Já não estreavas um filme há oito anos. Por opção?

Exactamente, foi em 2007, fiz o Arte de Roubar, já passou esse tempo todo. Estive quatro anos sem filmar, decidi parar. Quis pôr a ficção quieta um tempo para pensar o que ia fazer a seguir, porque estava um bocadinho desmoralizado. O Arte de Roubar é um projecto em que tinha gostado muito do guião, e tinha muita esperança no filme. Correu mal nas bilheteiras e então disse “bom, tenho de repensar o que é que ando aqui a fazer”. Fiz muita publicidade nestes anos, foi um laboratório muito bom para mim, exercitas a câmara constantemente e com exigências que muitas vezes para o cinema não são necessárias. Aprendes a tratá-la por tu e isso foi o lado bom deste meu período sem fazer ficção. Também foi um pouco para ajudar a passar a crise, porque faltou dinheiro para se produzir cinema e televisão, e então dediquei--me e fortaleci a área da publicidade. Entretanto estive a preparar os projectos com os quais queria regressar, e aproveitei para produzir co-produções internacionais grandes, que me ajudaram a abrir portas no exterior e isso foi bom porque ajudou a reorganizar a produtora.

O Arte de Roubar foi logo pensado com aquela dimensão internacional ou simplesmente cresceu?

Era um projecto ambicioso, por isso é que o guionista principal era português, o João Quadros e depois juntei um espanhol, muito conhecido também, porque era um projecto que desde o início foi acarinhado pela Warner espanhola e por outras empresas. Achava que me podia lançar no mercado hispânico, só que os investimentos acabaram por não ser tão grandes como esperávamos e não deu para ter os actores espanhóis que queríamos, estrelas. Então, num golpe de asa, decidi fazer o filme em inglês, primeiro era para ser rodado em Espanha e com protagonistas espanhóis e portugueses. Depois mudei porque era uma história que tinha muito a ver com o universo que o Tarantino e os irmãos Coen têm e achei que o mercado internacional aceitaria bem esse filme, então dizia “vamos rodar em inglês, que lhe permite viajar melhor”. Acho que não estava errado o que pensei, mas não foi da forma correcta, fiz com actores portugueses a filmar em inglês, uma coisa que não volto a fazer. Devia ter feito um casting internacional em Nova Iorque ou em Londres a actores americanos ou ingleses, mesmo que não fossem famosos.

Porque têm outra naturalidade?

Não funciona. O público aceita que os americanos façam um filme sobre a II Guerra Mundial e os alemães falem inglês, mas não aceita que um produtor português faça um filme sobre uma realidade qualquer e a transforme em inglês. A razão não sei, mas não aceitam. Tinha um bom orçamento, devia ter feito o filme falado em português, ponto. Acho que tinha funcionado bem no mercado português e teria uma identidade mais forte, mas foi uma decisão em cima da hora e essas não são muito acertadas.

Ficou muito diferente de A Sombra dos Abutres, a tua primeira obra, em 1998.

Completamente, mas tem lá qualquer coisa, dessas histórias simples, pequenas. Como era o meu primeiro filme e era muito espontâneo, saiu-me com aquele lado drama e talvez por isso o filme foi tão elogiado pela crítica, mas não tem a realização que gostaria de ter feito, logo porque era o meu primeiro filme e também não tinha orçamento que queria, foi feito com muitas dificuldades, como pude. Também não sabia tanto como sei hoje. O Arte de Roubar estava num universo que de facto adoro, mas não tinha coragem de fazer cá, porque era difícil encontrar financiamentos para esse tipo de histórias, e foi basicamente por isso que não surgiu antes. E porque depois de A sombra dos Abutres, todos os filmes que fiz não foram escolhas minhas, mas sim produtores que me procuraram e me propuseram guiões que queriam produzir, foram projectos de encomenda. Num país onde os realizadores quase não filmavam, ou filmavam a cada cinco ou sete anos, tive a sorte de fazer um projecto por cada ano. E eu gostava de filmar, fiz o meu primeiro filme com 25/26 anos, e como miúdo que era olhava com outra descontração para isto tudo.

