A Wikipédia diz que te chamas Fernando Zaro Miguel Palaio Alvim. Podemos confiar na Wikipédia?
Não podem confiar na Wikipédia e não podem confiar na Internet. Todos sabemos que a Wikipédia pode ser manipulável mas eu nunca tive essa tentação. Um dia estava a entrevistar um conhecido produtor de cinema em Portugal, fui à Wikipédia ver se podia ter mais dados e a primeira coisa que dizia acerca dele era “este senhor é um ladrão e deve-me 400 mil euros”.

Já usaste o nome Zaro Palaio nalgum hotel ou para te registares em coisas duvidosas na Internet?
Nunca me aproveitei disso. Quando era adolescente usava nomes de figuras conhecidas para reservar lugares em restaurantes. Depois chegava lá e dizia o nome que tinha usado, por exemplo, “António Guterres”. Ficavam a olhar para mim, “Mas é mesmo o António Guterres?” e não tinham coragem para me mandarem embora.

Chegaste a ser confundido com o músico de que és homónimo? Do tipo convidarem-te por engano para um programa sobre guitarra portuguesa?
Não, mas aconteceu uma coisa extraordinária: quando o Fernando Alvim, o guitarrista, morreu, o jornal SOL publicou uma notícia no site a dizer “Morreu Fernando Alvim”. Eram 10h da manhã e comecei a receber mensagens a dizerem “Diz-me que isto não é verdade”. E eu pensei “Mas o que é que está a acontecer?”. Alguém me enviou o link da notícia e apressei-me a fazer duas coisas: a primeira, imediatamente ligar aos meus pais, e isso revelou-se uma atitude muito acertada porque três a quatro minutos depois de ter avisado a minha mãe ligou-lhe uma amiga a dizer: “Então o teu filho morreu?”.
A outra coisa que fiz foi desmentir no Facebook, tudo isto num espaço de minutos para acabar com a situação. Pelo menos para o meu lado, não infelizmente para a parte do Fernando Alvim, e usei a frase do Mark Twain em que disse “São manifestamente exageradas as notícias sobre a minha morte. Quem morreu foi o talentoso Fernando Alvim, o guitarrista”. Então prestei-lhe uma homenagem mais do que merecida. Tive oportunidade de o conhecer e, como todos os Fernandos Alvins que conheço, era extremamente simpático e boa pessoa.

A vida depois dos 40 é como a imaginavas?
É curioso porque sempre me interroguei muito como é que aceitaria o meu envelhecimento e a minha entrada em cada uma das décadas. Com os 30 foi assim, com os 40 também. Interrogo-me muito como é que serei aos 50, aos 60... Sou um miúdo, vou ser sempre um miúdo. Isto é, pelo menos posso dizê-lo ainda com 43 anos. Não me sinto nada um adulto responsável, um homem com a tal família que se preconiza para todos, não entrei por aí. Não quer dizer que isto seja o síndrome do Peter Pan, às vezes é só um estilo. É isso que eu sou, um miúdo.

Até que idade acreditas que vais gostar de mulheres mais velhas?
Isso não é bem verdade. É verdade que gosto de mulheres com personalidade, com uma fortíssima atitude. Gosto de mulheres confiantes, sabedoras e cada vez mais entendo as mulheres como uma incrível e poderosa força, sobretudo de equilíbrio, embora muitos homens as acusem de serem desequilibradas. A verdade é que dão-nos sempre equilíbrio. Estou sempre do lado das mulheres. Sou feminista convicto.

Fotografia - Bernardo Coelho

Começas a sentir a pressão de que se não fores pai em breve, dificilmente vais conseguir correr atrás dos teus descendentes?
Não. O pai do Júlio Iglesias foi pai aos 84 anos e continua a ser para mim uma referência. Embora tenha morrido sem ver o filho. Apesar de o casamento não ser de todo uma prioridade para mim, nem sequer uma ambição, ter um filho é um objetivo meu. Se calhar até mais do que um.

Estás há quase vinte anos em Lisboa. Já te sentes em casa?
Sim. Lisboa é uma cidade incrível, multicultural, urbana, cosmopolita, e fez com que basicamente a minha carreira evoluísse de uma forma explosiva.

Sem mota a tua produtividade diminuía drasticamente?
A mota é uma extensão do meu corpo, é como se fosse um braço. Não faria metade das coisas que faço se não a tivesse, a noção de tempo é muito importante. Tenho de perceber que a minha vida é muito produtiva e que não perco tempo com coisas como o trânsito. Trânsito, pessoas idiotas, uma série de coisas. Não perco tempo com ódios.

