Acabaste de lançar um livro intitulado Sem Filtro. Consideras-te um homem sem filtro ou foste apenas um presidente sem filtro?

Considero-me um homem sem filtro. Um homem frontal, directo, por isso foi a minha essência e o meu carácter que também estiveram presentes na presidência.

Achas que a tua saída do Sporting deve-se, em parte, ao facto de nunca teres tido esse filtro?

Também. Acho que sim. Estamos num país que não está muito habituado às verdades, está mais habituado ao politicamente correcto. Acho que não fui politicamente correcto, fui muito mais preocupado em dizer aquilo que sentia e em factualizar - aliás, faço o mesmo no livro, factualizar aquilo que ia acontecendo e não foi de todo valorizado pelas pessoas. Por isso, aqui em Portugal, sem filtro não é assim muito bem recebido por parte das pessoas.

Em que momento pensaste em lançar um livro sobre o teu período na presidência do Sporting e o que procuras com a publicação desta obra?

Desde o início deste mandato que estava na minha cabeça eu fazer um livro no fim do mandato, não quer dizer que esperava que o mandato fosse apenas cinco anos e meio, mas estava. Aquilo que pretendo é dar um conhecimento isento às pessoas de parte daquilo que foi a minha estadia no Sporting e dar um bocadinho a conhecer o lado não visto da presidência e também do mundo do futebol.
É um livro que não tem um intuito revanchista, de ajustes de contas ou de maldade nenhuma. Acho que é um livro não só para sportinguistas, mas para todos aqueles que gostam de desporto em geral.

O que é que esperas obter de quem ler o livro? E o que é que um adepto de outro clube pode ganhar ao fazê-lo?

Perceberem um bocadinho melhor o mundo do futebol, porque as coisas não diferem muito. Está bem que cada um tenha as suas características, a sua personalidade e represente o papel. Ser presidente também é representar um papel; aliás, nós temos vários papéis na nossa vida, o de filhos, de pais, de trabalhador, de patrão, de presidente de um clube, de atleta, isto são tudo papéis que temos que desempenhar, claro que sempre com um fio condutor, que é a personalidade e o carácter que cada um de nós tem. Serve também para as pessoas poderem olhar e perceber a dificuldade e as coisas engraçadas que vai vivendo um presidente. Penso que toda a gente tem a ganhar em ler o livro, porque o conhecimento não faz mal a ninguém e é bom.
O livro tem partes hilariantes, eu por mim, leria sem dúvida nenhuma, mesmo que não fosse do Sporting.

E porquê agora? Não é muito cedo para gastar já este trunfo ou tens mais para te manteres na memória sportinguista até ser possível o regresso?

Não sei, eu não estou muito focado em regressar ao Sporting. Não é um objectivo, pelo menos a curto e a médio prazo. Neste momento, aquilo que me move é aproveitar tudo o que desaproveitei durante sete anos. Digo isto porque, de 2011 a 2013, também estive muito activo no Sporting, como podemos chamar, na oposição. Agora consigo voltar a fazer coisas que gosto, como ir a um bar de um amigo e pôr música, estar na minha festa de anos e tocar bateria, estar com as minhas filhas, com os meus pais, fazer aquilo que gosto, de cinema, de música, de poder sair... estar muito mais à vontade do que pude durante sete anos. Dormir um bocadinho mais, 6/7 horas por dia, escusam de ser as 2/3 que eram, estou muito satisfeito em poder agora aproveitar aquilo que sou, eu e a minha família. Por isso não tenho pretensões a curto e médio prazo. A longo prazo, sempre aprendi que nunca se deve dizer nunca, vamos ver, mas não é de todo esse o objectivo do livro.

Fotografia - Bernardo Coelho

Enquanto lideraste o Sporting, eras acusado de falar muitas vezes. Mesmo assim, este livro tem muitas histórias inéditas. Ficou ainda algo por contar que possa ser bombástico ou que os sportinguistas, e o público em geral, precisem de saber?