Mas não voltaste a assinar um argumento por falta de tempo, porque não gostas, ou reconheces mais talento a outros nessa área?

Descobri o que era a estrutura de produção no nosso país, comecei a entender bastante dessa área e percebi que o que queria era muito difícil de se fazer aqui, então abandonei esse caminho de A Sombra dos Abutres. Há um caminho que tem de se percorrer, que é criar estrutura, para isso é preciso dinheiro, máquina, parceiros. Quando começo a produzir, a primeira estreia é o Filme da Treta, que foi um êxito tremendo, aí mostra claramente o que é que queria fazer. Pensei “vou montar uma estrutura de produção de comédias e com isso vou criar uma estrutura forte de produção. Depois de a criar, aí tenho mais condições e facilidade de produzir o que me apetecer”.

E a partir daí tens produzido bastante, como recentemente a série Os Filhos do Rock. Dá muito trabalho?

Dá, é a mesma coisa que realizar, só não vais depois às filmagens, poupas esses dias. De resto, o antes e o depois dá-te o mesmo trabalho. Normalmente dá mais antes, tens duas fases, financiamento e pré-produção, é aí que o produtor é muito importante. Gosto muito disso, de desenvolver projectos, pensar numa ideia, encontrar a escrita, financiamento, estrutura, elenco, equipa. Isso está muito próximo da realização, o que o realizador faz é viabilizar uma ideia, materializa a escrita. Um produtor faz a mesma coisa, simplesmente não tem que decidir quais são os planos, mas o processo toca-se.

Já tinhas assinado outra série que ficou na memória colectiva, Ballet Rose. Foi fácil aceitar esse projecto?

Era a mesma coisa, era muito doido, com 20 e tal anos fazia tudo o que me apetecia. O que achava na altura era “isto é daqueles projectos que muita gente não quer que se faça, por isso vou fazer”. Era um projecto polémico, mexia com um tema daqueles que incomodam, sinto-me atraído por isso, não gosto que me digam não, porque não. E o nosso país é pródigo nestas decisões, eu como sou às vezes casmurro nos projectos, acho que se gosto e se tem que se fazer, faz-se. Às vezes perde-se algum distanciamento nisto, porque estás tão voltado a concretizar e a querer muito que perdes-te, tens de ter uma cabeça um bocadinho mais distante e quieta para poder olhar de longe. Hoje sou mais ponderado a decidir o que faço. O Filme da Treta era para ser uma trilogia, já tínhamos o guião do segundo filme escrito e íamos começar quando se descobriu a doença do António Feio, depois parámos o projecto. Achava que esses filmes iam atrair muito público para as salas, se trazíamos público íamos trazer retorno, dinheiro, atenção sobre as marcas, as empresas iam olhar para nós, o mundo do dinheiro ia estar mais próximo, portanto iria ser mais fácil começar a produzir mais filmes se conseguíssemos atrair muita gente às salas. O Filme da Treta na altura fez 300 e tal mil espectadores. Depois percebi que não podíamos continuar e comecei à procura de outro projecto e é quando surge uma proposta para adaptar estas comédias e aquilo foi de acordo a este meu princípio de fazer blockbusters, coisas que atraíssem. As pessoas têm de perder o complexo de quando chegam a um centro comercial escolher o filme americano, esta trilogia foi feliz nisto e correspondeu ao que esperava, que era de facto abanar tudo. Pode ser algo que beneficie todo o cinema português, é o que mais me interessa.

Fotografia - Bernardo Coelho

Passámos muito rapidamente pelo Ballet Rose. Como é que explicavas às actrizes onde se iam meter?

