O José Cid prefere ser tratado por tu ou você?

Por tu, dá uma ideia de mais jovem.

É aqui que vives principalmente, na Curia?

Vivo numa freguesia a três quilómetros da Curia, que se chama Mogofores e tem três homens célebres: o Visconde de Seabra, autor do Código Civil que se usava até para aí 1950, tem o Toni, o jogador e treinador que foi do Benfica e a minha pessoa, também. [risos]

É por uma questão estratégica, estares no centro e deslocares-te facilmente para os concertos?

Não, vivo aqui porque o meu pai é de cá e caiu-me em cima uma casa, que é onde vivo. A Gabriela tem o atelier dela de pintura, eu tenho o meu estúdio de gravação, pratico algum hipismo, também algum desporto, quando é possível nado um bocadinho, mexemo-nos e aqui estou a gerir a minha decadência, não estou propriamente a fazer mais do que isso.

Quantos concertos dás por ano?

Uns 40. Mas tenho um problema muito grande por exemplo, este mês de Setembro fiz três concertos seguidos, e três concertos meus seguidos, para a minha idade é uma violência. Só um gajo com muita capacidade física é que aguenta três concertos de duas horas a abrir, que eu não sou pacífico, a minha expressão é a abrir um bocadinho, é um bocado rockeira, até um bocado sadística. E depois estou mais meia-hora ou uma hora a assinar autógrafos e a tirar fotografias, que é completamente cansativo depois de um concerto, e vou dormir ao hotel. Este Setembro tive três dias seguidos assim, Lagoa, Moura e Vendas Novas. Tenho uma cena muito gira nos meus concertos e completamente inovadora, para além do meu concerto ser inovador, porque passa por várias eras musicais e tenho uma super banda a tocar comigo: a minha mulher, que é jornalista, consegue transmitir para o meu Facebook o concerto quase na íntegra. Depois temos desde o Senegal, à Califórnia, Austrália, Timor, Inglaterra, tudo, pessoas a verem o espetáculo e “ah, maravilha”, isto tudo filmado só com um telemóvel. Há pouco tempo, na Ericeira, tivemos 150 mil visualizações para além das 20 mil que estavam lá, isto é uma divulgação fantástica da minha obra.

Tens feito também espectáculos de solidariedade, como para os bombeiros. Suportas os custos todos?

Eu não ganho nada, aliás, sou eu que pago o gasóleo e as portagens, nem peço à organização, depois os músicos ganham o mínimo dos mínimos, para aí três vezes menos, e fazemos isso de bom agrado, uma cena mais simples sem grande produções, que são caras. O ano passado fiz para aí 30 coisas dessas. Reservo os domingos à tarde para fazer solidariedade.

Quem é que comprava os primeiros discos que ouviste?

Quando era miúdo os meus pais não ouviam discos, era eu que os comprava. Tinha acesso em Coimbra, quando andava no Liceu, havia uma loja que tinha coisas muito interessantes, lembro-me que comprei lá Chuck Berry, Fats Domino, Bill Haley, muita coisa que vinha da América, o rock americano vem dez anos antes da geração dos Beatles. E tinha muitas cenas jazzísticas, que comprava para reportório porque era vocalista de um grupo de jazz. E Paul Anka, eu cantava muito bem Paul Anka e Sacha Distel, um cantor francês da época que viveu muitos anos com a Brigitte Bardot, quando valia a pena viver com ela. [risos] Um dia mais tarde conheci-o pessoalmente e fui muito amigo dele.

Fotografia Bernardo Coelho

Sais de Coimbra sem terminar o primeiro ano de Direito e no Instituto Nacional de Educação Física és convidado a entrar para o grupo que daria origem ao Quarteto 1111. Na realidade andavas a estudar para músico?

Não, eu andava a tentar fazer Direito, mas era um curso que não me encantava e depois tinha o mundo do desporto, já em Coimbra praticava atletismo, joguei hóquei, ténis, cheguei a ser um dos melhores jogadores distritais de ténis de mesa… Quando cheguei à conclusão que nunca mais tirava o curso de Direito, fiz aquelas duas cadeiras em quatro anos, fui para Lisboa tirar o curso de Educação Física, que tirei facilmente. Quase tirei.

