Como era a cirurgia plástica na altura em que escolheste este caminho?

A cirurgia plástica é uma especialidade vasta e dentro dela podemos dizer que há vários ramos. Faz-se cirurgia da mão, de queimados, faz-se crianças, acidentes, cancro, estética. Eu, há quase 30 anos, optei pela estética, e a cirurgia estética nessa altura, assim como a cirurgia plástica, era bem diferente do que é hoje. Tem havido uma evolução, outra coisa não seria de esperar. As técnicas que faço de há uns anos a esta parte e sobretudo hoje, não têm nada a ver com as que se faziam há 30 anos, eram mais agressivas, tinham mais e maiores cicatrizes, pós-operatórios mais complicados e duradouros, anestesias gerais, internamentos, isso para mim, hoje em dia, é Jurassic Park. Hoje na maior parte das minhas cirurgias, no dia seguinte as pessoas estão a fazer praticamente tudo, a vida normal. Naquela altura isto era ficção científica.

Porque é que seguiste este caminho?

Não tive influência nenhuma de famílias, não tenho pais médicos, nem tios médicos, nada disso, era tudo gente humilde e eu a partir de certa altura achei que gostava de ser médico. Depois dentro da medicina, na faculdade temos muitas cadeiras e acho que depois é isso que vai definir o médico, os que gostam de cardiologia, os que gostam dos rins, dos pulmões… Eu muito cedo comecei por gostar da cirurgia em geral, porque nem sequer sabia o que era a cirurgia plástica. Isto é de tal maneira que no segundo ano da faculdade comecei a frequentar duas coisas que achava que iriam ser cruciais para me tornar um bom cirurgião. Uma era frequentar as autópsias, achei que era a maneira de conhecer o corpo, aquilo abria-se tudo, estava ali logo a realidade. E a outra era ir para a guerra, para o barulho que era começar a fazer bancos. Voluntariamente, não ganhava nada por isso, pedia aos chefes de equipas de cirurgia e comecei a coser cabeças e por aí fora. Ao longo dos anos comecei a ver que nas equipas de urgência havia uma coisa que se chamava cirurgia plástica, fui deitar o olhinho, comecei a perceber “epá, isto é muito interessante porque eles fazem coisas muito complicadas, são chamados para reconstituir, reconstruir, para refazer aquilo que foi desfeito” e isso para mim tornava-se como que um desafio, uma coisa muito entusiasmante. Comecei a frequentar também voluntariamente a cirurgia plástica, e até hoje nunca mais a larguei. Depois descobri a cirurgia estética, que não é uma coisa que se aprenda e se desenvolva muito no sector público. Nessa altura não davam licenças sem vencimento e tive que optar: ou sais da função pública e fazes aquilo que gostas — era um risco que eu tinha que correr, grande — ou continuas aqui e vais marcar passo e não vais fazer aquilo que gostas. E eu optei por exonerar-me da função pública e daí até hoje tem sido sempre um caminhar crescente e uma dedicação a 300% na cirurgia estética.

É aí que é criada esta clínica?

Foi há 20 anos. Comecei primeiro a fazer cirurgia estética em várias clínicas, durante muitos anos tudo o que era hospitais privados nós corríamos e aí comecei a ter uma outra noção de profissionalismo. Eu tenho que dar às pessoas que me procuram algo muito específico e melhor, ou seja, um atendimento mais personalizado e individualizado, e isso só era possível criando uma clínica própria. Corri vários países do mundo para ter ideias, para perceber o que era uma clínica com estas características, porque queria dar qualidade às pessoas que me procurassem, segurança, mas que não tivesse o aspecto normal e vulgar dos hospitais ou das clínicas, é uma coisa que sempre atemoriza as pessoas, quis dar esse conforto. Então criei um conceito de clínica em que o trabalho era feito como deve de ser, mas ao mesmo tempo as pessoas sentiam-se quase como se estivessem em casa. Isto através de técnicas e tecnologias que o permitissem, não conseguiria criar tudo isso se tivesse de fazer internamentos de vários dias, anestesias gerais, coisas mais complexas. Então comecei a escolher e a aprender técnicas, que são as que ainda utilizo hoje em dia, algumas desenvolvidas ou criadas por mim, faço através disso, pelo mundo inteiro, cursos e palestras.

