Fotografia - Rita Umbelino

Como é que imaginavas o ano 2000 quando formaste os Ena Pá?
Provavelmente, quando formámos os Ena Pá 2000 achámos que no ano 2000 poderia talvez haver menos estupidez per capita em Portugal e no mundo. Pensámos aquilo que pensam todas as crianças, que a tecnologia espacial e as viagens siderais seriam uma coisa mais frequente, quando afinal se verifica que, em questão de voos tripulados, desde a viagem à Lua não se fez mais nada assim de muito interessante. Há várias tecnologias que regrediram, como o caso do Concorde. Isto é, as ideias peregrinas científicas foram-se perdendo em favor de coisas mais micro, como é o caso dos telemóveis e coisas assim desse género. Acho que, de qualquer maneira, eu confiei quando fiz os Ena Pá 2000 que no paraíso sobre a Terra havia uma sociedade gloriosa onde as pessoas pudessem ser felizes de uma maneira racional e em que os recursos económicos e alimentares do planeta pudessem ser aproveitados por toda a gente. Esse tipo de coisas, que se previam nos anos 50, desconfiei a partir dos anos 80 que não iriam acontecer.

Chegados a 2018, valeu a pena?
Nós não fazemos as coisas por valer a pena, fazemos porque alguém tem que as fazer. A questão moral e ética, se valeu a pena ou não valeu a pena, não faz sentido para mim. É um bocado perguntar a um corredor de uma maratona que não tem fim e em que ninguém diz, à partida, ao maratonista quantos quilómetros vai ter, se valeu a pena. Não faz muito sentido.

Apareces como Consulting Production Designer nos créditos deste Cabaret Maxime. O que quer isto efectivamente dizer?
Basicamente o que isso quer dizer é que participei em parte da cenografia, nos painéis onde foram feitas umas montagens em Photoshop, a fachada do Cabaret e coisas assim.

A música do filme é dos Ena Pá 2000 e Irmãos Catita. Como é que foi gravada?
A música original é feita por mim, mas basicamente as ideias da música e o ambiente sonoro todo acaba por ser uma ideia do Bruno de Almeida. O que acontece é que há aqui uma componente que acho que é única, a música foi mesmo feita ao vivo especialmente para o filme, dentro das filmagens e ao mesmo tempo, em real time. Isso é uma coisa que nunca vi em lado nenhum e era preciso alguém para controlar. Há ali músicas, logo a primeira italiana, com aqueles corozinhos, foi o Bruno que a encontrou. Há outras que estivemos a ver, a discutir, mas basicamente quem acaba por fazer a composição musical é o Bruno.

Este filme chega ao grande ecrã com uma nova roupagem do mítico Maxime. Ainda que tenha sido apenas uma inspiração, tiveste receio que desvirtuasse um pouco o teu universo daqueles tempos?
Isto é uma ficção. O Bruno também foi sócio, com zero por cento, diga-se, do Maxime. Acho que de facto o Cabaret Maxime tem parecenças com algumas actividades que eram desenvolvidas no Cabaret Maxime, não só quando nós estivemos lá, como com os anteriores administradores. Aquilo sempre foi uma casa em que havia cabaret, havia strip, havia canção, essas coisas. Há muitas casas em Lisboa que são assim, aquilo era um protótipo de uma velha Lisboa que de certa maneira acabou ou ainda está a estrebuchar em alguns sítios.

Aquela espécie de máfia caracterizada no filme representa de certo modo as pressões e metamorfoses que a noite lisboeta sofreu ao longo dos últimos anos?
Personagens como aquelas só existem nos filmes do Bruno. Como não existem, tiveram de ser inventadas. Mas claro que existem pressões económicas, grandes interesses, como diz o Partido Comunista Português. Claro que existem e claro que os que são mais fortes tentam espremer e inclusivamente comprar os mais pequenos, e depois dificultá-los no seu percurso de maneira a que eles tropecem, para se apoderarem precisamente dos espaços e os tornarem noutra coisa, que tem a ver com a sua actividade económica, digamos, mais mainstream.

És literalmente a personificação dos sete ofícios, e um deles é seres actor – com papéis em que imprimes o teu carisma, como o Sangue, do Pedro Costa, ou o Capitães de Abril. Foi interessante desta vez entrares num filme a dar um concerto, aquilo que já fazes há mais de 35 anos?
Aqui não foi propriamente fazer de actor, porque a personagem que lá está basicamente é uma personagem. Para já sou músico, faço de músico e como músico já faço à partida uma personagem. Não foi uma coisa que me tenha custado. De qualquer maneira, sou um péssimo actor, portanto até preferi fazer um papel de músico, que é um bocadinho mais simples para mim. Portanto, sete ofícios sim, mas não quer dizer que se façam todos bem. Normalmente há sempre um que se faz melhor, outro a seguir e depois os outros vão escamando um bocado.

