Como é que categorizam a vossa música?

Nelson Assumidamente é música pop, cantada em português. O pop vem de popular, de coisas que te ficam no ouvido, é um produto para massas porque a percentagem de pessoas que poderão gostar deste tipo de música é muito maior do que o chamado alternativo. Acho que fomos dos primeiros em Portugal a ultrapassar a barreira daquilo que era expectável para uma banda daquilo que seria consumo rápido. Não, se continuares a fazer música vais continuar por cá.

Terem feito parte da boys band Sétimo Céu ajudou-vos a aprender a ultrapassar essa barreira?

Sérgio A nossa carreira é baseada e estruturada em todo o nosso percurso, começamos como dupla, toda a nossa infância e adolescência foi passada a dois, num outro formato. Depois ganhámos um programa na RTP, o Casa de Artistas, como Nelson e Sérgio Rosado e a seguir tivemos esse interregno com os Sétimo Céu. Se nos perguntares se não tivéssemos entrado nos Sétimo Céu, não éramos a banda que somos hoje? Nunca se vai saber, mas o que nos deu realmente foi uma experiência importantíssima para que a nossa gestão de carreira seja feita de uma forma diferente, claro que sim. Deu-nos a conhecer a entrada num meio profissional, foi importantíssimo.

Era esta a música que ouviam na adolescência?

Nelson Sim, sempre cantámos e fizemos tudo aquilo que gostamos. Se repararem, há uma altura não muito longínqua da nossa carreira em que lentamente fomos saindo de um pop mais electrónico, e nos virámos para uma parte mais acústica, tivemos pelo menos dois discos pop-rock, estou-me a lembrar do Alma e do Virar a Página, não essa música, mas os temas que estão lá dentro do álbum são, claramente.
Sérgio É um bocado relativo, o próprio Justin Timberlake que é pop, se formos tirando os vários instrumentos, beats, não sei quê, a base de muitas músicas é rock.
Nelson O cru da coisa.

Sérgio E isso é que é o interessante, podermos misturar um bocado, fazer uma fusão de vários estilos.

Fotografia Bernardo Coelho

Mas não tiveram aquela fase de rebeldia na adolescência?

Sérgio Tivemos, ainda para mais na geração do Nelson, as bandas de garagem e as brincadeiras que se faziam.
Nelson Mas a questão gira disto tudo, nos quase 18 anos que estamos prestes a fazer só de projecto Anjos, 28 de música ao todo, é que se fosse uma questão meramente comercial, se fossemos nas ondas, agora estávamos a gravar cenas de kizomba ou reggaetons. Tivemos a sorte de acertar com alguns temas em alturas cruciais e evidentemente que às vezes até nos apetecia juntar àquele reportório coisas se calhar diferentes mas íamos confundir o público. Quando queremos fazer uma viragem, não fazemos logo de 80 ou 120 graus, vamos fazendo lentamente de 20 graus em 20 graus até lá chegar, tem sido assim a nossa carreira.
Sérgio Até porque muitas das músicas do primeiro álbum foram escritas... fiz o Ficarei com 14 anos.

E quando lançaram tinhas uns 18, 20?

Sérgio Tinha 18 anos. Nessa altura tínhamos o nosso projecto num formato completamente distinto, antes dos Sétimo Céu, e estas músicas foram surgindo nos nossos espetáculos.
Nelson Anjos ao vivo é pop rock.

Com a banda?

Nelson Sim, o projecto ganha uma dimensão diferente.

Como é que era na escola, as miúdas já não vos largavam?

Nelson Sempre fui muito tímido, a minha sorte é que as miúdas em determinada altura vinham ter comigo. Não era o geek da escola, obviamente. O Sérgio era mais atrevido.
Sérgio Mas é engraçado que no único momento em que estava realmente apaixonado, não conseguia partir para as acções. Refugiei-me naquilo em que me conseguia exprimir, a música, e junto com uns amigos escrevi uma canção, Noites Sem Fim, para essa pessoa que é a minha actual mulher. Chegou ali naquela altura e fiquei sem palavras, achei que a melhor forma de captar a atenção dela seria a música. Eu sei que é jogo baixo. [risos]

Integram os BikeAngels e o Anjos Futebol Clube. Importam-se de explicar?