Acho que ainda dá para fazer um segundo filme. Não se consegue resumir tudo de cinco anos e meio num mero livro, por isso nós acabámos o livro com uma perspectiva de poder haver uma segunda parte. Em termos futebolísticos, podemos estar nos primeiros 45 minutos. Vamos ver qual é a reacção das pessoas, está a ser muito positiva, aliás, ainda antes de ser lançado já estava na segunda edição.

A escolha de Luís Aguilar para escrever este livro gerou alguma surpresa e controvérsia junto dos adeptos do Sporting e, em particular, dos teus apoiantes. Porquê este autor? Acaba por servir quase como um selo de que Sem Filtro não é uma tentativa de lavar a imagem?

Escolhi o Luís Aguilar quando soube que ele era colunista da Playboy. [risos] A partir daí, foi logo a minha primeira opção, porque nós tivemos uma conversa forte e ele disse que me ia apresentar a algumas Playmates, por isso eu disse logo, “Está bem” e fechámos o acordo rapidamente, esquecemos o passado e passámos logo para o futuro. É para dizer a verdade? Não. Assim é mais divertido. [risos] Só para não serem as entrevistas todas iguais.

Foi fácil ultrapassar os desentendimentos que tiveram no passado?

Foi, foi. Acho que quando as pessoas não têm na sua génese aquilo que é um instinto de vingança e aquela mesquinhez, eu não tenho, o Luís não tem, é fácil. Conhecemo-nos, falámos aquilo que tínhamos para falar com toda a frontalidade e depois reparámos que havia muito mais coisas que nos podiam unir do que aquelas que nos podiam desunir. Para mim era fundamental que este livro fosse 100% isento e o Luís dava-me essa possibilidade, não só pelos livros que já escreveu, mas essa capacidade de eu poder ter um livro de alguém que de uma forma totalmente desapaixonada, porque não é do Sporting, me fizesse as perguntas certas, no tom certo, da forma certa, para o livro poder ser extremamente interessante para todo o universo desportista. Podia-se misturar aqui o sportinguismo da pessoa que fizesse o livro comigo e termos um livro pouco isento, assim eu preferi claramente dar um cunho de isenção ao livro, que acabou por ter. As pessoas se virem as temáticas abordadas, estão faladas com toda a abertura, com toda a frontalidade, tens temas sensíveis, temas hilariantes, até temas graves, conseguimos fazer uma obra para as próprias pessoas também aprenderem um bocadinho mais sobre o futebol. Nestas 200 páginas eu espero que as pessoas também percebam que não falava demais, eu representava um papel. Representava a defesa intransigente do Sporting Clube de Portugal. Neste momento, não sendo presidente, pude contar uma série de coisas. Talvez agora as pessoas percebam aquilo que é o papel, o que era o trabalho real e efectivo e as coisas que não eram visíveis. Tudo o que era visível fazia parte de um papel de reconstrução do Clube. E também porque foram tomadas certas atitudes, as pessoas conseguem compreender isso, coisa que enquanto presidente do Sporting não me competiria estar a mencionar ou a falar.

Foi em parte uma decisão política para mostrar que há um novo Bruno de Carvalho?

Não há um Bruno novo, há um Bruno que não está a representar o papel. É o Bruno que está a contar episódios de quando esteve na presidência do Sporting. Portanto, não há um novo Bruno, há o Bruno que regressou após sete anos de muita felicidade para mim, porque cumpri o meu sonho. Há muita gente que na vida não consegue cumprir o seu sonho, eu consegui cumprir o que tinha desde os meus seis anos de idade, foi para mim um prazer, uma honra tremenda ser presidente durante cinco anos e meio. Mas agora voltou o Bruno cidadão, não é um Bruno diferente, é um Bruno com outro papel, que é o não ter papel em termos de Sporting, apenas ser um adepto incondicional do Sporting Clube de Portugal.

Ao ler o livro, ficamos com a ideia de que tomavas grande parte das decisões sozinho. Consideras-te um líder capaz de delegar funções?