De certeza que, se quisesses muito, tinhas conseguido ter ali umas linhas para dizer.
As decisões em relação a isso são da realização e não passam por mim. Não ando aqui à cata de linhas, nem sequer linhas de coca.

Além do Bruno de Almeida, a Miss Suzy, a tua banda e algumas das strippers do Maxime entraram também no filme. Foi como se o passado regressasse com toda a pujança?
O que se passa é que, quando se está a fazer um projecto destes, o que fica é depois quando se vê realmente o resultado. Aquilo foi uma grande macacada, foi o jardim zoológico, muitos figurantes... engraçado, não conseguimos encontrar o Sr. Fernando, que era uma personagem típica do antigo Maxime. Em relação a voltar o passado, é uma coisa diferente. É uma recriação e é cinema, aquela coisa de estarmos não sei quanto tempo à espera de uma cena, fazer uma cena, tentarmos dar o melhor naqueles segundos, cortar, “Esta é que estava boa”… É toda uma maneira de trabalhar que, de vez em quando, podemos olhar para um pormenor no palco ou partes de cenário que podemos realmente invocar, mas acho que é uma construção nova a partir de outra coisa.

Quais foram as experiências mais surreais que o Maxime te proporcionou?
Tenho um hábito quando vou tocar, que é beber. E portanto, no meio das experiências alcoólicas, tinhas camarins engraçados e depois havia as miúdas do strip, que se cruzavam com os músicos e tudo aquilo era um bocado labiríntico.

Dizes que não tens olho para o negócio, mas abriste o Titanic Sur Mer em 2015 nO cAIS DO SODRÉ. O amor pela noite supera tudo?
Nós gostaríamos de ter continuado com o outro projecto mais algum tempo e ficámos sem lugar. De maneira que estivemos à procura de um lugar novo durante algum tempo e depois se calhar quando menos estávamos à espera, apareceu e aproveitámos. Obviamente que dá imenso trabalho e obviamente que é um lugar completamente diferente, é um antigo armazém e, portanto, não tem aquela tipologia glamourosa dos degraus e dessas coisas. O projecto de arquitectura que foi feito no fundo aproveita e enfatiza os aspecto de ser um armazém, ser um paralelepípedo, aliás, aquilo tinha lá algumas paredes interiores que foram tiradas para ficar um espaço contínuo e no fundo fazer ali um Titanic. Isto é, os bares e o palco juntos fazem uma espécie de barco, quase, encostado à parede.

Mas chegou a ter Maxime no nome. O que levou à mudança?
As pessoas que compraram o Maxime fizeram-me saber, através do seu advogado, que tinham comprado o nome e que nós não o poderíamos usar, senão levávamos com um processo em cima. Então, fomos falar com o advogado, que nos disse que era melhor não lutarmos e que nomes há muitos e eu resolvi então colocar Titanic. De qualquer maneira, as pessoas quando bebem whisky normalmente metem gelo, faz lembrar um iceberg. E é mesmo para afundar, é para um gajo chegar lá e afundar-se, ali em frente ao rio.

Dia 1, vais dar lá um concerto com a banda-sonora do filme e alguns dos números do Cabaret. Espectáculos como estes eram o formato que idealizavas para o Titanic?
Procurámos algumas personagens, como a Gretty Star e vai estar também a Romina com uma bela cobra, uma píton, e ainda outra rapariga do circo. A maior parte das pessoas que estiveram no filme vão estar nessa festa. O que eu gostava de fazer no Titanic, isso sim, era um projecto de cabaret com pés e cabeça e com uma narrativa, que envolvesse algumas vedetas do burlesco nacional e pessoas do teatro também. Neste momento, estou a escrever uma história para tentar fazer isso e vamos ver. Já fizemos algumas experiências, como o Titanic Monster Show, que basicamente são vários números de burlesco e cabaret entremeados com canção, fenómenos de circo como um urso gigante que canta o Love Me Tender, ventríloquos e assim umas coisas. Todo esse mundo um bocado felliniano gostaria que estivesse mais no Titanic e gostava de ter tempo para trabalhar mais nele.

