Quantos anos é que tiveste que andar a explicar que querias fazer stand-up, não era contar anedotas?

Até ao Levanta-te e Ri, andei muito tempo a explicar. As pessoas não sabiam o que era stand-up, um gajo sozinho num palco… O Herman fazia uma coisa, embora seja mais completo, é um one man show, canta, dança, atira foguetes, apanha, é diferente. Mesmo assim não foram muitos anos, felizmente.

E hoje tens um milhão de fãs no Facebook. Percebeste logo que isto das redes sociais ia dar jeito?

Hoje em dia são tantas, por exemplo no Instagram não apostei logo no início, não tinha muita paciência, embora adore fotografia, mas sim o Facebook percebi logo e coincide com o arranque do 5 para a Meia-Noite. Aliás, o meu sucesso nas redes sociais tem muito a ver com isso, apanho esse arranque e o catapultar do próprio Facebook, da minha carreira, foi tudo junto. E foi transversal, a página do Eu Amo Você tinha mais seguidores do que eu tenho hoje em dia e acabei com ela há quatro anos, naquela altura a malta aderia a tudo. Não tirando obviamente valor ao meu trabalho, realmente a grande explicação é esse olhar atento para uma coisa que estava a despoletar e em que realmente ninguém apostava, com muita força também do 5 para a Meia-Noite.

Apesar de as redes sociais serem um megafone para idiotas?

Sim, é verdade, eu pessoalmente não uso, só para trabalho. Cada vez mais tenho alguma aversão à forma como as pessoas usam aquilo, costumo dizer que as pessoas são muito anti-sociais nas redes sociais, o que é estranho, o principio não devia ser este, está tudo trocado.

Fotografia Bernardo Coelho

E respondes?

Há uma fase de aprendizagem em que tu te chateias e respondes. Depois começas a perceber e guardas uma ou outra mensagem daquelas mais malucas que te possam mandar e quando começas a irritar-te vais ler aquilo e dizes “não, isto é só um maluco com um computador, mais nada, acalma-te e deixa lá isso”.

Nasces em Angola e passas a adolescência em Proença-a-Nova. Era uma vila tão animada que começaste a escrever as tuas próprias piadas?

É isso, é interior, vim de Angola para Proença-a-Nova, depois para o Algarve e depois para Lisboa. Costumo dizer a brincar que de 10 em 10 anos sou expulso, realmente é engraçado, não consegues explicar porque é que aos 17 anos, e eu sempre me dei bem com os meus pais, porque é que bazas dali, porque é que te queres vir embora, mas realmente sentia uma necessidade de ir à procura de coisas diferentes, mais coisas. Queria fazer rádio, embora lá fizesse rádio local, queria ir à procura e fui para o Algarve sozinho e é um acto de coragem muita grande tu agarrares numa mota, uma DT LC daquelas clássicas, e fui à minha vida com 17 anos, é realmente uma loucura muito grande e mais loucura os meus pais deixarem-me ir.

Já tinhas vindo a Lisboa?

Sim, às vezes dizia à minha mãe que vinha a Lisboa com um amigo, ela dava--me dinheiro para o autocarro e eu vinha à boleia, portanto já tinha esse espírito de aventureiro e quiçá maluco. Se fosse hoje provavelmente seria raptado e violavam-me a meio do caminho.

Contas muitas vezes que foste DJ e decorador de interiores. Apesar de esta segunda profissão já ser invulgar, tiveste mais alguma que omites das biografias oficiais?

Não. Sei lá, tive um chamamento para a decoração de interiores porque sou um arquitecto frustrado, adorava ter tirado arquitectura se não tivesse começado a trabalhar e a ganhar dinheiro, o que é incompatível com concentrares-
-te no estudo. Deixei de ser decorador de interiores porque fui expulso da Ordem, não tinha camisas com flores suficientes e eles disseram “epá, baza daqui”. Ainda perguntaram “tem alguma relação com um rapaz?”, e eu “Não, tenho uma namorada”. “Ah, então esqueça”, e não ser processado foi uma sorte. Ainda tive uma empresa, fiz muitas decorações de interiores, e há uma coisa que contribui para a minha carreira de humorista, foram os calotes que levei como decorador, se não tivesse levado tantos ainda hoje estava convencido que aquilo era giro.

E hoje é rádio, TV, espectáculos ao vivo, publicidade, o tal milhão no Facebook, livros, DVDs, no entanto és provavelmente o humorista que mais divide opiniões, ou se ama ou se odeia. Percebes o que é que provoca esse tipo de hostilidade?