A Prova Oral é de longe a tua relação mais duradoura. Ainda te lembras da primeira?
Sim. Profissionalmente sempre tive relações muito duradouras. Aqui estamos a falar de 15 anos que se celebram este ano. Para as pessoas que acompanham desde o início é uma espécie de um reality show radiofónico porque viram-me a crescer. A Prova Oral não se resignou e talvez por isso é que tenha chegado até aqui. Acho que a continuo a fazer com a mesma fome que tinha quando a iniciei. Não me lembro de um único dia em que tenha ido fazer a Prova Oral sem vontade e isso é a melhor coisa que pode acontecer.

Só aí já deves ter feito umas duas mil entrevistas. Ainda te lembras das que te marcaram mais?
Lembro-me da entrevista ao Senhor do Adeus, pela carga emocional que aquela emissão teve em mim, porque foi em directo do sítio onde ele estava a dizer adeus, não no Saldanha, mas sim no Restelo. Ele fazia por turnos, à tarde estava no Restelo e à noite estava no Saldanha. As pessoas que estavam a ouvir a emissão quiseram prestar uma espécie de homenagem, passaram pelo sítio onde ele estava e começaram a apitar. O problema é que eu estava ao lado dele e emocionei-me mais do que ele porque estava também a levar com a coisa que não era para mim.
E isso é uma coisa tremenda, perceberes que aquilo nem é para ti mas estás a experienciar aquilo. Essa é uma das grandes vantagens da minha profissão, que é teres acesso a pessoas que de um outro modo não terias. Durante algum tempo fui speaker do FC Porto. Sou do Benfica, mas cumpria bem a minha função. Houve um ano em que fui no autocarro do FC Porto e a ideia era entrevistar os jogadores, perceber o ambiente e foi das coisas mais emocionantes que vivi. Nunca tinha percebido o que é que os jogadores sentem num autocarro quando festejam o título.

Há assim tanta gente interessante em Portugal ou volta e meia sai um tiro ao lado e tens de salvar aquilo?
Acho que a culpa nunca é do árbitro.
E acho que a culpa nunca é do entrevistado, é sempre do entrevistador. Portanto se esta entrevista estiver má a culpa é sempre tua. Por que é que estou ali no papel de entrevistador e não está outra pessoa? Não é para entrevistar uma pessoa que à partida seja fácil de entrevistar, sei lá, um Samuel Úria.
Estou lá para as entrevistas difíceis, para salvar um mau convidado. Se o convidado é monossilábico, se não tem graça, se não está a ter qualquer conteúdo para aquela entrevista, cabe-me a mim salvar a entrevista.

Fotografia - Bernardo Coelho

As três horas sem guião de muitas das emissões de Curto-Circuito deixaram-te preparado para tudo?
Sim. Foi uma escola inacreditável porque eram basicamente três horas em directo todos os dias. Não havia um único guião, apenas nos diziam no início: “Bem-vindos, boa sorte e digam o que quiserem”. Já tinha experiência de rádio, foi o que me salvou, porque se não tivesse acho que facilmente entraria em pânico. Depois percebi que o programa era mesmo assim e que ia havendo chamadas, ia havendo pessoas que iam lá ser entrevistadas, o programa era fácil de fazer e vivia muito dessa espontaneidade. Era disso que as pessoas gostavam.

É o programa do qual tens mais saudades?
Não, não. Não sou nada saudosista, portanto não tenho saudades de programa nenhum. Vivi-os intensamente naquela altura, mas aquilo que gosto mesmo é o que estou a fazer neste momento, que é muita coisa. Tenho um programa diário no canal Q, o É a vida Alvim, tenho um programa diário na Antena 3 que é o Prova Oral, tenho uma rúbrica no canal Memória que é o Retroescavadora, tenho o programa com a Inês Lopes Gonçalves, o Júlio Isidro, o Markl e o Álvaro Costa, que ultimamente não tem estado, porque teve um acidente cardiovascular, e que é o Traz prá frente, tenho dois podcasts, o Obrigado, Internet, que faço com o Nuno Dias e com o Pedro Paulos, e o Com o humor não se brinca, que faço com o Nelson Nunes, apresento ainda o Top da Antena 3, faço mil eventos, como os Monstros do Ano, o Festival Alternativo da Canção, o Festival Termómetro, que este ano vai para a 22.ª edição, a Regata de Barquinhos a Remos, os Prémio Novos, aquela iniciativa das ideias para Portugal que este ano se vai chamar Portugal, o quê?. Tenho uma rúbrica agora no 5 para a Meia-Noite, que é nova, e a juntar a isto, por incrível que possa parecer, há uma permanente insatisfação. Isto é, embora esteja muito satisfeito com o que faço, sinto que ainda vou a meio daquilo que quero fazer e isso é incrível, não é? Pensava que quando chegasse aos 43 anos já tinha saciado esta minha fome mas a verdade é que sinto que ainda estou só nas entradas, ainda falta a refeição principal, a sobremesa e os digestivos.