Vai custar-te ver ali um hotel no antigo Maxime?
Não sou muito sentimental em relação a trabalhos. Sou em relação à minha cidade e se eles mantiverem o espaço como era, acho já isso uma coisa do caraças. Nesta cidade há muitas pessoas interessadas em fazer dinheiro e estão a estragar sítios que eram belos, depois acabam por meter lá uns matacões no meio. Aqui em Campo de Ourique, há vários e estão a transformar este bairro numa espécie de Brandoa de roda baixa. Há um no Largo no Rato, vão fazer ali um monstro também, o Largo do Rato todo ele estava mais ou menos conservado, antes de começar a haver porcaria na Braamcamp e agora vão fazer ali um monstro. É estúpido porque é anti-
-turístico, é um tiro no pé, mas é a lógica desta gente. Não é ser muito inteligente do ponto de vista estético ou cultural, porque isso é o que interessa menos. Se conseguirem fazer merda no centro histórico de Lisboa, assim uma coisa que quase ninguém note, eles fazem. A questão aqui é que são privados, depois há muito pouca coisa classificada. A Câmara tem poderes limitados em relação à função de coisas de privados, acho que é um problema que devia ser discutido por todas as pessoas. Mas há mais problemas interessantes para discutir, como por exemplo o futebol, que como vocês sabem é o que domina 50% da agenda de jornalismo do país.

Os Ena Pá 2000 e Irmãos Catita fizeram as delícias de uma geração de adolescentes e até crianças. Como foi nos anos 80 ser o percursor de um
humor tão arrojado (e abusado) em Portugal?

Nós divertíamo-nos, encontrávamo-nos em casa de amigos e fazíamos uns ensaios. Lembro-me que fomos tocar a um sítio, que era um hotel em construção onde havia um torneio de sueca a seguir. Não sei se ganhámos 7,50€, foi mesmo um disparate. Às vezes ganhávamos dinheiro, outras vezes não ganhávamos, isto era uma coisa mesmo por amor à camisola. Nós gostávamos, bebíamos uns copos e tentávamos engatar umas miúdas, a maior parte das vezes não conseguíamos. Mas conseguíamos beber copos. Depois começámos a ter mais actividade e aí sim, a ganhar dinheiro, já nos anos 90. Se voltasse àquela altura não sei se faria exactamente o que fiz ou não, não faço a menor ideia, mas como isso é impossível... É sempre bom imaginar.

Entre Lellos e Orgasmo Carlos, já alguma vez quiseste desligar o teu verdadeiro «eu» e usar alguma das tuas personagens no dia-a-dia?
No dia-a-dia é uma coisa muito mais complexa do que num palco, estamos constantemente a lidar com algumas coisas que conhecemos. Um gajo que é maluquinho e diz coisas, como é que vamos lidar com ele? Estamos sempre a inventar personagens à pressa para lidar com determinadas situações no dia-a-dia. Nós temos recursos apesar de tudo. Acho que se nós não conseguíssemos ser minimamente maleáveis e ágeis na forma de gerirmos a nossa própria personalidade e a maneira como nos comportamos, provavelmente estaríamos extintos neste momento. Fabricar personagens para pôr em palco é uma coisa que vem do teatro, é perfeitamente normal. Utilizar essas personagens na vida real é uma coisa diferente. Quando estivemos a trabalhar no Candidato Vieira, que é uma personagem de ficção transposta para a vida real, ele vai fazer discursos e cumprimentar as pessoas, portanto é uma personagem entre a ficção e a realidade. Isso foi o mais próximo, acho eu, que estive de pôr uma personagem de ficção no meio da realidade. Depois, quando estou bêbedo, de vez em quando acabo por ser uma personagem de ficção aqui e ali. Tipo um bebé impossível de aturar, todos nós já estivemos bêbedos e passámos pelas várias fases da bebedeira, que vão ser várias personagens diferentes. As drogas e o álcool também contribuem para a multiplicação das nossas personagens, o que não é bom.

E com tantos alter-egos e backstories, tens anotações para o dia longínquo em que a memória te comece a falhar?
Tenho algumas coisas escritas, mas não sei se são muito importantes. As coisas escritas e as anotações que tenho,
as tenho é porque, às vezes, sinto necessidade de uma maneira confusa, ou porque não tenho nada para fazer, ou porque não tenho material para desenhar, nem tenho nada para tocar, nem nada no computador e então escrevo. Às vezes pedem-me para escrever e eu tenho uma política, que é: escrevo a primeira coisa que me vem à cabeça e tento articular. Isso dá para textos curtos, para textos maiores é complicado. Tentei fazer isso em textos grandes e não consigo.