Na escola espanhola o nu e as cenas de sexo estão mais presentes nos filmes, desde o Bigas Luna, o Vicente Aranda, o sexo estava presente de forma muito forte no cinema que conhecia de Espanha. Era o universo que estava educado para fazer, mas os actores não estavam e então algumas vezes foi complicado, mas foi engraçado porque isto para mim é que são desafios, a mim motiva-me. Criou algumas situações mais complexas porque eu era um bocadinho mais atrevido a fazer algumas cenas que se esperavam que fosse de uma forma en passant, e eu parava nessas cenas e dava-lhes atenção. Lembro-me de uma cena, fui eu que a planeei completamente, era a Sofia Alves, a filha da dona da casa das meninas, e ela é alugada a um senhor com quem faz sexo dentro de um carro, essa cena deu a volta ao mundo. A forma como filmei tem um olhar muito do cinema espanhol.

O que é que te levou para este mundo?

A paixão aos 15 anos pelo cinema, em Miranda do Douro. Chegam-te pela televisão, principalmente, a maior janela de comercialização de filmes. O cinema vai-se concretizando à medida que os aparelhos de televisão começam a chegar a casa de todas as pessoas. Como nasci em 69, quando tenho memória já tinha televisão em casa, portanto aquilo que nos anos 60 tinha de se fazer nos cineclubes, nos anos 70 estava toda a gente a consumir em casa e as nossas televisões generalistas, porque não havia concorrência, tinham programação muito boa, tanto nas séries como nos filmes. Os grandes clássicos passavam na televisão, todos, nem sabíamos que estávamos a ver alguns dos melhores cineastas do mundo, fomos educados para ver cinema sem ser no cineclube. Depois chega outra fase interessante, o VHS, que permite que analises o filme e qualquer cidadezinha do interior tinha o vídeoclube. Depois eu tinha uma vantagem, tínhamos duas grandes cidades no país, Lisboa e Porto mas quando eu com 17 anos vou para o Porto, a cidade só tinha 13 salas de cinema. Zamora, a 20 minutos de Miranda do Douro, tinha 10 em centros comerciais, salas boas. Para termos noção é a cidade mais pequena de Espanha, com 60/70 mil habitantes. Passados três anos fui estudar para Madrid, que tinha 250 salas, tantas como o nosso país inteiro. Mas acima de tudo em Miranda do Douro tinha acesso à televisão espanhola, que sempre deu uma importância ao cinema muito grande e à cinematografia espanhola. Têm um programa de cinema semanal há 40 anos, que passou a ser o meu telejornal, com aquilo tinha informação, com muita qualidade.

Tiveste uma educação ibérica nesse aspecto.

Tinha aquilo que hoje uma família privilegiada tem, com os canais de cabo, enquanto pessoas de Lisboa não tinham. Era um país mais rico, com uma televisão com um orçamento 10 vezes superior ao da RTP, não estamos a falar do mesmo campeonato, portanto. Cresci com canais bons, programação cultural brutal e comecei a aprender o que eram os cineastas, porque o eram, quando começou o seu percurso, o que é que fizeram, e comecei a saber tudo o que se fazia sobre cinema. Aquilo que as pessoas acham que era isolamento, foi um isolamento muito positivo, qualquer pessoa que conheci depois no Porto, miúdos do litoral, não sabiam 10% do que eu sabia sobre cinema. Tinha ainda a vantagem de comprar revistas de cinema espanholas porque não existiam portuguesas, eles tinham doze, era o país com mais publicações de cinema do mundo. Com 16 anos tinha uma formação de cinema que pouca gente que conheci conseguia acompanhar no discurso ou na conversa, porque não tinham acesso. No Porto às vezes ia à procura de livros de cinema e não os comprava porque eram antigos, já desfasados, eu comprava livros em Espanha muito bons, traduções do melhor que era editado em inglês. O meu lugar de fronteira em Miranda do Douro foi a minha porta aberta para a segunda maior indústria de cinema da Europa.

Porque decidiste regressar a Portugal?

