Gostas de fazer teatro de revista ou simplesmente funciona bem e ajuda a pagar as contas?

Gosto, eu gosto de todo o teatro. Em 51 anos já fiz todo o género de espetáculo, desde os clássicos, do Shakespeare até ao teatro moderno, ao teatro vanguarda, às performances, já fiz todos, todos, todos os géneros. Aliás, comecei na Casa da Comédia como encenador e era um teatro de vanguarda e de polémica naquela altura. Mas sempre tive uma paixão por revista, os meus pais eram alentejanos e vinham de propósito a Lisboa para ver revistas, e era aquela época da Laura Alves, do João Villaret, do António Silva, do Vasco Santana e de facto aqueles actores tinham tanta força que arrastavam milhares de pessoas de todo o país. A revista tem uma coisa muito fascinante, é um espetáculo altamente incómodo para o poder, porque satiriza. Por exemplo, na República das Bananas damos pancada forte e feito à direita, à esquerda e ao centro, e o público português gosta muito de se ver retratado e de ouvir coisas que não tem coragem de dizer, é o que acontece muito. Não fiz muitas na minha vida, é engraçado, fiz foi uma grande revista, que foi o Passa Por Mim no Rossio, no Teatro Nacional, que revolucionou tudo. Depois nunca mais fiz revistas, fiz todos os musicais clássicos, e fiz agora a Grande Revista à Portuguesa, o Portugal à Gargalhada e A República das Bananas, fiz esta trilogia de revista porque acho que o que se passa em Portugal de facto é a república das bananas. Por exemplo, todos os dias tenho que actualizar o texto, porque passam-se coisas tão caricatas, é tudo engraçado e trágico.

Vai sendo actualizado?

Todos os dias, chego e digo aos actores. Quando estreio a revista era a Assunção Esteves, agora é o Ferro Rodrigues e há mesmo um número que é a Assembleia... Existe sempre muito que criticar, e o público vê-se retratado. É um espectáculo dificílimo de se fazer, para o actor é o mais difícil. Vejo bons actores que não fazem este género de teatro há muito tempo ou nunca fizeram e têm uma grande dificuldade, porque têm de fazer em força, como se estivessem a pegar num touro. Ali não há rede, um trapezista sem rede se cair ao chão morre de vez, e é isso o fascínio da revista. Depois é a grande festa, consegui que o público voltasse a este género de teatro que estava já muito ultrapassado e moribundo. Milhares e milhares de pessoas, vêm camionetes de todo o país. Curiosamente também vêm muitas pessoas de Espanha e a população flutuante de turistas também vem muito à revista, porque tenho sempre a tradução simultânea dos espectáculos. É uma experiência engraçada, não vivo de subsídios, nunca vivi na minha vida, portanto tenho sempre de contar com o público.

Esse fenómeno das excursões é uma coisa espontânea?

Completamente espontânea, são as pessoas que se organizam. Isto começou tudo na Amália, que foi um grande fenómeno, esteve seis anos em cena, foi representado aqui e em toda a Europa, em Paris, na Suíça e em muitas cidades e isso fez com que as pessoas por si se organizassem para virem a Lisboa, tal como os meus pais faziam, ver os espectáculos do La Féria. Acho que para eles já tanto faz ser A República das Bananas como o Macbeth, querem é ver um espectáculo do La Féria. Tenho sempre essa espada sobre a minha cabeça, nunca posso desiludir os espectadores, porque eles têm sempre de voltar.

A revista tem regras?

Tem, é um espectáculo com uma enorme tradição. Nasce no século XVIII em Paris e é sempre um teatro contra o poder. Começa não na cidade mas na periferia e essa tradição depois veio para Portugal, os primeiros teatros de revista do século XIX são nas feiras da periferia de Lisboa, em teatros desmontáveis. Na Grécia a comédia era proibida nas cidades, só a tragédia podia ser representada. Porquê? Porque a comédia incomoda sempre o poder, a comédia ri-se e não há nada que irrite os poderosos como nos rir-mos da cara deles.