Nelson Temos um vicio muito grande… para já somos hiperativos, começa logo por aí. Hiperactivos positivamente falando, não gostamos de ter tempos mortos e, dada a nossa pancada saudável pelo desporto, começámos por criar uma equipa de futebol. Reuníamos sempre montes de amigos e chegámos a entrar em alguns torneios, como a Liga Eusébio.
Sérgio Chegámos a ir à final, num ano.
Nelson E no outro ficámos em terceiro.
Sérgio Recebemos a taça ainda das mãos do Eusébio.
Nelson Depois tive uma grave lesão no joelho direito, num jogo de treino, fui operado, fiquei uns meses a recuperar e a malta também não jogou.

Isso teve impacto nos concertos?

Nelson Fiz alguns de cadeira de rodas. Recuperei da lesão com bicicleta, depois através do nosso amigo e ex-corredor profissional Vítor Gamito voltámos a andar de bicicleta, mas como curiosos, nunca tínhamos feito bicicleta de estrada e começámos a ganhar-lhe o gosto, paralelamente também sempre a evoluir no BTT, era um bom escape que tínhamos ali. Não somos atletas profissionais, não temos capacidades para isso, conseguimos fazer boas figuras quando treinamos bem mas nunca com ambições de pódios nem nada que se pareça. Então tivemos a necessidade de criar uma equipa, os BikeAngels para irmos lá fora, chegámos a fazer algumas provas internacionais, este ano temos uma que é o Madrid-Lisboa em BTT, por estafetas non-stop. Depois também abrimos a Anjos Academia de Música, uma área mais dentro do nosso core business, era um velho sonho de família, e englobámos estas três coisas debaixo do chapéu que é a Anjos em Movimento, uma associação desportiva, criativa e cultural sem fins lucrativos. Quando nos metemos nas coisas gostamos de as fazer bem-feitas e à séria, não ser só “ah, encontramo--nos de vez em quando e fazemos”. Com as bicicletas temos um grande evento anual que este ano conseguiu angariar quase quatro toneladas e meia de bens e produtos alimentares.

Aos Anjos da Noite não estão ligados?

Nelson Nada, nada, esses não.
Sérgio Nunca se sabe.

Fotografia Bernardo Coelho

Têm uma vida social bastante activa, há sempre disposição para ir a apresentações, lançamentos e essas coisas todas?

Sérgio A solicitação é bastante grande, sempre foi, se bem que estamos numa fase da nossa carreira em que fazemos uma triagem maior dos eventos, digamos assim. Não conseguimos estar em todo o lado, apesar de sermos Anjos, seres omnipresentes. [risos] É um daqueles apontamentos que quando surge na carreira das pessoas significa que ainda estão bastante activas e felizmente somos bastante solicitados, quer seja numa área mais profissional quer seja naquele âmbito da solidariedade. Tirarmos partido daquilo que somos em prol de coisas que realmente valham a pena, há também muitas associações e situações que conseguimos ver que eram dúbias, digamos assim, conseguimos de alguma forma separar as águas e perceber quais eram as situações em que valeu a pena darmos a cara. Se há sempre disposição? Há dias bons e há dias menos bons.

Se calhar às vezes apetecia-te ficar no sofá a ver televisão.

Sérgio Com certeza. Agora claro que se há aqueles dias em que não me apetece rir, nem falar com ninguém, eu não saio de casa. E isso acontece, somos seres humanos com sentimentos iguais a toda a gente. Temos sempre noção da realidade, que é a questão mais importante, não vou maltratar as pessoas só porque estou num dia não.

De férias chegam a ir para sítios onde ninguém vos conheça para estarem uns dias sossegados?

