Aos quatro anos já protagonizavas os filmes do teu pai e ainda mal na puberdade compraste o teu primeiro baixo.

Sim, a partir dos 14 anos quis usar cabelos compridos e a minha mãe fez um negócio comigo: emprestava-me um conto para eu ir a uma loja de penhores à Avenida de Roma comprar uma viola-baixo e eu cortava o cabelo. E assim o fiz. Fiquei tristíssimo, porque fiquei com o cabelo muito curto (que na altura era uma desgraça, era um sinal de não se ser trendy). Mas, essa viola-baixo mudou-me a vida completamente – é impressionante como a compra de um objecto a certa altura te marca o destino para sempre: eu estava a aprender violoncelo, e o facto de ter comprado a viola fez com que começasse a tocar baseado nas aprendizagens da escola clássica com os músicos. E a partir daí, começo a entrar no circuito, sou descoberto pelo Pedro Osório que me leva para um coro da televisão para o programa do Artur Agostinho, sou convidado para fazer Revista, chegam à conclusão que tenho muita piada e nunca mais parei.

Porquê escolher a via do humor? 0u era apenas um trampolim que ganhou vida própria?

Nós temos obrigação nas coisas artísticas de procurar aquilo que fazemos melhor, para sermos o melhor que pudermos ser. Percebi que era muito mais raro pessoas com sentido de humor e com as capacidades artísticas que eu tinha, do que jovens músicos – esses havia imensos e muito melhores do que eu.

E tornaste-te um cocktail de escrita humorística, música e representação.

A escrita humorística foi por outra razão. Eu só me conseguia rir com coisas vindas de Inglaterra e da América, como Monty Python ou Mel Brooks, e a escrita portuguesa era muito antiga porque não havia dinheiro. E então pensei, “vou escrever eu para ver se me divirto a mim próprio”.
O meu primeiro grande sucesso é uma escrita minha, o Tony Silva no Passeio dos Alegres. E o meu maior êxito até hoje continua a ser escrito por mim: o Nelo e Idália. Fizeram um best of e, modéstia à parte, estive a ver duas personagens a falar durante uma hora e pensei “mas que bem escrito isto está”. O trabalho que dá também é das coisas mais dolorosas do mundo.

Mas imagina que terias ido para Munique, como estavas a ser empurrado antes do 25 de Abril, e não terias tropeçado num Sr. Contente a caminho do Passeio dos Alegres: se não conseguisses vingar no cinema ou televisão, visualizavas-te noutra vida?

Eu seria de certeza absoluta um bom realizador de cinema. Tenho uma relação com a técnica impecável e uma interacção fortíssima com o material.

Fotografia - Bernardo Coelho

Com um tipo de criatividade tão peculiar, não equacionas no futuro a via do cinema como argumentista?

Talvez não, porque odeio escrever. Realizar, produzir e dirigir actores seria muito bom. A menos que a meio do percurso representasse também… Mas estou convencido que não, porque essa universidade para onde ia era de tal maneira importante, que parte substancial dos realizadores de Hollywood passaram por lá.

O facto de teres crescido como filho único moldou muito a construção
auto-didacta de todo o teu trabalho? Desde a composição de personagens, a imaginação sem limites para criares um mundo próprio…

Muito, porque eu era filho único no 8º andar, o que é diferente de ser numa vila ou numa aldeia que a gente atravessa a rua e vai brincar com os vizinhos. Quando és filho único no 8º andar, estás completamente sozinho e entregue à tua imaginação. Eu transformava o meu quarto em várias coisas: no submarino das 20 Mil Léguas, do Júlio Verne, depois de ver o filme que adorei; cheguei a transformá-lo também no Thunderbirds, que era uma coisa de ficção científica com uma nave, que comprava umas luzes e punha-as piscar… E sempre que recebia alguém, empurrava-os para dentro da minha brincadeira e passávamos o dia a representar. Portanto, a coisa artística está-me completamente agarrada à pele como se fosse uma doença.

E já aí corrias mais depressa que o tempo, ao brincares com gadgets e as bobines do teu pai, que tornaram a tua entrada no Snapchat e Instagram algo natural.