Isso completamente. Mas também tenho a noção que haveria muitas coisas que teria que ser eu próprio, não só por ser o presidente, mas também porque as pessoas não tinham esses skills, esse know-how, para fazer uma série de coisas que acabámos por fazer. Mesmo assim, sendo eu sozinho ou não, não posso deixar de dizer que éramos uma equipa. Não posso deixar de dizer o nós, independentemente de muitas vezes a liderança ter muito que ver com um factor de solidão. E por isso, às vezes, pode parecer que há o «eu», mas eu nunca me esqueci do «nós» em termos de todo o trabalho que foi feito. Mas liderar é um trabalho de muito pensamento, muita necessidade de tomar decisões constantemente, reflexões, análises e isso é um trabalho muito solitário.

Fotografia - Bernardo Coelho

Quem se cruza contigo deve ter tendência a ser “presidente de bancada” e dizer-te como acha que devias ter feito em determinada situação. Tens paciência para estar sempre a ouvir que não devias ter escrito aquilo no Facebook?

Tenho, porque ao fim de sete anos ganhamos essa bagagem. Iniciei esta aventura com 39 e já tenho 47, as coisas vão mudando, vamos aprendendo também e tendo outra calma e capacidade de encaixe. Ainda sinto muito o carinho das pessoas e aquilo que me iam dizendo, que eu me expunha com muita facilidade e que isso poderia trazer dissabores no futuro. Tinham razão quando assim o disseram. Agora, cada vez mais, aquilo que tenho recebido são atitudes de carinho e de pena de como as coisas terminaram. Mas eu também tenho que assumir, já o fiz publicamente, que errei muitas vezes naquilo que era o meu papel e na minha intervenção. Mais na forma, muito menos no conteúdo. O conteúdo acho que estive quase, quase perfeito; na forma, essa forma que tenho directa, frontal, dá essa imagem de pessoa que falava demais, que escrevia demais, que não devia ter dito isto ou aquilo. Eu percebo quando as pessoas têm essa opinião. Por isso só tenho é que ouvir, sentir as pessoas a desabafarem e não levar a mal.

Serias capaz de voltar a estar com Jorge Jesus para almoçar ou jantar com ele e falarem frontalmente sobre tudo o que se passou? Achas possível voltares a ser amigo dele?

Eu sou católico e a coisa que mais gostaria na vida era de me sentar um dia num restaurante com Jesus. Todos nós alguma vez na vida sentimos que estamos na sua presença, sobretudo quando estamos mais aflitos. Portanto, não tinha problema nenhum de me sentar com Jesus. Com o Jorge Jesus, mais uma vez não guardo nenhum rancor específico, já disse aquilo que acho que ele fez de bem e que acho que ele fez de mal, tenho a certeza absoluta que mais cedo ou mais tarde nos havemos de cruzar e não há de haver nenhum clima de animosidade. Errei na decisão de o contratar, foi claro, tinha tudo para dar certo, fazia muita lógica, estamos a falar de um treinador que era campeão, que era do rival, portanto teve toda a lógica, como global foi um erro, em termos de resultados.

Os resultados fazem-te considerar que tudo desde a escolha foi um erro?

Claro. Não só pelos resultados, como pelos investimentos todos que foram feitos, em salários, em jogadores, que não havia necessidade para os resultados desportivos que nós acabamos por ter.

E com Octávio Machado?

Eu sou uma pessoa que gosta muito mais de bebida leve. Sou uma pessoa calma, tranquila, gosto de brincar. O Octávio é daquelas pessoas que vocês sabem perfeitamente o que é que estamos a falar, por isso… Como sabemos todos do que é que estamos a falar, acho que não tinha assim grande interesse em ir fazer uma refeição com alguém que todos sabem o que é que estamos a falar. Como todos nós sabemos, já não haveria tema de conversa entre nós. Aliás, eu tenho que dizer que dou muito valor às pessoas que conseguem ter um tema de conversa com o Octávio.