Trabalhaste com o Unas, Markl, Bruno Nogueira… Há alguém com quem ainda tenhas vontade de trabalhar? Não vale responder Monica Belucci nem Charlize Theron.
Pois, essas duas, gostava mais de trabalhar. Há muitas pessoas com as quais gostaria de trabalhar ainda mas os nomes que referiste foram muito importantes. O Nogueira e o Unas no Curto-Circuito, o Markl porque talvez tenha sido a pessoa com que mais anos trabalhei, tanto na rádio como na televisão. Foi ele que me apresentou o Ricardo Araújo Pereira e o Zé Diogo Quintela, que não conhecia. Deu-me uma cassete e foi assim que os incluí no Perfeito Anormal, o programa que os revelou ao Mundo e que fez com que pela primeira vez fizessem televisão e esteve na génese da criação dos Gato Fedorento. Da versão televisiva, entenda-se.

Já te perguntaram isto inúmeras vezes, mas agora mesmo a sério, como quando perguntam às pessoas que quiseram trazer o Cristiano Ronaldo da Madeira aos oito anos: quando meteste o Ricardo Araújo Pereira e o José Diogo Quintela no Perfeito Anormal percebeste o potencial ou era mais uma coisa fixe para o programa?
Era demasiado fácil perceber o potencial. Qualquer idiota percebia que aqueles rapazes iam ser geniais e, se era fácil perceber isso, mais fácil ficou de ver quando ao terceiro episódio eles fazem A minha vida dava um filme indiano. Esse sketch traz-lhes um follow incrível por parte das pessoas. Acho que eles vieram mudar o humor em Portugal. Mesmo, de uma forma decisiva. Se o Herman fez um trabalho incrível e devemos-lhe uma viragem no humor, também ao Ricardo Araújo Pereira e aos Gato Fedorento temos de fazer a devida referência. Se bem se recordam, na altura quem dominava as televisões a nível de humor era a Marina Mota e Os Malucos do Riso. É isto que Portugal era. E o Herman, claro. E os Gato Fedorento fizeram um upgrade ao humor. Acho que melhoraram o nosso grau de exigência, sobretudo porque os seus seguidores são de novas gerações.

Achas que há talentos desses por aí escondidos, tanto no humor como na apresentação? Na tua fase no Curto-Circuito houve um alinhamento perfeito de qualidade dos apresentadores ou hoje, bem escolhido, também se arranjavam três ou quatro jovens bestiais para um projecto qualquer?
Tem de haver sempre uma incessante procura. O futebol é para mim o melhor exemplo de meritocracia. As pessoas que não venham cá dizer que “podem-se meter cunhas no futebol.” A sério? Temos tantos exemplos. Olhem o Bebé. “O Jorge Mendes meteu o Bebé no Benfica.” Sim, e no que é que deu? Não deu em nada. O público percebe que há ali qualquer coisa que está mal, a meritocracia funciona muito bem a esse nível. O futebol também está sempre à procura de novos talentos, há sempre um monte de pessoas à procura e vêem um gajo incrível e tal. No entretenimento por vezes devia haver mais olheiros como há no futebol. Parece que muitas vezes se aposta sempre nos mesmos. E contra mim falo porque apostam bastante em mim. Portanto, por mim até devia estar caladinho!

Fotografia - Bernardo Coelho

Temes a chegada de uma versão jovem do Fernando Alvim que venha ameaçar o teu lugar?
Não, nada disso. Pelo contrário, ambiciono que isso aconteça porque acho que há espaço para todos. Terei o meu público e essa pessoa também terá. Acho que o entretenimento também se faz da renovação. Há é canais que são preguiçosos, não procuram, não fazem bons castings. Não é colocares ali uma pessoa e dizeres “Agora diz qualquer coisa, faz-me rir”. Eu, por exemplo, sou um gajo muito nervoso, embora não pareça, e se estivesse numa situação destas acho que não diria nada e se calhar perdia-se um talento.