Quando tens muito sucesso isso é natural… Ou seja, se te centras num nicho tens um séquito que te segue, é mais inócuo. Acho que tenho um problema que é pesca por arrastão, é como no Benfica, tanto apanhas um indivíduo de blazer que devia estar no Sporting, como apanhas um que vem não sei de onde e vai para ali com uma faca e uma pistola, é extremamente relativo. Não me preocupo muito com isso, os únicos ódios que senti até hoje foram sempre nas redes sociais. Sempre tive sucesso nas coisas em que me meti, tenho as casas cheias, portanto vais perder tempo com o quê? Se achares que toda a gente vai gostar de ti, epá...

Mas em relação a ti há um bocadinho mais de agressividade que com outros.

É uma coisa estranha e muito tuga, até ter sucesso em televisão e em rádio dava-me com todos os humoristas, era o maior e um porreiraço. A partir do 5 para a Meia-Noite comecei a ouvir “olha, não sei quem disse mal de ti” e eu a dada altura comecei a travar isso “epá tá bem, deixa estar não me contes, caga nessa merda”.

Estiveste quanto tempo no 5 para a Meia-Noite?

Foram sete anos. Fui o único que acompanhei do princípio até ao funeral. Perdão, ainda não acabou.

E já foste processado?

Fui uma vez. Tens direito a uma borla, nunca falei disto. Foi por um telefonema na rádio, quando o Isaltino foi preso fui processado pela Câmara de Oeiras. Mas depois fui ilibado, porque o juiz tinha uma coisa que era sentido de humor e felizmente percebeu que aquilo era só uma brincadeira, tal como dizia no telefonema, mas houve alguém que não percebeu. Em termos de leis cometi um erro, disse “fala aqui agente Alcides da Polícia Judiciária” e não podia ter dito porque isso é usurpação de funções. Foi daí que nasceu uma coisa que quem segue os meus telefonemas conhece perfeitamente. Estou numa reunião com os advogados e dizem-me “você nunca podia ter dito Polícia Judiciária, pode ter problemas com isto, é um crime público” e eu “então e se for autoridades competentes?”. Disseram que isso podia e passou a ser sempre autoridades competentes. Mas de qualquer maneira o próprio telefonema desmontava a brincadeira.

Fotografia Bernardo Coelho

Há relatos de que és mesmo boa pessoa, inclusive ofereces com regularidade receitas dos teus espectáculos para caridade. Tens uma lista telefónica guardada em casa e deixas cair o dedo aleatoriamente numa instituição ou recebes toneladas de pedidos?

Isso é relativo, acho que é obrigação, não faz de ti boa pessoa. Se tens capacidade para conseguir ajudar, tens obrigação, não sou mais nem menos boa pessoa que outro indivíduo qualquer. Até gostava de fazer uma associação, uma coisa chamada Tempo, pelo menos a ideia é dares tempo aos outros.

Ok, mas fazes e não te gabas disso…

Não tens que te gabar, a minha empresa intervém muitas vezes em casos extremos: um pai que tem um filho no hospital a morrer com cancro e não pode lá estar porque tem de ir trabalhar, em casos onde intervenho pessoalmente ou com ajuda de espectáculos, pago eu o ordenado a esse pai, para poder estar lá e ver o filho melhorar ou morrer. E tu não tens o direito de explorar isso, a premissa é sempre essa. Uma família que precisa de 6 ou 7 mil euros para uma cadeira de rodas de uma criança, nunca na vida vai conseguir aquele dinheiro, e tu com um espectáculo, dedicaste-te a promover aquilo e conseguiste 6 ou 7 mil euros, são duas horas da tua vida em palco, para ti não é nada e mudas a vida a uma pessoa, tens obrigação de fazer isso. Infelizmente os pedidos são mais que muitos e o peso é a urgência, é uma dor a escolha, digo-te já, mas não consegues ir a todas. Dou-te outro exemplo simples, há uma miúda que me contacta porque a mãe está com cancro, está triste e gostava de vir a Lisboa ver um artista. Telefonas para a rádio e dão-te os bilhetes, sou embaixador de uma marca de carros, dão-te um carro para a senhora vir a Lisboa, ligas para um hotel e eles dão--te um quarto. Fizeste três telefonemas e dás outro alento a uma pessoa, é super simples ajudar, não custa nada.