Já te ouvimos criticar várias pessoas que escolheste para o Sporting. Consideras-te um mau “olheiro”?

Considero que para as minhas duas primeiras candidaturas fizeram sentido as pessoas que eu escolhi, nas terceiras eleições já devia ter feito uma remodelação total da equipa. Isto é um trabalho muito exigente, que nos tem que ocupar mesmo grande parte, se não o dia todo, e as pessoas não estavam preparadas para aguentar mais quatro anos. Portanto, fui um péssimo “olheiro” nas terceiras eleições a que fui a votos.

E quais as pessoas que foram fundamentais para os bons momentos que viveste no Sporting?

Todos os atletas que me deram sete títulos europeus. Os atletas do andebol, que me deram um bicampeonato e uma taça europeia. Os atletas do hóquei, que me deram o campeonato e uma taça europeia. Os atletas do voleibol, que logo no primeiro ano me deram o título de campeões nacionais. O ténis de mesa, que começou novamente a ganhar consecutivamente tudo, campeonatos, taças e supertaças. O futebol feminino, que no primeiro ano de existência foi logo campeão e ganhou a Taça de Portugal e no segundo ano voltou a ser campeão. Houve tanta gente que me deu tanta alegria no Sporting. Só posso estar agradecido e dessas pessoas tenho verdadeiramente saudades.

Durante a presidência, e mesmo já depois de teres saído, falaste em várias traições de que foste alvo. Acreditas que há muita gente que te deve um pedido de desculpas?

Não, que eu não dou essa relevância às pessoas. Acho que nós na vida devemos querer um pedido de desculpa de quem nos diz alguma coisa. Agora quem não me diz nada, não acho que me deva um pedido de desculpas. Acho que ninguém ligado ao Sporting me deve um pedido de desculpas. Não lhes dou essa importância.

E ao contrário? Há alguém que mereça um pedido de desculpas da tua parte por algo que possas ter dito ou feito no tempo em que lideraste o Sporting?

Os sportinguistas, por não lhes ter conseguido dar o título de campeão nacional de futebol.

Chegaste a dizer numa entrevista: “Primeiro é preciso criar fama de maluco, depois é preciso mantê-la.” Essa personagem que criaste para ser presidente do Sporting, também a utilizas noutros momentos da tua vida?

Quando é necessário, como é óbvio. Mas atenção que isso é uma estratégia, sem dúvida que eu aprendi do meu tio-avô, o almirante Pinheiro de Azevedo, que tanta coisa de bom deu ao Sporting mas também deu a saída que deu.

Acreditas que é preciso “ser-se maluco” ou “fazer-se de maluco” para estar no futebol português?

Acredito perfeitamente. Para a responsabilidade que é, porque tratamos de emoções de milhões de pessoas. Temos sobre nós a possibilidade de pôr felizes ou infelizes milhões de pessoas. Isso só uma pessoa com uma boa dose de loucura, que depois tem que ser associada com certeza a know-how, carácter, personalidade, mas tem que se ter uma pequena dose de loucura para andar a dormir 2/3 horas durante cinco anos e meio. E o que é que aconteceu que se diz pouco? No ano em que fazem a assembleia destitutiva, é o melhor ano desportivo de sempre do Sporting. A única coisa que falhou foi o título de campeão nacional no futebol masculino sénior. De resto fomos campeões em tudo. Verifico que foi o ano em que eu acabo destituído. Por isso é que eu digo, em termos de conteúdo quase a perfeição, em termos de forma, deu o que deu. Agora que os resultados foram bons, foram. Tirando aquilo que já falei, o futebol sénior masculino, foi muito pouco para o investimento criado por nós, porque o Sporting só tinha dívidas, não tinha riqueza e nós conseguimos começar a pagar as dívidas e a criar riqueza para fazer o maior investimento de sempre do clube na equipa sénior masculina de futebol.

Fotografia - Bernardo Coelho

Travaste contacto com muitas pessoas, dentro e fora do Sporting, enquanto foste presidente. Quem te surpreendeu mais pela negativa?

