Ainda te chamam Mano Sousa?

Menos um bocadinho agora mas é um nome que guardo com carinho, até porque isso vem de um tempo muito engraçado, com o Paulo Futre em que só não endoideci por muito pouco. Mas fica esse registo de um coisa diferente que se fez na televisão portuguesa e esse nome que vai ficar ligado à minha carreira, não tenho a menor dúvida disso.

Tens saudades desses tempos ou as coisas fazem-se e segue-se em frente?

A televisão é muito cíclica, aquilo foi um ciclo, creio que foram 13 episódios, começou e fechou. Acho que começou e acabou no tempo certo, penso que não é repetível daquela forma.

E agora, depois do José de Pina e Pedro Guerra, sentes-te preparado para tudo?

Tenho vinte anos de televisão, já pouca coisa me surpreende, mas é evidente que aturar aqueles pesos pesados da confrontação verbal não é muito fácil. Adoptei como regra e até deixei isso vincado no programa, nunca mais me incomodar com alguma exaltação verbal entre os dois, são maiores e vacinados, são instruídos portanto cada um sabe de si.

Tiveste influência na escolha deles para a substituição de Fernando Seara e Eduardo Barroso?

É sempre uma escolha colegial, digamos assim. Sentamo--nos a uma mesa e pensamos em nomes. Digamos que é uma decisão sempre estrutural, com um peso de opinião muito grande do Sérgio Figueiredo.

E essas escolhas reflectiram uma estratégia?

Reflectem uma ideia, a estratégia vai-se moldando mediante o produto que vamos tendo na mão, é uma caixa de surpresas, quando tomas uma decisão nunca sabes o que é que sai daí. A escolha vai por um conceito e depois vamos avançando na estratégia.

Tens algum truque para manter a calma?

Aquilo representa um bocadinho o meu lado mais paciente. Enervo-me com pouca coisa, chateio-me com pouca coisa, mas quando me chateio, chateio muito à séria. Acho que sou muito eu, o que está ali dentro daquele estúdio.

Como é que são as coisas quando as câmaras desligam para intervalo?

Cada um segue a sua vida muito individualmente, não há grandes cruzamentos de convívio. Acho que a melhor imagem que posso dar é que todos desligam a ficha quando acaba o programa e o Pina dá boleia ao Serrão. [risos]

Nunca chegam a sair dali chateados?

Nunca houve uma alteração de humor, uma conversa de corredor, uma discussão na caracterização, nunca houve nada, felizmente.

Ao fim de 20 anos o directo continua a causar nervosismo?

Há dias que sim, há dias que não, não sei explicar porquê, mas há momentos em que me sinto ainda um bocadinho nervoso, mas isso para mim é optimo. É sinal de responsabilidade, recordo-me que quando comecei a fazer televisão entrei para um estúdio e não estava nervoso. Passado duas ou três semanas comecei a analisar aquilo que tinha feito e achei-me um perfeito idiota ao não estar nervoso, porque de facto é um trabalho de enorme compromisso com a tua imagem e com a tua carreira.

E como foi saber que o Bruno de Carvalho tinha aceitado o convite para ir ao programa?

Encarei essa entrevista como outra qualquer e depois dali surgiu qualquer coisa que não estava planeada, foi muito para além do que era expectável.

Não sabias que ele trazia o tema dos vouchers?

Não sabia rigorosamente nada, aliás, não falei com o Bruno de Carvalho antes da entrevista sobre temas a discutir, nada, zero. Foi mesmo uma surpresa total quando aparece a caixa, os vouchers, etc.

Fotografia Bernardo Coelho

Tiveste logo noção da polémica que aí vinha?

Não tive nenhuma dúvida, porque claramente foi ali a tribuna para desencadear talvez uma das maiores polémicas da temporada.

Há uma atenção em tempo real à concorrência ou vocês fazem o vosso programa e logo se vê?

Temos uma ideia para o programa, um alinhamento, que normalmente alteramos tendo em conta a dinâmica da conversa. Mas obviamente que a concorrência para nós é importante, não somos seguidistas de todo, não é essa a intenção, mas estamos atentos ao que eles estão a fazer, como é óbvio. E tenho a certeza que eles também estão atentos àquilo que nós fazemos, há uma marcação directa, no fundo é como um jogo de futebol, não marcamos homem-a-homem, mas marcamos à zona. [risos]

É habitual ouvir-se alguém dizer que não vê esses programas, no entanto eles existem há muitos anos. Tens explicação?

A lista de e-mails e de pessoas com quem me cruzo na rua que dizem que não vêem mas sabem tudo sobre o programa é inacreditável. Quando chegam ao pé de mim ou escrevem a dizer que nunca mais vão assistir ao programa, é uma escolha. Se criticam o programa porque não aguentam a forma como se discute, tenho sempre um argumento muito fácil, chama-se comando, estão lá as teclas e podem mudar de canal quando querem. Acredito que dizem que não vêem, mas vêem, não tenho dúvida nenhuma, sabem os pormenores, lembram-se de coisas que eu próprio não me lembro, há ali um seguidismo muito grande.

As redes sociais provocam picos de audiência?

É um fenómeno muito relevante, a quantidade de pessoas que toma contacto com momentos do programa nas redes sociais é, na minha opinião, quase tão grande como a audiência média. Podem não saber exatamente o que foi o alinhamento do programa anterior, mas existiu um momento que se desmultiplica em likes, partilhas. Vejo muitas senhoras, que não são o nosso alvo mais natural mas sabem todos os momentos do programa, tenho a certeza que esse contacto foi feito não via TV, mas via rede social. Temos que ter uma noção absoluta do que está a acontecer nestes novos tempos e já os estamos a trabalhar.

Em tempo real não se nota tanto?

Não me confronto muito com os comentários em tempo real...

Não têm noção se há muita gente a mudar de canal assim que algo é comentado na internet?

Não há essa medição efectiva, não tenho noção se isso acontece.

As audiências continuam a ser conhecidas só na manhã seguinte?

Exacto, não há audiências em tempo real. Já houve uma tentativa aproximada de fazer isso, não em Portugal, e as coisas tornaram-se muito difíceis, as pessoas desistiram em conjunto da ideia, porque estás a mudar a direcção muitas vezes, o altímetro a subir e a descer... Para quem está a fazer o programa é desafiante mas de um momento para o outro pode-se tornar numa esquizofrenia brutal.

Os programas nascem do zero ou há algum canal ou país onde se inspiram?

Não temos grandes referências, em televisão está tudo inventado, há coisas para se adaptar, para se transformar, para chegar aos tempos modernos. Agora o modelo do Prolongamento, é um modelo que tem, sei lá, vinte e tal anos. Vim para Lisboa trabalhar em 1995 e um ano depois estava a coordenar um programa na RTP igual a este. O que é que mudou? Nada, três pessoas apaixonadas pelo futebol e uma mesa para conversarem, tudo igual há 20 anos.

O Contragolpe era um programa diferente de todos os outros...

Era, mas também não inventámos nada, era uma realidade que existe muito em Espanha, com sucesso.

Não tinha audiência que justificasse a continuidade?

Acho que as pessoas ainda não estavam preparadas para o conceito do programa. E a nossa concorrência estava ligada à área da paixão, à mesma hora estavam três pessoas ligadas a clubes a falar de futebol. Creio que poderia ter pedido mais tempo para o programa, mudámos de estúdio e aí perdemos alguma identidade, foi um conjunto de factores que fez com que as coisas não corressem tão bem quanto estávamos à espera.

Fotografia Bernardo Coelho

É mais seguro fazer o normal?

Foi um projecto que não teve mais sucesso por variáveis que aconteceram, não tenho a certeza se não gostaria de ter um projecto desses num futuro próximo. Às vezes as coisas acontecem um bocadinho fora de tempo, se calhar agora as coisas podem correr melhor, e já com a experiência adquirida somos capazes de conseguir perceber por que é que aquilo não correu tão bem quanto isso.

A luta a três no campeonato reflecte-se num aumento do consumo de informação desportiva?

Para já não há essa relação, não se nota isso. Até porque, enfim, o Sporting nunca esteve deslocado da luta pelo título, quando avanças para um comentário nunca tiras o Sporting. Agora, é evidente que torna as coisas mais emocionantes, se no último terço do campeonato tiveres os três na corrida, creio que aí sim as coisas vão fervilhar. Se estão quentes, vão mesmo chegar ao ponto de ebulição.

A TVI em tempos até tentou dar espaço ao Braga.

Sim, tivemos o Jorge Sequeira, candidato à Presidência da República. Lá está, as coisas não foram brilhantes por aí além, mas tentámos fazer diferente. Temos uma filosofia na TVI, não existe medo de arriscar novos produtos, novos conceitos. Não temos nenhuma vergonha nem do sucesso, nem do insucesso, estamos ali é para arriscar coisas.

E um canal MaisFutebol TV, ou coisa do género, não faz sentido?

Se me perguntares se na minha cabeça faz sentido, faz. Ainda por cima é uma área em que trabalho e reconheço a sua potencialidade. Se me perguntas se era um grande desafio na minha vida dentro do grupo Media Capital, ter um canal de desporto, adorava. Às vezes até o desenho na minha cabeça e era um desafio daqueles que gostava de abraçar, tipo agora vamos construir uma coisa de raiz, gostava muito mesmo.

A TVI e o Mais Futebol continuam a ser redacções independentes?

Convivemos lado a lado e temos uma obra comum grande, que vai crescer nos próximos tempos. Tenho a certeza absoluta que vamos cruzar recursos humanos e conteúdos cada vez mais. Não quero estar a mentir, mas creio que foi a primeira redacção em Portugal que fundiu o digital com a televisão. Não é um exercício muito fácil, são meios diferentes. E cruzamos informação, se o Mais Futebol tem uma notícia, é aproveitada imediatamente para a televisão. Foi um processo lento, mas que está a acontecer.

Fotografia Bernardo Coelho

Como é que fica um canal como a TVI quando a guerra dos direitos televisivos do futebol passa para as operadoras?

É uma nova realidade em Portugal, nós na TVI só temos o futebol da Taça da Liga, ao campeonato não conseguimos chegar, porque é muito caro. O futebol dá prejuízo às televisões, é muito complicado tirar rentabilidade de um produto como a Liga dos Campeões. É evidente que é um grande produto, mas comercialmente é muito desgastante conseguir tirar algum dinheiro disso, portanto acho que futebol nos canais generalistas nos próximos tempos vai ser muito difícil chegar lá. Temos essa noção, portanto não é um problema. O que estamos a fazer é trazer outras modalidades. Temos um exemplo, o futsal, um jogo dos quartos-de-final do Europeu fez uma audiência que ultrapassou um milhão de pessoas. Vamos explorar outros produtos, sem medo nenhum.

Chegaste à estação no tempo do José Eduardo Moniz e da Manuela Moura Guedes. Hoje muita coisa mudou, mas ficou a semente?

Ficou, o José Eduardo Moniz é para mim talvez a pessoa que mais entende a televisão em Portugal. E para além do conhecimento, tem uma intuição inacreditável para televisão. E ele formou-nos a todos, a TVI foi uma escola de televisão para muitas pessoas que viveram aqueles tempos. Eu chego à TVI já com o estúdio novo da informação, quando a estrutura está montada e depois precisa de ser aperfeiçoada. Todos aprendemos muita coisa com o José Eduardo e ele quando sai da TVI disse-nos “vocês vão conseguir fazer” e isso aconteceu. Ele voltou à TVI, agora com outras funções, outra forma de estar na empresa, mas nós tivemos a sorte e a inteligência de aprender com ele, somos um bocadinho José Eduardo, Je suis José Eduardo, porque de facto ele é uma pessoa fantástica ao nível da formação. Há outras pessoas que também são fantásticas nos conceitos, em tudo aquilo que pensam para a televisão mas a nossa formação na TVI foi muito feita com ele.

Ainda te lembras como eram as coisas quando chegaste à RTP Porto em 1993?

Lembro-me que ainda tínhamos motorista, assistente de áudio, iam cinco pessoas no carro e depois passámos a ir dois. E foi lá que aprendi os conceitos básicos de ser jornalista de televisão, técnicas, saber como se monta uma reportagem à séria, aprendi tudo. E aprendi a trabalhar no limite da tensão, porque fazíamos o jornal da uma no Porto, que tem poucas horas de preparação. Chegavas às oito da manhã e à uma tinhas o jornal no ar com as dificuldades técnicas que havia na altura. Andavas muito de carro, não havia auto-estradas, nem IPs, era muito difícil. Íamos aos emissores no meio do monte enviar reportagens, imagina o que era Portugal na altura, saías do Porto para ir fazer um jogo a Chaves, era uma aventura brutal porque saías sozinho num carro, sem auto-estradas, não havia nada, enjoavas a conduzir, era horroroso. E depois quando voltavas uns batedores da GNR saíam de Chaves para irem a Vila Real, para chegares a tempo de editares a peça. E depois saías de Vila Real e ias enviá-la a um emissor no meio do monte, no meio do nada, não havia telemóveis. Combinavas com um técnico às sete da tarde, encontravas o técnico lá, metias a cassete no emissor e enviavas. Em 20 anos mudou tudo e é fantástico acompanhar essa evolução. Do centro de produção do Porto, digamos assim, nasceram profissionais fantásticos de televisão, a lista é imensa.

Era o teu sonho ou aconteceu?

Nunca pensei trabalhar em televisão, não era de todo um sonho de menino, nem ser jornalista, foi por acaso. Aconteceu por causa das rádios piratas, acho que foi o exercício mais democrático que houve no pós-25 de Abril. Numa sala montavas uma rádio e dizias o que te apetecia, ninguém te chateava, se a rádio era sobre borboletas, falavas sobre borboletas 24 horas. Foi um exercício brutal e foi aí que nasceu a minha vontade de entrar no jornalismo, montei uma rádio com uns amigos, na minha terriola, a Trofa, e a partir daí segui caminho e surgiu o convite para trabalhar em televisão.

Sempre foste apaixonado por futebol?

Eu não sou um “futebolodependente” em nenhum momento. Sempre gostei de ver futebol, joguei futebol, mas também joguei hóquei em patins, ténis, como não tinha jeito para nada ia saltando de modalidade em modalidade. Gostei sempre de desporto, tanto gosto de futebol, como gosto de andebol, hóquei em patins, de ver um jogo de rugby. Para mim o desporto tem uma coisa muito bonita, para além da dedicação que vês em quem joga: são espetáculos fabulosos. Na altura dos romanos os coliseus não se enchiam só para matar pessoas nem para andar ali a brincar com leões, havia essa cultura do jogo, do desporto, é uma coisa genética, eu gosto disso.

Ias a estádios como espectador antes de começares a trabalhar no desporto?

Ia, gostava de ir aos estádios.

É fácil abandonar esse lado de adepto?

Muito fácil, há muito tempo que o abandonei, desde que comecei a trabalhar na rádio, em que fazia relatos de futebol, pessimamente. Não sou nada praticante da paixão clubística, nada.

Algum dia as pessoas vão conseguir aceitar que um jornalista tenha um clube sem ser o Oriental?

Não sei, gostava que um dia as pessoas pudessem assumir o seu clube. No fundo se fores uma pessoa séria não interessa muito, agora é evidente que se divulgas um clube, vais ter chatices. O que é que um gajo faz? Evita as chatices. O problema disto é a paixão, que é uma coisa tão indefinida, tão parva. Às vezes apaixonamo-nos por uma mulher tão feia como um esquentador e para nós é a mais bonita do mundo. E no futebol é isso, as pessoas ficam completamente cegas com a paixão. Mas ainda bem que é assim, tem esse encanto, por isso é que vão não sei quantas mil pessoas ao estádio mesmo a chover picaretas, que parvoíce, não é? Mas vão lá. Não é por ser confortável, é porque mexe com os sentimentos, arrepia, e quando é um golo gritam e choram e discutem com o melhor amigo, não faz sentido nenhum, discutem com o pai, já não vou ao ponto em que batem na mulher que isso...

Fotografia Bernardo Coelho

E no jornalismo televisivo há muitas propostas de transferência?

Não, o mercado está calmo. Os dias que correm não estão fáceis, poderá haver é novos projectos que possam mexer com o mercado mas se olhares para os últimos tempos não há transferências. No fundo tens ido buscar malta nova que está a sair das faculdades. As coisas estão muito estabilizadas, cada televisão tem as suas pessoas. Só haverá uma grande transferência se existir em breve um projecto grande novo, isso sim.

Aguentaram bem o impacto da CMTV?

É mais um grande desafio, mais um player que chega ao mercado, com os seus defeitos e as suas virtudes, com um estilo muito próprio e acima de tudo com muita vontade de triunfar. Quando é assim tens que te levantar e correr tanto como os outros, não pode haver em nenhum momento alguém instalado num pequeno sucesso. Ainda bem que o Correio da Manhã chegou, acho que é bom. Quem trabalha em televisão, para quem gosta do desafio, acho que é excelente, e tenho lá amigos que também quero chatear. [risos]

Apresentas o Prolongamento à segunda-feira. O que é que fazes no resto da semana?

O resto da semana é muito dura, no fundo é pensar todos os conteúdos de desporto da TVI24, coordená-los, produzi-los, estar sempre a pensar. O Sérgio Figueiredo às vezes quase que me fecha a porta, porque “epá, tenho aqui mais uma ideia”. Em 100 ideias que apresento se calhar uma pode ser boa, mas vou lá todos os dias chatear. É esse desafio que também é muito bom em televisão porque é uma área criativa, não é um trabalho cinzento. E vamos fazer coisas novas agora, vamos tentar novos formatos, o não está sempre garantido, é como com as miúdas. [risos]

Vais de férias na mesma altura que os jogadores?

Quando era mais novo ainda nos encontrávamos todos no Algarve, tinha piada, agora já cada um segue para outros destinos. Mas normalmente é isso, quando acaba a época tiro férias, tiro sempre um mês seguido. No ano passado por acaso não tive férias, é engraçado, cheguei a Setembro e estava um dia à conversa e “espera lá, o pessoal está a falar de férias, eu não fui de férias”. E não dei conta, porque tivemos dois produtos de Verão muito agradáveis, o Mais Transferências, que foi um grande sucesso e foi a Copa América, que de repente surgiu ali, com o Verão quente da saída do Jesus para o Sporting. E só descobri isso em Setembro, reflete um bocadinho a forma como me envolvo nos projectos e nas coisas. Vamos lá a ver se este ano consigo ter férias.

E quando vais consegues desligar mesmo?

Quando estou um mês fora sim, consigo. Numa semana não se consegue, está sempre a tocar o telefone, a consciência pesa e uma pessoa atende. Mas num mês de férias consigo não pensar em rigorosamente nada. Depois tem aquela coisa boa que é “então o que é que fizeste nas férias?” e eu digo sempre “rigorosamente nada”, que é a melhor coisa que pode acontecer. Aquelas férias de pulseira em que vais para um resort, vestes duas t-shirts e umas havaianas, alimentas-te, bebes, vais-te deitar, e pronto, estás ali.

A tua vida social é bastante acompanhada pelas revistas da especialidade. Lidas bem com isso?

Já foi mais, graças a Deus. Lido, mas nunca percebi porque é que têm algum interesse na minha vida, não sou uma pop star, não sou uma artista de novela, nada. Sou um tipo que gosta de viver a vida, não faço nem mais nem menos que um gajo normal, urbano. Vivo numa capital, tenho os meus hábitos normais de ir jantar a restaurantes que eu gosto, onde tenho amigos, de ir beber um copo. Nunca percebi muito bem esse interesse. Não namoro com jovens de novelas, nada, é uma ideia que eles têm. Às vezes são chatos porque provocam. A malta que trabalha a área social respeita muito pouco a vida particular. É evidente que me exponho, já dei entrevistas familiares e já expus as minhas namoradas. Isso é uma coisa e não me chateio nada que me tirem uma fotografia numa festa. Agora que especulem, isso não é nada. Vais beber café com um grupo de amigos, veem-te a sair com uma senhora de um restaurante e ligam-te a perguntar se é tua namorada e fazem daquilo um filme, isso é que me chateia profundamente. Tudo o resto quero lá saber, não ligo nada e convivo com isso tranquilamente. O que me chateia é a pouca seriedade, não têm noção do que é que isso pode interferir na vida das pessoas, as chatices que podem arranjar, não têm respeito nenhum por isso, e eles deviam pensar que também têm famílias. Já me aconteceu sair de uma discoteca com amigos, está um paparazzi a tirar uma fotografia e o que vem a seguir é “estrelas da TVI à pancada à porta de discoteca”. Vínhamos a brincar uns com os outros, aquela cena de homem. Podiam ter ligado “pá, andavam à pancada?”, “Não vínhamos a brincar”. É evidente que tenho família, e a minha mãe “filho então, com esta idade é que andas à pancada?” É este tipo de coisas que me chateia, se estiver às 6 da manhã a sair de uma discoteca ou a entrar num restaurante, qual é o problema? Não faço nada escondido, não tenho nenhum problema nessa exposição, mas chateia-me esse voyerismo barato e desonesto, isso irrita-me profundamente. Dizem “ai, eu sou jornalista”, não é jornalista nada, isso não é jornalismo, é uma coisa qualquer, é amplificador de notícias da noite. Para o bem e para o mal, não tenho nada a esconder, não tenho telhados de vidro, não faço nada de kinky, portanto tudo bem.

E ao fim de 25 anos no desporto, não te apetece escrever um livro?

Não tenho capacidade, um livro é uma coisa muito importante, não é “ah, vou escrever um livro”. Para isso tinha de ser escritor, tinha que trazer um numero de valências que não tenho, percebo de televisão, ponto, mais nada. É o meu mundo, onde me sinto bem e feliz. Nem guardo fotografias minhas nem nada, não ligo muito às minhas memórias, vivo mais o futuro e o presente do que o passado.

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