Fotografia - Bernardo Coelho

O que é que te fez decidir fazer vida em Portugal?
Eu não decidi fazer a vida em Portugal, aliás eu cheguei e estava a planear uma viagem. Tinha pensado em estar cá um ano. A viagem era por África, a Argentina não tem ligações com África, conhecia mais ou menos a Europa e o único país que eu não conhecia era Portugal. Tive um ano aqui como jornalista, não podia escrever, então comecei a trabalhar como cozinheiro, porque já tinha trabalhado num restaurante de família que foi um sucesso. No ano que eu fiquei cá, tornei-me mais ou menos conhecido, sempre em entrevistas. A única pretensão que eu tinha era gastar o dinheiro para a viagem para África. Fui-me embora no fim de 1998, voltei 2 anos depois e fui ficando. Gostei muito de Portugal, mas Lisboa era muito pequena. Depois de um mês a trabalhar no Bairro Alto, fiquei como um cão às voltas, não havia muita coisa, não havia para onde fugir na altura. Era o Bairro Alto ou o Bairro Alto. Depois fui encontrando coisas que fui gostando mais e agora ninguém me tira daqui.

Nessa altura, andaste quase dois anos a dar a volta a África num Land Rover. Do que é que andavas à procura?
Tinha feito uma viagem de 6 meses pela América do Sul, sozinho, fui à Argentina, Colômbia e voltei. Como o Che Guevara, mas sem muitas revoluções. Tinha curiosidade, lia muitos livros em pequenino sobre África e sonhava que era um aventureiro, um inglês ou um sul-africano, e ficava muito envolvido nas coisas. Era fanático por Júlio Verne. O meu sonho era comprar um carro e dar a volta ao continente como um “expedicionário”.

O que é que te levou a querer sair da Argentina?
Estava um pouco cansado. Acho que a vida é muito curta para viver só num país e perceber se realmente é o nosso país. Eu gostava de viver na Argentina, tinha um bom trabalho, tinha tudo – mas tinha 25 anos. Aos 18 anos, comecei a fazer viagens de quatro meses na Índia e achava que queria mais. O desafio era a Europa. A América Latina olha muito para os Estados Unidos, mas a Argentina olha mais para a Europa. Antes já tinha vivido em França e na Alemanha, como jornalista. Na Argentina, em termos de segurança, uma pessoa tem que ter a preocupação se vai deixar a mota na rua porque quando voltas para casa, pode estar tudo do avesso; não tens nada, roubaram-te as coisas, ou chegas à esquina e dão-te um tiro. Eu achava que as preocupações tinham que ser outras. Na minha experiência europeia, tinha percebido que posso andar descansado. Portugal é o paraíso, é um país hiperseguro. Isto foi a primeira coisa que me fez mudar de país, independentemente do meu sucesso ou insucesso na altura. Ganhava 5 mil euros por mês e vim para Portugal para ganhar 500€, 120 contos, portanto não era pelo dinheiro. Acho que é importante num momento da vida, sobretudo quando somos jovens, tomar decisões que se calhar um dia nos arrependemos ou não – por sorte nunca me arrependi.

Este teu «Chakall», que vem dos tempos de criança, sempre se manteve ou foi recuperado quando decidiste ser chef?
Não, sempre se manteve. Quando era jornalista era Eduardo Lopez. E numa revista da universidade, escrevia com um pseudónimo, ninguém sabia quem eu era. Tinha outros 3 pseudónimos, um deles estava relacionado com Montesquieu. Na escola, obviamente que o professor me chamava pelo nome, mas fora disso os meus amigos sempre me chamaram Chakall.

Cresceste no restaurante da tua mãe. Como foi gerir a entrada na adolescência com a cozinha?
Foi complicado. Queria sair com raparigas e era horrível, cheirava a fritos. A minha mãe tinha um refeitório industrial, onde comiam 400 pessoas todos os dias, uma máquina de fabricar comida, de segunda a segunda. Eu trabalhava lá e, aos domingos, que iam 100 pessoas, eu ia com o meu irmão e fazíamos a comida, só nós os dois. Era tipo uma brincadeira, era tranquilo.