Com toda essa imaginação a borbulhar, não terás aí um argumento para cinema na gaveta?
Não, mas estou a pensar fazer com o Cecil B. DeMille uma narrativa, talvez a História de Portugal em burlesco, uma coisa assim. Meto algumas partes bíblicas, estou por tudo. É uma coisa com a mãe de D. Afonso Henriques, todas as raparigas em Pin-up. Portugal acaba alcatifado, é alcatifado com eucaliptos, arquitectura de betão de terror, é alcatifado de várias formas. É sobretudo alcatifado com muita estupidez.

E a candidatura a presidente, teremos um Vieira 2020?
Aquilo dá um certo trabalho. Por acaso, estive a falar com o Tino de Rans, encontrei-o numa coisa chamada Resort
Albergaria-a-Velha, acho eu, e ele disse-me que arranjou as assinaturas da seguinte forma: ia a restaurantes na periferia do Porto e fazia sextas, sábados e domingos. Ia ele e a família, falavam com as pessoas e aquilo era trabalho de campo mesmo a sério. Ele estava ali com pachorra horas e horas a fazer isso e conseguiu. Disse-me que se eu quisesse me ajudava a fazer isso. O que está aqui em causa é se eu tenho paciência para me meter outra vez. Nós não temos um sistema burocrático comparável ao partidário e este sistema não burocrático do Tino funciona, um sistema familiar, depois arranjou uma equipa para tratar das partes dos correios, no caso dele funcionou. É um tipo, apesar de tudo, com mais sentido da realidade política, aliás é autarca, do que toda a equipa do candidato Vieira.

O Partido da Abstenção dificilmente verá a luz do dia?
O Partido da Abstenção dificilmente verá a luz do dia, mas quem quiser retomar esse fardo que o faça, porque eu dou-lhe os direitos de autor do Partido da Abstenção.

A maioria de esquerda baptizada como geringonça trouxe alguma coisa de novo?
A maioria de esquerda é um governo normal de centro-direita, com umas pitadas de medidas de esquerda. Isto é, o PS nunca foi propriamente um partido de esquerda, é um partido que tem uma ala mais social-democrata e uma ala mais normal da realidade de negócios, etc. Foi temperado com alguns laivos de esquerda e de justiça social, que estão sempre subordinados a uma lógica europeia, do défice e isso tudo. Não me parece que seja propriamente um governo muito de esquerda. Há uns atrasados mentais que dizem que os esquerdistas estão a ganhar, mas basicamente não se compreende porque é que dizem isso, é a luta política. Eu não sou contra, nem estou a tomar uma posição política, estou só a constatar.

Achas que cada vez mais estamos na era do politicamente correcto, com um pensamento acrítico massificado pelas redes sociais, e que a tendência desta geração é para se pussyficar?
Nós estamos num período intermédio entre dois glaciares e duas glaciações. Neste momento estamos na era do aquecimento global. Tenho ali um fado em que às tantas apetece dizer “pudera eu violar-te”. E às tantas dizem assim “Não podes dizer ‘amarrar-te’ ou ‘apanhar-te’?” e depois o que acontece a seguir é começar a censura. Acontece que a criatividade é um jacto. Imagina, é exactamente aquilo que acontece no momento do orgasmo, existe um jacto de esperma. Ora bem, tu não vais dizer aos espermatozóides, “Aguenta aí, não faças isso, tem calma, não podes ser um bocado mais moderado?”. E, portanto, o problema do politicamente correcto é esse. Estava no outro dia a ver aquela tipa do Departamento de Estado dos Estados Unidos a dizer que o exército de Israel foi extremamente moderado, teve imensa paciência quando matou aquelas 50 pessoas e feriu 700 crianças, isso fez-me lembrar a moderação de Hitler. Hitler também foi extremamente moderado em resposta aos judeus na década de 40. Isto não tem nada a ver com o politicamente correcto, a realidade não tem a ver com o politicamente correcto. Temos que distinguir entre aquilo que é a criatividade e o direito das pessoas dizerem coisas inteligentes mas também devemos deixar as pessoas estúpidas dizer coisas estúpidas. O politicamente correcto é mesmo uma coisa para os políticos, as pessoas não deviam ser abrangidas por esse código e muito menos os artistas. Hoje em dia os putos mandam fotografias com os órgãos sexuais uns aos outros e é uma coisa normal, por isso eu não sei o que hei-de pensar.

