Eras um adolescente bem comportado?

Sim, gostava muito de fazer o meu surf, de andar de skate. Cresci na rua, fazíamos as nossas rebeldias, fugir da polícia às vezes porque partíamos algumas escadas, mas nada de muito grave. Tive uma adolescência perfeitamente normal, gostava muito de sair com os amigos, etc.

Como é que tiveste média para entrar em medicina?

Estudei. [risos] No 10º ano percebi que tinha de ter média para conseguir alcançar o curso que queria, que era medicina e felizmente tive sempre boas notas. Também estudei muito, houve uma altura em que decidi ficar fechado em casa a estudar, então tive um ano intensivo com explicações e com as aulas para me propor a alcançar a média que me permitisse entrar em medicina, o que não aconteceu logo de início, entrei primeiro em medicina dentária e passado dois anos concorri outra fez e fiz a transferência para medicina.

Fotografia Bernardo Coelho

Mesmo nessa fase que decidiste ficar em casa, com os teus olhos também não precisavas de te esforçar muito para arranjar namoradas, certo?

Uma adolescência normal implica termos namoradas, alguns flirts, casos, acho que não tive uma adolescência muito diferente dos outros. Dava primazia principalmente a estar com os amigos, depois obviamente que as namoradas foram surgindo também. Quando comecei o Anjo Selvagem ainda era adolescente, aí as coisas modificaram-se um bocadinho.

Mas sentias que eras o mais desejado da turma?

Se calhar foi mais na faculdade que isso me veio a acontecer, quando entrei em medicina dentária fui Mister Caloiro. Até ao 12º ano estava muito focado em estudar e entrar em medicina. Gostava muito de fazer o meu bodyboard, estava sempre na praia com os amigos, era mais rapaz da praia do que rapaz da noite e namoradeiro. Não tinha muito esse estigma.

Como médico a fama dá-te mais coisas positivas ou negativas?

Tenho de separar muito a minha vida profissional como médico, ou como estudante de medicina, que é o que eu sou neste momento. Por acaso neste momento estou a fazer estágio em ginecologia e obstetrícia. Às vezes para as pessoas que vão ao hospital é um bocadinho difícil conseguirem separar porque é normal que me reconheçam, embora a bata branca tenha um efeito de distanciamento, sabem que estou ali para fazer o meu curso e não como actor, obviamente. Mas às vezes pode ser um bocadinho incómodo, eu respeito isso.

O curso tem quantos anos?

O curso são seis anos, e no sexto ano tenho seis unidades curriculares, psiquiatria, medicina geral e familiar, pediatria, já fiz estas, ginecologia que termino agora, falta-me cirurgia e medicina.

O objectivo é dar-te a conhecer tudo?

É uma rotatividade para sabermos qual é a especialidade com que mais nos identificamos, mas já tenho a minha preferência, em principio será pediatria ou medicina geral e familiar. Ou uma ou outra, gosto de especialidades mais clínicas e menos cirúrgicas.

Estagiares em psiquiatria e pediatria deu-te mais vontade de ter um bebé ou uma psiquiatra em casa?

Há um sentimento, não te vou mentir, tenho 37 anos e há um desejo de ser pai, um sonho. Mas para se ser pai tem de se ter uma mãe, se me perguntas gostava de ter um bebé e uma psiquiatra. [risos] Conciliava as duas coisas, acho que é um sonho natural mas não estou desesperado à procura, as coisas acontecem a seu tempo. Não tenho prazo de validade, a vida encarrega-se de responder a essa questão.

Nesta fase consegues conjugar bem a representação com a medicina?

Consigo, porque estive a fazer teatro até Dezembro, fui de férias e agora vamos retomar em Fevereiro, fazer tournée pelo país, com a peça Allo Allo, depois vamos ver a seguir o que vem aí. Estou com um projecto de televisão, o Câmara Exclusiva, na TVI, e depois em Março existem outros projectos que não posso avançar já porque ainda não é nada garantido. E ainda bem porque se estivesse a fazer ficção neste momento não me permitia fazer o curso, era impossível, são duas coisas que não permitem disponibilidade física, uma pessoa não pode estar em dois sítios ao mesmo tempo. Este ano permitiu-me fazer coisas diferentes, alargar o meu espectro profissional, fazer teatro, fazer a apresentação e terminar o curso que é o meu principal objectivo.

Fotografia Bernardo Coelho

Regressaste ao teatro no papel de Herr Flick, foi um grande desafio interpretar uma personagem tão conhecida?