Mas era um problema o cheiro da comida, era horrível porque era impossível, ficava com o cheiro na roupa e no cabelo. Sempre tive um olfacto apurado e sentia o cheiro. Houve uma altura que odiava a cozinha, era anti-romântico, anti-glamour.

Também tens um espaço de sucesso em Berlim, já lançaste lá livros e apresentas programas e workshops. Como é que conseguiste entrar nesse mercado?
A minha ex-mulher é alemã. Tudo começou porque nós viemos para Portugal e ela disse-me “Tu tens sucesso aqui porque o país é pequenino.” Foi aí que decidi dedicar-me. Aprendi a falar alemão primeiro, depois replicar lá o que faço aqui, e tive sorte, porque o primeiro livro que publiquei em Portugal, ganhou o prémio de melhor livro de cozinha. Um prémio tipo Óscar em Londres. Conheci uma pessoa alemã, que me indicou outraque tinha o programa de cozinha mais visto na televisão alemã, e entrei logo. Falei com o produtor e ele disse “se falares um pouco melhor alemão, queremos convidar-te, pois é um pouco diferente do que temos, são cinco chefs sempre, em prime-time”. Seis meses depois voltei e era o programa onde todos os chefs queriam estar.

Consegues decifrar o magnetismo que os media sentem contigo?
Acho que o facto de ter estado do outro lado me ajuda muito. Ter trabalhado em comunicação social ajuda-me a ter uma posição relaxada. Um cozinheiro pensa que o foco de tudo é a cozinha, mas não é. “It´s the singer, not the song”, como dizia Mick Jagger. Por exemplo, tenho um programa na China a que assistem mais de 300 milhões de pessoas. Podia achar que sou uma vedeta, mas acho isso uma estupidez. Eu acho que tem que ver com a educação que tivemos, o que fomos aprendendo e acho que viajar é a melhor universidade do mundo. Viajar com os olhos abertos é como se viaja realmente. Nesta viagem a África, antes de ser famoso, percebi o que é realmente importante. A maior parte das coisas pareciam uma estupidez, já estive com uma Kalashnikov apontada e já vi como outras pessoas sofriam. Eu tenho a sorte que cozinho, podia ser famoso não cozinhando. Às vezes acho que sou mais um entertainer, o cozinheiro já ficou longe.

Há alguma fórmula para funcionares tão bem em diversos continentes, com programas de TV desde a América Latina até à China?
Eu sou curioso e gosto de experimentar. Fui à América Latina, fiz o programa e ganhava muito menos dinheiro. Para mim é muito interessante, conhecer as culturas. Adorei a República Dominicana. Tem pessoas fantásticas e ontem ligaram-me para fazer uma segunda série. Foi uma experiência inacreditável. E na China, quando o produtor me disse “queremos três chefs diferentes para fazer o programa”, parecia um sonho. O programa teve muito sucesso. Se forem programas mais locais, é muito complicado. Não é fácil transmitir humor, transmitir uma personalidade numa outra língua.

Fazes em inglês?
Faço em inglês e depois é dobrado em mandarim ou é legendado. Aparentemente, a minha personagem teve muito sucesso, e pediram-me para fazer programas sozinho. O primeiro foi com o cão e uma mota, só que o cão não era meu. Na segunda temporada foi sem cão, só com a mota. Ao fim da segunda temporada, a mota era chinesa e estava destruída; portanto na terceira temporada, já comecei a viajar sozinho, mas é um castigo – andar com uma mota, carregar, tirar do camião. A partir daí, comecei a fazer o programa só a viajar. Na República Dominicana foi a viajar também com a mota, com um cão que se chama Mangu, correu muito bem, o cão era muito meu amigo e gostava de mim. O outro era um cão chinês.