Dizes que os teus dias não têm organização, ritmo ou disciplina, no entanto tens sido professor. São realidades que convivem bem?
Quem é que disse isso? Deve ter sido um assessor meu, foi despedido esse gajo. [risos] É de tal maneira que fui despedido das Caldas da Rainha por uma questão administrativa e de papelada, que foi a seguinte: eles enviaram-me um e-mail em Julho a dizer para me apressar a mudar o Cartão de Cidadão, que já estava fora de prazo, e não podiam fazer automaticamente a renovação do contrato sem isso. Eu não vi os e-mails, quando fui em Dezembro ver o e-mail da escola, já tinha sido despedido em Agosto. Depois não pude fazer mais nada. Neste momento já não sou professor.

E Assumes-te em primeiro lugar como pintor, apesar da maioria do público te conhecer como músico. De 0 a 10, quanto é que isso te incomoda?
Não me incomoda nada. Não acho isso importante. Zero, talvez. Incomoda-me -7.

Mas depois há os rótulos. És considerado um dos melhores desenhadores portugueses, mas com a imagem que foste construindo nem sempre é fácil convencer certas instituições. Tens saudades dos tempos em que mandavas um gigante “fuck off” aos críticos?
Não. Isso fez parte de uma geração, de uma maneira de desconstruir uma carreira antes de ela começar, da qual eu fiz parte. Isto é, a nossa estratégia era, antes de termos uma carreira, antes de ela começar, já a estávamos a destruir, sendo politicamente incorrectos em relação aos críticos, desprezando os meios normais pelos quais um artista pode viver. Na altura não havia propriamente curadores, mas havia decoradores, galeristas e críticos, e havia pessoas das instituições e era sempre um pouco difícil. É um bocado como aquela anedota do menino Carlitos, aquele gajo que está sempre a querer fazer merda. Ele de vez em quando fazia um esforço para não fazer merda. Eu estava num almoço com um galerista e fazia um esforço para não fazer merda. A merda era dar-me vontade de dizer disparates, o que é um infantilismo, é o meu problema, eu sou muito infantil. Um amigo do pai do menino Carlitos esteve na guerra de Angola, ficou sem orelhas e o pai disse ao menino Carlitos: “Se tu te portares bem, dou-te uma bicicleta. Não fales do meu amigo porque ele não tem orelhas”. Entretanto está toda a gente, e o Carlitos começa a olhar para as orelhas, não orelhas, do amigo do pai e começa a ficar possuído com uma vontade de fazer merda terrível. O pai do menino Carlitos vai à casa de banho e o Carlitos pergunta: “Desculpe, não usa óculos, pois não?”, “Não”, “Pois, se não onde é que os ia pendurar? No caralho?”. O que é importante é que ele antes disto diz, “Que se foda a bicicleta”. No fundo, o que está por trás deste discurso todo é que um gajo às vezes tem tantas ganas de fazer merda que diz “que se foda a bicicleta”. Isto também é o tal problema do “politicamente correcto”.

Viveste intensamente o Festival da Eurovisão?
Sim, sobretudo quando dormia. Gostei muito porque no fundo a artista de Israel estava a protestar contra o bullying que foi feito aos palestinianos, que ela antecipou num dia. Isso foi uma denúncia muito clara, ela já sabia o que ia acontecer e foi por isso que recebeu o prémio, muito provavelmente. Por acaso é uma miúda muito gira.

A nossa música ficou em último. O que é que sentiste
enquanto português?

O ano passado ganhámos, este ano perdemos, ganhar e perder tudo é desporto. Como deviam saber os clubes de futebol, mas pelos vistos às vezes não se lembram disso.

Não tens o bichinho de participar no Festival da Canção?
Não é o bichinho, de vez em quando lembro-me, “Se calhar devia fazer isto” e depois esqueço-me. É isso. Se houvesse alguém que me chateasse, até era capaz de fazer.

Os Ena Pá 2000 já não lançam um álbum desde 2011. Para quando o regresso às gravações?
Mas quando lançarem o próximo álbum vai ser um disco de merda. Garanto. Estamos agora a vegetar no meio dos outros, do rock sinfónico ao sadomasoquista, e estamos a tentar fazer melodias melhores e maravilhosas. Nós precisamos de vez em quando de estar assim uns tempos sem fazer nada para depois conseguirmos fazer qualquer coisa. Entretanto, estou a gravar aqui um disco de fados e antes disso gravámos também um disco dos Irmãos Catita, é preciso dizer isso. E foram dadas ao Blitz as gravações, que foram feitas no antigo Maxime, de grupos que estiveram lá a tocar e nunca foram editados, como é o caso do Quarteto 4444, d’O Lello Perdido, e do Lello Minsk e o Pianista de Boite.

