma casa de campo, se calhar tinha ido de férias, que já não vou há não sei quantos anos, uma lista fantástica de coisas, mas não trocava por nada disso.

Pensas em reformar-te?

Não faço planos de estar numa cadeira de rodas e ter um sistema montado à minha volta que nem que seja a empurrar o queixo consiga fazer as coisas, isso não faz sentido para mim. Mas enquanto for vivo e tiver a lucidez suficiente gostaria de estar por aqui, nem que seja a ajudar a abrir uma porta, ou a sorrir para um cliente, a ouvir as pessoas, não sei.

Pensas na morte?

Não é uma coisa que assuste nada, vejo a morte como uma caminha confortável e uma viagem de luxo, 5 estrelas, tranquila, estou ansioso por lá chegar. Ansioso no bom sentido, atenção, por lá chegar para ver como é. Não é que possa vir cá dizer a seguir mas estou curioso, para ver se realmente a minha teoria da vida faz sentido ou não. E claro que estou ansioso por abraçar os meus pais. Vejo a morte como uma parte integrante da vida, e como uma parte da renovação do círculo, mas uma coisa a nível energético muito boa, muito doce, muito tranquila.

Apesar de tudo o que ainda queres fazer, já ficavas satisfeito com a obra que deixavas?

Não, sou insatisfeito por natureza, acho que ainda tenho muita coisa para fazer.

Ainda te faz sorrir quando vês um desconhecido com uma criação tua?

Às vezes. Isto não quer dizer que esteja a fazer um juízo de valor, cada vez mais torna-se mais comum ver coisas minhas. O que ainda me faz sorrir mesmo são as pessoas, o resto faz parte.

E de certeza que sabes se és familiar do Vasco da Gama.

Não faço a menor ideia, estou mais preocupado em fazer a minha viagem. Às vezes em Portugal somos todos doutores, engenheiros, filhos de, moramos na rua XPTO, temos o carro Y, e o resto? Ainda ontem à noite fui a um restaurante, por acaso engraçado, estava uma mesa com 10/12 pessoas, e eles ocuparam nitidamente o espaço aéreo, falavam todos ao mesmo tempo, foram mal educados, vulgares, e de repente apercebi-me pela conversa que eram todos doutores, engenheiros, enfermeiros, e coisas do género. Tanto investimento na formação e... são pobres. Muitas vezes, como não fazemos propriamente grande coisa nem nos esforçamos muito, temos aqui um cartão de visita que diz “ai eu sou isto, ou sou aquilo”. Estou mais preocupado na parte de fazer as minhas coisas do que parecer, para isso ficava a fazer as tortas de Azeitão da minha avó, não tinha feito a viagem que fiz, já lá estavam era só continuar a colar autocolantes.

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