Em Portugal, a culinária finalmente conquistou o prime-time nas principais estações televisivas. Achas que contribuiu para encorajar o crescente número de chefs nacionais?
Antigamente ser jornalista era uma profissão glamourosa, então eu queria ser jornalista. Não sou cozinheiro para ter fama ou dinheiro. Acho que muitos cozinheiros podem ser cantores, ou guitarritas, ou jornalistas. Muitas vezes o resultado é que as pessoas querem ter um trabalho e não a paixão pelo que fazem realmente. Como em qualquer outra profissão, há lugar para 50 e depois o resto é a picar cebola e alho. Não quer dizer que isso seja mau, mas depende do que pretendem as pessoas. Se queres ser um cozinheiro e chegar a estrelas Michelin, tens que ter três câmeras. Tens que estar concentrado no que fazes e fechar-te na cozinha. Se queres fazer mais, tens que estar relaxado, porque cada sector é muito diferente.

E estrelas Michelin, não te tiram o sono?
Nunca, não. Já trabalhei como crítico, e eu acho que a crítica é muito relativa e muito parcial. Tens um amigo que diz “olha tens que fazer isto, porque se fazes isto, chegas a isto”. Vais a um restaurante de três estrelas e pensas “tem 15 empregados, 8 lugares, os pratos são deste nível, tenho que imitar isso, seguir uma fórmula”. E tens que ter o dinheiro para investir nessa fórmula. Há pessoas espertas que conseguem ter um negócio e montar outro, e há outras que que só querem alimentar o ego e conquistar estrelas. Há muita diferença entre um restaurante de uma estrela e de três estrelas, são mundos diferentes. É a Champions League e a Segunda Liga Portuguesa.

Cozinhas por prazer?
Claro. Não significa que fique sempre bem, mas cozinho coisas que eu gostaria de comer. Vou a restaurante de três estrelas, e se me perguntares o que comi, não me lembro. Mas lembro-me de um chef que me levou à cozinha, tinha uma panela de cobre, nada de outro mundo, mas fazia uma sopa de trufas perfeita, um crème brûlée perfeito, um pato perfeito, numa cozinha perfeita – isso, para mim, são três estrelas. Outro de três estrelas que fui na Suiça, com o menu da comida num tablet, com uma iluminação muito gira, e o que comi? Nada. Fiquei com os químicos no estômago.

Com infinitas receitas que já lançaste em livros premiados, a criatividade não se esgota?
Fiz livros em 9 ou 10 línguas (mandarim, esloveno, romeno…), mas não faço há 3 ou 4 anos. Eu tenho um problema, se não me apetece fazer as coisas, não as faço. Não é o dinheiro que me move, não é o sucesso, não é a obrigação. Eu gosto de improvisar receitas no momento. Depois a parte de estar a escrever as receitas é um pouco um castigo para mim. Aborrece-me a parte “técnica”. Faço as receitas uma vez e não volto a repetir a receita.

O conceito de food-pairing com a bebida consegue ser um ponto de partida quando crias um prato, ou um bom vinho é sempre apenas um complemento final?
É indiferente. Acho que temos que ser livres no que fazemos. Posso fazer pairing com água tónica ou vinho. Tudo pode ter uma parceira de dança. Se não gostas da bebida, o que fazes? Eu não gosto por exemplo de anis, mas poderia utilizar para cozinhar, e não para beber.

Já tiveste um restaurante afrodisíaco. Não é uma receita a repetir?
Já tentaram recentemente que eu fizesse isso na Alemanha. Quando voltei de África, tinha umas ideias um pouco loucas. Queria fazer uma coisa em que acreditava e acho que funcionou muito bem na altura, não sei se hoje em dia funcionaria da mesma maneira, ou se deveria ser uma coisa completamente nova. Tenho umas ideias completamente diferentes sobre a cozinha afrodisíaca. Ir a um restaurante afrodisíaco é ter uma desculpa para convidar outra pessoa, porque se aceitar, tem meio caminho andado. Uma pessoa já fica predisposta de uma maneira completamente diferente do que se fosse comer uma cabeça de leitão. Acho que é isso, é muita sugestão, isso mete-se no cérebro e o sexo funciona com a psique. E se a pessoa com que estás dá-te pica, dá-te vontade, já está meio caminho andado. Eu já vi coisas malucas, sexo à porta desses restaurantes, carros com os vidros todos embaciados…