Tinhas mais sucesso com as mulheres quando só as conquistavas através da tua voz pela rádio ou a televisão é muito poderosa?
Exactamente igual. Sempre fui uma pessoa nada passiva e portanto não foi a televisão que me veio dar maior notoriedade junto das mulheres até porque acho que sempre as soube respeitar e sempre foram um objecto do meu culto. As mulheres são importantíssimas na minha vida, como já disse, para me dar equilíbrio e para, cada vez mais à medida que as conheço, gostar mais de ter mulheres na minha vida. Como amigas, como conselheiras, como tudo.

Na rua as pessoas chegam a ser muito chatas?
Não. Tenho uma popularidade bastante interessante que é: não sou muito mainstream, não sou o tipo que sai à rua e toda a gente conhece. Diria que 25% dos portugueses me conhecem. Há quem diga que é mais, mas isso para mim é bom. É óptimo. Faz com que esteja em qualquer sítio público completamente à vontade. Há uma coisa que sempre acordei comigo próprio: não iria mudar minimamente a minha forma de estar por ser conhecido. Se tiver de beber uns copos e se tiver de estar num sítio com os copos, estou. Sem problema nenhum.

Agora que toda a gente tem uma câmara de vídeo no bolso isso não te condiciona?
Não posso estar todo nu na rua como fazia habitualmente, agora deixei de fazer isso, deixei de correr na Ponte 25 de Abril. Tens de perceber que sim, que agora todas as pessoas têm uma câmara. É curioso: já repararam que agora, que todas as pessoas têm uma câmara, ninguém filma OVNIs? Toda a gente via OVNIs a toda a hora, agora que há câmaras os OVNIs desapareceram. A ideia que tenho é que os extraterrestres são envergonhados, não gostam de câmaras. A câmara a mim não me intimida. Intimida mais na televisão, no estúdio, do que esta quantidade de câmaras que temos. Temos de ter cuidado porque há pessoas muito intrusivas, é verdade. Já me aconteceu dizer: “Olhe, estou a comer, desculpe mas não gostava que me estivesse a filmar”. As pessoas normalmente são bastante compreensivas e param.

A tecnologia também trouxe coisas boas, como os podcasts, que são quase as rádios piratas dos tempos modernos e, como disseste, entras semanalmente em dois. É para te posicionares para quando a publicidade voltar em força? O importante é estar sempre a aparecer? Fazes inúmeras coisas novas só pelo gozo, ou todas as anteriores?
Acho que é justamente pela vontade que tenho de fazer coisas novas, voltando um pouco ao início desta entrevista. Tanto um podcast como outro vêm acrescentar algo que ainda não existia. Acho que não existia um que falasse apenas e só sobre humor. Repare-se que não é um podcast de humor, é sobre o humor, uma coisa completamente diferente, e isto vai no encadeamento do livro do Nelson. Foi depois de o entrevistar que disse: “Por que é que não temos aqui um podcast? Falamos com alguns dos mais marcantes humoristas portugueses e damos continuidade ao teu livro, podemos até entrevistar outros da nova geração que não conseguiste incluir no livro”. Ele achou a ideia óptima. E o Obrigado, Internet fala da cultura internáutica, coisa que me é útil porque, ao contrário daquilo que possa parecer, não sou uma pessoa muito activa nas redes sociais e isto veio-me mostrar um lado que desconhecia à custa de pessoas que realmente sabem como funcionar com as redes sociais, o Nuno Dias e o Pedro Paulos, e tenho aprendido imenso com eles.

Tanto apostas nas novas tecnologias como nos livros que inclusive lanças pela editora que criaste.
Sim, tenho uma editora de humor.

Fotografia - Bernardo Coelho

Mas mesmo antes já tinhas escrito livros: tinhas títulos tão bons que não podias deixar de o fazer?
Tinha mas era de publicar aquelas crónicas que escrevia semanalmente, que me davam muito trabalho e que deixei de escrever, pura e simplesmente porque achei que devia fazer uma pausa sabática. Embora aquilo parecesse muito fácil, não era. Às vezes fico a pensar naqueles cronistas que fazem crónicas para mais do que um meio por semana, três, quatro... Aquilo é uma prisão. Eu, para ter uma ideia por semana, ter um assunto, havia uma parte do meu cérebro que estava congelada por aquela ideia: “Mas vou escrever sobre o quê?”. A verdade é que aquilo depois dava-me muito gosto. No final da crónica dizia “Olha, ficou bonitinho!” e isso era bom. Então criei uma editora, não para lançar os meus livros mas para lançar livros de pessoas que eu gostasse sobretudo no domínio do humor, lá está. Não havia uma editora de humor em Portugal e eu tenho-a.