Fotografia Bernardo Coelho

Esse lado reconstrutivo que apanhaste nas urgências não te fascina tanto?

Uma das minhas cirurgias acarinhadas e queridas é a reconstrução de mama, nas mulheres que têm cancro e são mastectomizadas. Continuo a fazer isso aqui na clínica mas com técnicas próprias, passíveis de serem feitas sem anestesia geral e em regime ambulatório. Toda a outra cirurgia reconstrutiva fui abandonando progressivamente porque tive que optar e para ter tempo para a cirurgia estética não dá para fazer esse tipo de cirurgias. Mas acho que, para qualquer cirurgião plástico, a formação básica de toda a cirurgia reconstrutiva é muito importante.

Apareces bastante nas revistas e na TV. Foi algo que procuraste como estratégia profissional ou simplesmente aconteceu?

Nem sequer penso nisso, é uma coisa que acontece com muita naturalidade, não procurei nem nunca fiz disso uma segunda intenção ou um segundo objectivo. Quando comecei a ser mais procurado pelos media achei que era interessante, gosto de comunicar com as pessoas e era uma oportunidade muito importante para informar e divulgar, porque nós estamos muito fechados nesta área, menos agora, mas naquela altura estava e eu achava estranho. Depois a partir de uma certa altura sentia-me de certa maneira incomodado, as pessoas têm direito a escolher, quem vem à minha consulta pode ir a 20 ou 30 diferentes e depois escolhe quem quer, mas tem que saber que eu existo e quais as técnicas que faço. Achei que através de entrevistas e de cirurgias que fazia a pessoas conhecidas podia divulgar esta ou aquela técnica e isso deu o seu fruto, houve muita gente que dizia quando vinha à consulta “ai eu não fazia ideia que isto podia ser feito assim”.

Operas todos os dias?

Sim, felizmente. Como a clínica de ambulatório tem um horário, abrimos às 8 da manhã e fechamos às 8:30 da noite, de segunda a sexta, e eu estou cá antes de abrir e às vezes depois de fechar e depois venho para cá aos sábados e aos domingos porque criamos este bicho e é muito difícil desassociarmo-nos disso. É com muito gosto que venho, sem deterioramento do relacionamento familiar, ao fim-de-
-semana venho fazer preparações de congressos, responder a e-mails, comunicar com outras sociedades, preparar artigos para revistas, científicas ou não científicas, ainda agora saiu um livro nos Estados Unidos em que fui convidado e escrevi um dos capítulos. Isso só pode ser feito aí, durante a semana são cirurgias e consultas.

Existem corpos perfeitos?

Não, isso é muito interessante porque na consulta tenho uma luta grande e uma preocupação de transmitir às pessoas duas coisas: perfeição não existe, simetria não existe. As pessoas vêm todas tortas à minha consulta mas depois querem sair direitas e nós não somos milagrosos, a pessoa tem que ter uma assimetria. O corpo humano todo ele é assimétrico, o rim direito é diferente do esquerdo… Além do mais o conceito de beleza é muito subjectivo, não há um padrão. O Leonardo da Vinci queria padronizar as pessoas então dizia que tínhamos de ter x centímetros de testa, isso não existe, era um idealismo dele, estávamos todos mal-feitos. O conceito de beleza vai para além de geometria e de dimensões pré-definidas.

Mas um ou outro retoque podem mudar uma vida?

Muda, pode ser pequeno mas muda muito, é uma das coisas gratificantes na minha profissão, tem uma grande responsabilidade porque tudo o que fazemos está à vista mas estamos a trabalhar no exterior e a mexer no interior ao mesmo tempo, é isso que noto. É muito dignificante ver pessoas de todos as classes sociais e idades, que muitas vezes entram aqui na primeira consulta completamente apagadas, introvertidas, não precisam falar muito para eu perceber quanto sofrimento têm por coisas que não gostam ao longo de anos, o retoque vai influenciar a vida dessa pessoa.

Não há risco de existir uma estranheza quando a pessoa se vê ao espelho?