Sérgio Aconteceu-me na primeira viagem com a minha mulher. É sempre um erro, fomos para as Maldivas, e quando vais para estes resorts tens sempre a mesma mesa do início até ao final da semana, sempre o mesmo empregado, essas coisas. Então na nossa mesa tínhamos à volta casais portugueses, e pensámos “não vale a pena andarmos a fugir destas coisas, não faz sentido”. Na altura éramos miúdos, queríamos estar um bocadinho mais à vontade, mas não temos preocupação com isso. A malta que está connosco, os nossos amigos, ficam mais incomodados que nós. “Eu não sei como é que vocês aguentam.” Porquê? Estamos tranquilos, as pessoas não…
Nelson …Não nos tiram pedaço, como diz o outro. Quando saímos num jantar de amigos e de família, com copos, somos iguais a todos os outros, vou falar mais alto, brincadeiras e não sei quê, aí já tenho automaticamente o cuidado de olhar para perceber se posso fazer isto ou aquilo. Se quero fazer mesmo uma cena maluca com os amigos e família, faço em casa, pintas a manta, saltas, comes e bebes, sem dares espectáculo.

Férias não costumam passar juntos?

Sérgio Sim, mas há algum tempo que não acontece.
Nelson Este ano ele não pôde ir, fui à Escócia com a minha esposa e um casal amigo, tirando isso estou sempre com o Sérgio, basicamente.

Não se fartam um do outro?

Nelson Já tinha que ter corrido mal há algum tempo. [risos]
Sérgio Estamos tão habituados a trabalhar juntos, frequentamos os mesmos sítios.
Nelson O grupo de amigos é igual, há coerência em tudo aquilo que mostramos ao público. Pode haver dois ou três temas polémicos de se abordar, questões da actualidade, e eu não me arrisco a dizer uma barbaridade agora sob pena de daqui a uma semana ou dez anos levar com aquilo em cima sem saber ler nem escrever, então não falo disso.
Sérgio Até na questão das mulheres nós nunca partilhámos nada, até nisso somos coerentes. A malta diz na brincadeira “vocês estão sempre juntos, partilham tudo”. Não, as mulheres não. [risos]
Nelson Não há cá misturas.

A nível musical nenhum de vocês tem canções numa gaveta para fazer uma coisa diferente.

Sérgio As músicas que faço sozinho são sempre a pensar na nossa carreira, nunca a pensar em algo para mim. Nunca fechámos portas em relação a nada mas não nos vemos a fazer outra coisa na música sem estarmos juntos, acho que não faz sentido. Gerimos a nossa carreira sempre a pensar um bocadinho mais à frente, sabemos o que queremos, para onde queremos ir e isso inclui estarmos juntos sempre.

Fotografia Bernardo Coelho

Perderam muitos momentos a nível familiar por causa da carreira?

Sérgio A única coisa de que tenho alguma pena, não me arrependo porque são duas paixões intensas, a música e a família, foi na altura que nasce o meu primeiro filho, nasceu em Abril e dá-se logo ali uma grande tournée. Passámos muito tempo fora de casa e eu ia sempre ouvindo pelo telefone a minha mulher a contar “agora disse esta palavra, agora deu este passo” e eu estava longe, via imagens, vídeos, não é a mesma coisa. Pesa um bocadinho este lado mas ganha--se por outro, é uma balança que anda ali. Mas acho que somos uns felizardos, porque fazemos aquilo que gostamos.
Nelson E depois acabas por compensar esses momentos, o facto de não teres horários normais faz com que durante a semana tenhas muito mais tempo que os outros pais, vais compensar isso tudo.

Nunca chegaram a ter empregos normais?