No início dos ensaios estava muito céptico relativamente à construção da personagem porque sabia que ele partia principalmente de uma grande composição a nível de fisicalidade, é uma personagem física, o texto dele em si é nonsense, vive muito a fisicalidade, o humor deste personagem. Foi um grande desafio mas acho que foi um desafio bem ganho, pelo menos as críticas, dos mais variados campos de crítica teatral foram positivas, tal como de colegas, etc. Acho que a peça correu muito bem, o espetáculo estava ganho porque acabámos dia 27 de Dezembro com salas sempre esgotadas, aliás, com pessoas à porta da sala, ficámos com cerca de 400 pessoas fora do teatro, tivemos que meter cadeiras a mais e tudo no último dia, o que é bom sinal. Infelizmente, sabemos que há um planeamento prévio do Teatro da Trindade, tivemos de ceder a sala para outro projecto mas já sabemos que vai retomar.

Sentes-te à vontade a fazer comédia?

É giro, corre-me sempre bem, tem tempos de comédia. E eu adoro alta comédia, não desfazendo a outra que também tem a sua sapiência e a sua metodologia. Gosto muito de fazer comédia e não é fácil, é mais difícil fazer rir do que fazer chorar, às vezes.

Fotografia Bernardo Coelho

Mas queres ficar com o curso ou o plano é exercer e representar?

O curso neste momento é uma prioridade na minha vida, obviamente que a representação é a minha actividade profissional já há 17 anos, e vou continuar a exercê-la, não vou deixar de ser actor. Vou continuar, tenho uma pequena incursão pela apresentação que está a correr realmente muito bem, felizmente, não sei o que é que vai acontecer mas neste momento o curso é a minha prioridade. E penso exercer medicina, sem dúvida alguma, acho que não têm de ser exclusivas as duas coisas, como estudante sim, mas à posteriori obviamente que me vai requerer muita atenção, muita disponibilidade mas o futuro dirá. Já não é o primeiro país em que acontece um médico também ser actor e vice-versa portanto o tempo é que vai delinear as coisas. Poderei estar a exercer e durante um tempo poderei estar a fazer uma série, 2, 3 dias por semana, não invalida que a pessoa esteja a fazer as duas coisas. É preciso é organização, disponibilidade, isso acima de tudo.

Começaste o curso logo aos 18?

Não, eu entrei para medicina dentária aos 18, estive até aos 21, aos 21 concorri para medicina e foi quando entrei. Depois fui trabalhando e fui estudando, aliás, aos 21 foi quando comecei a fazer o Anjo Selvagem portanto tive sempre esta dualidade, esta dicotomia medicina-representação, medicina-televisão, medicina-teatro.

Há mais estagiários com a tua idade?

Há mais velhos do que eu, pessoas com quarentas e muitos a tirar medicina, há muita gente a tirar segundos cursos, bioquímicos, farmacêuticos, a tirarem medicina, já tive colegas com 48, com 50. É um curso que acho que é uma utopia para muita gente, um curso de sonho de muita gente e é verdade, é um curso muito bonito, muito trabalhoso, mas quem gosta está lá de alma e coração. Requer muita capacidade de trabalho, muita metodologia, muita disponibilidade e algumas noites sem dormir, também é preciso estudar, principalmente quando se está no exame da especialidade, que é o que vou fazer no final do próximo ano.

Não tens medo que os pacientes pensem que és bom actor e que podes não saber bem do que estás a falar?

Para chegar onde cheguei no curso de medicina, por muito bom actor que sejas não chegas, ou sabes ou não sabes, não há meias verdades nesta situação. Ou estudas e és avaliado nesse sentido ou então não vais representar que sabes, isto não é o Vasco Santana a dizer o esternocleidomastoideo.

E aos 21, 22 tiveste logo um sucesso enorme com Anjo Selvagem. Como é que foste parar à representação?

Comecei aos 16 anos a trabalhar como modelo, numa agência, fiz muita publicidade quando comecei, ganhei castings e castings de publicidade. Fui uma cara nova no mercado, fiz aquele celebre anúncio da TV cabo a subir um escadote, foi o meu primeiro anúncio na televisão, fiz para muitas redes de telecomunicações, anúncios de supermercados, anúncios para fora, até que um dia fui convidado para fazer um casting que sabia que era para uma novela, o Anjo Selvagem. Fui com 800 e tal rapazes de agências de modelos e qual não foi o meu espanto quando, passado para aí uma semana, me ligaram a dizer que tinha sido o escolhido para ficar. Fiquei muito feliz na altura, foi muito gratificante.

Fotografia Bernardo Coelho

Já tinhas experiência na representação?

Já, tinha feito teatro. Sempre fiz teatro amador na escola, no Valsassina fiz teatro amador, mais tarde fiz teatro também em Benfica, tive uma experiência profissionalizante com os La Fura dels Baus, um grupo catalão de teatro imersivo ou experimentalista, como quiseres chamar, com quem trabalhei cá em Portugal também, duas vezes. Fiz esse workshop que foi para mim a minha epifania profissional, aos 17 e aos 18 concorri para o Anjo Selvagem. Sempre tive isto dentro de mim, não foi uma coisa nova, uma descoberta.