Eu faço cirurgia de rosto, que é a que está mais à vista e digo uma coisa que parece paradoxal, que uma cirurgia destas na minha maneira de trabalhar, para ser bem-feita ninguém se pode aperceber de que fez a cirurgia. Se ninguém se apercebe, não estamos a transformar a pessoa de maneira que ela chegue ao espelho e “olha não sou eu”, temos é que reposicionar o que está mal. Há mulheres que têm tudo todas iguais, que fazem liftings e parece que apanharam um susto, ficam todas com os olhos abertos com um ar muito espantado, muito esticado, isto é uma escola que eu recuso. Faço o lifting de acordo com a naturalidade de cada pessoa, não altera a expressão, a forma de olhar, o formato, não altera nada. A prova disso é que depois vêm-me dizer “as pessoas só me diziam ‘estás mais nova, o que é que fizeste? Engordaste? Mudaste de penteado?’” Dizem uma data de disparates porque reconhecem que a pessoa está diferente, mas é a mesma pessoa e não tem estigmas de cirurgia, isto é o segredo. O objectivo é que esse impacto do espelho seja positivo, a pessoa vê que é ela mas melhorou naquilo que não gostava. Mas temos o cuidado de dizer que o resultado não é imediato, qualquer cirurgia que se faça tem um período de recuperação e depois é que estabiliza e se tem o resultado final. Todas as cirurgias incham, têm cicatrizes mais ou menos visíveis, ficam mais ou menos negras, há um processo que é previamente explicado à pessoa. Faço um lifting e digo “ao fim de uma semana pode andar na rua”, faz mamas eu digo “no dia seguinte pode andar na rua”, a não ser que seja stripper, aí tem que ter cuidado, não as pode expor enquanto tem os negros e os inchados e essas coisas todas.

Fotografia Bernardo Coelho

E não dói nada?

Dói menos do que doía há uns anos, estas técnicas têm um tipo de recuperação e uma agressividade diferente. Podemos dizer que se tivéssemos de classificar a dor de 0 a 10, as minhas cirurgias vão entre o 0 e o 3. Claro que num universo de não sei quantas mil pessoas, se tivermos uma em 30 mil que foi para a dor 5 ou 6 não é expressivo, o normal é entre 0 e 3, o 3 já nem é frequente, a maioria das cirurgias é pouco ou nada dolorosa.

As redes sociais aumentaram ainda mais o culto da imagem?

Sem dúvida. Como estou nisto quase há 30 anos já passei por tudo, pelas modas a que nós cirurgiões temos que estar atentos mas também um bocado a jogar à defesa, muitas vezes podemos acompanhar modas em algumas cirurgias, noutras não. Um exemplo, mamas, há 20 anos as próteses que eu punha eram... se fosse de 260 já era um tamanho razoável, era tudo dali para baixo. Nos últimos anos isto passou para 350 em média. De repente o que começo a notar é um retrocesso, mulheres que têm mamas maiores e querem pô-las mais pequenas. Isto é possível neste tipo de cirurgia, não se pode fazer com todas. A pessoa se quiser pôr o nariz pequeno e depois voltar a ter o nariz grande já não dá, há cirurgias que têm um carácter definitivo.

Também sugeres alterações?

Não, never. A minha escola é muito clara e explícita sobre isso, sou muito rigoroso nesse aspecto, acho que não tenho o direito de dizer a ninguém “isto está mal em ti”, há pessoas que trabalham assim, eu recuso-me. Até porque está provado a nível mundial que isso muitas vezes tem consequências dramáticas e catastróficas porque uma pessoa quer operar a mama e eu digo “epá, você já viu o seu nariz?” e a pessoa faz a cirurgia ao nariz e fica com o nariz todo estragado. A primeira coisa que vai dizer é “eu não pedi para ser operada ao nariz”, isto é muito complicado. É raro mas já tem acontecido sentarem-se à minha frente e perguntarem “o que é que me fazia?” Nada, estou aqui para fazer aquilo que a senhora acha que não gosta ou se sente incomodada. E eu digo se posso ou não posso. Também há a outra parte, imagina uma mulher, não interessa a idade, senta-se aqui e já vem com tudo metido na cabecinha “quero fazer um lifting”, eu digo “nem pensar, não precisa, a pele está boa, não é suficientemente descaída, há outro tipo de tratamentos para fazer, guarda o lifting para outra altura, daqui a uns anos”. É muito mau para um cirurgião começar a fazer cirurgias que não tem indicação porque essa pessoa com um lifting não tem resultado nenhum, está a fazer uma cirurgia para nada. Se for fazer uma mamoplastia e ela tem um grande sinal ali no meio, “ah doutor, pode?”, “claro”. Se ela não pedisse eu não dizia nada, sei lá se aquilo é o motor de arranque lá da família, pode ter um estigma qualquer.