Falaste na tua empresa, o que é a máquina Nilton hoje em dia?

Logo desde o início apostei muito no mercado empresarial, que é a grande força motriz do meu trabalho, os espectáculos empresariais, e hoje em dia uma vertente até publicitária. As duas últimas campanhas da Microsoft, do Office e do Office 365 foram copys foram feitos pela minha empresa, fiz para a Cepsa, há N trabalhos virais, ghosts que as pessoas nem sabem que saem dali.

Em termos de estrutura é só uma Manager ou tens mais gente?

Dizes uma empresa e parece uma grande cena mas na verdade tu com um computador e uma máquina fotográfica ou de filmar é uma produtora. É tudo muito assente em mim e depois é uma questão de elasticidade, precisas de mais pessoas para trabalhar, contratas mais ou menos.

Podias reformar-te amanhã e os teus filhos ainda iam estudar para onde quisessem?

Sim, se deixar de dar metade do que ganho àquele sócio que é o Estado. Mas também não trabalho por dinheiro, isso acho que é mau, deves ter estímulos e sentir-te desafiado a ter coisas, portanto teres alguma necessidade é bom, seja ela parva ou não. O conceito de reforma é péssimo.

Tens o tempo que gostavas para os teus filhos?

Nunca na vida, aliás tenho esse problema, abraço demasiadas coisas e trabalho vinte horas por dia. Alguém tem que ficar a perder e dou por mim muitas vezes a pensar, hoje em dia questiono muito isso, que é o pouco tempo que tenho para eles e devia ter mais. Sacrifico-me muitas vezes a trabalhar de noite para poder estar com eles.

E para pensar, consegues tirar quanto do teu dia?

Deveria criar mais, tenho N projectos, coisas na gaveta que não tenho tempo para fazer, peças de teatro. Este ano, por exemplo vou estrear um projecto que está na gaveta há cinco ou seis anos precisamente por isso, que é não ter tempo para criar decentemente. É um monologo em personagem.

Isso é exatamente o quê?

Sou eu a dar um passo que nunca tive coragem de dar porque não sou actor. Tenho muito respeito pelos actores, mas no entanto fui testando, ou seja, fui criando personagens na rádio e televisão e fazendo coisas que me dão alguma segurança, mantendo esse distanciamento e essa premissa de que não sou um actor, mas estou aqui a fazer uma perninha. Como o indivíduo que está na pastelaria e diz “vou só ali um bocadinho, se vier alguém...” e vem alguém e tu tiras um café, ou uma cerveja, não fazes parte daquilo, não estás encartado para tirar cervejas mas consegues tirar uma cerveja. Na verdade vai ser isso, eu a ir ali um bocadinho ao palco tirar uma cerveja.

E aí não vais sair da personagem?

Nunca. Há um vídeo introdutório, com a transformação e a explicar quem é e porque é que aparece ali aquele indivíduo.

Usas fórmulas para escrever?

Depende, por acaso escrevo muito facilmente. Sento-me e é para fazer piadas sobre a actualidade, faço 50 seguidas, umas melhores outras piores, como é óbvio. Portanto em qualquer lado, a qualquer hora, não tenho essa história do “ah, não estou inspirado”, isso é para amadores. Queres viver disto, sentas-te e escreves.

Fotografia Bernardo Coelho

E não tens vontade de fazer espectáculos sobre um tema?

Acho muito redutor. O que faço é segmentar, “agora vou falar só para as mulheres”, “agora vou falar só sobre este tema”. Ando a escrever uma coisa que é um músico que nunca canta, na verdade conta histórias mas nunca chega a cantar.

Esse caminho que segues no espectáculo já está definido à partida ou vais apalpando o terreno?

Vou apalpando, repara, os meus monólogos hoje em dia é um DJ a pôr música, tens de ter a pista cheia e depois vais sentindo.

São blocos de piadas?

Tenho piadas soltas e blocos. As soltas muitas vezes ponho no início para perceber que tipo de plateia é que tens, faço três ou quatro, uma de actualidade, uma mais fácil, uma mais complicada e aí percebes para onde é que o espectáculo vai, não há uma linha.

E quando estás a criar esses blocos defines targets?

Sim, vou segmentando as coisas, é como o DJ, tem vários discos e depois vai pondo e vai sentindo. Muitas coisas saem no espectáculo, improviso muito porque gosto de falar com as pessoas. Elas merecem que fales com elas e não chegar ali e despejar. Cria a mesma piada, como é óbvio, mas eu gosto mais que as pessoas se sintam acarinhadas e que eu percebo que elas estão ali.