Qual é o mercado que te estimula mais profissionalmente?
O último, sempre o novo. O que me estimula é o desafio. No outro dia estava a falar com a minha esposa e ela perguntava “porque é que fazes isto tudo?”, e eu disse “porque preciso de desafios”. Eu posso viver na Alemanha e ter muito mais dinheiro, podia viver na China e ser milionário, mas chega a um ponto que me aborreço. Aborrece-me fazer o que faço e muitas vezes penso em mudar de profissão. Ontem ia no carro e estava a pensar “tenho que aprender a tocar guitarra”. Tenho um lugar onde posso tocar grátis. Posso tocar, fazer de palhaço, gosto de cantar, mas canto mal (faço algumas coisas mal). Ou posso ser treinador de futebol, a minha outra grande paixão. Adoro a bola e acho que tenho capacidade para isso. Digo isto humildemente, acho que conseguia fazer e se calhar ter sucesso. Já treinei equipas na Argentina, conseguiram ganhar um campeonato, é só entender um pouco a mentalidade humana. O restaurante afrodisíaco foi isso também, perceber a mentalidade das pessoas.

Entre os sonhos de escrever um romance ou ser treinador de futebol, qual está mais perto?
Se gostaria de escrever um romance? Não sei. Sou gémeos, é uma porcaria ser gémeos. Não me consigo focar, é o meu grande dilema de vida. A única forma que eu tenho de fazer algo é com cinco coisas ao mesmo tempo. Se faço só uma é morrer. Eu não consigo estar a ver uma série na televisão, preciso disso e luto contra isso.

E no mercado argentino, chegaste a tentar entrar?
Não, vou lá de férias. Gosto muito deles, mas de férias. Tentei vender programas lá, mas são muitas horas de voo.

Dizes que o melhor produto de lá é o gelado. O que tem de tão único e especial?
Como aqui com o café, é a cultura. Em Portugal o café é extraordinário, na Argentina o gelado tem muita cultura, todas são gelatarias artesanais. Cá há as pastelarias, lá há as gelatarias.

Tal como existem pizzas ou croissants por todo o mundo, como explicas que Portugal ainda não tenha globalizado alguns produtos da sua culinária?
Portugal só está a sair agora no mundo. Pela minha experiência a viver aqui, nos primeiros 10 anos, Portugal não existia. Por vários factores, pelo Ronaldo, Mourinho, os pastéis de nata, o turismo em Portugal começa a ser massivo. Portugal há 10 anos era um micróbio. O que já mudou neste país é inacreditável. Eu acho que a tecnologia e as redes sociais vieram mudar isso tudo. Os portugueses são um povo humilde, o italiano vende aquilo que não tem. Se calhar Portugal tem melhor azeite que o italiano, mas não sabe vendê-lo. Aqui há produtos extraordinários que nunca saíram. Mas o governo está a ajudar.

A tua paixão por viajar já é um vício ou uma bagagem recheada de sabores é sempre uma mais-valia?
Agora é um castigo. Já há muito tempo que não viajo. Faço 150 voos por ano, mas transporto-me, não viajo. Viajar não é chegar e estar 4 dias num sítio. Talvez só na China foi o mais semelhante a viajar, porque estive lá 7 a 8 semanas a conhecer a cultura. Agora estou a trabalhar em São Tomé e Príncipe, abri um restaurante, sou o chefe consultor do restaurante, é espetacular. Viajar não é só chegar a um hotel, é pegar no carro ou na mota e ir-me embora. Agora com filhos é mais complicado, mas não é impossível. Ontem alguém me perguntava onde eu gostava de ir. E é um problema, porque o meu lugar de sonho já lá estive.