Sim, eu devo ser o único miúdo que aos quatro anos já montava e sonorizava filmes de 16 mm. Tenho uma relação com a técnica de paixão profunda e brincar com os filtros do Snapchat e fazer posts, é de uma normalidade total, é aquilo que sempre fiz na vida.

E como é que depois de tantas personagens lendárias que retratavam a sociedade portuguesa, ainda te consegues reinventar sem desvirtuar a tua própria mitologia?

O truque de qualquer criador é ficar sempre espectador. Deves sempre fazer as coisas contigo sentado na primeira fila para te espantar e nunca por outras razões, do tipo “Não estou a achar piada nenhuma, mas vou fazer para eles comprarem e gostarem”. Quando isso acontece, parte-se qualquer coisa. Já houve fases em que tive que fazer isso e umas vezes correu bem, outras correu mal. Mas, hoje em dia – e também por estar na RTP, há a vantagem de não sermos pressionados com os pânicos das audiências, os critérios são mais latos e mais artísticos –, tenho a felicidade de fazer aquilo que acho que devo fazer para chegar às quartas-feiras, sentar-me em frente à televisão e adorar ver-me.
A mesma coisa nos posts que vou fazendo, depois quem quiser gostar comigo, melhor ainda. A partir do momento em que achamos que não vale a pena olhar para o lado para ver o que se faz de novo e achamos que somos mais importantes que a mudança da história, começa a decadência. “Eu sou muito giro, muito importante, sei muito bem o que estou a fazer, portanto não me vou vergar a nada”. A história não pára para nos deixar passar, é um comboio que anda a uma velocidade louca e temos que nos manter agarrados na carruagem, preferencialmente em primeira classe. [risos]

Daí também as ideias não se esgotarem. Apontas episódios insólitos para criares depois os conteúdos?

Tens que estar muito atento porque a própria vida é que dá informação. Um dos grandes erros foi ter deixado os espectáculos ao vivo e o contacto com as pessoas. Eu não sabia fazer o sotaque da Madeira, e de há 10 anos para cá, não estou tão bom como a Rueff que tem o sotaque dentro da alma, mas já sei. É da estrada que me alimento. E se não estás sempre a meter informação cá para dentro, não podes criar, porque falta-te a matéria-prima.

Sentes que este teu hobby das redes sociais, ao tornar-te novamente trendy e apetecível para as agências de comunicação, está a transformar-se num trabalho?

Não. Ajuda-me na promoção da minha linguagem, mas não considero trabalho. Não quer dizer que não venha a ser um dia. Os meus preços para publicações profissionais nas minhas páginas são relativamente inatingíveis. Não passo o tempo a abrir caixas e a tirar peúgos, nem a dizer “Ai, que bom é este creme!”. Quando lá chegar, é sinal que os preços praticados vieram ter comigo, mas por enquanto ainda estão longe.

Mas, apesar de ainda não seres adepto do «unboxing», tens a necessidade de alimentar muito a página.

Tenho, para mim. Porque me diverte.
É um problema meu, não do mercado. Na televisão não, é hard work para cumprir o contrato e fazer o melhor que sei e posso. As redes são minhas, se me apetecer parar uma semana, páro e se me apetecer apagar a conta, apago.

Fotografia - Bernardo Coelho

Conquistaste uma nova legião de hermaníacos e suprimiste o décalage geracional. A aprovação deste público da era pastilha elástica é especialmente revigorante?

É muito giro, porque a natureza isso faz bem. Os velhos chatos morrem, o que é muito saudável [risos], e das pessoas novas que vão nascendo, há 3 grandes grupos: um é profundamente burro e tem os youtubers, que comem pastilhas, detergente, saltam, são felizes – e têm todo o direito; outro é completamente indiferente a tudo; e há um grupo que se interessa muito pela nossa vida. Este último terço é muito vivo, muito esperto, muito curioso, interessa-se por mim como pela obra do Saramago, em querer saber quem é o Woody Allen e quem era o Vasco Santana.