E tens um programa no computador onde mostras como é que vai ficar?

Sou completamente contra, há para aí N programas e pessoas que adoram fazer isso, para mim é falso marketing. Essa história da imagens de computador já foi mais do que abandonada nos Estados Unidos, foi usada há não sei quantos anos e deu processos e processos e processos contra o cirurgião, que mostrava todo contentinho a imagem no computador, alguns ainda faziam o disparate de dar um print para levarem para casa, para verem a figura que iam ficar e depois a pessoa faz a cirurgia e quem opera, é o computador? Não, é o cirurgião, e depois há a natureza, a resposta individual da pessoa, a cicatrização, o inchaço que é diferente, há o inesperado de reacção do corpo, nunca fica igual ao computador.

Voltando ao tamanho do silicone, as mulheres têm noção do que é que é o 300 ou o 350?

Há programas para se calcular o tamanho de mama, eu detesto-os, leva mais tempo a fazer esse cálculo do que eu a operar. Eu tenho um processo muito simples, uma sala de observação com um espelho de parede toda, tenho um balde com próteses de todos os tamanhos, visto-lhes um soutien, ponho-as em frente ao espelho e coloco as próteses de vários tamanhos. Isto resulta em 90 e muitos por cento dos casos, porque a pessoa está a ver e tem uma noção do tamanho muito real. Uso a última geração de silicone, chama-se gel coesivo, é vitalício. Até aqui há uns tempos elas tinham de ser trocadas ao fim de 5 ou 10 anos.

Aconselhas a que não se cometam exageros?

Normalmente primeiro ouço e depois digo-lhes o que é que acho sobre o ponto de vista técnico. Se uma mulher vier aqui à consulta sem maminha e disser “quero uma mama muita grande, quero pôr mil”, tecnicamente é impossível, não tem espaço. Dentro disto temos que saber tecnicamente o que é possível fazer de uma forma gradual. Agora já é proibido pôr próteses de mil, porque o grau e o nível de complicações era mais elevado e decidiram não as fabricar mais, o máximo é 800, mas eu tenho doentes que têm 1000, e para chegar lá levaram quatro anos, começaram com 260, depois foram para 300 e não sei quanto, até chegar aos mil, para os tecidos irem expandindo. Se a pessoa chega aqui e logo de caras me pede 800, percebo que conscientemente sabe que quer isso, quem sou eu para lhe dizer que não, tem todo o direito a querer.

Então a quantidade adequada está mais relacionada com o tamanho original do peito do que com a altura e o peso?

É, não sigo esses padrões de altura, sigo a vontade da pessoa. Tenho operado mulheres pequeninas que querem mamas maiores, outras grandes que querem mamas mais pequenas e depois isto não há padrões, se eu vir dez mulheres hoje e puser a mesma prótese, todas as mamas ficam diferentes. Tem a ver com a forma da mama, com o que ela já tem de volume, a forma do corpo, são muitos factores.

Fotografia Bernardo Coelho

E se alguém visse essas dez mulheres percebia que as mamas tinham sido feitas por ti? Há uma espécie de uma imagem de marca?

Gostava de pôr lá uma assinaturazinha como fazem os artistas nos quadros mas ainda não me permitem fazer isso. Para eu ficar satisfeito é com um resultado natural, claro que isso não consigo fazer com toda a gente e sei que algumas querem ter próteses de uma forma artificial, quase bolas e eu não sou o culpado disso. Às vezes somos acusados “aquela está horrível”, está horrível porque ela quis horrível. O meu conceito de mama é uma mama com naturalidade, diferentes tamanhos e diferentes formas, não há uma igual para todas. Dou muitas vezes a Playboy como exemplo às minhas doentes, vejam as meninas da Playboy, se estiverem lá 30 meninas têm 30 modelos de mamas diferentes. Não há padrões, há conceitos de beleza que são adaptáveis, ajustáveis mas sobretudo para que a pessoa se sinta bem. Quando vêm com a história que vão arranjar a mama por causa do namorado ou do marido, eu digo “esqueça, pense primeiro em si”, depois muda de marido e vai mudar de acordo com o que o outro gosta, não saímos disto.