Qual foi a experiência sensorial que mais te marcou nas culturas que conheceste?
De cozinha, provavelmente a que mais me surpreendeu foi a chinesa. A alta cozinha chinesa é inacreditável, é a Champions League. São 5 mil anos de história contra 400 ou 500 da cozinha francesa, ou menos. Não há comparação com o conhecimento dos chineses nos efeitos dos produtos. Nós comemos por prazer ou necessidade, os chineses comem com objectivos. Hoje cada dia menos, porque o ocidente está a influenciar muito, mas sabes que tu comes isto e acontece isto. Um país que adorei foi o Sudão, pouco turismo, o faz com que as pessoas sejam mais autênticas. Ao contrário do Egipto, que foi uma experiência traumática; todos a tentar tirar-te dinheiro porque há milhares de turistas.

Na China alguém come a comida chinesa que nós comemos cá?
Não. A cultura chinesa da Europa tem que ver com Cantão. Aquilo tem 7 cozinhas reais, são as Royal Cuisines, cada uma com as suas características. No Sul da China come-se mesmo tudo, no Norte ninguém tem de comer um cão, um gato ou um rato. A cozinha em qualquer país está ligada a duas coisas: primeiro, o clima, comes o que ele te dá – hoje em dia, é mais indiferente porque tens aviões e consegues comer o quiseres em qualquer altura do ano; e a segunda, a história política do país. A pobreza faz com que as pessoas sejam mais ou menos inventivas.

Chegaste a ser simultaneamente estudante, cozinheiro e jornalista de manhã à noite, sem folgas, durante dois anos. Isso ajudou-te a hoje teres uma gestão inteligente do teu tempo?
Acho que a pessoa para conseguir qualquer coisa tem que trabalhar. Tem que trabalhar sem ceder ao cansaço. Acho que se começas a olhar para o relógio, não consegues ir muito longe. A não ser que sejas um génio, ou tenhas uma máquina, ou uma aplicação. Eu não tinha outra hipótese, tinha que trabalhar. Tive a sorte de no primeiro ano da faculdade convidarem-me para trabalhar num jornal, mas tinha que ajudar a minha mãe no restaurante. Não foi uma escolha. Ainda hoje estou com mil e um projectos, e ou apanhas o momento ou não; se calhar volta, se calhar não.

Durante os voos, aproveitas para relaxar ou não resistes a planear a próxima grande ideia?
Antigamente escrevia muito, agora desconecto-me. Vejo muito Netflix ou leio todos os jornais possíveis. Na sexta-feira vou a Zurique, aterro à noite, durmo, de manhã apanho um carro e vou fazer o programa, apanho o avião, volto, são 3 horas e meia. Para lá respondo a e-mails, para cá vejo filmes, séries ou leio.

Ainda conseguiste ter tempo para dançar semanalmente no célebre concurso da televisão alemã Let’s Dance. É muito mais do que mediatismo e dançar é mesmo um prazer?
O programa deu-me duas coisas: o objectivo principal era perder peso, perdi 7 quilos (espetacular, pagaram-me para perder peso); depois queria aprender a dançar, era um desafio para mim. E o meu manager disse-me que era óptimo porque era o programa mais visto na Alemanha. Pagam-me para fazer o que eu gosto, é fantástico. É esse o objectivo, sempre. Quando faço um programa de televisão fora, eles pagam-me para viajar. Lembro-me que quando era miúdo, via os programas da Discovery e pensava “incrível, estes tipos são pagos para estar em hotéis”. E pensava “isto é o que eu quero”.