E muitas vezes devem ser eles que influenciam os próprios pais.

Exactamente! Não imaginas, nos espectáculos, quantos miúdos me dizem “Os meus pais não queriam vir, eu é que os obriguei, porque a minha mãe gosta é do Fernando Mendes”. Esse terço de juventude que me segue com uma intensidade, uma coisa querida de quase familiar, emociona-me e dou-lhes muita atenção. Têm uma relação comigo de chorar a rir, alguns manda-me mensagens assim: “Meu, esta música é o quê?” e eu digo “Depois mando a cópia do disco”; “Ya, ‘tá-se bem. Olha vou-te ver ao Porto, eu depois digo ya”, respondem eles. Isto é normalíssimo, está ali o tio Herman. [risos] É tão revigorante. Claro que não renegas as gerações mais antigas, mas o encantamento da descoberta tem uma luminosidade que o fastio de quem já viu muita coisa não tem. As pessoas que me acompanham desde os 18, se eu fizer o sotaque do Porto dizem “Ah pois, isto é o Esteves”, uma pessoa nova diz “Ai que sotaque tão giro, porque é que será que ele faz?”. E esse fascínio é muito criativo.

Mas com a dispersão de canais e meios de entretenimento, será ainda possível recuperar a magia da caixinha mágica e colocar um país a repetir frases de um programa?

Nos anos 2000 achei que já tinha acabado e ainda consegui fazer o Nelo e Idália e pôr o país todo a dizer “resmas e paletes de gajas”. Ainda acontecem coisas curiosas, como com a Bicha Festivaleira, em que andava na rua e as pessoas diziam “Hello peoples, everybody else?”. Portanto, é possível pontualmente, dura é pouco tempo. É tudo muito rápido, como os escândalos: és apanhado na praia a fazer amor com um chimpanzé, és capa de todos os jornais, a tua família fica destruída… na próxima segunda-feira já não se lembram, já está a acontecer outra coisa. Não desgosto, torna as coisas menos graves e mais democráticas. Antigamente era tudo pesado, lembro-me dos escândalos que tive com a igreja, quando suspenderam o programa, durava meses!... Estive 8 meses proibido de entrar na televisão. Hoje em dia, passadas duas semanas acabou. A Jessica Athayde disse no outro dia por brincadeira que queria muito ter uma menina, mas como vai ter um menino que espera que seja bicha. Ficou tudo ofendidíssimo!... Durou 48 horas. A Margarida Rebelo Pinto quando esteve com a Sara Tavares disse que não era dada a amores coloridos. Um escândalo!! “Que horror, como é que aquela mulher pode ter dito aquilo, coitadinha da Sara!”: 48 horas. Apesar de tudo, essa rapidez tem alguma piada.

O épico derradeiro episódio da Roda da Sorte é fruto de uma era irreversível de liberdade de julgamentos em praça pública virtual?

Para eu ser completamente justo, ordenar uma sociedade com leis e limites é essencial porque o ser humano é muito abusador. Um jovem a entrar num estúdio com uma caçadeira com zagalotes e desatar a dar tiros a um palmo do nariz de pessoas… não deveria ser muito legal. [risos] Mas, na altura não estava regulado. Da mesma maneira que não era legal ir a 280 km/h para o Algarve, e eu ia.

E o Toy também. [risos]

Eu ainda ia mais porque o meu carro ainda dava mais que o do Toy. [risos] Tinha um BMW M5 sem limitador, depois um Z8 que dava 311 km/h. As coisas mudaram. Antigamente, os maridos davam uns grandes safanões nas mulheres “para ver se elas aprendiam a ser decentes” e hoje já começam a não poder. Portanto, eu sou a favor da organização das coisas. Era daqueles que era feliz a viver em Monte Carlo, onde há 1500 polícias. Mas sabe bem poder transgredir, é maravilhoso. E nos anos 90, ainda deu para transgredir muito. Há comportamentos próprios da juventude horríveis, que a gente fazia só para chatear. Depois começamos a deixar de fazer um bocadinho. Mas, o ser humano se o deixarem à solta é uma desgraça.