Faz-se um arquivo com o Antes e o Depois?

Sim, não tenho nos meus sites nem em lado nenhum, nem mostro aos meus doentes exactamente porque cada caso é um caso, para não criar expectativas. E é assim, quem mostra, não mostra casos que não foram tão bons, só mostra os bons, e se este depois não corre tão bem? Portanto recuso-me a mostrar fotografias, mas é obrigatório, aqui na clínica ninguém é operado sem ter fotografias feitas. Já me aconteceu em 30 anos, duas ou três pessoas que disseram “eu não faço fotografia” e eu digo “tudo bem, tem o seu direito, eu não opero, tenho o meu direito”. Imagina eu ir a um cardiologista e ele dizer-me “preciso de um eletrocardiograma” e eu responder “não faço”. Eu estou a tratar a imagem, preciso de ter a imagem documentada. Na sala de operações tenho a fotografia na parede, estamos a operar e depois a direita está maior que a esquerda, está ali a confirmação. E depois tenho um protocolo pós-operatório, são fotografadas aos 3 meses, aos 6, aos 9, aos 12 e depois todos os anos, faço um acompanhamento disso tudo.

Há mais algum motivo porque tenhas recusado operar?

Se a pessoa tiver alguma doença que seja impeditiva, nós pedimos obrigatoriamente exames antes de cada operação, análises de sangue, urina, electrocardiogramas, mamografias, ecografias, pedimos isso tudo. Se detectam que a pessoa tem uma anomalia cardíaca, não vamos operar sem essa anomalia estar corrigida, quando estiver tudo bem volta. Não somos animais, primeiro vamos respeitar a saúde e a vida da pessoa.

É sempre por questões objectivas, nunca é por achares que fica mal ou que não fazia sentido?

Não, por embirrar com a pessoa não, isto tem a ver com a minha maneira de trabalhar.

Existem países onde não há limites?

Não é só a questão dos países, tem a ver com a maneira de trabalhar, há cirurgiões que são mais ambiciosos do ponto de vista comercial, por exemplo, e aí opera tudo, é preciso é operar, tenha ou não tenha indicação, querem é ganhar dinheiro. No campo da estética temos um problema muito mais grave que isso, pessoas que não são habilitadas e operam, isso acontece em Portugal e em vários países.

Mas há quem viaje por exemplo para mudar de sexo sem obedecer a grandes regras?

Existe sim, isso é verdade. Essa cirurgia que é muito característica é um bom exemplo, a mudança de sexo tem de ser regulamentada porque pode ter resultados catastróficos, já houve quem se suicidasse quando corre mal. Há países de facto onde não pedem nada, é chegar lá e fazer, sem passaporte, nada, é tipo fábrica.

Cá há uma idade legal para fazer uma cirurgia estética?

Não, opero muitas jovens. Muitos cirurgiões por todo o mundo defendem que não se deve operar jovens, eu não sei porquê, os 18 anos são um número que foi criado, porque não 17? Ou 19? Ainda há dias operei uma jovem de 12 anos que tinha umas mamas enormes que lhe chegavam quase à barriga e ela tem todo o direito de ser operada, é uma miúda que precisa de ser ajudada porque é uma situação que a perturba a todos os níveis, físicos, psíquicos. Do ponto de vista legal tem de ter autorização dos pais, é a única coisa que acontece.

Então nem sempre é um dia triste quando se faz uma Mamoplastia de Redução, há motivos para a fazer.

Então não há. A cirurgia mais procurada e mais feita na estética em praticamente todo o mundo é a de próteses de mama de aumento, embora no meu dia-a-dia cirúrgico tenha muita redução de mama e lifting da mama, não aumentar nem diminuir, só arranjar a mama.

Fotografia Bernardo Coelho

Uma das cirurgias praticadas na tua clínica é a Himenplastia. Hoje ainda se dá muita importância à virgindade?

Não é muito praticada. Nesta área a cirurgia mais procurada é a labioplastia, têm os pequenos lábios muito grandes e incomoda, perturba nas relações, causa doenças, etc. A himenplastia eu quase que nem lhe chamaria uma cirurgia, é um pequeno procedimento que estamos aptos a fazer.