Já que falamos nos teus vários ofícios, além de teres sido jornalista durante sete anos na Argentina, ainda eras o cicerone mais desejado das estrelas internacionais que visitavam o teu país. Não tens saudades desses tempos?
Foram tempos fantásticos. Primeiro eu tinha entre 22 e 25 anos, alguns artistas eu nem sabia quem eram. Imagina, andar três noites com o Jimmy Page era como andar com outra pessoa qualquer. Estive com o Mick Jagger a apanhar bebedeiras e a levá-lo a restaurantes em Buenos Aires. Estive com o Sting, com os U2 saí uma noite e fiquei meio amigo do manager Paul McGuinness. Eles lembravam-se de mim, fomos jantar, meteram-me no backstage, foi inacreditável.

Manténs muitas dessas amizades do circuito musical?
Passou muito tempo. Na Argentina sim, com músicos famosos que não são conhecidos aqui. Vivi com dois músicos muito famosos da Argentina. O Jimmy Page convidou-me para ir à sua casa em Londres, mas depois nunca mais, segui a minha vida. E estive com as Spice Girls.

E no jornalismo, lembras-te qual foi a tua última reportagem ou entrevista?
Foi uma entrevista com o Bono, em Setembro de 1997. Tinha vindo viver para a Europa, ele tinha dado um concerto em Barcelona e fiz a última entrevista. Foi para um jornal argentino, o El Cronista e para outra revista também nessa altura. Conheci o Bono numa conferência de imprensa e aprendi muito. As grandes estrelas são pessoas muito simples. Cheguei a escrever para a Rolling Stone, mas era sobre artistas sul-americanos.

Hoje tens um campeão europeu de pizza acrobática a trabalhar contigo, no espaço que abriste junto ao El Bulo, em Marvila. O sabor também é valorizado nestes campeonatos?
Ele é campeão de pizza clássica e acrobática. Ele faz pizzas e é acrobata. Nos acrobáticos o sabor não conta, é só a acrobacia. Às vezes no meio do serviço anda aqui a fazer essa coisa, nem sempre, mas às vezes faz. É um cozinheiro extraordinário.

Com o Refeitório do Senhor Abel nasceu também o Heterónimo BAAR, e já falas numa pastelaria biológica para breve, também aqui nesta zona de armazéns recuperados. O teu plano é ocupares o largo todo?
E vou abrir mais uma coisa ou duas, sim. Ainda não posso falar muito, mas adoro Marvila. Tem os ingredientes que eu gosto num só lugar. Tem autenticidade, pessoas simples. O Presidente da Junta é um tipo extraordinário, acho que é importante ter apoio político para fazer as coisas. É em Marvila que eu quero estar. Quero ser o rei de Marvila. [risos]

Em todos estes restaurantes, o conceito transmite sempre algo descomplicado e acolhedor. É o que fará sempre sentido para ti enquanto chef e anfitrião?
Sim. Acho que a vida já é muito complicada. Eu gosto de comida simples. Não gosto de ir a restaurantes muito sofisticados, posso apreciar e percebo o valor das coisas, mas se me perguntarem se iria duas vezes, não. Eu quero ter clientes, não quero ter pessoas que vêm aqui um dia e dizem “que giro, fui ao restaurante do Chakall”. E tenho bons clientes.

Lidas bem com as críticas?
Como tudo, cada pessoa tem uma opinião. Às vezes as pessoas vêm a um restaurante de um chef à procura de uma experiência, mas é comida simples. Obviamente é mais o positivo que o negativo, porque se fosse ao contrário, estaria fechado. Por experiência própria, a crítica tem que ter um equilíbrio. Nem tudo é preto no branco. Eu sei as variáveis que tem um restaurante, são 50 mil. Há duas semanas, num hotel em Berlim, o voo foi cancelado, e eu vi que a cozinha estava em desespero. Estavam à espera de ter 70 pessoas, tinham 2 empregados e eu pensei “estou na merda”. Estava com a minha irmã e ajudámos a servir. Não há como prever circunstâncias dessas. Muitos dos foodies, aqueles que acham que sabem de comida, são pessoas medíocres que não sabem de nada. Tendo sido crítico, não achava justo uma pessoa que não sabe tocar um instrumento ser um crítico musical. Tem que haver um balanço. Quando abri o restaurante, fui destruído pelas críticas. Abrimos um espaço de 800 metros, que esteve 40 anos abandonado, construí tudo, mas a coisa não funcionava. Problemas de esgoto, etc, são coisas que só consegues perceber depois de abrir. Tem que se aprender com o que fazemos realmente mal. Eu sou o meu pior crítico.

