Nasceste em Moçambique e tinhas três anos quando acontece o 25 de Abril. É nessa altura que vens para Portugal?
Exactamente. Os meus pais são da zona centro do país, ambos eram professores em Lourenço Marques, eu nasci lá a 23 de Agosto de 1970 e portanto vim cá fazer já os quatro anos, também nessa zona centro do país.

A tua primeira actuação, aos onze anos, foi para a família ou mais que isso?
Não, foi uma coisa altamente profissional (não, não foi). Eu fazia parte de um grupo de teatro, a tocar viola, não muito bem, era aqueles grupos em que uns cantavam, uns dançavam, tocavam, chamava-se Grupo Amanhecer, e havia um outro membro, o Serafim Afonso, que fazia magia e aprendi com ele algumas coisas. E a minha primeira oportunidade foi a festa de Natal, já não me recordo de que ano do ciclo, em que fiz a minha primeira intervenção.

Encaras isso como um momento decisivo para o que és hoje ou acreditas que de outro modo qualquer te irias sempre acabar por apaixonar por esta arte?
Essa é a fase da vida em que somos expostos, e quanto mais melhor, a um elevado número de motivações. Hoje queremos ser astronauta, amanhã bombeiro, depois mágico, médico, jogador de futebol… E por isso nessa fase não acredito que seja habitual que se descubra a grande vocação, ou aquilo que se vai ser depois passado uns anos. Eu viria a decidir muito mais tarde que queria fazer isto como profissão. Fui sempre mantendo como um hobby, até porque a isso era obrigado, sendo os meus pais professores e eu filho único, obviamente que cresci sobre esta obrigação de “Tenho de estudar e tirar um curso para ser alguém na vida”. E agradeço aos meus pais o facto de terem tido esse cuidado. Só mais tarde é que a coisa se viria a formar, apesar de, sim, com 13 e 14, 15 e 16 anos, eu fazia espectáculos e já ganhava dinheiro.

Estreias-te em televisão no Natal dos Hospitais de 1990 e no ano seguinte já estás a apresentar um concurso chamado Caça ao Tesouro, na RTP1. Como é que isso aconteceu?
A estreia no Natal dos Hospitais acontece depois de muitas cartas escritas que não tiveram resposta. Desde os 15 anos que escrevo cartas para RTP a dizer que quero fazer uma série de magia. Felizmente não foram respondidas, porque se me tivesse de facto sido dada a oportunidade teria sido um desastre com certeza, porque era confundir o achar que somos capazes com o sonhar ser capaz. A partir de certa altura começaram a vir umas aparições no programa da manhã, depois uma participação regular à quarta-feira e a oportunidade de fazer o concurso. Era diário, demorava 20 minutos, não era muito interessante mas tinha alguma graça. Foi bom, familiarizou-me com o meio.

Criaste também nesse ano a tua primeira ilusão original, mais tarde apresentada por outros grandes nomes da magia. Como é que isso funciona?
Só para contextualizar: eu continuo a estudar em Coimbra, acabo o meu curso, fico na Escola Superior Agrária a integrar o corpo docente e ao mesmo tempo tenho séries de televisão e já uma carreira com muitas coisas a acontecer cá e lá fora. Estava a fazer a minha primeira série de televisão, o Isto é Magia, e só tinha um bom final para nove vezes, faltava-me para um dos programas, e foi nos intervalos de almoço que surgiu essa nova ilusão. Na altura nem sequer tinha a noção de que estava a inventar uma coisa que viria a ter vida própria. Percebi que aquilo até tinha alguma graça quando, em 1995, sou contactado por uns produtores que estavam a fazer um especial para a NBC, dos EUA, que se chamava World’s Greatest Magic. Tinham feito um, só a participar americanos e fizeram o 2, só americanos e eu. Isto foi porque alguém tinha em casa uma cassete de uns programas, eles viram e contactaram-me para fazer esse truque porque nunca tinham visto igual. É quando o Através do Espelho, é como se chama a ilusão porque eu atravesso um espelho, foi visto numa televisão estrangeira, numa altura, há 22 anos, onde só se via televisão e havia poucos canais, portanto com uma enorme difusão e um share inacreditável comparado com hoje. Houve imensa gente que depois quis comprar a ilusão. Cheguei a um acordo com uma empresa americana que tem os direitos de comercializar aquela ilusão e que, cada vez que uma é usada paga os direitos da criação.