E esse tesourinho da caçadeira em riste (curiosamente 15 anos antes de Conan O’ Brien destruir o seu estúdio com um machado quando a NBC acabou com o Late Night) estava há muito planeado ou a RTP dava-te sempre quase total liberdade?

Esse final foi muito benigno. Acabei a Roda da Sorte para começar um concurso meu, foi uma destruição de felicidade. As motivações do Conan foram outras, mas igualmente libertadoras. Eu sempre gostei muito de partir cenários. Neste caso, foi completamente espontâneo: “Olhem, amanhã trago uma espingarda” e eles acharam que era uma pressão de ar. Depois ficou tudo meio espantado, mas o mal já estava feito. Toda a gente estava encantada, menos os concorrentes que estavam a tentar jogar, coitaditos, para ganharem o prémio.

Hoje as opiniões são mais vincadas, mas homogéneas. Achas que o politicamente correcto é incendiado por um pensamento acrítico massificado pelas redes sociais?

Acho que o Facebook responde às portas de casa-de-banho de antigamente. Entravas num restaurante, sentavas-te na sanita e punhas-te a ler coisas, “A outra anda a comer o patrão”; e os cobardes escreviam o que lhes apetecia. E o Face tem um bocadinho essa vertente ainda do cobarde, que com o perfil falso incendeia. As pessoas adoram ser hipócritas, faz parte do jogo social. “Era incapaz de ser infiel”, diz ele a caminho da secretária com quem está já há dois anos. Esse jogo ajuda a criar essas falsas unanimidades. Faz-me lembrar uma pessoa aqui do estúdio, eterna defensora das liberdades e das igualdades, e no outro dia estava de rastos porque o filho tinha uma namorada africana. De repente, os critérios tinham mudado porque tinha medo de ter netos de cor. Isto é a essência do ser humano. Nós adoramos cavalgar ondas de hipocrisia. Eu nunca fico desiludido porque estou sempre à espera do pior, desde sempre. Só me choco quando descubro uma pessoa francamente boa.

Mas porque tiveste uma grande (des)ilusão?

A própria evolução do ser humano foi destruindo. “O teu castelo é mais bonito que o meu, vou-te matar a família e fico-te com o castelo”; “preciso de aumentar as minhas fronteiras, vou matar estes todos”; não gosto daquela raça, vou matá-los”. Quando descubro pessoas luminosas fico chocado ao contrário, fico histérico de feliz e tento rodear-me delas. A maldade não me espanta nunca. Mesmo aquelas notícias do Correio da Manhã, eu acho normal. É engraçado, o ditador que como está velho e doente começa a matar cada vez mais gente – essa é a génese do ser humano. Os Nelson’s Mandela’s deste mundo é que me deixam totalmente de boca aberta. São uma minoria maravilhosa e, precisamente, quem nos faz acreditar no futuro. Agora, o ser humano na sua maioria não presta.

Sentes uma necessidade maior de fazer exercícios de cedência aos limites do humor?

Eu sempre fui muito crítico. Hoje até tenho princípios muito rígidos. Não gosto de bater em quem está em baixo, não acho piada a fazer humor à custa da desgraça alheia. Gosto sempre que a gargalhada seja mais benigna do que destrutiva. Tenho os meus padrões de autocensura muito elevados, às vezes um bocado desconfortáveis porque é muito mais difícil ter piada assim, não é? Fulano tal é preso às 17 horas e uma hora depois já estás a contar anedotas sobre o desgraçado que está preso, mesmo que seja inocente. Eu gosto de me meter com eles antes de estarem presos, quando têm poder e estão na maior, aí é que é divertido. Quando eles são apanhados, já não me apetece.

Mas ultrapassaste muitas barreiras, quando o mundo ainda era cinzentão. A televisão polida de hoje é que contribui para a sua gradual decadência?