Qual é a tua melhor ideia de sempre? O Festival Termómetro, os Monstros do Ano ou uma que ainda não concretizaste?
Uma que ainda não concretizei. Toda a gente já ouviu esta premissa: o ataque é a melhor defesa ou a defesa é o melhor ataque? Cresci a ouvir isto no mundo do futebol e pessoas como Figo, Cristiano Ronaldo, José Mourinho, Nuno Gomes, Poiares Maduro, até a Federação Portuguesa de Futebol, conhecem esta minha ideia e todos a acham muito interessante. A verdade é que ela ainda não foi executada mas poderá ser. A FIFA neste momento já tem o projecto em cima da mesa: de um lado, os 11 melhores defesas do Mundo e do outro os 11 melhores atacantes do Mundo. Porquê? Porque há treinadores que dizem que o ataque é a melhor defesa porque se tiveres um bom ataque asfixias a outra equipa, logo defendes a tua, e há quem diga o contrário, que se tiveres uma defesa sustentável podes a partir daí construir um ataque melhor. Portanto, vamos levar a ideia ao extremo. Há um guarda-redes de um lado e de outro e há um treinador ofensivo e um treinador defensivo. Acho que isto seria um jogo que todos os amantes de futebol gostariam de ver. Podia haver apostas e eu ficava milionário com isto!

O jogo de ténis às escuras é possivelmente a tua mais famosa ideia por concretizar. Achas que alguma vez irá acontecer?
Concretizei-a, de um certo modo, parcialmente este ano. Fiz o Quarto Escuro, que foi pegar na ideia do ténis às escuras, neste caso juntei uma causa, que era a Fundação Maria Cristina, que ajuda crianças no Bangladesh. Juntei uma série de artistas que ninguém sabia que iam ao São Jorge, que esgotou por completo, entraram às escuras e o efeito foi incrível. Começavam a tocar durante um minuto e meio e as pessoas não sabiam quem era. “É o Camané”, “é não sei quem”, e depois havia uma luz que mostrava quem era e era a loucura. Quem é que foi? O Manuel João Vieira, a Márcia, a Catarina Molder, a Helena Laureano, a Leonor Alcobia, o fadista Ricardo Ribeiro, tivemos burlesco e no final, assim tipo cereja no topo do bolo, no meio da escuridão, sem que as pessoas esperassem, tivemos o Bruno Nogueira, o Nuno Markl e o Filipe Melo, e aí o São Jorge foi abaixo! Isso foi uma ideia tão boa que vou realizá-la todos os anos. Para o ano vai ser no dia 3 de Fevereiro. Será para reverter para uma instituição social. Para o ano vai ser para duas, a Raríssimas e a E.L.A. (Esclerose Lateral Amiotrófica), e o objectivo é juntar outra vez uma série de artistas que ninguém suspeita.

Também encheste o São Jorge com os Monstros do Ano. Ficas emocionado ou nem chegas a perder tempo a pensar nisso porque já estás com a cabeça noutro projecto?
Gosto sempre que as coisas corram bem. Este ano esgotámos o São Jorge, foi bom, mas acima de tudo perceber que começou numa sala para cem pessoas no Jardim Zoológico. Nove anos passados, enche o São Jorge. Foi de tal forma surpreendente que estamos a pensar, apenas porque são dez anos dos Monstros, fazer no Coliseu.

Por vezes anuncias coisas que não chegam a acontecer. Há uns anos disseste que ias lançar uma revista e um jornal desportivo gratuito. Isso não te preocupa? Criares expectativas e depois não acontecer?
Nesses casos fui apanhado pela maior crise de sempre em Portugal. Quando me apercebi, não me preocupei minimamente em deixar cair as minhas ideias. Seria insensato lançar dois projectos que não teriam um mercado publicitário. O jornal desportivo gratuito ia chamar-se Penalty e ia ter como directores o José Nunes, o Luís Freitas Lobo e o Rui Miguel Tovar, iam ser estes três cabecilhas, e a revista masculina, que ia chamar-se Miúda – querem melhor nome para uma revista masculina? – teria como director o Pedro Mexia. Estava tudo delineado para que isto acontecesse só que entretanto Portugal entra numa profunda crise e eu não podia ir com estes dois projectos para a frente e desisti deles. Mas não tenho problema nenhum.