Fotografia - Ana Dias

Mas o que é vendido é uma patente ou é a explicação de como é feito?
Na propriedade intelectual não há patentes, ou seja, a patente é para a propriedade industrial, para a criação. Na música, se alguém inventar um instrumento regista uma patente, se alguém criar uma melodia publica-a e ao publicar é automático o registo na entidade da propriedade intelectual. Ideias não se registam. O que é registável e protegível, worldwide, é a ideia concretizada e apresentada em público. Isto é válido para todas as outras obras.

Tens direitos de autor sobre as ilusões que crias, portanto.
Exactamente. O que é que protege também os autores? É o sentido de vergonha dos outros autores, não é? Porque não faz sentido nenhum um músico respeitado de repente ir copiar uma melodia de outro. Fica mal visto. É evidente que há casos de plágio todos os dias em todas as áreas e a esses eu chamo cantores de karaoke, que são aquelas pessoas que não tendo capacidade para criar uma composição original ficam altamente felizes, com o seu ego satisfeito, simplesmente ao mesmo nível de um cantor de karaoke num bar a ler a música e achar que é o Prince ou o Sting.

Quando decides apostar na magia, aos 22 anos, isso foi visto com serenidade por quem te rodeava?
Não, de maneira nenhuma. Ninguém diz aos pais que quer ser mágico, isso é uma imprudência criminal, e eu não disse.
O meu percurso foi fazer tudo o que me pediam, ser bom aluno para dispensar os exames e ir aos congressos de magia, fazer espectáculos, foi nunca acender as luzes de alerta junto deles, do tipo, “mas ele agora só faz magia e não estuda”. Na altura não tinha capacidade para achar que aquilo era a coisa certa, simplesmente cumpria. Depois, quando completei o meu curso, fiquei a trabalhar na Escola Agrária de Coimbra. Fico lá dois anos, sou funcionário público, recebo o meu ordenado do Ministério de Educação na Caixa Geral de Depósitos, o rapaz está arrumado para a vida, tem o seu emprego e está tudo. Os meus pais baixaram a guarda, “está a conseguir”, e fiz isso durante dois anos, entrei para o quadro, pronto, já está, já fiz. Em conversa com o Professor Marques Pinto, foi ele que me disse, “Luís, tem de pensar. O Luís dedica-se muito às duas áreas, pense nisso”, e eu lá fui pensando e criei uma fórmula, porque tinha muita dificuldade em escolher se era o caminho A ou B. “Vou escolher o caminho que se correr mal eu posso reverter essa escolha e ir para o outro”. Assim que decidi que esta era a fórmula foi muito fácil, porque se seguisse a carreira académica e passado vinte anos quisesse ser artista da rádio, TV, disco e da cassete pirata já tinha perdido o momento. Por outro lado, se quisesse retomar a carreira académica era possível.

Usaste essa explicação com os teus pais?
Acho que sim. Foi uma lógica muito boa, ajudou-me a escolher ao longo destes anos. Só disse que sim às coisas que achava que queria dizer que sim. Não me custa nada dizer que não. Não importa se são entrevistas, trabalho, viagens, o que quer que seja, porque o ter escolhido este caminho foi no compromisso de que ia fazer só o que gosto. De uma forma leviana ou não, foi muito bom poder ir dizendo que não.

Existiam referências na magia nacional? Com o que é que te identificavas?
Não, identificava-me sempre com o que via na televisão. O Paul Daniels, que sempre foi o meu ídolo, acho que ele é dos melhores mágicos da história da magia. Graças a ele, a magia evoluiu. Foi visto por milhões de pessoas em centenas de países. Não havia nenhuma referência nacional, tudo o que se fazia era muito amador. Depois acabaria por me aproximar do Paul Daniels, entrevistei-o para a televisão, veio às minhas séries, tornámo-nos amigos, apoiou-me quando estive na série da NBC, estava no Twitter a comentar, o processo foi muito engraçado. Há dois anos fiz uma temporada de quatro semanas no London West End, um dos mais impressionantes teatros de Londres, ele foi assistir, passámos mais uns fins-de-semana juntos, e infelizmente faleceu o ano passado.