Depende muito também da tua capacidade de dar o corpo às balas. Quando a pessoa tem 30 anos, tem uma infinita capacidade de sofrer, entrar em discussões enormes e ser verbalmente agredido em crónicas. Hoje, não tenho tempo nem saúde para estar com guerras que não levam a lado nenhum. O que me apetece mesmo é criar bem-estar e gargalhadas, preferencialmente sem polémicas. Mesmo assim, às vezes acontece, involuntariamente. Os grandes militantes que vão para as frentes de batalha não são senhores de 60 anos, são miúdos que acreditam nas suas teses. Não vês senhoras de tailleur Chanel com a vida organizada a mandar coquetéis molotov; podem quanto muito mandar uma garrafa de Chanel Nº 5 só para se vingarem. [risos] Eu estou um bocadinho nessa fase, sou uma dondoca a mandar garrafas de perfume aqui e ali. [risos] Já não me apetece pegar na metralhadora e desatar aos tiros. Não sofro com esta época. “Ai coitado, não tem liberdade” – tenho a liberdade que quero e chega-me.

Não sofres pela perda do carácter orgânico.

No outro dia queríamos fazer uma cena de acender um cigarro e não se pode. Ou quero abrir uma garrafa de vinho à tarde e também não podes beber. Mas, ainda a semana passada estava a fazer a Maria do Céu Santo a entrevistar três prostitutas e desmanchámo-nos a rir que nem uns doidos a meio e ficou assim gravado. Ainda há muitas liberdades que se podem usar. Há outras que são de organização politicamente correcta que às vezes são ridículas mas lá está, são os novos tempos.

Detinhas o monopólio do entretenimento e depois surge o fenómeno das embrionárias Produções Fictícias, que escreviam justamente para ti. Geriste bem este ziguezaguear na carreira porque o barco criativo era demasiado solitário?

Eu naveguei muitos anos e quando estás no meio de uma tempestade, uma certeza tens: aquela tempestade não é eterna, o que interessa é a qualidade da travessia. Eu produzi, trabalhei e contruí tanto, que quando os meus próprios autores saem para constituir os Gato Fedorento, o mercado vê ali uma espécie de “upgrade para o Windows”. Houve um fenómeno de transferência em que eles eram trendy, e eu, mesmo tendo continuado a fazer o que podia, era as calças à boca de sino que se deixavam de usar; e tive a certeza absoluta que ia chegar uma altura que se metiam outra vez na coleção de alta-costura. É assim que o mercado funciona e foi assim com todos os grandes criadores do mundo. Só quem não acompanha a história das carreiras longas é que acha que não há momentos naturais de queda. Até com o Sinatra, de repente, “esquece que estão ali os Beatles e o Andy Williams”.
A história tem o seu próprio andamento e olha, nesta viagem não tenho lugar em primeira classe? Ok, vou lá para trás à espera que haja lugar vago.

E como vês esta nova febre de humoristas, para os quais ainda és assumidamente uma inspiração?

São todos muito generosos. No Chuva de Estrelas, toda a gente fazia de Whitney Houston e de Elton John, e nunca houve tantos cantores na vida. Depois o mercado, naturalmente, centrifuga os que não interessam.
E na comédia estamos um bocado nessa fase. Nunca houve tanta rapaziada no stand-
-up: tournées gigantescas, fazem cartazes, são muito giros, uns têm barba, outros não têm… [risos] Daqui a uns tempos, liga-se a centrifugadora e a maior parte volta para segurança do Pingo Doce, para as respectivas boutiques e vão ficar obviamente só os muito bons. Mas ainda há muitos convencidos que são muito artistas, que nascem espontaneamente no YouTube a dizer meia dúzia de piadas, imitando-se uns aos outros e a fazer copy-paste de textos internacionais de George Carlin. Durante uns tempos a coisa vai funcionar, depois no meio dessa miudagem há uns verdadeiramente talentosos, que se percebe à distância.

E eis que a caminho do meio século de carreira, tens este mês o teu primeiro espectáculo a solo no Coliseu, quase ao jeito de Amália.

As minhas razões são parecidas com as da Amália. Não era falta de prestígio, mas ir ao Coliseu implicou uma decisão daquelas resolutas, tipo “vamos deixar de tomar açúcar para baixar os diabetes”; porque tens que estar com alma para as entrevistas e a própria gestão do espectáculo, e estou muito feliz porque tivemos que abrir mais um dia porque o primeiro voou e os preços dos bilhetes não eram propriamente meigos.