Dentro da tua cozinha manténs sempre a calma?
Geralmente, sim. Insultar, nunca. Se uma pessoa te insulta, não tem que trabalhar contigo. É um trabalho. Eu pergunto às pessoas “tens capacidade para o trabalho que tens à frente ou não?”. Num desafio, a pessoa tem que saber quais são as limitações. Uma vez na Índia, estava muito doente, quase a morrer com diarreia. Pior dia da minha vida. Estava num quarto e estava lá escrito uma frase que nunca mais me esqueci. Eu estava tipo a delirar e lá dizia: “First know your limits, then you can exceed it” [primeiro conhece os teus limites, e depois irás conseguir superá-los]. Eu estava a olhar para aquilo e a pensar que tinha mesmo de conhecer os meus limites. Eu tenho sempre um problema que não sei se as pessoas na cozinha estão capacitadas, é uma luta. Como é que umas batatas podem ir frias para a mesa? Uma vez perguntei isto ao chef anterior e ele disse “porque…” e eu disse: “Tu tens que controlar que isto está perfeito, tens 5 pessoas numa cozinha extraordinária”. Eu sou um cozinheiro, não sou um dono do restaurante que está a opinar, eu sei como as coisas acontecem. E saber trabalhar em todos os sectores é muito pior porque sabes que não te podem mentir.

Já não imaginas a tua vida sem a cozinha?
Eu imagino a vida de qualquer maneira. Essas histórias de família, que cresceram com o avô na cozinha... Eu cresci numa cozinha, e vejo a cozinha como um trabalho. Tenho a minha família, gosto de fazer o que faço, adoro cozinhar, mas na altura em que era jornalista também não pensava em deixar de o ser. Acho que as pessoas têm que experimentar, temos uma vida curta. Tenho 45 anos, se calhar já estou na segunda etapa da minha vida. Ou, se calhar… a entrar na terceira como treinador. [risos]

Com uma relação com Portugal de cerca de 20 anos, é aqui que queres envelhecer?
Para já, sim. Adoro Portugal. Não me vejo noutro país a viver.

Quem vai chegar mais longe no Campeonato do Mundo, Argentina ou Portugal?
É difícil. O Mundial é um momento mágico, são tantos factores para ganhar. As equipas europeias têm muito mais possibilidade do que as sul-americanas. A minha visão do futebol é que nas duas últimas Copas do Mundo, as equipas que ganharam tinham como base uma equipa. A última era a Alemanha, tinha 70% dos jogadores do Bayern Munique, 20% do Dortmund e o resto. O Brasil tem 11 jogadores que jogam em equipas diferentes, não falam a mesma linguagem. Se calhar é muito mais importante ter uma equipa com menos estrelas, com jogadores menos importantes, mas com química. Acho que a Argentina e o Brasil cada vez têm menos hipóteses. Depois tem que haver uma garra e mentalidade muito forte, que um jogador Argentino que joga na Europa tem, mas na seleção parece que falta. Portugal tem o Europeu; quando a Espanha ganhou o Europeu, ganhou a Copa do Mundo. A Argentina na última Copa do Mundo chegou à final, mas a jogar pessimamente, foi triste. Portugal tem muito melhores avançados, se calhar, que defesas – tem o Ronaldo, o Nani, jogadores espetaculares; a Argentina tem avançados, mas não se percebem entre eles. O Messi joga sozinho e depois criticam-no porque não vê o jogo com fulgor, quando é o único jogador que faz três passes de golo por jogo e os avançados não fazem nada.

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