Fotografia - Ana Dias

Quando apareceste a grande figura da magia que nos chegava pela TV era o David Copperfield, de quem te tornaste amigo.
Com o passar dos anos sim. Sempre o admirei, como tem de se admirar uma pessoa que tem tanto talento e que se dedica de uma forma tão honesta e apaixonada a esta arte. Fomo-nos cruzando, meados dos anos 90, depois ficámos mais próximos, até esta última série que fiz para a RTP.

Mas o que queria saber é se chegaste também a conhecer a Claudia Schiffer?
Cheguei.

Conseguia-se dizer coisas inteligentes enquanto se olhava para ela?
Foi um encontro muito fugaz. Foi em Paris, numa digressão europeia e cruzámo-nos para tomar um café e obviamente que naquela altura aquilo que me passaria pela cabeça era “Meninas bonitas há muitas, mas eu estou a tomar um café com o David Copperfield”. Fico feliz que o percurso da nossa relação tenha sido muito positivo. Como dizia, nesta última série para a RTP, pela primeira vez ele participa num programa de televisão que não o dele. Aceitou fazê-lo, foi espetacular, muito generoso da parte dele. Abriu as portas do museu dele, que é privado, e para mim foi muito agradável porque estive com ele em Las Vegas e fiquei alojado precisamente na mansão dele, que é nova, extraordinária e portanto é bom perceber que, apesar da distância, conseguimos ter alguma proximidade ao nível das mensagens e dos telefonemas.

Ele em tempos disse que cometeu a parvoíce de utilizar a sua arte para esconder os bens pessoais durante um assalto. E tu, costumas usar magia no dia-a-dia?
Não… Ou melhor, se calhar, sim. Acho que depende se a minha arte é escamotear objectos ou se é ter um entendimento mais reflectido sobre o comportamento humano. Adoro psicologia e portanto sim, é provável que a minha forma de pensar, a forma que utilizo para criar as minhas ilusões, para escrever os meus espectáculos, para fazer os meus programas de televisão, não me posso alhear dela no meu dia-a-dia. Mas não conseguiria dizer um caso concreto em que “Sim, usei aqui nesta altura”.

Em 1995 previste a chave do Totoloto com uma semana de antecedência. Já te devem ter perguntado mil vezes por que é que não jogas e ficas rico?
Já. Aliás, perguntaram-me nesse dia. Aquilo foi toda uma semana em que fui capa de jornais e revistas, fui aos telejornais, de facto não se falava de outra coisa. Temos de imaginar que há muito pouca distracção em 1995. O que aconteceu foi que, no momento em que há o culminar daquela operação e se prova, tanto quanto pode provar-
-se para os sentidos, que a minha previsão estava correcta, fiz logo uma intervenção chamando a atenção das pessoas para o lado céptico, que nós nem sempre alimentamos. O que queria dizer era: “aquilo que eu faço é criar ilusões, é evidente que isto é uma ilusão. Aparentemente estará bem-feita, porque ninguém descobre como é feita. O que é importante é perceberem que da mesma maneira que eu, assumidamente no mundo da ilusão, vos consigo demonstrar que a previsão estava certa e que aconteceu uma semana antes, imaginem todos os outros enganos que podem estar a tomar conta das vossas vidas”. Referia-me às várias igrejas, às seitas e a todas aquelas coisas que vendem ar e vento e que se instalam nas pessoas como parasitas, porque lhes vendem esperança e lhes retiram inteligência. Era isto que queria dizer.