Não te dá para escrever ficção?

Há muitos anos cheguei a propor umas coisas, concursos, eu e o Mascarenhas chegámos a propor um filme e séries, mas o problema aqui é tempo, não há tempo. Vais-te especializando naquilo que é imediato, às vezes acaba por acontecer um bocado assim, a requisição é tanta que não consegues.

E tens amigos humoristas?

Sim, felizmente vivi uma coisa que é única e que se calhar não há-de acontecer tão cedo, que foi uma época em que ninguém sabia para onde é que isto ia, a fase do aparecimento do Levanta-te e Ri. Éramos muito mais inocentes, descontraídos, hoje em dia há uma coisa que noto, é que as pessoas querem muito ser famosas e ter seguidores, querem atenção. Eu, o Aldo Lima, o Marco Horácio, todo esse grupo de amigos que nos cruzámos ali mantemos essa amizade até hoje. É um mar de gente e que é para mim o grande responsável pela mudança do humor em Portugal, o kick-off é dado pelo Levanta-te e Ri. Era uma coisa despretensiosa, não havia isto que eu sinto muito mais hoje em dia, as pessoas querem à força saber para onde é que isto vai. Era muito mais giro, é uma felicidade muito grande ter vivido esses tempos.

Mas não é dado o devido valor ao Levanta-te e Ri por esse mérito que teve ao educar em relação ao stand-up, além de apresentar toda uma geração que passou por lá...

A SIC fez um especial há dois/três anos no Jornal da Noite sobre o humor em Portugal e ignorou o Levanta-te e Ri, por acaso é um programa deles, onde apareceu do Ricardo Araújo Pereira ao Bruno Nogueira. Tinhas do Fernando Rocha nas anedotas a muitos de nós no stand-up, mas isso é só democrático, toda a gente foi lá uma vez, até o António Feio e o Zé Pedro com a Conversa da Treta, portanto mais democrático do que isso não há. E a própria SIC esquece isso, mas pronto, estamos cá nós para lembrar.

Porque é que se fazem tantas novas edições de programas e concursos, mas esse nunca voltou, nem se aposta em algo do género nos canais generalistas?

Na altura as novelas não eram esticadas até à uma da manhã, e o Levanta-te e Ri ocupava ali um espaço. Depois acho que houve também uma necessidade de renovação do próprio programa, tu não podes fazer dois Ídolos seguidos, tens que esperar. Hoje em dia nota-se que há muita malta nova e que poderia surgir novamente mas se calhar o custo de fazer o programa já não compensa, mais vale pôr uma novela, siga. E depois os canais por cabo também não têm orçamento para isso, portanto ficas aqui num limbo, nem tem audiência suficiente para estar no mainstream e é caro demais para estar no cabo.

Onde é que andavas nessa altura em que apareceste no Levanta-te e Ri?

O Levanta-te e Ri aparece para mim no dia 13 de Janeiro de 2003, tinha já um DVD editado no ano anterior e vivia da comédia há três anos, lá está, porque apostava num segmento empresarial, uma coisa ainda muito pouco de encher salas, porque as pessoas não me conheciam. Já tinha estado no Casino Estoril, já fazia algumas coisas mas a televisão é que despoleta todo este crescimento. O Aldo Lima também já vivia da comédia, portanto a coisa estava a mexer, embora não se soubesse, porque a televisão realmente amplifica isso de uma forma que ninguém mais consegue.

Era nessa altura que tinhas um manager virtual?

Era o Rodrigo F., que enganou o Júlio César, o grande responsável pela minha carreira. Quer dizer, há vários, o Sérgio Noronha que me levou para a rádio também, mas aquele com que dizes “epá vou viver disto” é o Júlio César, que foi enganado pelo Rodrigo F., que era eu com uma voz de rádio “Sim, sim o Nilton está aqui.” [risos] Nessa lógica empresarial, que é tipo “o artista não pode falar”, principalmente porque acho que fica muito pindérico o artista negociar cachets, então entrava sempre esse alter ego.

Fotografia Bernardo Coelho

E quando é que o abandonaste?

Abandonei-o depois para a agência Reunião mas curiosamente o primeiro contrato com essa agência contempla durante um ano pagar-se 10% ao Rodrigo F., porque foi ele que fez a passagem entre uma coisa e outra. Portanto eu ganhava o meu cachet, mais o do manager virtual.