Não decidi, queria ficar em Espanha, o meu pai e os meus tios paternos são espanhóis, tenho uma paixão pelo meu lado de vida espanhol muito grande, eu sou completamente dividido entre português e espanhol e acho que de carácter sou muito mais espanhol do que português. Em adolescente comecei a fazer férias em Espanha, os meus Verões são mais espanhóis do que portugueses e isso quer dizer muita coisa, Espanha está sempre à frente, não só no divertimento como no entendimento do sexo, da liberdade, é um povo muito extrovertido e aberto, com poucas balizas para se refrearem e portanto eu começo a ser muito fruto disto, desta cultura e desta educação. Quando escolho Madrid é para ser um cineasta da movida madrilena, no momento em que Espanha estava na moda, acabo o curso quando está a acontecer a Expo de Sevilha, as Olimpíadas de Barcelona, Madrid capital cultural, a lupa estava sobre Espanha. O Almodóvar estava a começar a destacar-se e a ser candidato a Óscares, onde estava pela primeira vez um cineasta espanhol, estava tudo alinhado e eu quis fazer parte disto. Fui um dos melhores alunos daquela escola, mas comecei a escrever um guião e saiu em português, foi A Sombra dos Abutres. Podia ter saído qualquer coisa mas saiu uma história de Trás-os-Montes, e claro, nenhuma produtora espanhola me ia financiar uma história sobre perseguidos políticos do Salazar, da PIDE. Ainda estava naquela fase de que não queria abandonar Madrid e mandei os guiões para produtores em Portugal. Quinze dias depois começaram a responder, foi assim um processo rápido e fácil, as pessoas gostaram muito do guião, e aconteceu.

E hoje estás aqui, a avançar para uma trilogia que pega em clássicos do cinema português.

É um projecto que me propuseram, mas foi engraçado, já me tinham feito esta proposta há uns onze anos, um amigo meu que é produtor, o Nuno. Estávamos de férias no mesmo hotel em Cuba e tornámo-nos amigos por nos conhecermos ali. O Nuno disse “o que gostava de fazer contigo era um clássico do cinema português”. Respondi que era uma grande ideia, mas muito difícil de levar a cabo. Primeiro o ICA não financia nenhuma comédia, pode fazer uma por acidente, mas os guiões de comédia são sempre chumbados, no comentário escrevem “é um projecto sem relevância cultural”, era típica essa frase. Durante trinta anos não havia financiamentos para comédia, o João Botelho fez uma coisa que supostamente é no campo da comédia, mas elitista, portanto não teve público. Não tem demérito nenhum, mas só financiavam quando era uma obra autoral, e não é disso que trata a comédia, é uma coisa que nasceu e é popular, é assim em todos os países. Só em Portugal é que gostamos sempre de inventar um novo caminho, fazer de conta que é uma comédia, depois é drama, e depois nem é uma coisa nem outra e ninguém vê. Comédia é comédia, a sua principal função não é ganhar prémios, é fazer rir. Depois pode-se fazer rir com mais ou menos inteligência. A maior parte das pessoas não a consegue fazer, porque é muito difícil. As produtoras gostam delas porque é o género mais transversal, homens, mulheres, crianças, pode dar em qualquer horário, não tem cenas de violência, nem de sexo, o que é melhor para colocar nas televisões, se for bem feita alegra toda a gente, e em Portugal isso não acontecia. Com o Filme da Treta provei-lhes que era possível e disseram-me “ah, mas isso já vinha rebocado pelo fenómeno no teatro”. Então pronto, desta vez vamos fazer diferente, vamos só inspirar-nos em coisas que foram comédias, clássicos, mas vamos fazer outras. Não é um remake directo, só pegámos nos clássicos porque assim tínhamos uma bandeira para dizer às pessoas “isto é comédia popular”. Fomos buscar à memoria colectiva um sentimento bom mas depois o risco era tão grande ou maior, ao fazer um filme novo que podia não ter graça nenhuma. Mas afinal não é verdade que os portugueses não gostam de ir ver comédia portuguesa às salas.