A crise afectou a tua criatividade de mais alguma forma?
Sim. Hoje percebo que a crise foi bastante importante para Portugal. Embora tenha sido uma coisa péssima, teve o mérito de primeiro varrer toda uma série de pessoas que não fazia nada, tanto no sector privado como no sector público. Aquelas pessoas que muitas vezes até se gabavam de não fazer nada e de irem lá só passar o cartão. Essas pessoas foram varridas, ficaram muito poucas. Tenho pena das que trabalhavam e foram também levadas por este arraso que houve. Acho que a crise também fez com que tivéssemos uma relação diferente com o dinheiro e tornou os portugueses mais desenrascados. Nunca vi Portugal com tantas ideias, com tantas pessoas empreendedoras, e isso é bom. Portugal está a viver uma das melhores fases de sempre depois de ter vivido uma das piores fases de sempre.

E no meio disto tudo foste parar à RTP Memória. Apresentaste ideias que foram aceites ou alguém achou que eras a pessoa certa para tornar aquilo em mais que uma jukebox dos arquivos da RTP?
Acharam que deviam renovar a RTP Memória. Aquilo não podia ser nunca um depositário de arquivos. Muito à custa do centro de inovação da RTP conseguiram renovar a imagem da RTP Memória, modernizá-la e fazer com que não parecesse ter caspa, que era o que às vezes parecia. Agora percebes que é uma coisa jovial, que se mexe no arquivo mas que dão um ar sofisticado. A RTP Memória é um filme do qual se fez um upgrade, aqueles que depois já vêm a cores. Nos últimos anos tem quatro a cinco vezes mais audiências, muito à custa da TDT. Também há um nome que não podemos esquecer, que é o do Gonçalo Madail, o director. Tem feito um trabalho notável e é claramente uma das pessoas que no futuro vai mandar na televisão em Portugal. Não tenho a menor dúvida disso.

Achas que os outros acham que és tonto? E isso é bom ou é mau, no sentido de te impedir de concretizar algum tipo de ideias?
Não, acho que não. As pessoas que não me conhecem eventualmente, mas não me tem chegado informação a esse nível. Não me levo muito a sério, para começar, e isso é desde logo uma defesa. O facto de não te levares muito a sério faz com que não sejas muito pretensioso, não estejas propriamente a ligar aos comentários e, sobretudo, há uma coisa que sempre tive, que é não perder minimamente o meu tempo a estimular qualquer tipo de ódio ou de inimizade. Se não gostam de mim tenho de compreender isso. Acho que até é chato ser consensual.

E aquela história de que se fizeres o que gostas não trabalharás um único dia na tua vida: é verdade ou correr por gosto cansa na mesma?
Correr por gosto cansa na mesma. Muitas vezes chego ao fim do dia muito cansado mas é verdade que ajuda muito fazermos aquilo que gostamos e eu faço aquilo que gosto desde sempre. Nunca tive um horário das 9h às 18h, como as pessoas normais, mas isso não quer dizer que não trabalhe mais ainda. Faço muitas coisas. Há dias em que começo a trabalhar às 9h e só acabo às 3h, mas também há outros dias em que se calhar posso ficar a dormir até mais tarde. Desde que eventualmente tenha ficado a trabalhar até às 5h, posso ficar depois a dormir até ao meio-dia. Qual é o problema? Os meus horários não são fixos, mas a minha produtividade é. Portanto, tenho de produzir. Sabes aqueles dias em que dizes “Não fiz nada”? Não gosto de ter um dia desses, mesmo que seja um domingo. Aí está um dia em que normalmente as pessoas não produzem muito e eu produzo imenso: planeio toda a semana, faço imensas coisas ao domingo. Além disso, entre as mil e uma actividades que faço uma delas é passar música. Onde? Ao fim-de-semana as pessoas normais vão para Tróia com os filhos e com a família e vou passar música no Alentejo, Trás-os-Montes, Algarve...
É isso que eu faço. Vou animar pessoas. No fundo, acho que existo para animar pessoas, mas também gosto que elas me animem a mim e acho que há aqui um acordo: eu animo-as e as pessoas animam-me e por isso acabo por ser uma pessoa animada.

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