Depois de Amália não tens vontade de pegar em outros mitos nacionais, como Salazar, Sá Carneiro ou Eusébio?

O Salazar tenho de fazer, sim, sim, desses três a figura mais fascinante é a do Salazar, porque a própria figura dele nunca foi bem tratada. Vi séries extraordinárias na televisão sobre o Franco, o Hitler também tem filmes que nunca mais acaba, mas nós temos sempre medo de encarar o que foi a nossa história. Não a podemos matar e o Salazar é uma figura de facto de tragédia e ao mesmo tempo eminentemente teatral.

Estás com três peças em simultâneo, duas no Politeama e uma no Casino Estoril. É fácil garantir que tudo corre bem?

Corre muito bem, da República das Bananas só temos bilhetes para Janeiro, está tudo esgotado. O Tarzan é um espectáculo que adoro, adoro fazer espectáculos para infância e juventude, e acho que é um espectáculo de nível internacional, está muitíssimo bem interpretado, são jovens acrobatas, músicos, cantores extraordinários e de facto é uma prenda que se dá às crianças e aos adultos, porque o Tarzan é uma história aparentemente muito simples mas ao mesmo tempo muito séria. É uma análise ao comportamento do ser humano perante os outros animais e perante si próprio, uma história lindíssima e um espectáculo em que eu tenho orgulho, como raramente se fez em Portugal. E no Casino Estoril tenho A Noite das Mil Estrelas, que conta a história do Estoril, que quer dizer terra estéril, e um homem, o Fausto Figueiredo, imaginou e arriscou toda a sua vida, até estar próximo do suicídio, para fazer a Riviera Portuguesa. Para os sonhadores Portugal é um país mau, o português é muito cobarde a arriscar e os poucos que arriscam têm sempre histórias um pouco tristes e dramáticas.

Depois de os espectáculos arrancarem ficam em velocidade de cruzeiro e não há grandes preocupações, ou todos os dias aparece um pequeno problema?

Não, os actores são muito profissionais, há produções muito fortes, tenho estas pequenas empresas muito bem organizadas, trabalham todos muito e com grande profissionalismo. Isto num país em que a cultura não é propriamente de primeira necessidade, aliás, é sempre muito mal tratada. Se vemos as salas permanentemente esgotadas, com pessoas em filas de espera, filas que vão por vezes até ao Teatro Nacional, é porque as pessoas gostam.

Fotografia - Bernardo Coelho

Como é que te divides, estás um dia em cada uma?

Tenho pessoas em que confio muito, mas gosto de estar em tudo, de dominar todas as disciplinas e também tenho uma grande prática, já tenho 52 anos deste ofício e sobretudo de não só ser artista, como também ser organizador e empresário. Dizer-se empresário em Portugal é quase dizer-se criminoso. Portanto, ser o líder, que é uma palavra mais simpática, de vários grupos. O que interessa é que os espectáculos sejam bons e tem que se ser muito rigoroso na sua feitura, porque os espectadores cada vez são mais exigentes, o nível é sempre a subir. Quem vem vê bons cantores, bons bailarinos, uma orquestra de nível internacional, não vê melhor se for a Paris ou a Londres e isso é que faz as pessoas virem, a qualidade.

E os actores trabalham de quarta a domingo, sendo que no sábado há dose dupla. Estão sempre motivados para fazer aquelas duas horas e tal mais uma vez?

Sim, são grandes profissionais. No Tarzan temos cinco miúdos e quando por vezes são muitos espectáculos há substitutos, mas isso há em todo o mundo.

O teatro pára em alguma altura do ano?

Na véspera de Natal, os actores também têm as suas famílias. Mas é o único dia em que pára. Trabalhamos oito dias por semana.

Tens tempo para férias?

As minhas férias são sempre a ver teatro, não gosto muito das férias das praias e dessas coisas, não tenho paciência. Gosto de grandes cidades, de ir a Nova Iorque, Las Vegas, a Londres, que conheço muito bem porque vivi lá muito tempo, e aproveito sempre para ver espectáculos.

A que horas toca o teu despertador?