Outra é a Plastia do Ponto G. Confirmas então que existe mesmo?

O ponto G é muito discutido e muito subjectivo, eu não confirmo, elas confirmam. É muito fácil, tal como a do Hímen, quase um procedimento também, em que o que seguimos medicamente é: houve um ginecologista que descreveu que havia uma zona na parede da vagina que tinha uma acumulação maior de terminações nervosas e sensitivas e que dava mais prazer à mulher. Nós extrapolámos e dissemos assim “se meio cm quadrado dá prazer, se eu puser aquilo com 2cm quadrados dá mais prazer”, é este o princípio da Plastia do Ponto G. As que temos feito, as mulheres referem que sim, que resulta, que melhoraram as suas performances e têm mais prazer, mas isto é muito subjectivo porque os prazeres e os orgasmos e essas coisas todas não têm a ver com o ponto G nem com uma pessoa, tem a ver com duas pessoas, quando é a dois.

O aumento dos clientes homens ao longo dos anos tem sido substancial?

Sim, é lógico, ou daqui a pouco temos um casal os dois de 50 anos e depois ela parece a filhinha dele. Os homens vão sabendo cada vez mais que cuidar-se não é só fazer cirurgias, há muita coisa antes. A estética não é só médico, o cabeleireiro é estética, a maquilhagem é estética, a higiene, o cuidar do corpo, não interessa para nada eu estar a fazer um lifting todo espetacular e ela abre a boca e tem os dentes todos podres, tem que haver um conjunto.

Existe uma sazonalidade considerável na procura de cirurgia estética?

Já houve mais, pode-se falar nisso em países como o nosso que tem quatro estações, se formos para o Brasil acabou, não é. Opero imenso no Verão porque as técnicas são mais permissivas, faço próteses de mama, elas uma semana depois estão na praia de biquíni, com mama nova, no dia seguinte se quiser levar um top pode ir para à praia, tem algumas limitações, nadar no mar, na piscina três semanas, mas não é tão restritivo como há uns anos. Faz um lifting, não pode apanhar sol directo nas cicatrizes três semanas. As pessoas têm de saber as regras de jogo, se vou fazer isto não posso fazer aquilo a seguir, mas sem dúvida que mesmo assim há uma procura sazonal, por exemplo, estamos no Inverno as pessoas tapam o corpo e preocupam-se mais com o rosto, quando chega a Primavera começam a tirar as roupas “afinal falta aqui um volumezinho na mama”, há uma sazonalidade de facto, embora já houvesse mais.

Há algum tipo de cirurgia que não te agrade tanto fazer?

Várias, eu comecei por fazer tudo, até lavar chão se fosse preciso. Depois ao longo dos anos vamos refinar, sem ser no sentido arrogante, o cirurgião que diz que faz tudo... Acho que para fazer bem a pessoa tem que fazer muito a mesma coisa. Sem dúvida que a cirurgia de mama é aquela que é mais acarinhada por mim e aqui na clínica tenho mais cirurgiões plásticos e está tudo departamentado, aquelas coisas que fui gostando menos de fazer passei para eles.

Também há coisas que correm mal?

Claro.

E aí qual é o processo?

Depende das situações, a doente vem à consulta leva uma pastinha com muita informação escrita do que vai fazer, e leva duas folhas extra, uma chama-se Complicações, outra chama-
-se Riscos, as pessoas têm que saber que o risco não é uma complicação, são coisas completamente diferentes. A pessoa vai tirar um dente, leva uma injecção e pode morrer a fazer uma coisa muito simples, isto é um risco, não é uma complicação. Uma complicação é, fez a cirurgia, aquilo infectou, ou teve um hematoma, ou cicatrizou mal, ou abriu a ferida. Temos de estar preparados para saber resolver as complicações, minimizar os riscos e tratá--los se os houver. Depois há outra coisa que as pessoas confundem com isto que é resultados maus ou resultados insatisfatórios, é outro mundo.

Apesar de não aconselhares nada a ninguém, quando vês TV ou revistas não pensas “aquela com um retoquezinho ficava um espectáculo”?

Até quando vou a andar no Metro, vou ali a fazer umas consultas àquele pessoal todo. Parava na próxima estação, não falhava ninguém, ia tudo para dentro da clínica.

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