Apesar dessa paragem os Ena Pá 2000 têm-se mostrado bastante activos, inclusive com o projecto Ena Toy 2000. Como é que isto nasceu?
Um aborto à partida. Não, o Toy tem canções do caraças. Nós tínhamos feito antes um reportório com canções daquelas que se dizem que foram plagiadas pelo Tony Carreira e correu muito bem. Achámos que encontrar coisas na música portuguesa, digamos, mais popular, era uma boa ideia. Por acaso o Mucha, que é um roadie que trabalha connosco, conhecia o Toy, que ainda por cima é representante de vinhos maravilhosos e estivemos a conversar com ele, fizemos isto na boa, à bilheteira, no Titanic, correu muito bem. Depois tivemos outro concerto com ele, em Aveiro, já noutros moldes, e o Toy é um gajo porreiro, as coisas combinam bem. O Toy cantou algumas canções dos Ena Pá 2000. Ele para mim era o melhor substituto, se eu agora deixasse de cantar, punha lá o Toy. Ia ficar descansado porque ele ia fazer um bom trabalho. Gostava também de fazer uma associação com a Ana Malhoa. Estou há três anos a tentar telefonar-lhe e ela não atende.

Vão estar no Revenge of the 90s, no Rock in Rio. Não se sentem fora de água?
Nós nos 90s estamos bem, é a nossa praia. É o nosso oxigénio, acho que vamos tocar cinco canções, temos que pensar muito bem o que vamos tocar. Não sei se vamos tocar a filha do Donald Trump, isso ainda não sei.

Tens algum ritual antes de tocar ao vivo?
Sim, sim. Beber whisky e um bife. Tem que ser um bife que não esteja demasiado mal passado, nem demasiado bem passado. O bife é importante, a carne é importante, haver algum sangue é importante, vinho tinto para acompanhar a carne e a seguir um whiskyzinho. Claro que também gostava de ter outras coisas, massagens, mas há coisas que não tenho. Depois também há aquele ritual que é um gajo ir dormir uma sestazinha, ir para o carro, inclinar o banco e tentar dormir 15 minutos. Depois quando se está num sítio onde não há café, no restaurante
faz-se um irish whisky caseiro português, que é dois cafés, um bagaço e açúcar.
Agita-se e antes de chegares ao palco, bebes tudo, é tipo os espinafres do Popeye.

O Bernardo Sassetti tocou no vosso mítico álbum És Muita Linda. Eram amigos ou aconteceu porque sim?
Conhecíamo-nos todos e o Bernardo era um gajo muito porreiro. Nós estávamos a precisar de um pianista para tocar ali uma canção e pensámos, “Este gajo é que era, este gajo é ganda pianista”. Na altura, o Bernardo ainda não era um super pianista, era um puto. Aceitou tocar connosco na boa. Ele era um bacano.

E UM Mundo Catita, não merecíamos um segundo volume da série que ficcionou a tua vida?
Têm que falar com o Filipe Melo, isolá-lo em Guantánamo e obrigá-lo a assinar um papel a dizer que vai fazer a segunda parte ou dar a alguém para fazer. Nós também podemos tentar fazer, a segunda parte é ainda mais estranha que a primeira.

E quem era a filha do tipo cruel que foi metida num bordel?
Quando fiz essa canção estava a pensar no Charlie Chaplin. Ele tinha uns filmes mudos em que havia sempre um gajo barbudo que era muito mau. Eu estava a pensar nesse gajo, mas nunca o conheci, só no filme do Charlie Chaplin. Mas imagino que esse senhor a preto e branco devia ter uma filha maravilhosa a cores, uma gardénia, uma coisa deliciosa, e tinha aquela coisa de a fechar e de fazer dinheiro com ela. Acho que há muitas pessoas que fazem isso em Portugal. Há pessoas que não deviam ser pais dessas filhas, pessoas que têm propriedades e que têm poder, que não tratam bem nem o meio ambiente, nem o meio social. E eu acho que o Sr. Cruel é um exemplo disso, uma personagem que tipifica um bocado essa génese. Mas isso há em todo o mundo.

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