No Tarzan tocava às 7:30/8 porque começávamos a ensaiar às 10 da manhã. É conforme os horários, gosto muito de ensaiar de manhã e à tarde. E à noite também, mas geralmente os espectáculos dedicados à infância e juventude faço de manhã, os outros como já são mais velhos faço à tarde e à noite.

Escreves em que altura do dia?

Escrevo com muita facilidade e na maior das confusões, não me vou retirar para uma montanha, portanto escrevo o que é necessário escrever, geralmente as peças são todas da minha autoria e começo sempre por escrever, mas até quando estou a ensaiar eu mudo as cenas, há uma cena que não gosto e escrevo de outra maneira. Por vezes até no palco, com uma folha de papel, enquanto os actores estão em cena. Mudo e faço de novo.

Sobra-te tempo para outros hobbies?

O meu hobbie e a minha grande paixão é o teatro, depois tenho a minha família, claro, é muito importante para o equilíbrio da pessoa e para os nossos afectos mas a minha grande opção de vida foi o teatro, foram estes sortilégios, estes mistérios a quem dediquei toda a minha vida. Já fui professor, agora já não sou, não tenho muita paciência, e gostava de ter tido uma escola de teatro, foi um sonho impossível e que me traz ainda muitos pesadelos e aborrecimentos. Mas há sonhos possíveis e sonhos impossíveis, há o ganhar e o perder.

Fotografia - Bernardo Coelho

E vais a outros teatros portugueses?

Vou, vou a alguns. Está claro que escolho, escolho muito porque não tenho muito tempo.

É fácil trabalhar contigo?

Não, não é fácil porque sou muito exigente e o espírito português é um bocado desenrasca e não é fácil. Exijo muito de mim e exijo muito das pessoas que trabalham comigo, têm que dar o máximo.

E consegues perdoar?

Perdoar? Sim, esqueço-me de tudo, não tenho inimigos, nenhuma pessoa que odeie ou assim.

Eras bom actor?

Era muito bom actor, ganhei muitos prémios, até um internacional e tudo em Espanha. Mas sempre gostei muito de fazer tudo, o actor em Portugal é mal amado, o português despreza-se muito a si próprio e o actor é sempre o espelho do público. Os actores não são muito considerados em Portugal, só quando morrem.

Porque não continuaste a representar nas peças que encenas?

Acho que não dá representar e dirigir ao mesmo tempo, temos de estar sempre distanciados. Há colegas meus que o fazem. Eu gostava muito de representar e até represento todos os dias, porque ensino os actores representando, faço sempre os papéis deles primeiro.

E também vais para a entrada vender programas.
É uma manobra de charme ou necessidade?

Eu estar ali é uma grande força, sobretudo porque é a única forma de vendermos programas, se não estou lá não se vende programa nenhum. E acho que esse contacto com uma pessoa que conhecem pela televisão ou que imaginaram de uma certa forma é muito afectuoso, dar as boas-vindas às pessoas, mesmo que não comprem o programa, é muito forte. Além disso gosto muito de estudar as pessoas, um actor e um encenador tem de ver tudo, ser muito perspicaz, e tem que estar muito vivo e atento a tudo o que se passa, porque ele vai reproduzir também no palco o que viu e sentiu na vida.

O teatro tem 32 patrocinadores. São os necessários ou mais são sempre bem-vindos?

Alguns são maravilhosos, mas são coisas materiais, tecidos, tintas, em Portugal não há patrocinadores, não há lei do mecenato. Uma das coisas que podemos agradecer ao Sócrates é que ele cortou a lei do mecenato, enquanto em Espanha ou no Brasil, por exemplo, não há subsídios e é só o mecenato. O empresário diminui nos impostos o que investe na cultura, aqui não, com a volúpia louca destes governos que só pensam nos nossos impostos e que nos roubam e nos comem a pele, está claro que não há lei do mecenato. E portanto é muito difícil arranjar mecenas para o teatro, é quase impossível.

Fotografia - Bernardo Coelho

Mais importante que subsídios era que criassem uma nova lei do mecenato?