Quem me surpreendeu mais pela negativa foi o Luís Filipe Vieira. Acho que alguém com tanta experiência não devia ter feito aquela proposta. Até hoje ainda me lembro dessa proposta, que é feita na garagem da Liga, de fazer uma aliança, umas vezes ganho eu e umas vezes ganhas tu, não estava à espera. Acho que as pessoas têm que ter consciência, alguma sensibilidade e conhecimento de com quem é que estão a falar. Por isso, acho que foi a pessoa que mais me decepcionou.

E pela positiva?

Pinto da Costa. Acaba por ser a pessoa com quem tenho o meu primeiro embate, é com Pinto da Costa e o Porto, e que depois me surpreendeu completamente pela positiva. Pela postura, pela forma como ele é em termos de anfitrião, surpreendeu-me muito, muito pela positiva.

Qual o jogador que gostaria de ter contratado e nunca conseguiste?

O Cristiano Ronaldo. Mas há uma coisa que eu digo, não tenho dúvida nenhuma que ele acabaria lá a sua carreira.

E aquele que te arrependes de ter levado para o Sporting?

Houve tantos. O Douglas, o André, o Ciani. O Shikabala não foi de todo uma má jogada do Sporting. Primeiro, porque o clube subiu brutalmente em termos de redes sociais e passou a ser muito conhecido no Egipto e depois porque fizemos dinheiro com ele, entre a compra e a venda, por isso não consigo pôr o Shikabala. Markovic, foi um empréstimo, acabou por não resultar. O Joel Campbell, um rapaz extraordinário, ele e o pai, mas acabou por não sair como nós queríamos e com todo o valor que ele tinha. O Barcos, acabou por não resultar minimamente. O Ewerton, não correspondeu àquele Ewerton que já tinha passado pelo futebol português, portanto há vários jogadores que foram surpreendentes pela negativa. Não estou a dizer pelo feitio ou se são boas ou más pessoas, estou a falar em termos de rendimento desportivo.

Ainda falas com os teus jogadores?

Sim, há vários com quem ainda tenho contacto. Das modalidades são quase todos, do futebol, bastantes.

Sentes alguma estranheza por ver o antigo médico como presidente ou é indiferente quem lá está?

É-me completamente indiferente, acho que isso é uma escolha dos sportinguistas. A partir do momento em que não me deixaram, para mim ilegitimamente, ir a eleições, os sportinguistas são livres de fazer as suas escolhas e se era o médico ou o roupeiro, isso já é uma escolha dos sportinguistas, não era minha. Eu nem consegui ir votar, porque tive uma gastroenterite nesse dia e portanto nem exercer o meu voto pude fazê-lo. E também não poderia porque estava suspenso.

Votavas em quem?

Se tivesse ido votar, fazia um quadradinho à parte, punha “Bruno de Carvalho” e fazia o X.

Se a saída de Mihajlovic seria mais óbvia, por ser o treinador escolhido por ti, podemos concluir que Viviano foi o maior dano colateral da tua destituição?

Acho que foi um erro gravíssimo, o Sporting ter abdicado do Viviano. Ele está a fazer exibições fantásticas e não tenho dúvidas que ele tem razão quando lhe perguntaram porque é que acha que saiu do Sporting, e ele diz, “acho que saí do Sporting porque fui contratado pelo Presidente Bruno de Carvalho”. Por isso acho que aí sim, houve uma caça às bruxas, mas pronto, eu não escolheria nada do caminho que está a ser trilhado, o meu caminho seria outro, continuar a fazer aquilo que estávamos a fazer e tão bem, mas pronto. É o que é.

Continuas a ver os jogos do Sporting? Consegues abstrair-te e focar só nas camisolas de leão ao peito?

Sim, claro. Sou um adepto incondicional do Sporting Clube de Portugal, por isso claro que sim, quero é que o Sporting tenha sucesso e que os sportinguistas, assim como eu também o sou, sejam felizes em todas as modalidades. Aquilo que eu quero é continuar a acompanhar o Sporting de outra forma, como adepto, mas com a mesma intensidade e a mesma paixão.