Fomos a última geração que não teve o mundo na palma da mão desde que nasceu. Achas que com a facilidade de aceder a conteúdos os putos de hoje têm tudo para vir a ser melhores a fazer seja o que for, inclusive comédia?

Sim e não. Hoje tens uma coisa que é a plataforma, antigamente podias ser muito bom, fazer muitas coisas giras mas se não tiveres uma plataforma é igual, “estão ali a dar ouro”, está bem mas ninguém sabe. Hoje tens Facebook, YouTube, whatever, mas na verdade também tens mais coisas a acontecer, mais pessoas, a concorrência é muito maior.

Conheceste o stand-up com que idade?

Foi nos anos 90, em 95/96 deram-me um VHS do Robin Williams e foi quando eu percebi, epá isto é muita giro, gostava de fazer isto. Tinha 20 e tal anos, antes dos 30.

Hoje a um adolescente basta entrar no YouTube e vê o que quiser.

Ah sim, as referências tens muito mais e aprendes mais facilmente mas isso é transversal. Repara, até as crianças, lembro-me de dizerem “não podes fazer xixi na piscina que a água fica vermelha” e eu saía da piscina a correr. Disse isso ao meu filho e ele respondeu que fica amarela, claramente ele sabe que é só urina, mas é normal que assim seja, as pessoas hoje começam a ter mais conhecimentos mais cedo, o público também é mais exigente, portanto isto depois é transversal. Até acho que dificulta mais porque acabas por ter mais concorrência, mais pessoas, mais exigentes, tudo muito mais voraz e o humorista ainda por cima tem esse problema, o Abrunhosa vai e as pessoas querem ouvir um hit, o humorista “ah já ouvi essa piada” e tens que fazer outra… Como profissional a concorrência hoje em dia é dez vezes maior do que antigamente, está em todo o lado, a toda a hora e não é por ser um miúdo amador ou um YouTuber que aquilo não é brutal e muito bem feito, ele só não faz é aquilo diariamente. Tens de provar e trabalhar todos os dias, se não estiveres atento és ultrapassado por um miúdo que nem ganha a vida com isso.

Essa concorrência leva a que cada vez que tens uma ideia te sintas obrigado a pesquisar para perceber se já foi feita?

Não, senão não fazes mais nada. Já tive esse lado, ainda por cima como tenho muito seguidores pões qualquer coisa e “ah, não sei quem já fez essa piada”. Tínhamos um caso irónico, a dada altura fazíamos as piadas das Pastilhas para a Tosse no dia anterior e passavam às 7:20 da manhã. Depois pões na net às 10h, “ah, não sei quem já postou uma piada parecida às 9:30”. “Mas nós fizemos às 7h”, “sim, mas ele postou antes”, já desisti, já dei para esse peditório, esquece. Deixei de pôr a actualidade na net, eu estou a trabalhar, depois há os que perdem tempo com essa merda. Se te avisarem “olha não sei quem fez...”, isso é uma coisa diferente, agora ires pesquisar tudo o que foi feito, não fazes outra coisa.

E estar em palco com uma plateia a rir, é tão bom como parece?

É o melhor que tens. E não é só a plateia a rir, é dedicarem o seu tempo para ti, seja um coliseu, seja uma sala mais pequena, seja o que for. Se me dissesses “olha só podes escolher uma das actividades”, pagar impostos, que é a principal que eu faço, televisão, rádio ou whatever, eu escolhia o stand-up e o palco, é a mais democrática, se não tiver piada eles não se riem, dá feedback imediato, sentes o carinho das pessoas, estão ali.

E já correu mal um espectáculo inteiro?

Não, nunca. E hoje em dia já corro poucos riscos, sei perfeitamente o que é que vai funcionar e é o que digo.

Evitas temas?

Não, nada. Evito no espectáculo empresarial, estás com uma marca. Eu estou felizmente no topo da cadeia alimentar portanto falo e actuo para as principais marcas em Portugal portanto é natural, se vais fazer um trabalho para a Galp não te vais pôr a falar de sexo e de política, porque sabes que eles vão ficar desconfortáveis, seja a Galp ou outra mais pequena, não tens esse direito, ainda mais porque eu próprio também sou embaixador de marcas portanto tenho sempre uma imagem a manter. Aí evito, mas por uma lógica de “tu estás aqui a fazer uma participação mas o espectáculo não é teu, é deles”, só nesse aspecto faço uma auto-censura mas não deixa de ter mais ou menos piada por isso.