Neste regime não acredito que haja porque alimentamos uma classe que vive apenas dos nossos impostos, a nossa produção é zero, portanto não será nunca lógico haver uma diminuição dos impostos para as empresas.

Investes sempre tudo o que tens na peça seguinte?

Sim, tudo o que tenho e o que não tenho. O dinheiro entra com umas moedinhas por uma porta muito pequena, que é a bilheteira, e sai por todas as janelas e portas logo a seguir, é sempre uma arte para sonhadores, porque nunca se enriquece no teatro.

Então não há margem para disparar um tiro ao lado?

Não, tem de se ser sempre muito cauteloso na escolha das peças. Não posso desiludir o público, tem sempre de sair a dizer “esta ainda é melhor que a outra”.

Dizes que 70% do preço de um bilhete vai para o Estado. Como é que isso acontece?

Se somar todos os itens, desde a eletricidade que vai para o Estado, desde os cartazes que tenho de pagar à junta de freguesia, tudo tem de se pagar. Se fizer bem as contas são 70% e sobram 30% para pagar à companhia e aos milhares de encargos que o espectáculo tem. Não sobra muita coisa, este regime democrático ou pseudo-democrático em que a gente vive, vive exclusivamente na volúpia dos nossos impostos.

No passado também disseste que António Costa era dos poucos políticos que falavam em cultura. Achas que as coisas podem melhorar nesse âmbito com um governo de esquerda?

Ele agora fala tanto em tanta coisa que já não sei. A cultura foi sempre de esquerda em Portugal, a direita em Portugal é muito limitada, pensa muito só no dinheiro e nunca apostou no pensamento mas é pelo pensamento que tudo se modifica. Se analisarmos muito bem estes últimos acontecimentos terríveis no mundo inteiro vemos como isso é verdade. E a direita quando está no poder faz lá uns negócios e dá sempre a cultura à esquerda, seja o Passos Coelho, seja o Cavaco Silva, a cultura vai sempre para a esquerda.

Fotografia - Bernardo Coelho

Na esquerda está também Catarina Martins, que foi actriz e já te criticou por causa do Rivoli. Chegaram a entender-se?

Não conheço a Catarina Martins, não sei se era boa actriz ou se era uma canastrona. Acho é que vamos viver um período muito instável, o povo português precisa de garantias para ser mais feliz.

Querias ter quatro teatros: Politeama, Olímpia, e dois no Porto, Rivoli e Sá da Bandeira. Largaste tudo para te concentrares no Politeama?

O Sá da Bandeira nunca quis ter, nem eu nem ninguém porque está a cair. Na última peça que fiz lá caíam gatos em cima dos espectadores. A cultura em Portugal é sempre muito elitista, a própria esquerda faz uma cultura elitista, portanto a cultura nunca se democratizou, o 25 de Abril quanto a mim nunca chegou à cultura, que permanece ainda nos tabus do que era o fascismo, é para uma classe só e o que me atrai no teatro é exatamente ser para toda a gente. Nos primeiros vinte e tal anos da minha carreira representei muito para teatros vazios e não há nada mais triste para um actor do que representar para casas vazias. Mas não sou contra nenhum género de teatro, nem sou contra os subsídios, o que acho é que quando se vai a Espanha, já para não falar em Londres, há um leque de escolha muito grande e isso qualquer sociedade minimamente civilizada tem que ter. Pode-se ir ver um grande musical, ou um Shakespeare, uma performance contemporânea. Aqui não, aqui há modas, é um país muito atrasado. A cultura não é um privilégio, a cultura é um povo e o teatro, já dizia o Almeida Garrett, só existe quando há civilização.

E no Olímpia, além da escola, também o querias usar para fazer um outro tipo de teatro.

Sim, um outro género, como fiz na Casa da Comédia.

A ideia era ter as duas coisas em simultâneo?

Era, mas isso vai ser impossível porque não tenho dinheiro para fazer o Olímpia, deixaram de me financiar, também há um grande embrulho na Câmara Municipal de Lisboa sobre a Avenida da Liberdade, é uma coisa que é melhor eu esquecer.

E voltar à televisão, está fora de questão?