Fotografia - Bernardo Coelho

Como é que funciona, ainda alguém tem os direitos sobre os filmes, ou é só fazer e pronto?

Há direitos e é preciso gastar algum dinheiro forte. Foi preciso investir para comprar estes textos, muito, se calhar dinheiro que ninguém nunca investiu em Portugal, e isso já era um risco. Os direitos de autor são dos herdeiros, ainda não passaram 70 anos depois da morte dos autores, portanto ainda não são do domínio público.

Porque é que achas que não se tinha feito, é arriscado mexer nesse território sagrado?

Quando decidi fazer isto, as pessoas do cinema diziam-me “isso é uma grande ideia, mas vai ser um risco tremendo”. Aliás, se me lembrar do que disse há 10 anos quando o Nuno me falou de fazermos isto, a minha resposta foi a que todos dão. Desta vez percebi outra coisa, já tinha feito testes com marcas e o Filme da Treta resultou, não tinha subsídio, portanto percebi que havia um caminho alternativo para as comédias, se o ICA não financiasse havia uma forma de viabilizar o projecto.

Não receaste ser mal recebido?

Receio sempre, mas se tivesse medo tinha de comprar um cão e deixar esta profissão. Tenho medo em todos os filmes que faço. Mas não fico a tremer nem nunca fico nervoso, estreio calmo como se o filme não fosse meu. No dia esqueço, procuro não pensar muito nele porque já não posso fazer nada e normalmente sou a primeira pessoa a descobrir os defeitos.

Mais tarde chegas a ir ver sozinho?

Vou, mas depois esqueço-os. Tenho filmes que não vejo há anos, já tentei, não gosto.

Portanto ainda ninguém se dirigiu a ti indignado por mexeres na frase do Evaristo?

Não, nem se podiam indignar, é um direito artístico. O filme foi um êxitosão, não foi só um êxitosinho, foi talvez o segundo filme mais visto do ano. Toda a gente que percebe de cinema sabe que não há campanha que valha, a partir da primeira semana as pessoas se não gostarem não vão. O filme está há dois meses em sala, só costumam estar duas ou três semanas. A partir da segunda semana o boca-a-boca é que constrói o tamanho do êxito ou o fracasso. Logo na primeira semana entrei num restaurante e disseram “Ó Evaristo, tens cá wi-fi?”, portanto percebi que foi ao contrário, do público tive uma receptividade até superior ao que esperava. Testei o filme antes de estrear, mostro a pessoas para perceber e essas reações é que me começam a dar o feedback do que poderá acontecer. Estava bastante confiante depois disso, não mostro aos primos, e mais do que a minha opinião, conta é a opinião dos outros. Mostrei para aí a 10, 15 pessoas, e já tive filmes que sabia que não iam correr bem. Sou o primeiro a conhecer os defeitos do filme mas depois quero perceber se são suficientes para prejudicar ou se a maioria não repara neles.

Fotografia - Bernardo Coelho

Há um número mínimo de espectadores por semana para um filme sair das salas?

Fica enquanto os donos das salas acharem que estão a ganhar mais dinheiro com ele do que com outro filme que podem lá pôr, é competição directa. Todas as semanas somos inundados com seis, sete estreias, o mercado ficou muito canibalizado, antigamente estreava um filme por semana, por isso é que os filmes saltam à segunda semana, há um excesso de filmes para as salas disponíveis.

E a seguir vais estrear O Leão da Estrela. Vais usar imagens reais de futebol, como o original?

Não, é tudo filmado com jogadores e equipas nossas, levámos isto para a liga dos últimos. Ajuda mais à comédia, tem muito mais humor e não cria cisões, não me interessa uma discussão de futebol, norte-sul, para nada.

O teu Leão da Estrela não é do Sporting?