Não chegaste a terminar?

Não, faltam-se duas ou três cadeiras, mas foi porque me peguei com um professor. Coitadinho, ele já morreu, não vou explicar porquê.

Com o Quarteto 1111 chegaste a ter um álbum proibido pela censura. Hoje parece-te real teres vivido num mundo onde isso era possível?

Hoje há outro tipo de censura, a feita por algumas rádios que olham mais para o Bilhete de Identidade das pessoas do que para a qualidade musical. Nessa altura havia uma censura que era política, esse primeiro álbum com o Quarteto 1111 era conceptual, abordava a ideia da emigração e do colonialismo e esteve sete dias nas bancas. É um álbum brutal, foi reeditado agora em vinil. Depois eu próprio fiz um álbum a solo que também teve algumas canções proibidas. Tive nesse álbum um original que o Gilberto Gil me deu. Na passagem dele pelo exílio, com o Caetano Veloso, ele deu-me dois temas, um infelizmente perdi-o, e o outro gravei-o.

O que queres dizer com perdeste?

Gravávamos aquilo em bobines, as bobines eram dos técnicos, perdi o tema.

Passaste por imensos grupos. A carreira a solo foi uma escolha deliberada ou aconteceu?

Tinha também muitas músicas que queria gravar e não eram o espírito do Quarteto, então gravei-as eu a solo. Entretanto o boicote do regime ao Quarteto era muito grande e nós nessa altura já estávamos casados, precisávamos de pagar a renda de casa, etc., e enveredámos por uma carreira um pouco mais comercial com as nossas namoradas e mulheres, era o grupo Green Windows. Mais tarde, em 76, houve alguma fricção entre membros do Quarteto 1111 e eu não tinha muita pachorra para aturar egos, porque também tinha o meu, então resolvi dizer adeus, ficámos amigos, o naufrágio acabou, chegámos à praia e agora cada um a seu porto. Ficámos amigos, ainda hoje ligo semanalmente ao Tozé Brito, ou ao Michel, também falo com o Mike Sargent, damo-nos todos sem hard feelings nenhuns do passado.

O reconhecimento internacional de 10.000 anos depois entre Vénus e Marte é algo que encaras como uma espécie de condecoração?

Não, acho que é uma espécie de surpresa, na medida em que é a consequência de uma edição na América, aqui já estava esquecido. Recebi essa proposta e simultaneamente outra do Japão, isto em 93, já muito depois da edição nacional em 78. Entre um editor americano de Los Angeles e um japonês nem hesitei. Por acaso fiz mal, porque a americana faliu, aquilo rebentou, e se calhar os japoneses tinham feito mais. Mas o álbum a partir desse momento começa a ser muito falado a nível mundial. A Sputnikmusic nomeia-o para os 5 melhores álbuns porque é o único em que eles ouvem a história e querem continuar a vivê-la, foi o que aconteceu na Aula Magna e no Coliseu, as pessoas não queriam sair de lá.

De onde é que vem essa história, acordaste um dia e saiu?

Sim, é uma história naif, uma história simples, comecei a pensar que em 76 a Rússia tinha hegemonia militar sobre os EUA, podia ter disparado uma terceira guerra mundial e então era o fim mesmo, e houve um cosmonauta e a companheira que fugiram para o espaço, e nessa fuga conheceram novas civilizações e galáxias. Quando regressam 10 mil anos depois à Terra, acabam por iniciar tudo de novo como se fossem os novos Adão e Eva. É uma historia muito ingénua, foi desenhada de uma forma gráfica genial pela mulher do Zé Nabo, que já faleceu. Dentro de um mês está cá fora uma coisa que se chama Live in Lisbon, tem um grafismo brutal. Por dentro tem o grafismo antigo e um vinil, e tem o DVD e o CD, depois vamos editar também só em DVD.

Fotografia Bernardo Coelho

Quem é que vai editar?