Nelson Eu cheguei, por pouco tempo, na altura dos Sétimo Céu. Estagiei na Miele, a multinacional de electrodomésticos, foi um curso fantástico que me proporcionou a oportunidade de estudar e de estagiar, correr os departamentos todos durante três anos. Depois de conseguir concluir o curso fiquei a trabalhar lá, em seguida as coisas correram muito bem num curto espaço de tempo, fiquei na parte comercial, cheguei a ser inspector de vendas da zona sul.
Sérgio Era uma loucura, com as gravações do disco dos Sétimo Céu.
Nelson Chegava lá e parecia o manager dos gajos, de fatinho.
Sérgio Na altura faltava-me ano e meio para terminar o curso técnico-profissional de Electricidade e Electrónica e fui encostado literalmente pelo engenheiro do curso. “Sérgio, estou a gostar muito de ver o que estás a fazer na televisão mas já atingiste o limite de faltas, tens de decidir.” Nem pensei duas vezes e perguntei ao Nelson e aos meus pais. “Pessoal o que é que vocês acham? A minha vontade é a música.” E eles disseram “Se é isso que queres fazer, é isso obviamente”. Não dava para conciliar e com o Nelson foi a mesma coisa.
Nelson Nos Anjos fizemos os primeiros anos com uma média de 200 espectáculos anuais, lembro-me de chegarmos ao aeroporto e estarem duas ou três mil pessoas à nossa espera, quando viemos do Brasil. Acho que até hoje o record de capas de revista ainda é nosso, para já porque há menos revistas agora. [risos] Em seis meses foram 47 ou 48 capas.
Sérgio Roçámos ali um bocadinho o limite de poder esgotar a imagem.

É fácil aprender a gerir o silêncio, o desaparecer?

Sérgio No nosso caso esse silêncio foi importante, tínhamos de dar esse espaço, mas foi fácil porque continuámos sempre a trabalhar, sempre fomos uma banda de fazer muitos concertos, e nunca tivemos aquela necessidade de promover o nosso trabalho, fazer televisão, revistas, para conseguir trabalhar ao vivo.

Quando aparecem fenómenos como os D.A.M.A sentem o vosso espaço a encolher um bocadinho?

Nelson Não, de forma alguma, até porque quando estamos com essa malta nova percebemos que somos um exemplo, isso é o outro lado bom do pessoal que tem carreira, sabes que criaste ali qualquer coisa. E estou a reportar-me àquilo que éramos nós há muitos anos, quando olhávamos para bandas que nos marcaram, é respeitar alguém que anda cá há mais tempo, e nós sentimos isso, é outro lado bom. Quem nos quer a nós, quer-nos a nós e é uma coisa fantástica porque quando chegas lá e vês um público mais novo, depois vês também o grosso do pessoal que lá está, os que te acompanham desde sempre, mulheres e homens feitos, famílias que vão mesmo para te ouvir e aquilo é um estrondo. Fazemos ali hora e meia de concerto, é um best of, aquilo que sonhávamos ter um dia, um concerto em que as pessoas cantem do princípio ao fim, é isso que as pessoas vão ver. Quando és um fenómeno, como todos os projectos novos, as pessoas nem sempre gostam das músicas todas que tens no álbum, e depois não tens matéria-prima. Quando nós fomos fenómeno, os Velhos do Restelo, porque há sempre vozes de discordância, não muitas felizmente no nosso caso, “epá, isto é como todos os fenómenos, é aí dois, três anos”. Depois calaram-se.
Sérgio Há muita malta que às vezes não reconhece que estes novos fenómenos são importantes também para nós, o que detestamos é monotonia, e isto é importante para abanar um bocado a estrutura e obrigar-te a criar ainda mais, a teres uma motivação diferente. E aprende-se imenso com a malta nova, são outras mentalidades, outra forma de ver as coisas, tal e qual como se calhar houve outras pessoas na altura que aprenderam com o nosso trajecto, com a nossa forma de estar, com os nossos concertos, porque era uma abordagem diferente.
Nelson Não estamos aqui a falar de uma diferença geracional ou mesmo em termos de evolução tecnológica do dia para a noite. Quando estamos a falar com malta que tem menos 10 ou 15 anos que nós, que é substancial, não somos um boi a olhar para um palácio. Agora é importante casares algum urbanismo que eles têm, em termos de conceito musical.
Sérgio Faz todo o sentido actualizares o teu som de acordo com as tendências, sempre fizemos isso. Há diferenças de um álbum para o outro, mas ouves uma música e a outra e reconheces que é Anjos.
Nelson Acompanhamos uma nova geração que começou nas redes sociais, onde tem muito mais impacto que nós, apesar de haver muita falcatrua por ali, likes comprados e visualizações compradas.
Sérgio Isso sempre existiu noutras coisas, vai haver aqui também.
Nelson Certo, mas convém alertar para essas questões. Isto para justificar por vezes quando determinadas bandas vão para um festival, se aquilo é um sucesso tão grande nas redes sociais, ao vivo onde é que estão as pessoas? E de repente vai alguém que tem menos 200 ou 300 mil likes e aquilo está ao barrote e é uma loucura.