Conseguiste passar essa mensagem?
Essa mensagem não se passa. Há um único negócio que acontecerá até ao fim dos tempos que é a fraude, que perante a necessidade de alguém se faz passar como uma saída extraordinária. É por isso que as religiões têm tanto êxito. A fé é uma coisa diferente, mas as religiões são empresas multinacionais, a maior parte sem escrúpulos, que vendem esperança, que cobram mas nunca entregam. As pessoas vão lá, dão a esmola, fazem a promessa, pagam o dízimo, condicionam a sua vida e o que lhes é dado é “sim, vai correr bem”, mas depois se não forem para casa trabalhar não vai nada correr bem. É a única área de negócio onde as pessoas pagam de bom grado, não questionam, ninguém lhes entrega a mercadoria e ninguém vai lá reclamar.

Fotografia - Ana Dias

E aí achas que foi o facto de seres mágico que cortou a força da mensagem?
A mensagem já foi dita por pessoas mais e menos credíveis. O ser humano é altamente defraudado, nós acreditamos em coisas que não têm lógica, são contra o raciocínio. As pessoas acreditam na homeopatia, que é a coisa mais patética que o homem inventou. Porque a magia do medicamento homeopático está no facto de a diluição ser altamente elevada e se pegares num medicamento homeopático vês lá 10 elevado a 23, mas as pessoas não sabem quanto é isso. É o equivalente a tu pôres uma gota de veneno no Atlântico. E depois, venderes frasquinhos de água do Atlântico sob a desculpa de que, porque a diluição é muito elevada, o princípio activo é mais eficaz. Desculpem, vocês estão a ouvir o que estão a dizer? Vês documentários e eles explicam-te isto com uma cara séria. Por isso é que os medicamentos homeopáticos são farinha de uma ponta à outra, e por isso é que de vez em quando há demonstrações que muito cépticos do mundo inteiro fizeram. Começaram a ser feitas pelo James Randi, tenho o privilégio ser amigo dele. E o que ele faz nas conferências é “tragam por favor muitos medicamentos homeopáticos. E durante a conferência prometo comê-los todos”. Ele tem uns 100 anos e faz isto há quarenta. Porque é só farinha, é zero. No entanto, se alguém disser “mas em mim funcionou”, é possível. Porque o ser humano é extraordinário, conseguimo-nos enganar a nós próprios. Há muitos anos, vi no telejornal uma senhora que foi capaz de levantar uma viatura para salvar a filha que estava debaixo dela. Em condições normais um ser humano não é capaz de levantar um carro. Mas, a motivação é salvar a filha. Ela arranjou forças onde não tinha e levantou o carro. Nós com a motivação certa somos capazes do melhor e do pior. As pessoas gostam de ser iludidas, precisam de uma garantia. Montam-se sempre numa muleta externa. Uma das fraudes mais extraordinárias é na China. Existem consultórios onde podem ajudar-te a ter um filho macho ou fêmea. Abrem os armários e têm garrafinhas, umas com o símbolo de uma menina, outras de um menino, milhares delas. “Boa, nice, então quanto é que é?”, “Não paga nada, boa sorte. Depois se correr bem dá-me uma prenda”. E isto é o esquema. As pessoas nunca dizem que corre mal porque têm vergonha social. O que quer dizer que a fama do insucesso nunca cresce. Agora põe-te na posição dos pais, para quem foi um alívio ter um menino, porque é a China: não lhes levou nada, devem a vida e a felicidade a este homem, que lhes deu um frasquinho que não lhes custou dinheiro e vão lá e dão tudo o que têm. Uma vez mais é o vender esperança, porque as pessoas têm muito medo de ficar à mercê. Outra fraude que adoro é no Brasil. Podes mandar mensagens para os teus entes queridos que já morreram. Há várias agências. Vais lá e dizem: “Escreva num papelinho a mensagem, nós depois ligamos”. Depois vais lá, vão ao hospital, à parte dos doentes terminais e dizem: “Aquele senhor vai morrer nas próximas horas, pode ir lá pôr a mensagem no bolso do pijama”. Isto é brilhante. E depois estes casos são regularmente levados a tribunal mas nunca são condenados porque é impossível demonstrar que a mensagem não é entregue.