Será mais fácil regressares se as coisas correrem mal no futebol. Como é que se lida com esses sentimentos opostos?

Não tenho essa percepção. Acho que isso é algo mais do passado. Já disse que nunca vou dizer nunca, mas não tenho intenções de voltar ao Sporting a curto/médio prazo, além de que não gosto e nunca gostei de situações, e não falo só de mim, de pessoas que sobem na vida ou que conseguem alguma coisa pelo insucesso ou sofrimento dos outros. Gosto de pessoas que conseguem coisas na vida pelo seu talento, pela sua capacidade.

Já disseste várias vezes que cumpriste o teu sonho de infância ao ser presidente do Sporting. Como foi acordar no dia seguinte à destituição?

Estranho, foi estranho, porque já me ia vestir, ia para o Sporting, e depois, “Espera lá, fui destituído, não tenho que ir para o Sporting”. Não posso dizer que vivi esses momentos com normalidade e felicidade, estava a mentir. Os primeiros momentos foram de bastante anormalidade para mim e de infelicidade por não poder continuar a servir os superiores interesses do Sporting Clube de Portugal.

Quando escreveste aquele post em que dizias que deixavas de ser sportinguista, era algo que te estava mesmo na alma naquele momento?

Era, porque consegui perceber com a Assembleia Geral de Destituição que tive razão desde o primeiro dia sobre a realidade do Sporting, porque se nós formos ver são sempre os mesmos. Não é passível de haver ali uma ruptura. Houve uma ruptura saudável, boa, durante cinco anos e meio, e neste momento voltámos outra vez ao caminho com as mesmas pessoas, os mesmos ideais que havia antes. Como sportinguista, tenho pena, mas é a escolha que os sócios fizeram e eu só tenho que respeitar e continuar a aproveitar a minha vida enquanto pessoa, enquanto pai, enquanto filho. Também prejudiquei muito os meus pais porque não lhes dediquei a atenção devida e também lhes consigo neste momento dar um apoio diferente e estar muito mais presente, isso para mim é bom.

Chegaste a dizer que os últimos meses como presidente do Sporting foram quase um pesadelo. Quais são as boas memórias que tens dos tempos em que foste presidente?

Tenho excelente memória da restruturação financeira que foi conseguida; da renegociação da restruturação financeira, que também já estava feita nesses meses fatídicos de Março, Abril, Maio. A construção do pavilhão foi um momento de alegria máximo, os sete títulos europeus, porque eram um objectivo declarado, e depois também nesses três meses fatídicos, o termos sido campeões em todas as modalidades, quase todas no nosso pavilhão. Portanto, as minhas maiores alegrias acho que foram isso, uma aproximação aos adeptos muito grande, entrámos pela primeira vez nos dez clubes com mais sócios do mundo, quando saio éramos o terceiro clube do mundo com mais sócios. Tudo o que foi feito para os sócios, o Sócio num Minuto, o Regresso do Sócio, desenhar as camisolas alternativas, o pavilhão e tudo o que foram títulos, portanto são as três vertentes de grande alegria, de grande orgulho que tenho no trabalho efectuado nestes cinco anos e meio. As maiores alegrias foram nos três meses que os sportinguistas chamam “tão fatídicos”, mas em que nós conseguimos ser campeões em todas as modalidades. O que significa, volto a dizer, que em termos de conteúdo estava quase perfeito, não existe a perfeição; em termos de forma é que foi o grande erro. Porque naquilo que os sportinguistas queriam, que era estabilidade financeira e títulos, foi-lhes dado. Não lhes foi dado o campeonato sénior masculino de futebol e essa, como já disse, foi para mim a minha falha maior para com os sportinguistas. Nos meses fatídicos, que se dizem que foram os meses mais negros da história do Sporting, foi só o ano em que o Sporting conquistou mais títulos europeus em toda a sua história e foi o ano em que todas as modalidades foram campeãs, tirando o futebol.