Fotografia Bernardo Coelho

Já actuaram no Brasil e lançaram uma versão em espanhol de um single. A internacionalização foi um sonho?

Nelson Claro que sim, chegámos a sonhar com isso e vou-te dizer que em determinadas alturas estivemos muito perto de conseguir, mas percebemos que tinha de haver um grande investimento financeiro, completamente surreal e percebemos que poderíamos pôr em causa a nossa estabilidade aqui, no mercado principal que é o português. Tinhas que largar tudo e ir na maluquice, então e se aquilo corre mal?
Sérgio Mas fomos obrigados literalmente a gravar em espanhol. E foi através das redes sociais, no caso o nosso canal do YouTube, porque nos pediam, da Venezuela, do México, de Espanha, da Colômbia, é engraçado, toda a América Latina a pedir-nos, que gostavam imenso da nossa música mas não percebiam o que dizíamos.

Foram obrigados pelos fãs e não por uma editora. Criaram a vossa própria produtora e management. A independência tem um preço?

Nelson Tem, estás fora de uma série de lobbies importantíssimos, às tantas estás ali isolado e sim, pagamos esse custo. Acho que basta perceber como é que nós nunca fomos a um Rock in Rio por exemplo, é uma coisa surreal.
Sérgio Nós percebemos que normalmente as bandas que vão ao palco principal no RiR estão com momentos bons na carreira, fez todo o sentido estes miúdos por exemplo. Mas nos tais momentos muito bons da nossa carreira, com grande sucesso, a coisa não aconteceu, e aí percebemos perfeitamente que estamos fora desse círculo de decisão...
Nelson Mas há formas de contornar isso e é o que estamos a tentar perceber. Essa nossa independência poderá estar com os dias contados nalguns pontos, mas as decisões cruciais continuarão a ser nossas.

Dá para fazer até serem velhinhos?

Sérgio Então não? Espectáculo.
Nelson Dá, dá na boa, desde que haja saúde.
Sérgio Eu vou curtir mais uns aninhos, ele é mais velho. [risos]

Já se esqueceram das letras durante um concerto?

Nelson Claro, é recorrente, são muitas letras. A sorte é que o público canta as músicas todas.
Sérgio Excelente teleponto, pá. [risos]
Nelson O pessoal a maior parte das vezes não apanha que te perdeste ou te enganaste na letra.
Sérgio Mas há situações em que tu precisas de algum ponto de referência e naquele momento em que te esqueces da letra eles calam-se.
Nelson É horrível, já me aconteceu.

A Namíbia terá sido o palco mais invulgar de um concerto vosso?

Sérgio Mais invulgar? Tivemos palcos muito mais invulgares
Nelson Fazer um concerto na Namíbia estava longe...
Sérgio Até porque mais de 50% do tempo falámos em inglês, foi na embaixada portuguesa.

O que é que querias dizer com isso dos palcos invulgares?

Sérgio Muita coisa diferente. Entre cantarmos em palcos que quase que vinham abaixo porque estavam praticamente assentes em estacas...
Nelson Mas coisas grandes até, cenas ridículas, como é que aqueles gajos facilitaram naquilo.
Sérgio Um dos concertos mais hilariantes que demos, não me recordo do nome do espaço em si, sei que foi no Algarve. Quando chegámos lá achámos o sítio um pouco estranho, tinha muitos espelhos e varões no meio da sala e percebemos que pronto, era um conceito diferente de espectáculo, isto sem qualquer tipo de preconceito. Rimos imenso com a situação porque, lá está, nunca na minha vida pensava em poder cantar enquanto Anjos num espaço em que habitualmente o tipo de espectáculo é outro.