Já que estamos a falar desse lado psicológico: um mágico não pode ter medos?
Claro. Para já, quando não estou nervoso fico preocupado e obrigo-me a estar, porque ter receio da situação é um acto de responsabilidade. Quando as pessoas me vão ver, para estarem ali já tiveram de dizer que não a uma imensidão de estímulos. E se falho? Se estou abaixo das expectativas? Não posso desmerecer, ainda por cima pago.

Além do episódio do Solar dos Leões, no Jardim Zoológico de Lisboa, magoas-te quando treinas?
Sim. Os maiores acidentes são precisamente quando estamos a treinar. Quando me queimei nas costas, em cima dos 13 leões, foi durante os ensaios. Havia peças do mecanismo que me segurava e da câmara que estava a filmar que não eram feitas do material que deviam, acabaram por derreter. E tive sorte porque os pingos de metal derretido podiam ter caído na cara, mas caíram nas costas, portanto correu bem.

Para treinar centenas de vezes um número desses precisas de ajuda. Tens uma equipa em permanência contigo?
Tenho. O mundo dos espectáculos é construído, em princípio, em redor de uma fórmula que é igual para a Madonna, Abrunhosa ou Quim Barreiros. É um artista, um agente e um manager. Quando está tudo a correr bem, trabalham em triângulo e todos levam dinheiro para casa. No momento em que um é apanhado com droga, o outro é envolvido num escândalo ou o público deixou de o seguir porque nasceu um novo cantor mas melhor, o que é que cada um destes três pontos do triângulo faz? Aguardam em casa, vivem dos rendimentos e está tudo bem. Há 23 anos, decidi testar um modelo de negócio diferente. Primeiro, nunca tive agente ou manager, sempre geri as minhas coisas. Decidi criar uma equipa que trabalha comigo todos os dias. Somos nove pessoas, que há 23 anos vão trabalhar das 9 às 18, de segunda à sexta, às vezes 9 às 6 do dia seguinte.

E o que é que eles fazem quando andas a actuar pelo mundo?
Vão comigo. Agora vamos estar cinco meses numa tournée europeia, vou eu e mais três. Os outros ficam a trabalhar. Temos um espaço que se chama Estúdio 33, onde trabalhamos todos os dias e tem estúdio de televisão, uma biblioteca de magia, o nosso gabinete de design gráfico, sala de edição de vídeo, tem construção de equipamento, departamento de electrónica... Isto é a face não visível de mim.

Porquê 33?
Porque fui eu que o desenhei e comecei a construir quando tinha 33 anos e porque o lote naquele parque empresarial era o 33.

Testas os truques para um novo espectáculo com público?
Sim. Procuro fazer ante-estreias em teatros mais pequenos, às vezes até com entrada livre. É como fazer um test-drive para descobrir como é que tudo aquilo que pensei e nós construímos vai de facto funcionar.

Quantas sextas-feiras da tua vida é que passaste na Galiza?
Quase todas durante dez anos. Em 2004/2005 comecei por fazer 13 semanas a ir para Santiago de Compostela e a participar em directo no programa Luar, o mais antigo da televisão, acho que do mundo inteiro, e o mais visto em Espanha. Fazia dois momentos em cada um dos programas. Aquilo correu bem. “Mais 13”, “mais dez para acabar o ano”, “para o ano queremos o ano inteiro” e ao final de dez anos disse: “Ok, agora tenho de descansar”. Ia à sexta e vinha ao sábado, às vezes para ter espectáculos ao sábado. E foi muito desafiante porque comecei por fazer as minhas 13 melhores ilusões, depois as 26 melhores, depois as 50 melhores, para depois ter de criar para o programa e, quando olho para trás, obviamente que não me orgulho de tudo quanto criei, mas claramente algumas das minhas melhores criações só aconteceram pela pressão de ter de estar todas as semanas na televisão.

Chegaste a ponderar mudares-te para um mercado maior como Espanha?
Gosto muito de Espanha. Gosto muito do mundo. Adoro viajar e conhecer públicos novos e levar a magia a sítios onde, primeiro, nunca pensei actuar, e, segundo, nunca tiveram magia. Como a Sidney Opera House. Nunca aconteceu que esgotasse durante duas semanas para um espectáculo de magia, foi quando eu lá estava. Mas adoro voltar a Portugal e a Coimbra porque é a minha casa. É como quando chegamos ao final do dia e nos sentamos no sofá. Não me sento no sofá todos os dias mas, para mim, seja ao final de um mês ou de um ano, voltar a Portugal, voltar a Coimbra, voltar ao sofá, é muito bom.