E acontece Alcochete. É esse momento que leva à tua saída?

Acho que politicamente foi bem aproveitado pela oposição que não tinha coragem de dar a cara. Continuo a achar que não foi o momento mais negro da história do Sporting. Para mim o momento mais negro foi o pior ano desportivo de sempre e a falência técnica do Sporting, que caminhava para deixar de ser um dos grandes. Isso para mim acho que foi o período mais negro do Sporting. Aquilo que aconteceu foi um acto hediondo, criminoso, que está a ser julgado. Em Guimarães foi muito pior aquilo que se passou na Academia. Mas Guimarães teve uma sorte grande. Foi um treinador à altura daquilo que lá aconteceu e que não permitiu que escalasse ou que se passasse cá para fora muito daquilo que se passou, mas lá foi muito pior e não foi dada esta propaganda toda, porque eu chamo-lhe propaganda, que foi dada ao Sporting. E a pergunta seguinte seria, mas o Sporting é o Sporting e o Guimarães é o Guimarães. É a pergunta mais errada possível, porque são todos homens e aí peço desculpa mas não pode haver discriminação por camisola ou por clubismo. São homens que foram agredidos, violentados e isso eu não consigo fazer a separação, que se chama Joaquim ou Manuel, ou se joga no clube A ou no B. São crimes. São atitudes que não deviam acontecer mas, continuo a dizer, o Pedro Martins, grande treinador e que grandes saudades me deixa de quando era jogador, teve a capacidade de conseguir não transformar aquilo em algo que no Sporting politicamente as pessoas aproveitaram para transformar em algo muito, muito pior do que aquilo que aconteceu, apesar de ter sido um crime hediondo, que o Sporting prontamente se pôs ao serviço da justiça para toda a colaboração necessária, para se apurar os culpados.

Hoje ao ler o livro, com à distância temporal, há coisas que aconteceram e parecem inacreditáveis?

Há. Em primeiro lugar vou fazer um exercício de impossibilidade, porque já passou. Se eu soubesse na altura que havia a mínima probabilidade do Sporting não ganhar o jogo, tinha ido à Madeira. Erradamente, mas teria ido. E erradamente porquê? Já é público que a minha filha mais nova, que tem 9 meses, podia não ter nascido viva e eu estando cá e tendo estado a acompanhar o andebol e o hóquei, com toda a facilidade, se acontecesse alguma coisa, podia pegar no carro e em duas, três horas estava ao pé da minha ex-mulher. Na Madeira não é assim. Teria que estar à espera de haver um avião, e que não houvesse nenhum problema. Mas se soubesse aquilo que sei hoje, tinha ido à Madeira. Coloquei sempre o Sporting em primeiro lugar, isso foi uma das grandes falhas que tive, e nada disto teria acontecido. Não permitia o bate-boca entre adeptos, jogadores, nem tinha permitido que um adepto furasse o cordão policial, portanto nada disto teria acontecido. É a única coisa que olho para trás e faria diferente, erradamente, porque a família tem que estar em primeiro lugar, mas teria ido à Madeira. Mas o meu raciocínio foi, “Tenho que ficar cá pela minha mulher (agora ex-mulher), tenho que ficar cá porque vamos jogar uma final de uma competição europeia, que era o hóquei, e na Madeira vamos ganhar de certeza, porque todos sabem o que é que está em causa, portanto vão dar o que têm e o que não têm para ganhar o jogo. Não aconteceu assim. Nem ganhámos a competição europeia, nem ganhámos o jogo na Madeira. Acho que a partir daí é que a oposição, que estava toda desorganizada, se organizou em torno de um acontecimento que não teve um treinador à altura para parar todas as consequências a seguir.

Fotografia - Bernardo Coelho

Lideraste uma instituição com milhões de adeptos. Vias-te a fazer uma carreira na política?