Tiveram bailarinas?

Sérgio Não tivemos, estávamos à espera, por acaso, houve ali alguns momentos.
Nelson Não me importava nada de ter tido, a animar a noite.
Sérgio Houve ali alguns momentos que “epá, por acaso aqui nesta música é que ficava bem”.

E com as fãs é fácil lidar?

Sérgio Sim, alguns momentos da nossa carreira foram momentos mais fáceis que outros, mas houve sempre um respeito muito grande por parte do público em relação à nossa vida pessoal, até porque a nossa forma de estar sempre foi muito transparente, muito correcta, sempre tivemos uma aproximação muito grande em relação ao público. Foi assim desde o início da carreira e será até ao fim.

Fotografia Bernardo Coelho

As companheiras compreendem sempre que vocês não fizeram nada?

Sérgio Nós fazemos sempre muita coisa, felizmente. Não é fácil ser-se mulher de uma figura pública.
Nelson Especialmente de um músico.
Sérgio Como estamos expostos a este tipo de coisas surgem sempre dúvidas, isso é normal, se elas existem quando o parceiro nem sequer tem uma actividade em que tenha reconhecimento público, digamos assim, é claro que existem também neste tipo de situação. Estou com a Andreia quase há 19 anos, é uma vida, temos de tirar o chapéu às nossas mulheres. Há bocadinho falávamos de estar à vontade num sítio público, não é fácil, ainda para mais uma companheira que quer estar num momento privado, num momento a sós, mas também quer sair, ir ao cinema, a um restaurante. Elas adaptaram--se, isto não é ser egoísta, nem eu esperava que a minha mulher me colocasse entre a espada e a parede, “ou é a música ou sou eu”. Essas situações vão sempre existir, elas não podem é ligar a isso.

O novo álbum será só digital?

Nelson Para já é só digital, mas depois vai ser físico.
Sérgio Ao sair single a single é um bocado à imagem do que se está a fazer actualmente, os grandes artistas mundiais estão a fazer isto, tudo o que é single é uma “música trabalho”, que lançamos de uma forma digital e depois muitos deles fazem aquilo que nós queremos fazer, compilar tudo, juntar mais uns originais e lançamos o disco físico.
Nelson À partida só para o início de 2017, porque o Natal está à porta. É ridículo falar nisto assim mas com o que ainda há para fazer, para o Natal tinha tudo que ser preparado até ao final do Verão e não temos tempo.
Sérgio Já lá vai o tempo em que toda a gente lançava no Natal porque era uma óptima prenda.

Nesta fase não continuam a dar concertos?

Nelson Agora temos feito coisas privadas, acústicas, é o outro lado. Saímos há coisa de um ano de uma tournée acústica, foi fantástica e deixou saudades, e esse formato permite continuarmos activos nesse campo.

E quando não andam a dar concertos, os direitos de autor chegam para sobreviver?

Nelson Não. Se vivesses nos Estados Unidos acho que sim, dava, tranquilo.
Sérgio Mas mesmo na altura que se vendiam muitos discos...
Nelson Esquece.
Sérgio Não era aí a grande fonte de rendimento, infelizmente não temos um mercado grande o suficiente para que o autor consiga viver só desses direitos. O grande bolo vem realmente dos concertos e de alguns acordos de publicidade que possam existir.
Nelson Mas os concertos são mesmo a fonte principal.
Sérgio E agora são cada vez menos, os direitos de autor, as editoras também estão a sofrer com o facto do formato digital estar cada vez mais... Já deixou de estar emergente, já está actual... O vinil é de coleccionadores e o CD vai passar pela mesma fase.

E contam um dia ir para o céu?

Sérgio Com certeza, eu tenho lá o meu lugar reservado. [risos]
Nelson Quando chegar a hora logo se vê, é para onde tiver que ir.

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