Sou eu, tenho um labelzinho, que se chama ACid Records, uma coisinha pessoal contra as multinacionais. Já as irritei um bocadinho porque no ano passado o melhor álbum do ano foi meu. E gravei um álbum de um fadista meu amigo, o António Pelarigo, que na minha opinião é o melhor álbum de 2014, também.

Não voltou a haver mais nenhuma reedição internacional do álbum?

Houve, uma giríssima no Perú, há dois anos. Ligam-me uns gajos, tinham um vinil “mas é pirata, e temos dinheiro para lhe dar pelos direitos de autor”, eram piratas honestos. “Eu não quero nada de vocês, metam-se no avião que eu vou tocar o álbum no Coliseu, peguem nesse dinheiro e venham visitar-nos e eu pago-vos o hotel” e eles vieram e viram o concerto. E hoje tocamos o álbum muito melhor ainda ao vivo do que tocávamos na época. Neste DVD tive a possibilidade de tocar uma faixa, que é a 5, com todos os músicos do álbum original. Digo-te já que essa edição de luxo não vai ser barata. Tenho outros álbuns de rock sinfónico programados, tenho muita criatividade, estou a escrever muitas músicas. O meu próximo álbum, que vai sair na época de Carnaval, chama-se Clube dos Corações Solitários do Capitão Cid, é uma apologia à ideia Beatleiana mas não é, só tem um tema dedicado aos Beatles. O grafismo vai atrás da célebre capa dos Beatles, mas ali são os 1111. Tem canções de várias áreas, é um álbum que não tem definição musical.

Lembraste da primeira Playboy que viste?

Lembro-me, mas não posso dizer o que fiz. [risos] Foi logo quando ela apareceu, a Playboy era proibida cá em Portugal nessa altura, quando alguém ia a Inglaterra “epá traz-me uma roupa esquisita e as Playboys que puderes comprar”, era o que nós fazíamos. Eram os anos 60.

Como era a sexualidade em Portugal há 50 anos?

Nos anos 50 e 60 era complicado. Faziam-se as malvadezas todas à mesma mas era muito mais complicado. Tinha uma coisa, não era preciso usar preservativo, era uma grande vantagem, essa parte era óptima. Fazia-se o que se podia pela vida.

Era tudo como hoje mas mais recatado?

Tinha mais sonho, hoje há muita gente que bebe muito, é tudo muito mais fácil mas depois não é tão bom. Hoje as pessoas deitam-se muito tarde, na minha geração nós íamos para a discoteca às seis da tarde e ficávamos até à meia-noite, depois íamos para casa dormir que no dia a seguir tínhamos desporto e uma série de coisas que era interessante fazer. Critico o que se faz agora, mas tenho cantado em discotecas, este ano fiz duas ou três discotecas e correu-me lindamente, no Lust in Rio, no Tamariz.

E a foto em que apareceste nu com o disco de ouro, foi demasiado forte e abafou a mensagem que querias passar?

A mensagem não foi muito transmitida mas a ideia foi seguida, ou oportunisticamente aproveitada, mas a mensagem para quem a percebeu foi muito interessante. Tem a ver com a abertura sem preconceitos à boa música portuguesa, sem estagnações kizombeiras, que é uma estagnação musical, então poética é uma coisa medonha, e em detrimento de coisas muito boas como por exemplo os Clã, Mafalda Veiga, Luís Represas, Fausto, que estão a começar a ser esquecidos injustamente quando têm uma obra poética e musical extraordinária, em detrimento de algumas coisas mais jovens, descartáveis, algumas carinhas mais larocas, mas que em termos de música não anda nem próximo dos nomes que referi e muitos outros.

Hoje com as redes sociais passa-se mais facilmente por cima desse problema?