Olha, a televisão que se faz em Portugal eu não consigo ver. Ainda no outro dia liguei a televisão e estava o Jorge Jesus nos quatro canais a falar, a falar, a falar, é demais. Até gosto de futebol, mas é demais, estar-se a utilizar o futebol como o Mussolini utilizava, aí está, a cultura não se democratizou. A televisão hoje em dia são os concursos obsoletos, prefiro ouvir música. Tenho muita pena de dizer isto e até é impopular. Ouço as pessoas, por isso é que ando ali a vender programas, e ninguém gosta. Por isso é que as audiências estão a baixar drasticamente, andamos de canal em canal e à mesma hora é tudo igual.

Tens quantas peças planeadas para o futuro?

Tinha que ter 200 anos de vida para fazer todas as que queria.

Fotografia - Bernardo Coelho

Mas já tens a próxima escrita?

Sim, já está meia escrita.

É sempre uma de avanço?

Não há regra, gosto de ir para as coisas quando sei que é possível fazer. Como tenho uma grande facilidade em escrever não demoro muito a fazer uma peça ou um espectáculo. Levo um mês, o Tarzan foi menos que um mês até, gosto de ser rápido.

Mas já pensaste no que queres mesmo fazer antes de te retirares?

Já fiz muita coisa na vida. Agora todos os dias é um dia diferente, uma pessoa muda, vamos crescendo. Não me considero uma pessoa que envelhece, vou sempre crescendo, portanto outros sonhos vão surgindo sempre, cada dia é um sonho novo.

Então o objectivo é continuares a trabalhar. Voltar para um monte em Serpa está fora de questão?

Sou muito activo, gosto muito de lá ir às vezes, passar quatro dias, mas ao fim do quinto dia já penso... Não sou uma pessoa de estar contemplativa, sou uma pessoa de acção, a contemplação a mim aborrece-me. “Agora vou passar 20 dias à Tailândia, a ver a praia”, isso é o maior aborrecimento para mim, gosto de ir para Nova Iorque ou assim, aí é que eu descanso.

Preocupa-te que no dia que deixares o Politeama ele possa voltar a cair?

Não sei, vejo os teatros muito abandonados, vejo o Olímpia destruído, vejo o Parque Mayer completamente destruído, gastaram fortunas no Capitólio e já está agora cheio de ratos e com as obras paradas. Os nossos políticos não se interessam muito, não se interessam mesmo nada.

Fazes parte de um geração que se desiludiu um bocado com o Portugal pós-25 de Abril...

...Não, nós sonhámos muito. O que sonhamos nunca é a realidade mas também não podemos voltar ao passado.

Mas ainda tens esperança num país melhor?

Gostava que as minhas netas vivessem num país melhor mas por exemplo os meus sobrinhos emigraram todos, são pessoas com cursos superiores, o melhor de Portugal está a sair, isso é dramático para qualquer país. Vais ao Alentejo e vês tudo abandonado, as aldeias só cheias de velhos, lá no meu monte os caseiros têm duas filhas, elas levantam-se às 4:30 da manhã para irem à escola em Moura, têm que andar numas camionetas uns 40 km para ir à escola, isto é Portugal. A educação é cultura, há uma grande displicência dos nossos políticos e dos decisores. O país em que vivemos hoje é um Portugal onde há fome, onde há pessoas descalças. Lembro-me quando fiz a instrução primária na minha aldeia, eu era um menino privilegiado, filho de famílias ricas. Às vezes o lápis caía e eu via a maior parte dos meus colegas descalços, essa realidade volta a acontecer agora.

E isso torna complicado a tal democratização da cultura?

Mais do que isso, torna complicado o futuro dos nossos filhos e dos nossos netos, eu já estou no bye bye. Agora os que ficam vão viver num Portugal muito difícil, em que nós não vemos alternativa, não vemos saída. Há bocado falou-se na esquerda e na direita e é tudo vazio, nós já não acreditamos, já não se acredita, já ouvimos estes discursos muitas vezes. Eu como não dependo do Estado posso dizer estas coisas todas.

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