É curioso as pessoas ainda julgarem que é o grande pico da tua carreira. É apenas uma celebração da reconquista do lugar na estrada há 10 anos?

Muita gente me diz “Ai finalmente, que grande honra”. Fazer o Coliseu é quase como preparar uma festa de anos, não se ganha dinheiro. É um acto de amor e homenagem às pessoas que gostam de nós. Mas, sobretudo, uma maneira de comemorar a melhor decisão que tomei na vida, a de voltar à estrada. Qualquer pessoa pode alugar o Altice Arena ou o Estádio da Luz. O que move aqui é a coisa artística e simbólica.\

Fotografia - Bernardo Coelho

Decidiste não ser um espectáculo filmado para não cortar a liberdade de palco. “Ao serviço do entretenimento” terá sempre aquele carácter de imprevisibilidade com um Herman?

Isso custa-me imenso, porque adorava. Há coisas que não podem ser captadas em imagem, ficam violentíssimas. Eu tenho uma piada em que o Nelo está a contar à filha o que é um escroto e compara a pele com a carinha do Charles Aznavour. Se eu disser isto para uma plateia, as pessoas riem; isto gravado é uma ofensa eterna a um dos maiores nomes da canção. Uma coisa é ir parar ao YouTube, mas quando as coisas estão gravadas formalmente passam a ser statement. Já gravei um espectáculo no Tivoli e a minha expressão é de constante preocupação.

Imaginas-te a ser feliz agora só em estrada, sem televisão, por alguns anos?

Isso não, a televisão é essencial. Eu gosto muito de pensar no futuro e no palco as pessoas não envelhecem, toda a gente tem a idade da sua voz e da sua inteligência. Na televisão não, mas vejo-me a fazer programas de entrevistas daqui a uns anos, quando os bigodes já não colarem e as personagens já não fizerem sentido. Nem preciso de um canal generalista. Adoro conversar com pessoas. E quantos mais anos tens, mais conhecimento tens dos próprios pormenores dos teus convidados, alguns até viveste com eles. Aí é onde acho que a juventude não tem interesse nenhuma – peço-te imensa desculpa, além de bonita, és nova. Mas o que é que me interessa o que uma pessoa de 30 anos pensa da vida? “Ai… Quando tinha 24 fui fazer uma viagem à Tailândia! ” ou “Ai tive um grande desgosto de amor aos 28”… E?

Pode-se ter uma alma velha.

Sim, mas não tens uma história de vida interessante. No outro dia, estava a ver o Daniel Oliveira a entrevistar a Lia Gama e fiquei coladíssimo. Ouvir falar uma senhora do alto dos seus 70 e da sua experiência é absolutamente fascinante, é como estar a ler um romance. Já um bom entrevistador pode ser novo, desde que se prepare, como é o teu caso. Mas, dos entrevistados, quero lá saber o que é que o Justin Bieber pensa ou a Ariana Grande. [risos]

E em retrospectiva do teu trabalho de televisão, se só pudesses escolher uma das tuas criações para ser preservada numa cápsula do tempo, qual seria?

O Herman Enciclopédia foi talvez o programa mais rico onde usámos mais cenários e mais actores. Como eram episódios temáticos, escolhia aquele sobre o português, metia-o numa cápsula e esse podia ser o meu exemplo de excelência artística, excelência de escrita (foi o nascimento das Produções Fictícias) e excelência de actores: a Rueff já actriz consolidada, o José Pedro Gomes e o Miguel Guilherme no seu auge, o Joaquim Monchique no princípio da sua maturação e a Lídia Franco. Era tudo bom.

Achas que as saudades são só do “velho Herman” e dos programas de culto ou é a nostalgia evocada desses tempos de felicidade jovial?

Não se pode separar. Há umas músicas dos Beatles que são uma perfeita merda, como o She Loves You, que é uma música primária com uma letra de caca, e quando a minha geração a ouve acende-se uma luz; estamos a ver-nos com 12/14 anos nas festas dos amigos a dançar Beatles, twist, percebes? Muitas vezes, as memórias tornam a coisa passada muito bonita. Por isso, quando vou ver coisas minhas antigas na RTP Memória, vou sempre com muito medo. Mas felizmente há casos, como O Tal Canal que marcou a geração que tem agora 50 anos, que é um grande programa de televisão, cheio de ritmo e ideias.

O Casino Royal também, numa atmosfera mais cinematográfica.

Sim, era menos popular, mas visto à distância, orgulho-me imenso. Orquestra muito bonita, óptimas representações. Portanto, no meu caso específico, acho que me posso dar ao luxo de evocar com saudade coisas que fiz porque me deixam orgulhoso. Há outros casos em que realmente o encantamento do produto é mesmo só reviver o passado.

Ao longo dos muitos talkshows que apresentaste, tiveste oportunidade de entrevistar grandes personalidades internacionais, como Roger Moore ou Christopher Lee, muito antes de Portugal ser moda. Como é que escapa agora uma Madonna?

A Madonna teve uma relação com Portugal de total ausência de paixão. Por exemplo, o Cliff Richard foi viver para o Algarve, é amoroso para os seus vizinhos e quando veio para cá era hiper vedeta. Portugal para a Madonna foi mesmo como quem aluga um cottage algures num resort e não quer saber o que é que está à volta. Sabe que gosta do quarto e da praia, mas não teve qualquer interesse no país. Isso também me desmobilizou. Com um bocadinho de esforço – uma vez que temos amigos comuns e estive com ela numa festa aqui em Lisboa –, eu poderia ter conseguido porventura, mas acho que as coisas só têm piada se houver vontade de ambos. Todos os convidados internacionais que tive vieram porque queriam.

Muitos dos contactos eram mesmo teus?

Nem precisavam de ser, porque depois a coisa corria automaticamente. O Julio Iglesias adorava vir cá, o Sting foi uma simpatia enorme, a Shania Twain foi encantadora, assim como a Gwen Stefani, a Anastacia, os Roxette. Lanchei com o Roger Moore uma tarde inteira em Seteais, o Tony Bennett fez um retrato meu e convidou-me para ir almoçar a Nova Iorque, a Joan Collins convidou-me para ir aos anos dela… A única que veio só por dinheiro e se esteve completamente a cagar, a quem eu chamaria de Madonna 2, foi a Cher: estava só preocupada no hotel, contou as notinhas à minha frente a ver se o dinheiro estava certo e cagou. E acho que a Madonna é uma versão ainda pior que a Cher, com muita pena minha, porque seria interessantíssimo. Até o Elton John que teve uma chatice cá com o Casino porque fumaram na sala e não fez o espectáculo, acabei por entrevistá-lo em Las Vegas e foi inexcedível de simpatia. Nesse aspecto, fiquei francamente com pena [pela Madonna]. E todas as pessoas que lidaram com ela dizem que não tem qualquer interesse em interagir com ninguém.

Mas continuas a alertar para as nuances da exposição ultra mediática.

Vendo o lado dela, não sei se eu não teria vontade de fazer parecido. Ninguém faz ideia do que é ser famoso àquela escala. Chegas à Índia e tens cantores que não podem andar na rua, mas quando cá vêm ninguém sabe quem são; chegas à China e tens artistas que enchem estádios, cruzas-te com eles em Londres e achas que é um chinês qualquer a comer um hambúrguer; figuras como a Madonna ou o Cristiano Ronaldo não têm onde estar à vontade. E se juntares os sustos de segurança, como um bêbado que lhe manda uma garrafa para cima, ou uma pele que parece verdadeira e o grupo da PETA manda-lhe sacos de farinha, ou um maluco que lhe aperta o pescoço, há essa vertente do pânico. Por não ser assim, é que o John Lennon morreu. Se fosse um bocadinho mais Madonna, estaria vivo.

Ou o Gianni Versace.