Não, tem dois clubes fictícios da liga dos últimos, um é do Ribatejo, os Leões de Alcochete, que têm o equipamento verde e o outro são os Barrancos do Infernos, com equipamento vermelho, que são do Alentejo profundo. O futebol nesse filme é completamente adjacente, o filme tem comédia pela aldrabice toda para se instalarem naquela casa e isso é que é a história, uma família a mentir a outra, porque não é rica e está a viver à pala da família que lhe deu guarida, o futebol é só o pretexto.

Não foi por medo de críticas do Bruno de Carvalho?

Não, não, não queria era uma guerra norte-sul. Sou do norte, gosto muito do norte, adoro viver nesta cidade de Lisboa, gosto das duas regiões. Não sou um separatista, portanto não quero uma guerra no futebol.

E gostas de futebol?

Não sou fanático, mas gosto, sou benfiquista e já tive camarote no estádio. Mas não sou ferrenho, agora vejo menos, os grandes jogos do Benfica vejo, não sou é de ver qualquer jogo, ou seja, não mudo a minha vida em função do futebol.

Repetes vários actores nestes filmes. É para seguir a lógica dos antigos ou filmaram tudo de seguida e assim fazia mais sentido?

Deu-me jeito, era exatamente o que eles faziam, dava-lhes jeito, contratavam os actores de que gostavam mais, a mim também me deu jeito fazer isso. Quando estava a falar com eles os três filmes estavam escritos, por isso já estava a fazer propostas para os outros, até porque foi melhor a negociação. Optimizei o talento.

E para o ano vem A Canção de Lisboa, que já não realizas. Não te custa delegar e depois ficares a pensar “não era nada disto”?

Esse faz o Pedro Varela. Se pensares assim não delegas, não tenho tempo para tantos projectos, tenho mais dois filmes para fazer e foi uma das razões porque não quis fazer os três. Tenho de fazer ainda o Mulheres, acabar outro filme e já estou a preparar mais dois projectos.

Vais ter três filmes a estrear em 2016?

Sim. Um provavelmente estará pronto mas não quero estrear.

E onde guardas o filme pronto? Num cofre?

Não, os masters são guardados nos armários na minha produtora, os backups num estúdio.

Porquê estes três e não O Costa do Castelo, O Pai Tirano ou O Grande Elias?

Porque gostamos muito destes, podiam ser mais, são três, uma trilogia.

Fotografia - Bernardo Coelho

E foram os que querias?

Sim, eram estes. Fomos atrás destes, gostamos de mais mas não íamos comprar sete, achámos três um bom projecto. Tivemos quase a perder o Pátio das Cantigas, porque tinha a condição de só venderem os direitos se eu realizasse e na altura ainda não tinha a certeza se o iria fazer.

Os dois que realizaste foram em simultâneo?

Fiz os dois seguidos, foi tipo O Senhor dos Anéis, com uma rodagem única, tiveram uma semana de descanso entre eles, não fiz a paragem normal de esperar seis meses. Assim economiza-se dinheiro, energias, é completamente controlado, ganhei muito em filmar assim, foi uma boa decisão e nunca se tinha feito cá.

Nos extras vais ter versões alternativas a preto e branco?

Começámos agora a fazer os extras, ainda não sei, está a começar a construir-se, tem de estar pronto para lançar no início de Novembro. Mas não ando a preparar os materiais, depois mostram-me para aprovar.

E com o Pátio das Cantigas a ser o filme português mais visto de sempre, com quase 600 mil espectadores, não deixa a fasquia muito alta para os outros dois?

Deixa, mas prefiro esta dor de cabeça, a outra não gostaria dela “olha é fácil, só fez 100 mil espectadores, se conseguir fazer 120 mil ultrapassa”. Convivo bem com isto, sei que filme fizemos, vamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance e depois deixar o público falar.

E qual é o teu filme português preferido?

Não sou apreciador, nem dos meus nem dos dos outros.

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