Claro que sim, muitíssimo. Então nesta fase de Verão, por exemplo, em que tive 200 mil visualizações do meu concerto em Vila do Conde, depois 150 mil em Vendas Novas e coisas assim. Até numa noite de fados, que eu sou fadista amador e também músico de jazz amador, cantei num noite de fados perto de Lisboa e tivemos 70 e tal mil visualizações. Isso é muito bom e chegamos ao mundo todo, de uma forma simples, não profissional, com uma imagem que não é uma imagem de 4 ou 5 câmaras a captar mas que é eficaz, as pessoas querem é o lado humano daquilo que se está a passar ali no palco. Eu posso fazer isso, há gente que não pode, eu sou um cantor ao vivo, tenho essa facilidade de agarrar num piano, pôr debaixo do braço e não ter medo de enfrentar. À partida não desafino muito, posso cantar em qualquer palco o problema é há muita gente que usa voice tunners, dois, um ligado ao microfone deles e depois outro à mesa para pôr aquilo tudo na ordem e usam isso indiscriminadamente, eu não censuro mas não sigo essa ideia. Tocas, tocas, cantas, cantas, se não consegues fazer isso sem a ajuda de muita coisa, dedica-te a outra profissão.

O mundo mudou imenso. Adaptaste--te bem às novas tecnologias?

Telemóvel sim, mas e-mail não. A minha mulher é jornalista e eu usufruo dessa grande vantagem, é jornalista, é fotografa, é pintora e para mim é um descanso porque ela gosta muito disso.

Fotografia Bernardo Coelho

E tu não tens paciência.

Sinceramente não tenho, gosto mais de ler poesia, fazer desporto, ler um livro, ver televisão. Ela também, mas pronto, também gosta de fazer aquilo, faz com prazer, nunca me atirou à cara que não gostava.

Como é que se consegue ser relevante artisticamente durante mais de cinquenta anos?

Sei lá, é seres bom, é fazeres uma coisa que gostas, se fores bom, ficas. Para além disso, eu sou muito competitivo e nesse aspecto sou um corredor de fundo. Acho piada ainda ter a energia de cantar e estar no palco duas horas a abrir, isso é muito bom, acho um piadão. Mas também sei que cada dia que me levanto já não sou o mesmo rapaz que era há trinta anos.

E entristece-te que já se vendam discos?

Hoje há outras formas de comprar. Disparamos vários singles e ao fim de dois anos fazemos um disco, é sempre um documento e uma forma de dizer “olha estou aqui, sou isto, não sou uma plataforma digital, sou palpável, sou verdadeiro”. E depois há as plataformas digitais onde se vendem os singles e as imagens, mas isso ultrapassa-me, tenho uma pessoa ou duas que tratam disso e me vão dando noticias. Mas é um bocadinho frustrante para a minha geração não se fazer um CD de dois em dois anos, porque o CD não é só a parte musical, é a parte gráfica também, a parte estética. Já o CD tinha perdido essa estética em relação ao vinil.

Quatro casamentos. Como é que tiveste paciência para casar outra vez?

Tinha casado três vezes, em algumas a certa altura não deu, a minha segunda mulher já tinha morrido também, não fiquei com hard feelings por nenhuma senhora com quem eu tenha sido casado, antes pelo contrário, mas tinha decidido nunca mais casar. Alguém me perguntou há 4 ou 5 anos qual era a mulher ideal e eu disse “tenho duas mulheres ideais, a mulher-a-dias, e a próxima”. [risos] De repente apareceu-me um anjo caído do céu, e quando cai um anjo do céu as pessoas têm de perceber que esse anjo não se pode deitar fora ou então vamos para o inferno. Foi o que aconteceu.

A polémica com os transmontanos deixou-te preocupado com outras coisas que possas ter dito no passado?

Eu adoro Trás-os-Montes, adoro as pessoas de Trás-os-Montes, esta polémica vem com seis anos de atraso, é rancorosa.

Mas fez-te pensar em coisas que disseste?