É verdade, são fenómenos paralelos.
E eu vi os dois, um em Nova Iorque e outro em South Beach, a tentarem ser pessoas normais. Lembro-me de ter pensado se arriscaria estar a folhear um jornal numa esplanada a fingir que sou normal.

Dos que já cá não estão, quem é que faltou entrevistar?

A Elizabeth Taylor. Fui convidado com a Ruth Rita para ir à Disney World em 91 e a Taylor ia apresentar os prémios. Fui de propósito porque achei que ia finalmente estar com ela e a única coisa que vi foi um centímetro de altura, porque meteram-nos num estádio e ela estava lá em baixo.

Cá por Casa, no plano perfeito, sem limitações de budget e dos tempos:
farias algo de diferente?

Adoro fazer este formato. Gosto tanto desta mistura de conversa, de humor, de criação, de música. E vou ter um desgosto enorme quando me for encomendado outro. O que vai ser inevitável, porque nada é eterno.

Depois de um 2º lugar a caminho da Eurovisão em 83 e com o arrojo nacional a mudar, consideras voltar a concorrer ou já só queres mesmo dar pérolas à bicha festivaleira?

Ainda não calhou. Também nunca ninguém me falou no assunto. Mas diverte-me que o Festival da Canção tenha renascido um bocadinho.

A condição de dar provas permanentemente, neste meio, convive bem com o teu modo workaholic ou preferias desfrutar do teu merecido lugar ao sol?

A comediante Joan Rivers morava num apartamento de 1500 m2 com vista para o Central Park, e quando lhe perguntaram “Porque é a menina trabalha tanto?”, ela respondeu “Porque me apetece viver aqui. Quando me apetecer viver num T2, ver televisão e esperar pela morte, deixo de trabalhar tanto”. O meu fenómeno é precisamente o mesmo.
A vida para mim só tem interesse nesta corrida. Quando um dia desistir, é para desistir de vez. Então aí a pessoa pega numa mantinha, vai para a Casa do Artista e não se chateia mais.

E apesar de condecorações do Mário Soares, o Esteves no Museu FC Porto, Globos de Ouro, aviões da RTP a dar-te os parabéns… nunca te sentiste rei por teres feito carreira num país pequeno. Porque é que não trilhaste caminho para um reconhecimento internacional de um Peter Sellers ou Oprah Winfrey?

Eu sei o que é que me faltou… as coisas corriam-me bem demais aqui. Os pais ideais, o sucesso para poder viver bem, carinho, amizades… E a pessoa está tão confortável em frente à lareira, vais para a neve fazer o quê? Todos os fenómenos de pessoas que tiveram coragem, como o Joaquim de Almeida, Daniela Ruah, Ricardo Pereira, tiveram razões profundas de inquietação que serviram de mala para saírem. E, às vezes, é preciso uma crisezinha para termos a vontade de dar o salto. As minhas crises já foram tarde demais, eu devia tê-las tido aos 20 e tal anos para fazer essa experiência.

Mas não te queres tornar num inquilino a gozar de um estatuto imortal. Legado da resiliência dos teus pais?

Se a natureza se encarregar de nos exterminar, como acontece infelizmente com imensa gente nova, o assunto está resolvido. Se isso não acontecer, temos obrigação de nos preocuparmos com a arte do próprio envelhecimento. Tem de haver uma lógica, uma estética. A minha mãe tem um cuidado com ela muito interessante; mesmo a almoçar em minha casa, antes de se sentar à mesa, vai arranjar-se para estar impecável. Tenho uma grande admiração por essa disciplina. Estou nos 65 anos e já vejo a minha geração a cair aos bocadinhos. O grande objectivo de uma pessoa com a minha idade é a manutenção da qualidade de vida, intelectual e artística. Já não há aqueles sonhos de “Ai um dia destes vais ver, ainda vou…”. Agora não é altura de ir, de deixar os meus cães, a minha casa e o meu equilíbrio. Não me apetece começar nada do princípio. O que falta fazer é mesmo transformar cada dia numa pequenina obra de arte. Porque temos a noção, muito mais do que uma pessoa nova, de quão finita é a nossa existência.

Fotografia - Bernardo Coelho
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