O Nilton é uma personagem?

Sim, sou no lado da timidez, ou seja, sou uma pessoa extremamente tímida e muito quieto, muito no meu canto, não sou um indivíduo que tu pões a falar facilmente. Sou mais observador, estou sempre a apontar coisas, mais de escrita até do que de palco. Só comecei a fazer palco porque escrevia e aquilo morria ali, não tinha como pôr os textos cá fora. Portanto aí tu vais criando o teu próprio alter ego, que é uma persona de ti próprio, tens que te chegar à frente, embora eu seja simpático e muito dado, mas tive de trabalhar esse lado de indivíduo que vai para o palco todo contente e tenho que pôr o chip de personagem.

Mantiveste-te fiel aos óculos como imagem de marca. Precisas mesmo deles?

Sim, preciso, tenho pouco, 0,75 mas preciso, e quando durmo pouco então fico um bocado pitosga. Mas eu gosto, ficaria muito triste se não pudesse usar óculos. Não posso é usar cores muito fortes que o Goucha rouba-mos.

Já tiveste que ter piada em dias negros?

Já, eu tenho uma sorte grande, olha, o meu segundo filho nasceu prematuro, ficou na incubadora e depois esteve um mês e tal internado, nós a acharmos que ele coitado não passava dali. Foi na altura do Natal, que é a pior para mim, ele nasceu e três dias depois tive que ir fazer espectáculos para Coimbra, que já estava esgotado para aí há um mês, depois Braga e tive que estar três dias fora pelo país com ele na incubadora. Depois fiz o Dezembro todo com N espectáculos, é sempre um mês muito forte. Mas felizmente a vida nunca me tirou nada que eu possa dizer “epá, que tristeza e não sei quê”. Já fiz desafios muito negros, na altura da crise, em que anunciam “vamos despedir não sei quantas pessoas… e agora Nilton”, e tu entras em palco tipo, agora vá, anima a malta. Para a semana vou fazer um espectáculo numa empresa que fechou e então eles vão ter um jantar de despedida para 27 pessoas e eu vou actuar para eles, é um brinde, “todos para o desemprego e agora Nilton”. Na altura do último Europeu fiz uma espectáculo num laboratório farmacêutico, na noite daquele empate em que todos dissemos “pronto já se foi”, então tinha um grupo que esteve das 9 da manhã às 8 da noite a discutir oncologia, cancros e não sei quê, depois aquele jogo e mal acaba, “Nilton”, vá isto está bonito, agora anima aí a malta. Mas são desafios giros.

E consegue-se sempre?

Consegue-se, aí é o lado da tua experiência, são muitos espectáculos, tens sempre skills e formas de dar a volta e puxá-los, lá está, aí recorro muito ao improviso. Já tive galas em que de repente começam a trocar os prémios todos e alguém me diz assim de lado “enche aí chouriços” e de repente estão vinte minutos a resolver aquele imbróglio e tu em palco com uma sala cheia.

Nada te faz suar?

Nada, não, estou completamente à vontade, isso tem muito a ver com… tens o teu material, escreves as tuas coisas, é o meu métier, é onde eu estou à vontade. Faço duas horas em palco, 2/3 vezes por semana.

Mas nunca te enervas, é isso?

Por acaso fico muito à vontade e é o que te digo, tem a ver com saberes perfeitamente o que é que estás a fazer. Há pessoas que lhes faz confusão o palco e isso não faz de ti nem melhor nem pior, conheço actores brutais e que ficam nervosos antes de subir ao palco. Vou com o meu material e sei perfeitamente que estou à vontade, nada pode correr mal, e felizmente até hoje, muitas vezes quando corre mal tu ganhas com isso. Nunca me posso esquecer, no dia em que o Raúl Soldado e o Júlio César me vão ver à Barraca, há muitos anos, eu estava com um micro novo e andei a testá-lo tantas vezes em casa que a pilha falhou, portanto fiz o espectáculo com um megafone, porque às vezes andava com um megafone, fazia umas brincadeiras. E o Júlio César achou um piadão a isso, “este gajo fica sem micro e de repente desenrasca-se com um megafone e está em palco a fazer o resto do espectáculo”. Não podes é quebrar porque as pessoas também não esperam isso de ti e às vezes até te dá vantagem, pegares no que corre mal e transformares a teu favor.

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