Este mês inicia-se a The Illusionists World Tour, em que lideras uma equipa de sete mágicos. É demasiado cara para passar por Portugal?
O espectáculo não é produzido por mim. Sou de facto a cabeça de cartaz, desde 2013. Já demos a volta ao mundo e, como somos cerca de 100 pessoas na estrada, é muito, muito caro. E os produtores estão habituados a que o preço deste espectáculo nunca seja inferior a 50/70/100€ e, por isso, Espanha e Portugal foram ficando de fora, porque há duas Europas quando falamos de preços de espectáculos: há Espanha e Portugal, onde o preço é 20 euros, e depois há França e tudo o resto, onde as pessoas não reclamam por pagar 80 euros. Este ano a digressão vai começar precisamente em Espanha, onde o preço vai ser 45 ou 47 euros, portanto nunca esteve tão perto de Portugal como agora.

Fotografia - Ana Dias

Como é que se continua a surpreender ao fim de décadas de carreira?
Acho que é ser inquieto. Costumo comparar a área em que opero à Roma antiga, dos gladiadores. Iam para o Coliseu, lutavam com o leão, uns morriam e qual era o prémio além daquela glória instantânea para os que sobreviviam? Era a oportunidade de no dia seguinte puderem voltar a lutar com o leão, e assim sucessivamente, até um dia morrerem. Na minha área, acho que somos tão bons quanto o nosso último espectáculo. Por isso, o meu último espectáculo tem de ser o melhor que eu for capaz.

Tens um truque preferido?
Não. O preferido é sempre aquele que vou criar amanhã. Há coisas que acho que foram mais interessantes e que me orgulho mais, mas o que está para trás, está feito.

Os avanços da tecnologia têm permitido que a magia também evolua?
O que os mágicos fazem é prototipar o futuro porque a magia está sempre à frente da tecnologia por definição. Tanto a magia como a tecnologia são empurradas pela imaginação humana, que é, “ai que fixe, era tão bom se um dia fossemos à lua”, “era tão bom se eu conseguisse falar para o outro lado do mundo”, “era tão bom que me pudesse teletransportar daqui para Nova Iorque”. Isto é o sonho humano. Agora, temos a magia e a tecnologia: quem é que lá chega primeiro sempre? A magia. Porque não tem de fazer à séria, só tem de parecer. Hoje consigo criar no palco a ilusão de que me coloco dentro de uma caixa, estalo os dedos, desapareço e apareço noutra caixa que está a 20 metros de distância: é o teletransporte. A tecnologia ainda não conseguiu. Se calhar daqui a 40 ou 50 anos achamos que é patético, mas aquilo que a gente hoje acha patético é exactamente a forma como os nossos antepassados achavam o telefone, o carro, o satélite, o e-mail... Nós usamos tecnologia, seja um fio, um íman, um espelho ou um comando à distância. Sim, so what? Não é isso que está em causa. Os escritores também usam computadores para escrever e os pintores usam telas. Nós usamos fios fininhos que quase não se vêem.

Sem chegar ao nível do mágico mascarado, quando mágicos explicam truques são mal vistos pela comunidade?
Acredito que a magia seja a arte mais lenta na evolução precisamente porque guardamos segredo. As outras artes, pintura, dança, literatura, partilham entre si e mostram, nós escondemos. Quando mostram e partilham, aquilo explode.
A magia cresceu pouquinho porque estamos muito escondidos atrás do segredo. No mundo ideal, as pessoas saberiam como é que as ilusões são feitas porque dariam mais valor ao resto. Não quero que me admires só porque sei uma coisa e não te digo como é que é. Isso é ridículo. Tenho muito mais para dar. Tenho a minha inspiração, a forma como critico a sociedade, a forma como consubstanciei numa imagem cénica, bonita, ou um aplauso a uma condição humana, o que quer que seja. Aquilo que a arte faz, no fundo, que é dar uma opinião ou mostrar uma visão em função das ferramentas que cada um domina, seja o pincel, seja o corpo ou seja o criar ilusões. Daí achar que num mundo ideal as pessoas teriam acesso a todas as informações.