Não. Apesar dos genes que tenho, sendo sobrinho-neto de um antigo Primeiro-Ministro, e apesar de a minha infância ter sido toda passada na Assembleia da República, porque a minha mãe trabalhava lá e eu ia fazer os meus discursos para o púlpito do plenário e fazia jornais – também só tinha dois compradores, o meu pai e a minha mãe, mas pronto, sempre era mais um dinheirinho para a mesada. Acho que custava um escudo cada jornal, tiragem: dois por mês. Mas fiz, tinha eu 8 anos e ainda existem, que é o mais engraçado. Mas não, não me vejo a fazer uma carreira na política.

E fora do Sporting, há outros projectos que te entusiasmam?

Claro que sim. Eu sempre trabalhei, comecei tinha 18 anos, tenho 47. Passei uma dívida de 500 milhões para cerca de 240 milhões e estávamos a acabar uma negociação para passar para os 100/150 milhões. Fiz o melhor negócio de sempre de direitos televisivos em Portugal, 515 milhões, quando a primeira oferta foram 150 milhões. Por isso tenho toda a capacidade, neste momento estou naquilo que precisava, dar acompanhamento a quem o retirei durante sete anos, a mim próprio, às minhas filhas e aos meus pais e sinto-me muito bem. Várias pessoas têm vindo conversar comigo e tenho a certeza absoluta que há projectos absolutamente aliciantes, em que consiga esse equilíbrio entre o trabalho e o não deixar desprotegida a família, como deixei.

Chegou a passar-te pela cabeça construir uma vida nova noutro lado qualquer?

Neste momento é uma impossibilidade, pelo processo que está a decorrer, portanto não vale a pena pensar nisso, independentemente de à conta de Alcochete já ter perdido oportunidades excelentes, sobretudo em Inglaterra. Projectos que me agradavam muito, mas não posso, como é público, estamos na fase de instrução, não posso sair do país. É o que este processo acabou por ter de muito negativo, tirou-me a possibilidade de ter projectos muito engraçados e tive de recusar convites muito bons.

Uma biografia acaba por ser também uma reflexão. Estes cinco anos e meio valeram a pena?

Vou dar a resposta como Presidente do Sporting e como pai e filho. Como Presidente do Sporting, sem dúvida, valeu a pena, porque vivi momentos de felicidade tremenda. Vivi um período de um orgulho, de uma satisfação de pensar no meu avô, o irmão do Pinheiro de Azevedo, Eduardo Azevedo, escritor que fez a história de vida do Sporting. Os dois eram fanáticos sportinguistas, como estariam felizes em ver o seu neto e sobrinho-neto a presidir o clube, por isso em termos de orgulho e satisfação, total. Como homem, não valeu a pena. Pela forma como saio, por tudo aquilo que dei e pelo sentimento de grande ingratidão que tenho pela forma como os sócios decidiram a minha saída do Sporting Clube de Portugal. Fazendo outra vez o exercício fora daquilo que é a possibilidade, que é voltarmos atrás, aquilo que eu deveria ter feito era não ter tomado posse, logo nas primeiras eleições. Não as que primeiras que ganho, quando sou posto no exílio, depois há as segundas que ganho e em que sou finalmente colocado dentro do Sporting. Sei perfeitamente que iria tomar posse, mas como pessoa, como indivíduo, como pai, como filho, não o devia ter feito. Porque prejudiquei muito para depois os sportinguistas, com 71%, creio eu, decidirem a minha saída em termos de destituição. Como homem, olhando para a minha filha mais velha, que está quase a fazer 15 anos, pensar que perdi quase sete anos da vida dela; a minha filha do meio tem 4 anos, também foi um acompanhamento diminuto, e depois tenho uma filha de 9 meses, que o seu acompanhamento é nulo, mas isso já são outros problemas graves que advieram também desta situação do Sporting. Tenho esta dicotomia. Valeu a pena enquanto presidente e enquanto criança que aos 6 anos sonhou, e fez bem em ter sonhado, porque conseguiu atingir o objectivo. Mas como pai, como filho, como cidadão, não valeu a pena.

Partilha isto: