Às vezes não ficas com vontade de pegar no megafone?
Não, por acaso não. Peguei muito no megafone e também não sou muito saudosista. Talvez um dia, mas assim no dia-a-dia não.

Hoje a luta poderia continuar?
Sim. Aliás, quase todos os personagens que criei podiam continuar. Quando comecei a fazer comédia interessava-me ter uns alteregos com que pudesse abordar todos os temas e sobretudo todos os temas de um ponto de vista assumido, sem pruridos morais: os Homens da Luta mais na política, o Carlinhos, o machista gay, mais nas relações do sexo e do machismo, o Black Skin na cena do racismo e da xenofobia, o Ruce, o agarrado, das coisas mais tóxicas ou do empreendorismo. Portanto os Homens da Luta, como quaisquer outros, poderiam andar hoje aí, sem dúvida.

O que é que te fez parar?
Nunca gostei de andar mascarado. Sobretudo foi isso. Quando comecei a fazer comédia já tinha 30 anos, já tinha feito uma data de cenas. Fui actor em companhias de teatro que faziam Gil Vicente para escolas, logo quando tinha 18 ou 19 anos, depois estive no Contra-Informação a mexer os bonecos, fui disc jockey, barman, motorista, explorei bares, organizei festas de trance, ou seja, quando cheguei à comédia já tinha uma bagagem de ter trabalhado em várias coisas e, de repente, um bocado por acaso, aproveitei também o boom que houve na comédia há 14/15 anos com a cena do Levanta-te e Ri. Estava a fazer música, lançava discos e levava-me muito a sério como músico, era um defeito, e na altura vi ali aquilo e pensei “se calhar a comédia pode ser uma onda que eu posso surfar”. Comecei logo a produzir, sempre foi algo que fiz e continuo a fazer, a produzir-me, manter o máximo controlo nas coisas. Foi uma entrada um bocado por acaso, mas permitiu-me ter sempre uma perspectiva de distanciar-me. Como já tinha feito outras coisas, na comédia eu era sempre um visitante. Às tantas comecei a cansar-me de tudo. Quando parei, há quatro anos e tal, estava saturado, sobretudo de me mascarar. De chegar, meter o cabelo, meter o bigode, fato... Aquilo já estava a dar comigo em maluco e é sobretudo por isso que páro. Por isso, tão depressa não contem comigo para me mascarar.

Qual foi a profissão mais invulgar que tiveste?
Não sei. Acho que não cheguei a ter nenhuma profissão invulgar. Aquela que me trouxe mais momentos fora do normal foi em 1998, quando eu e um amigo alugámos um bar na Costa da Caparica e fazíamos festas de trance. Tivemos ali muitas cenas. As festas iam até de manhã: imagina em Agosto, as famílias a chegar à praia, as miúdas nuas a dançar, aquilo causava ali um certo frisson com o pessoal todo maluco! É capaz de ter sido essa.

E o que é que tens vontade de fazer agora?
O que eu faço. Há quatro anos, quando acabou o último programa dos Homens da Luta, decidi pôr um travão na comédia e dedicar-me à realização. Era algo que já fazia na altura da comédia e então decidi fazer algo que não tivesse nada a ver, que são documentários. Já fiz dois, estou a acabar um terceiro, agora para a RTP2, e é isso que me dá gozo nesta altura. Embora há uns meses tenha voltado a reacender o lado cómico em duas vertentes: uma eu e o meu irmão, fazemos espectáculos como Manos Duarte, não nos mascaramos mas vamos para cima do palco fazer aquelas coisas que as pessoas querem ouvir, um bocadinho do Ruce e do Reco, dos Homens Da Luta, do Wanderley, etc..

Fotografia - Bernardo Coelho

É stand up?
Pode-se dizer que é um stand up musical. E comecei a fazer uma crónica humorística por semana na TSF e isso obrigou-me outra vez a escrever e a ter um espaço que seja meu.

A TSF não devia ser demasiado certinha para te convidar? Tens carta branca para fazeres o que queres?
Foi o que eu lhes disse! Tenho carta branca para fazer o que quiser, mas tenho optado por fazer algo que nunca fiz na cena da comédia porque nunca falei na minha própria voz, era sempre a voz de um personagem que eu assumia. Aqui optei por fazer algo como eu, Nuno Duarte, o Jel. Tem sido um desafio e sobretudo um começo, que é algo que eu procuro sempre na vida. Fazer algo que nunca fiz, começar de novo. Sinto-me um novo humorista nesta altura: ter de fazer tudo outra vez, os sketchs, escrever, pensar o que vou dizer, como vou dizer, sem estar a apoiar-me nas muletas que já tinha.

O stand up é o nível mais nobre da comédia? Achas que é visto assim hoje?
É, sobretudo em Portugal. A comédia é muito como a música. Também é feita de modas, de estilos. Quando comecei o Vai Tudo Abaixo, na altura nós fomos ocupar o lugar que o Gato Fedorento tinha como programa de comédia da SIC Radical e na altura o que estava na moda eram os sketchs. Houve outros programas depois, como Os Contemporâneos, etc., naquela altura o que o pessoal consumia era um humor de sketchs e o stand up era algo que existia mas que não estava tão presente. Agora mudou um pouco. Agora vês o stand up comedy a assumir um lugar mais cimeiro, vês muitos stand up comedians com muitos seguidores, a fazerem os seus vídeos, que não são sketchs mas são vídeos de diálogo, portanto a coisa é um bocado assim, vai por ondas. Mas o stand up comedy começa a afirmar-se em Portugal como se calhar o estilo mais forte dentro da comédia, porque também é mais barato de fazer, não é? Na altura, na SIC Radical, ainda havia ali um orçamento jeitoso que a gente podia tirar uns meses, mascarar-se, ter cameraman, ter gajos do som, ter uma equipa para fazer sketchs, que dá mais trabalho do que fazer só um texto. Hoje, sobretudo com a entrada da Internet, que veio secar muito os canais tipo a SIC Radical, em termos de orçamento o stand up afirma-se como uma forma muito mais barata de poderes chegar ao público e isso também acaba por ter a sua importância.

Depois de tanto anos com a SIC Radical, como é que foi depois trabalhar com uma generalista?
Não foi bom e também foi um pouco por isso que, pelo menos para mim, veio algum desgaste da comédia. Foi um bocado um acidente de percurso. Na SIC Radical sempre fomos comediantes de nicho, de underground. As próprias temáticas das coisas que fizemos quase até 2009/2010, estávamos ali confortáveis porque tínhamos liberdade de fazer a merda toda que queríamos, desde simulações de porradas, de assaltos, sexo, drogas, tudo. Podíamos tocar em todos os temas e isso funcionava para nós. Só que depois, o acidente de percurso que eu falo, foi a crise. Em 2009/2010, encontrámos um dos nossos personagens completamente no centro do furação, que eram os Homens da Luta. De repente, tínhamos ali algo que já tinha empatia com as pessoas, já nos conheciam. Era como estarmos aqui em Carcavelos, estarem ondas perfeitas e nós éramos os únicos que ali estávamos, portanto surfámos as ondas todas, era tubos a sair e a entrar à força toda! E isso foi, no fundo, o fim. Quando foi a cena do Festival da Canção, fizeram-se debates na RTP onde eu estava, a música de intervenção, ou seja, de repente, escalou para algo completamente transversal e de massas e que acabou por nos matar. Nunca foi da nossa natureza sermos um produto de massas. É irónico, mas é verdade. Acontece de tal maneira que hoje sei que até ao fim da minha vida vou ser o Jel dos Homens da Luta, faça eu o que eu fizer. Posso fazer todas as merdas, e quero fazer o máximo, mas vou sempre ser o Jel dos Homens da Luta. Podia fazer os Homens da Luta até morrer, como o Avô Cantigas, por exemplo, mas talvez por ter entrado tarde na comédia, consegui perceber isso e não ir por aí, que era o mais fácil, mas tipo “ok, está feito, está feito”. Orgulho-me, não tenho vergonha, mas mesmo que vocês me conheçam pelo Jel dos Homens da Luta eu faço muito mais coisas, sabes? E é a isso que eu me entrego agora.

Com os 40 a auto-censura aumentou ou continuas igual?
Não lhe chamava auto-censura, mas há decididamente coisas que fiz há 10 anos que agora não faria. Mas acho que sobretudo não faria porque já fiz. Já fiz, está feito. Se há coisa que não gosto, e na comédia isso acontece muito, não é fácil um comediante envelhecer bem. Não é só cá em Portugal, é em muitos sítios, porque a comédia é sobretudo uma arte jovem. As pessoas riem-se sempre mais em jovens do que em velhas. Mesmo um velho que se ria muito em jovem devia rir-se muito mais porque a idade tira-te uma certa ingenuidade, diria até uma certa ignorância, que provoca muito riso. O que agora me faz rir ou o que eu digo para alguém rir é diferente daquilo que fiz há 10 anos. E acho que há 10 anos fiz algo muito mais para rir do que alguma coisa que possa fazer agora. Por outro lado, agora também não me preocupo muito se muita gente ri daquilo que eu quero dizer. A idade também traz um bocado isso. não é? Aquele “estou-me a cagar”, ou seja, faço as coisas, tento fazer o melhor que posso, mas quando comecei com a comédia, na Revolta dos Pastéis de Nata e no Vai Tudo Abaixo, eu tinha um drive, de ser novo e de ser a primeira vez que fazia aquilo, que já não tenho. Aquele drive de estares a aparecer, de agora prepara-te para isto “pimba, toma lá”. Acho que não sou só eu, mas eu encaro isso com muita normalidade. É muito comum veres que o melhor trabalho de um comediante é no início da carreira. Acho que em quase todos isso acontece porque tu quando estás no início e és novo tens uma pureza que depois a idade e o facto de estares dentro, de tornar-se a tua profissão, etc., te vai desgastando.

Nas tuas personagens usavas muito as contradições. Essa fórmula começou a ficar desgastada?
Sim, também. A gente pode chamar-lhe fórmula ou estilo. Por exemplo, tens os Rolling Stones, que não fazem uma música realmente boa, não fazem um hino se calhar há 30 anos, no entanto têm um estilo. Ou o Sérgio Godinho, ele abre a boca e “ok, é Sérgio Godinho”. Na comédia isso também acontece muito. Só que na comédia, como na música também, as técnicas que tens são limitadas: tens o sarcasmo, a ironia, a paródia, a metáfora, a imitação... Na música tens o Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si, Dó, mais cinco meios-tons, e pronto, a partir desse manancial cada um constrói aquilo que quer. Podes ter cinco comediantes a dizer a mesma piada e todos vão dizê-la de maneira diferente. E às vezes o estilo pode ser uma prisão para a tua criatividade porque depois tens um público, que te sustenta, e quer aquele teu estilo. Cria-se um ciclo vicioso que muitas vezes é inimigo da criatividade porque às vezes para fazeres algo totalmente novo tens de estar preparado porque se calhar nem toda a gente vai apanhar. Quando falas dessa auto-censura é um pouco por aí, de pensar “posso fazer mas o pessoal não gosta”. Os sketchs que eu mais gosto não são os meus que têm mais cliques e que as pessoas mais gostam. Muitas vezes há sketchs que eu adoro e que ainda hoje às vezes vejo e me rio e depois tenho outros que eu acho “pronto ok, está fixe, mas não é nada de especial” e que o pessoal curte bué. Portanto essa relação entre o que é que as pessoas querem e o que é que tu gostas, muitas vezes acho que está aí o equilíbrio para ires sempre descobrindo coisas novas para fazer, dentro da comédia ou fora.

Como é trabalhar com um irmão?
É muita bom e é muita mau. É muita bom na medida em que temos uma química de irmãos, de olhos fechados, tem a ver com os tempos, eu já sei o que ele vai dizer, ele já sabe o que eu vou dizer. Não é preciso muito ensaio, arranca e está bom. Depois há aquelas coisas de irmãos e sobretudo quando tu trabalhas muito, e nós trabalhámos muito juntos, há um desgaste e quando é com um irmão é mais pessoal. Uma discussão já não é só uma discussão acerca da gola da camisa ou da cor do megafone, já há passado e nós tivemos essas duas coisas. Felizmente, houve alturas em que trabalhámos muitas vezes zangados, embora ninguém notasse, mas não andávamos muito bem. Depois deste recomeço, ali no Optimus Alive, tem sido muito mais divertido por causa disso, porque estamos os dois mais tranquilos, mais relaxados e isso para o riso é tudo.

Fotografia - Bernardo Coelho

E os Kalashnikov, podem voltar?
Os Kalashnikov é sempre do que nos pedem mais. São também outros que estão sempre actuais, há sempre guerra portanto os Kalashnikov estão sempre actuais. Não sei. É mais provável que voltem os Kalashnikov do que os Homens da Luta, isso sem dúvida, mas não está nos nossos planos a médio prazo, que nem um nem outro aconteça.

Vocês chegaram a tocar no Texas, no festival South By Southwest. Como é que aconteceu?
Inscrevemo-nos. O South By Southwest é um festival muita grande no Texas, como tu sabes, e tem uma secção onde permite que artistas de todo o mundo se inscrevam e que mandem os seus discos. Nós mandámos o nosso disco e fomos seleccionados. Era uma banda satírica, mas quem viu o concerto não sabia. Ali em Austin, isto em 2008, ainda com o Bush filho, de repente o pessoal que lá estava vê uns malucos todos fardados a entrar e a dizer “George Bush, Bin Laden, One Love One Family”, estava tudo de boca aberta! É daquelas que eu ainda hoje revejo e faz-me rir.

Foi durante o Vai Tudo Abaixo na América ou não teve nada a ver?
Não teve nada a ver. O South By Southwest foi em Março e foi quando tivemos a ideia de “se calhar, podíamos fazer uma série toda na América”. Na altura falámos ao Boucherie, o director da SIC Radical, ele gostou e arrancámos. O Vai Tudo Abaixo na América foi em Outubro desse ano.

Foi a última série e ainda voltaste a negociar com a SIC Radical. Qual era o passo depois da América?
A série da América não teve o retorno que a SIC Radical estava à espera e portanto deixaram-nos ali um bocado na prateleira, o que eu compreendo, é natural.
Tentou fazer-se mais um, mas na altura eles não deram abertura a isso.

Mas tinhas um conceito?
Ia ser mais do mesmo.

Não ia ser pela Europa ou assim…
Não, não. Ia ser outra vez aqui, era o normal: ver o que é que andava por aí, aparecer lá e fazer merda. Mas depois entrou a cena dos Homens da Luta, sobretudo em 2009, quando começa a crise a entrar cá, começou a cena dos Homens da Luta e a partir daí não voltei a fazer mais nada para a Radical. Só em 2013 é que fiz uma série como realizador, que foi O Humorista.

Fotografia - Bernardo Coelho

Chegaste a ter muita gente a trabalhar contigo.
Nos Homens da Luta, houve uma altura em que, como não tínhamos programa de televisão, tínhamos de arranjar outra maneira de chegar à malta e criámos uma banda. Fomos contratar bué da malta, nós às tantas éramos uns 17 em palco. Eu tratava de toda a parte estética, eu e o meu irmão tratávamos de toda a parte criativa, criar as músicas, as letras, as roupas, o conceito. Mas depois tínhamos uma agência, como qualquer banda, que nos vendia os concertos e na altura nós tivemos esses anos todos a viver, porque não tínhamos programa de televisão, dos concertos. Nós éramos uma banda que dava concertos.
E vivíamos disso, éramos uma banda que dava concertos.

E fosta à China para mandar fazer LPods, o leitor de MP3 onde vinha o álbum. Como foi essa viagem?
Foi uma experiência forte. Isto foi em 2009/2010. Nós decidimos fazer um álbum mas eu não queria em CD, na altura o CD estava morto e mais que enterrado, então lembrei-me que podia ser fixe fazer um leitor de MP3 com o símbolo dos Homens da Luta, que era a guitarra cruzada com o megafone, ao jeito de um iPod. Contactei uma fábrica chinesa através do Ali Baba, mandei o design, eles mandaram o protótipo, e depois fui à China para finalizar o negócio. Aquilo é surreal. O que eu vi, nunca mais vou esquecer. Fui eu e a minha mulher. Estivemos lá uma semana e tal, a acompanhar a parte final toda e a tratar da encomenda e do pagamento, e eu não estava preparado para aquilo. Shenzhen é uma cidade ali ao pé de Hong-Kong, cidade gigante, deve ter quase uns dez milhões de pessoas, que é onde se concentra a maior parte da indústria tecnológica. É lá que se fazem as máquinas fotográficas, os telefones, as televisões, tudo o que é tecnologia basicamente é ali. Aquilo é surreal porque o centro da cidade é uma cena bué da nova, uma cena bué moderna, arranha-céus, ruas largas, tudo espectacular. Começas a ir para o subúrbio, que era onde era as fábricas e esquece, aquilo parecia uma Cova da Moura: tudo em tijolo e cimento, tipo oficinas em todo lado, um feudalismo incrível. E nós lá fomos fazer o nosso L-Pod ali aos camaradas chineses.

Durante os dias que passaram na Eurovisão parecia que estavas numa realidade alternativa?
Aí ainda mais. O Festival da Canção, não sei se o pessoal sabe, mas se não sabe alguns já devem desconfiar, é um evento muito gay.

O da Canção ou o da Eurovisão?
O de cá é menos. Nós cá somos mais controladinhos, mas lá fora, e estou a falar da produção, da estética, muitos dos fãs, tudo aquilo é algo muito ligado à cultura gay e à comunidade LGBT, e na boa. O pessoal adora os vestidos e as canções e sabem as canções todas, tem tudo a ver com entretenimento. E um número como os Homens da Luta ali... A gente chegava lá e parecíamos uns leprosos que lá andávamos! Ainda por cima nós sempre mascarados, com tambores, aquele sal grosso, a entrarmos pelas festas deles adentro, pronto, erámos uns extraterrestres mal cheirosos que ali andávamos. Mas para nós, mesmo por causa disso, foi do melhor. Foi do mais divertido que há. Mas para tu veres um bocado o choque que foi os Homens da Luta, na Eurovisão, mesmo cá, passaram tipo seis ou sete anos que ganhámos e só este ano é que voltei a ser convidado para ir assistir ao Festival da Canção. Nem no ano a seguir, que éramos os detentores do troféu, fomos convidados! E houve aí um ano em que estava a ver aquilo e eles estavam a dizer os vencedores desde 1950 e tal. Depois 2009 não sei quê, 2010 não sei quê, 2012... alto! Há aqui um salto! Lindo, a sério! É das coisas que ainda hoje me faz rir. Ficou marcado, é uma cicatriz que lá ficou.

Chegaste a dizer que o Carlinhos, o machista gay, dava um filme. Também falaste num Em Busca do Cavalo Perdido, com o Ruce e o Reco. As personagens tinham mesmo uma backstory?
Tenho o guião do Em Busca do Cavalo Perdido praticamente feito já há muitos anos. Não sei o que vou fazer com ele, não tenho dinheiro para o fazer, não sei o que o futuro me vai reservar, mas a voltar a fazer algo com as personagens o que eu gostava era de fazer um filme, algo onde eu pudesse tirar uns meses para filmar, depois mais uns meses para editar e fazer uma narrativa mesmo de uma longa-metragem. E quase de certeza que seria o Ruce, que no fundo é o personagem com que tenho mais afinidade. Foi o meu primeiro personagem.

Na tua cabeça eles têm uma história?
Esse guião está feito.

Quando entrevistei o Nuno Markl ele disse-me que escrevia o Johnny Bigode para o Ai os Homens, aquilo era ums sketchzinho, mas na cabeça dele ele tinha uma vida, apesar de não ser usada em nada.
Mas isso é natural quando crias um personagem, de repente ele ganha vida. Quando crias algo com umas certas características depois é só dar-lhe experiências para ele viver. No caso do Ruce, tenho esse guião feito. É uma história que se passa num futuro próximo onde já não há cavalo, um mundo politicamente correcto, quase Orwelliano, onde toda a gente anda vestida de igual. De repente, o Ruce, que trabalha no McDonald’s, e está curado porque não há cavalo, descobre um mapa que parece de um sítio onde há cavalo. Vai buscar o Reco, o seu velho amigo, e arrancam os dois nessa aventura em busca do cavalo perdido. Está para aí, não sei o que vai acontecer, deixa ver. Duvido que o ICA dê dinheiro para isso, portanto se quiser fazer essa merda tenho de ser eu a pagar.

Fotografia - Bernardo Coelho

E era sempre tranquilo quando eram detidos?
Sim, regra geral sim. Nunca houve assim grandes... Quer dizer, ao princípio houve. Ainda na altura dos Pastéis de Nata fui condenado a uma pena suspensa por usurpação de funções. Ninguém me conhecia, estava a fazer de polícia na Amadora. Era um sketch, foi logo ali a seguir àquela cena do arrastão em Carcavelos, em 2005 para aí, e eu “ok, vou fazer um polícia racista”. Convidei uma série de amigos meus, blacks, e a gente filmou isto na Amadora, na estação dos comboios. A cena era: eles vinham, eu metia-me com eles, não sei quê, e as câmaras estavam escondidas para apanhar as reacções das pessoas que iam a passar. E eu: “preto do caralho, onde arranjaste esse relógio? Andas a roubar!” E eles: “Hey, senhor guarda, seu racista”, fazíamos ali aquela peixeirada. Alguém tinha ligado a dizer que estava um agente em perigo, por causa da discussão, na Amadora. Sei que de repente começa a chegar polícia de todo o lado: carrinhas, até aqueles carrinhos pequeninos da Escola Segura apareceram, tudo de metralhadora na mão: “O que é que se passa?” Começam eles a chegar todos, a câmara escondida e eu: “eu trato deles todos, estes pretos do caralho”. Bem, tudo para a esquadra. Pumba, usurpação de funções, pena suspensa. Mas depois quando comecei a ficar conhecido, sobretudo com os Homens da Luta, a polícia adorava-nos porque nós também íamos às lutas deles apoiá-los e o caralho. Eles tinham ordens para nos deter, tipo manifestações ou tomadas de posse, detinham-nos e nós íamos para a esquadra tirar fotografias com eles. Os gajos depois tinham de nos deter até acabar a inauguração ou o que fosse. Depois o pessoal: “Ok, já passou. Então vá, tchau”, e davam-nos um abraço.

Não voltaste a ter de ir a tribunal?
Continuo em tribunal por causa de coisas dessa altura.

E em termos de agressões, a do circo continua a ser a pior?
Sim, a pior. O pessoal do circo também não tem muito sentido de humor. Nós fomos lá fazer a Luta, aquilo era por causa dos animais, só sei que de repente sai de lá um ucraniano do circo, pega em mim, eu sou pequenino, magrinho, quase com as pernas no ar e ele assim: “agora vais para a jaula dos leões”. E eu: “ai, meu Deus, o que é que se está aqui a passar?”. Começámos todos a fugir deles e os gajos do circo atrás de nós. Partiram-nos câmaras... Uma palhaçada, foi o que foi.

A maioria das tuas personagens nasceram da necessidade de apresentar um sketch novo semanalmente na Revolta dos Pastéis de Nata. Antes disso lançaste um álbum como Jel e até aí não sabias música, mas tiveste o Nuno Gonçalves no disco depois de teres sido roadie dos The Gift. A tua carreira vai-se desenvolvendo por impulso e fruto dos passos que vais dando?
Ya. É a minha natureza. Se calhar, e muitas vezes me dizem, a minha mulher diz-me muito isso, que eu sou o pior gajo que há em termos de gestão de carreira. Mas é assim que eu sou. Gosto de fazer muita coisa e gosto de sair em alta. “Ok, está feito, embora vamos para outra”. Em termos de gestão de carreira isto é estúpido, podia ganhar muito mais dinheiro. Por exemplo, os Homens da Luta, quando acabou podíamos ir ganhar milhares de euros a discotecas e a festas, mas queria fazer outra coisa. É claro que para mim é muito importante ter a minha independência financeira, quer faça um documentário ou um vídeo de 360, que também os faço agora, quer eu faça um espectáculo ou seja barman. Sempre trabalhei, desde puto, portanto isso dá-me uma segurança de, sobretudo agora, que sou mais cota, de não fazer fretes. Basicamente é isso.

Isso dos vídeos 360 e Realidade Virtual nasceu antes ou depois dos documentários?
Nasceu na sequência do documentário que fiz dos 20 anos dos Gift. Andava a filmar e eles tinham o apoio da Samsung. E um rapaz lá da Samsung disse-me: “Epá, ó Jel, nós agora vamos lançar estes óculos”, eram óculos de Realidade Virtual, “queríamos alguém que fizesse uns conteúdos para isto e tal”. Fiz logo um ensaio dos Gift no Rivoli, fiz um teledisco de Blasted Mechanism, foi o primeiro teledisco em Portugal feito dessa maneira, em 360, e a partir daí tenho trabalhado bastante nisso mas mais uma vez por acaso, por uma dica. Sou muito assim, sou muito catavento nessas merdas.

Lançaste esses dois documentários, um sobre os The Gift e outro chamado Dia de Jogo. De onde surgiu essa vontade?
Sobretudo de fazer algo diferente na comédia. “Estou farto da comédia, quero fazer algo que não tenha nada a ver, mas que no fundo seja audiovisual porque gosto disso”. E então embarquei para Marrocos, eu e o Guilherme Cabral, o meu companheiro, ainda hoje de vários trabalhos.

Também conheceste por acaso?
Não, ele já trabalhava comigo. Trabalhou comigo no último programa dos Homens da Luta e editou comigo O Humorista, para a SIC Radical. E então pensámos: “vamos a Marrocos, vamos arranjar um miúdo que seja fã do Cristiano Ronaldo e vamos fazer um documentário lá com esse miúdo a seguir a cena”. E assim foi.

Depois a história haveria de aparecer?
Fomos lá, sem nada, arrancámos de carro, fomos lá para as montanhas, vimos uns miúdos a jogar à bola, parámos: “Quem é que é fã do Cristiano Ronaldo?”. “Eu”. “Então em que clube é que começou o Cristiano Ronaldo?”. Fomos fazer o casting, não é? “Sporting”. “És tu, caralho! Vamos conhecer os teus pais”. E ali estivemos meses nessa merda, a filmar sem perceber um caralho do que eles diziam. Chegámos com duzentas e tal horas em Árabe, tivemos de transcrever aquela merda toda, isso foi quase seis meses, depois editá-lo. Mas conseguimos vendê-lo à SIC, conseguimos ter uma distribuição internacional, o filme está farto de passar em festivais por esse mundo fora, já passou numa televisão marroquina, já passou numa televisão turca, já passou numa televisão chinesa. Por “peaners” como diz o outro, mas...

Como é que funciona nos festivais? Vai só o filme ou vais também passear?
Às vezes vou, quando eles pagam. Outras vezes não vou porque eles não pagam.

E isso dá dinheiro?
Não, não. O que me permitiu fazer isto foi a encomenda que a SIC me fez. Já o dos Gift igual e este agora que estou a fazer para a RTP 2, que é sobre os Pop Dell’Arte, também. Tens de ter um apoio para os documentários. Eu no primeiro, de Marrocos, ainda perdi dinheiro.

A cena dos festivais em si não…
Não, não. Os festivais são importantes para depois conseguires vender o teu filme a uma outra televisão. Só para tu veres, as televisões pagam na ordem dos mil euros por um filme, uma televisão marroquina ou uma televisão chinesa, e tu ainda tens de fazer a legendagem. Se não tens alguém que te apoie nisso é impossível fazeres.
A não ser que sejas podre de rico e faças só para curtir.

Ainda sabes do miúdo marroquino?
Sei, sei. Estamos sempre em contacto.
O Facebook ajuda muito nisso. Agora joga no Sporting de Chefchaouen! Já tem 15 anos, para aí. Nós cá não temos bem a noção do impacto que tem o futebol no mundo. É a grande exportação portuguesa sobretudo em termos culturais. Ali em Marrocos o Cristiano Ronaldo está a um nível só dele. Pára tudo para ver a bola, o pessoal é fanático, e eu já estive em sítios tipo Myanmar ou na China, chegas a qualquer lado e os gajos sabem os jogadores da Selecção, os Mourinhos, o Cristiano Ronaldo então... É gigante, é inacreditável. Em Marrocos, à hora da bola as mesquitas estão vazias e os cafés estão cheios, está tudo a ver a bola, e numa altura destas, de terrorismos e o caralho, eu acho que a grande arma que Ocidente tem no mundo Árabe em relação a influência na juventude para se opor ao fundamentalismo é o futebol, não tenhas a mínima dúvida disso. Acho que a malta da bola ainda não percebeu bem isso. No nosso filme nós tentámos evidenciar isso. Aqueles miúdos idolatram os jogadores, é incrível.

Também chegaste a querer candidar-te à Câmara de Lisboa e chegaste a fazê-lo mesmo em Cascais, linha em que resides. Não te sentes fora do habitat natural por lá?
Quando meto uma na cabeça, vai tudo abaixo. Não, porquê? Isso era se tivesse preconceito de classe. Embora haja gente de todas as condições sociais em todos os concelhos mas pronto, Cascais tem aquela fama de ser uma zona rica, embora também haja muita pobreza. Mas não, não tenho nenhum problema com isso.

Tens planos de te retirar da vida pública ou vais vivendo passo a passo?
Se queres que te diga, estou muito confortável em relação à vida pública como estou agora porque sabe-me bem, por exemplo, ligarem-me os gajos da TSF, e foi uma cena de surpresa, não estava à espera, e dizerem-me “Jel vem fazer…” Sabe bem dizer: “Foda-se, ainda alguém se lembra de mim, ó caralho. Ok, vamos lá fazer qualquer coisa”. Mas também me sabe bem já não ter aquela ânsia de: “Aqui estou eu”. Portanto estou num ponto confortável. E tirando aquele acidente que houve com os Homens da Luta e com a crise, acho que a minha natureza é ser alguém um pouco marginal, é ser alguém da franja e isso também se reflecte um bocado no tipo de artistas que eu gosto.

Mudavas alguma coisa no teu passado?
Se calhar não tinha ido a um convívio da Escola Secundária de Odivelas onde me aconteceu esta cicatriz aqui na cara, numa cena de porrada estúpida. Pronto, se calhar era isso que eu mudava. Tinha ficado em casa e era ligeiramente menos feio.

E sentes-te vingado ao ver os colarinhos brancos nos tribunais?
Sentia-me mais vingado se visse os colarinhos brancos mesmo na Carregueira, mas estarem em tribunal já é sem dúvida uma novidade para o que tivemos em tanto tempo, não é? E agora sabemos bem como é que era o esquema. Estou em expectativa de não morrer sem ver alguns de cana, embora não vá ser fácil porque de certeza que os processos vão arrastar-se muito tempo. Mas conto não morrer sem ver tipo o Sócrates a penar na Carregueira. Porreiro, pá!

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