E quando fizeste o casting achavas que tinhas partido aquilo tudo?

Não, pelo contrário, nem sequer estava à espera. Sabia que me tinha corrido bem, não achei que tinha partido aquilo tudo porque éramos muitos, era muita gente, era um casting aberto, e no meio de muitas pessoas jamais pões a expectativa muito alta. Sabia que me tinha corrido bem, não que me tinha corrido tão bem, mas ainda bem que assim foi, fiquei muito feliz.

Sem precisarmos de nomes, já fizeste par romântico com alguém que não suportavas na vida real?

Não, nunca me aconteceu. Felizmente não tenho inimizades neste mundo, acho eu, ou pelo menos que me lembre. Sempre me dei muito bem com os meus colegas, sou uma pessoa de trato fácil, tenho educação, graças a Deus que os meus pais me a deram, e uma disposição que não é muito conflituosa, felizmente para os meus pares e para as pessoas que trabalham comigo sempre tive uma boa relação com toda a gente. Nunca tive ninguém com quem não me desse a representar, já fiz par romântico com muita gente com a Mafalda Pinto, que também foi minha namorada, com a Mafalda Luís de Castro, Rita Pereira, Paula Lobo Antunes, Margarida Vila-Nova, já fiz com a Paula Neves mais do que uma vez. Nunca tive assim nenhuma inimizade nem nenhum mau ambiente.

Mas consegues abstrair-te de tudo quando representas?

Não, obviamente já tive dias maus e o actor quando está a trabalhar está a trabalhar, não posso trazer a minha vida pessoal para a televisão, estava morto se assim fosse, temos de deixar a vida pessoal fora do trabalho e quando saímos do trabalho voltamos à vida pessoal, tem que ser assim, estamos ali é para trabalhar.

Isso é fácil ou aprende-se com o tempo?

Aprendes com tempo, e aprendes a defender-te porque se fosse trazer toda a minha vida pessoal para as novelas ou para o teatro, obviamente que haveria dias em que não me sentiria em condições, portanto temos que fechar uma tela e abrir outra.

Consegues pôr mesmo de parte?

Tens de pôr porque o teu trabalho está em primeiro lugar. Problemas todos temos, tu estás ali para trabalhar.

Entretanto já participaste no reality show Perdidos na Tribo, foste júri no A tua cara não me é estranha, sentes-te bem em qualquer papel fora da representação?

Não em todos, o reality show que fiz foi uma experiência antropológica, é assim que lhe chamo. Viver numa tribo durante um mês e meio não é para toda a gente, também não pensei que fosse para mim. E não era para mim. Pensei que era, mas depois as dificuldades de sobrevivência numa tribo sem qualquer tipo de linguagem, não tínhamos comida, tínhamos apenas água, foi realmente uma prova de privação superada mas a muito custo, perdi 12 kg num mês, só Deus sabe aquilo que me custou mas estamos cá para contar. Foi uma experiência muito forte, conseguir por momentos dar valor às pequenas coisas que nós temos e que damos como adquiridas na sociedade, lá não tinha nada, nem autoclismo, nem casa de banho, nada. Foi uma experiência que relativizou algumas queixas que normalmente nós temos aqui, e caprichos que temos, muitas vezes não damos valor às pequenas coisas.

Fotografia Bernardo Coelho

Aceitaste facilmente ou ponderaste bem no que é que te ias meter?

Ponderei muito, mas aceitei porque achei que era uma coisa que tinha a ver comigo, uma experiência. Gosto de experimentar, de inovar até certos patamares, se calhar ao longo da minha vida já me propus a ir mais longe do que devia algumas vezes mas isso está dentro de mim, o experimentar e o vivenciar algumas coisas, testar os extremos, às vezes pode não correr assim tão bem.

E em 2009 também lançaste um disco. Era uma paixão antiga?

Era e é, continua a ser. A música continua a ser uma paixão, continua dentro de mim. Sou mais intérprete do que compositor, mas adoro música, sempre gostei. Toco guitarra, arranho piano, canto, mas é uma paixão, não vamos dizer que é uma coisa profissionalizante. Foi uma incursão pela música, uma ideia na altura mas que percebi rapidamente que era muito complicado conciliá-la com todas as outras áreas da minha vida. Canto, componho algumas coisas, mas são coisas de casa, digamos que é uma actividade lúdica minha, um hobbie.

E está enterrada?

Não, a música está sempre presente em mim, adoro música.

Estás constantemente a aparecer na imprensa. Quando mentem sobre ti incomoda-te mais directamente ou por saberes que vai ser visto pela tua família e amigos?