Olha, se me atirarem à cara tenho de as enfrentar, o que é que vou fazer? Por dizer que a mulher ideal é a próxima vão-me chamar machista. As pessoas minimamente inteligentes perceberam que aquilo era uma perseguição a outros níveis, e não do bom povo de Trás-os-Montes. Agora, se o “inimigo” voltar ao ataque, ainda é mais evidente de onde vem, são pessoas que não suportam a minha realidade, a minha verdade, o meu êxito aos 73 anos, a minha forma de estar ao vivo e de cantar, que nunca lá vão chegar. Eu achei que desabou sobre mim um tsunami, mas os tsunamis voltam sempre todos para trás, não ficam em terra. E esse tsunami voltou, porque o país percebeu que estava a ser nitidamente perseguido e que era muito injusto o que me estavam a fazer. Vinha com um atraso de seis anos, o que é muito esquisito. E eu adoro pessoas que também têm sentido de humor e que não sejam rancorosas. Venha a próxima acusação, que eu estou pronto para uma pega de caras. Tenho pena que haja gente em Trás-
-os-Montes que tenha ido atrás da redes sociais e acreditado que isso é verdade, mas se não voltar a cantar em Trás-os-Montes tenho o resto do planeta inteiro e fico a gostar muita da região, tenho lá muitos amigos e vou lá quando quiser e me apetecer.

Gostas de provocar?

Toda a gente minimamente inteligente é provocadora, não há nenhum grande artista que não seja provocador. E quando eu morrer deixo 40 canções que o meu país inteiro canta, já me posso considerar uma pessoa que fica na história da música portuguesa. Como estou em muito boa forma isso irrita muita gente que gostava que eu já estivesse desaparecido há mais tempo, agora eu não sou a Wikipédia, sou o José Cid e estou cá. Quando sentir que já não consigo estar, retiro-me, mas quem não gosta pode esperar sentado. E quem gostar pode dar saltinhos de contente, que eu tenho muita coisa para mostrar.

Há temas sobre os quais te conténs?

Claro que não, há sempre uma resposta para uma pergunta, nem que seja uma resposta mentirosa. Mas há sempre uma resposta.

Fotografia Bernardo Coelho

Portugal era um país melhor com mais pessoas com a tua frontalidade?

Com a minha frontalidade, com a minha portugalidade absoluta, com a minha honestidade, e onde as pessoas, através da política e não só, não escondessem muita coisa. Mas sei que no Portugal profundo também há muita gente honesta na política, que luta pelas suas regiões de uma forma às vezes heróica, porque são pouco protegidos. Eu não sou republicano, defenderia em Portugal um sistema como o dos países do norte da Europa, onde a corrupção é muito inferior, a cultura é muito superior, os níveis de vida económicos são muito superiores, e onde as pessoas têm dinheiro para poderem viajar no Verão e visitar o melhor país do mundo, que é Portugal.

Seria com D. Duarte?

Acho que D. Duarte é um homem extraordinário, conheço-o pessoalmente. Penso que lhe falta uma certa ambição política de ser rei, ele nunca disse que queria ser rei. Sendo ele descendente de um rei que abdicou, o rei D. Miguel, e não sendo filho de rei nem neto de rei, poderia dar-se com pessoas que estivessem mais ligadas aos sistemas monárquicos do norte da Europa e não com muita gente que anda à volta dele e são perfeitos alpinistas sociais. Ele é uma grande pessoa e a mulher dele é uma grande senhora, simples e humilde como ele.

E pensas na morte?

Penso, mas acredito muito na reencarnação, gravei agora no meu último álbum um poema de Sophia de Mello Breyner que é exatamente isso, diz: “Um dia, mortos, gastos, voltaremos. A viver livres como os animais.” É um poema genial dela, eu acredito muito nessa ideia. E também porque não, é uma vingança nossa sobre a morte física, podemos voltar como árvore, como flor, como qualquer coisa assim.

Quando partires vais satisfeito?

Gostava de partir completamente saudável do pescoço para baixo e completamente tontinho da cabeça para cima, para não perceber o que está a acontecer. Não quero estar nada lúcido ao morrer, queria era ter saúde e não estar a sofrer com dores.

Para quem vai ficar a tua colecção de discos?

A Gabriela e eu estamos a pensar fazer uma Casa-Museu. Já justifica, tenho espólio cultural para um museu e depois deixo 40 canções que o país todo canta. E ainda vou escrever mais.

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