Os teus estudos ficam-se pela magia ou já tentaste chegar a coisas como a data da tua morte?
Não acredito num pré-destino, acredito que depende fortemente de mim, acima de tudo como é que escolho cada segundo da minha vida. Contrariamente aos iogurtes, nós não temos prazo de validade. Quer dizer que há uma imediatez e uma sensação de urgência que determina as nossas acções. E porque nós não sabemos se esta é a última conversa que vamos ter na vida ou a última entrevista que vou dar, decidi ser honesto. Se calhar, se esta entrevista tivesse sido há 25 anos, não teria dito coisas que já disse aqui, porque era mais cauteloso. Podes fazer uma chamada de capa com uma frase qualquer que me faça parecer um idiota, mas paciência. Porque entre o preço a pagar em ter de ver a chamada de capa ou ter sido hipócrita e ter dito coisas politicamente correctas e certinhas, eu não quereria isso como última entrevista.

Há uma fase em que tomas essa decisão de começar a dizer o que pensas?
Perco a imortalidade, que normalmente só se perde aos 40, quando tenho um acidente de automóvel trágico, aos 22 anos. Ia sozinho, perda total, e percebi que num segundo isto se apaga. Não acredito que haja nada a seguir mas acredito na eternidade, que é outra coisa. É determinada por quanto tempo as pessoas que nos conheceram se vão lembrar de nós. Perder a imortalidade foi a melhor coisa que me aconteceu, passei a dar mais valor à vida. Deixei de ter a preocupação de ser politicamente correcto e passar a ser honesto naquilo que digo. Posso mudar de opinião, posso dar esta entrevista, daqui a 15 anos tu dizeres: “Luís, fizemos uma entrevista em 2017, podíamos fazer outra”, e se calhar vou contradizer tudo o que te disse hoje. É o que penso em Novembro de 2017 e tem de ficar assim reflectido. O homem mais burro é aquele que mudou menos vezes de opinião.

E acreditas em magia negra?
A magia negra é como a homeopatia. Em si mesmo, não tem qualquer poder. O poder que nela reside, é o poder que as pessoas que nela acreditam lhe queiram dar. Se eu acreditar numa qualquer superstição vou ficar escravo dessa crença. Para algumas pessoas, se lhes aparecer à porta de casa um sapo com a boca cosida, três velas pretas e um bocado de cabelo, vão ficar altamente impressionadas e acreditar que alguma coisa de mal lhes vai acontecer e isso vai condicionar o seu comportamento. A magia negra, a religião, a superstição, a homeopatia ou a mezinha é igual. Tem o poder que quiseres que tenha. Mais nada.

E tu, já te esqueceste de sair de casa sem o pin da lapela?
Não, porque é uma coisa que gosto de usar. Faz parte de mim. Um gajo não chega à rua e diz: “esqueci-me de vestir as calças”.

Assumindo que és o Eusébio da magia, estás preparado para o dia em que apareça o teu Cristiano Ronaldo?
Claro, adorava que existissem imensos Cristianos Ronaldos! Porque isso é o que me motiva. Acabei de fazer um programa de televisão onde trouxe os melhores mágicos do mundo. Em sete programas levei 21 números internacionais, de todo o mundo, e nestes 21 consegui levar um português, o Gonçalo e o Pedro. Adorava ter levado mais. E eles, te garanto, aquele programa é de altíssima qualidade. Nos meus gabinetes sempre tive um mapa mundo. Está lá com dois objectivos: recordar-me que não chega ser bom na minha aldeia e é o mapa que esmaga o ego. Tenho Portugal assinalado e quando me sobe à cabeça “eu sou o melhor disto ou daquilo”, olho para o mapa e “és do caraças, espectacular, mas és neste bocadito do mundo”. É um excelente exercício de humildade. E é para manter a minha própria sanidade mental.

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