Incomoda-me mais aquilo que fazem às pessoas que gostam de mim, porque tenho avós, são pessoas com uma certa idade e felizmente há uma proximidade, mas com tanta coisa que é veiculada muitas vezes nós sentimos um bocadinho... acusamos o toque, não é. Com 16 anos deste mundo já me habituei a muita coisa, é verdade que tenho sido um bocado massacrado, não me estou a fazer de coitadinho, mas tenho sido atacado, mais do que outra coisa isto é um facto. Tenho a noção que fiquei exposto, pela minha história que é sabida, mas isso não invalida e não é justo o que já me fizeram.

Estiveste sete meses num centro de reabilitação, ao início é como estar numa prisão?

Não, estamos lá porque queremos, ninguém está preso, quis ir para lá porque achei que tinha que repensar a minha vida, há uma certa altura em que tu chegas e dizes assim “porque é que vou fazer isto ou não vou fazer isto?”. Achei que estava na altura de dar uma volta à minha vida, e foi isso que fui fazer.

E o processo é igual para todos os casos ou tinhas um tratamento específico para o teu caso?

Somos um grupo. Não gosto muito de falar desta parte da minha vida nem quero muito falar sobre isso. Nunca senti um tratamento diferencial, fui tratado como parte de um grupo. Obviamente que cada caso é um caso, cada um tem as suas necessidades específicas. O método de tratamento é o programa espiritual de 12 passos, que nos ensina basicamente a lidarmos com a nossa saída cá para fora novamente, porque o mundo não muda, quem muda somos nós, há uma reaprendizagem e uma manutenção da nossa recuperação, cada pessoa tem o seu processo. Há pessoas que infelizmente voltam ao processo antigo, outras que andam ali vai, não vai e depois voltam, há pessoas que recuperam lentamente, não é linear para ninguém. Eu tenho e vou ter o meu caminho mas tenho a certeza daquilo que não quero, que é voltar à situação em que já estive, isso não volto, é incompatível com a vida que tenho neste momento, tenho outras prioridades na minha vida. Graças a Deus que fiz uma paragem, que me deu instrumentos para aprender a reflectir e poder olhar para trás.

É um processo que se encerra ou precisa de consultas de reforço ou uma coisa desse género?

Não se encerra, é um processo contínuo. Vou deixar de ser aquilo que fui, vou deixar de ter os comportamentos que tinha. É bom relembrar sempre de onde é que viemos para não voltarmos a ser aquilo que fomos.

Mas não precisas de lá regressar?

Não, não preciso de lá voltar, tenho o meu grupo de referência e amigos que estiveram comigo e é com eles que falo com alguma regularidade.

Hoje acreditas mesmo que nunca mais vais precisar de algo semelhante?

Sei muito bem aquilo que quero e aquilo que não quero para a minha vida, isso tenho a certeza. Quando batemos à porta de alguém não perguntamos quem foste, é quem és, e eu sei aquilo que sou neste momento e sei aquilo que já fui, mas o que sou neste momento é o que interessa.

E és do tipo de pessoa que tem uma lista de coisas para fazer até aos 40?

Sim, tenho. Até aos 40 tenho uma coisa certíssima que é acabar o curso. Tenho 37, pelo menos entrar na especialidade até aos 40 tem que ser, é garantidíssimo. Ser pai ou não, vamos ver o que é que acontece, mas é outro dos sonhos que eu tenho, mas na lista para fazer neste momento é terminar o curso, e retomar a minha actividade profissional, que é isso que tenho estado a fazer e está felizmente a correr bem. Acho que aquilo que me propus, tenho estado a tentar fazê-lo de uma maneira mais sedimentada, forte, consciente e com grande força de vontade, tendo a consciência como disse que se trata de um processo contínuo. Tem sido uma nova caminhada, com outra serenidade, outra calma e outra perspectiva das coisas.

Há alguma coisa sobre ti que as pessoas não saibam? Fazes origamis?

Leio, ainda agora estive em São Tomé de férias, não estava a conseguir dormir então li um livro inteiro. Gosto de pequenas coisas, gosto muito de falar com amigos, de ir à praia, gosto de estar dentro de água, adoro, é um momento muito próprio, aqueles fins de tarde, gosto muito desses pequenos momentos que já não tenho há algum tempo. Gosto de treinar, gosto de fazer desporto, adoro fazer desporto.

São Tomé porquê?

Porque calhou, tem natureza e pareceu-me bem, um destino ainda com alguma primitividade, ainda um bocado rude, com muitas raízes. Ainda pouco desenvolvido, explorá-lo enquanto ainda não está hiper industrializado ou hiper comercializado. Foi uma boa experiência.

Sabe bem ser anónimo por uns tempos?

Não fui anónimo, tem muito turismo português, mas soube bem estar num sítio diferente, com pessoas diferentes, tinha lá alguns amigos portanto foram umas boas férias, agora é para voltar ao trabalho, todos os dias ali no hospital às 8 da manhã.

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