Fotografia - Bernardo Coelho

Pertencendo à família que é dona do Coliseu de Lisboa era inevitável que um dia terias de estar ligado a este meio?
Não. Ainda faço parte de uma geração em que a área de entretenimento era considerada boémia. Também fui educado para ser outra coisa, só que está no sangue. Estudei gestão de empresas e fui parar a uma sala de mercados nos anos 90, portanto ainda fui um yuppie.

Mas não era isso que querias fazer.
Não. Queria sobretudo estar ligado aos espectáculos e à sua quarta geração. Mas quando fui para gestão de empresas, lembro-me de o meu pai me dizer “pelo menos economia”, porque na altura era um curso novo; hoje é o curso da moda. De facto, abriu muito os horizontes e deu para olhar para o mundo da cultura como uma das indústrias com maior potencial de negócio.

Que experiências te inspiraram mais no crescimento no Coliseu?
Tive o privilégio de nascer num teatro onde acontecia tudo. Portanto, gosto de todo o tipo de espectáculos de hoje. Deu-me uma abertura e também me ensinou que se nós educarmos os nossos jovens a assistirem de uma forma positiva, obviamente que criamos hábitos que não existem em Portugal. É um paradigma: sempre que se festeja o 25 de Abril, assistimos nas televisões e nos jornais mais políticos que o país era um atraso de vida em 74, e de facto houve uma evolução extraordinária; no entanto, a Comissão Europeia publicou em 2013 o último trabalho sobre hábitos culturais na Europa, e nós somos os últimos em 27 países; somos os últimos na leitura de livros, concertos, espectáculos de ópera, ballet e teatro. Em 2016, venderam-se 4 milhões e 900 mil bilhetes para espetáculos ao vivo, o que significa que cada português compra 0,48 bilhetes por ano, ou seja, só vai ver um espectáculo de 2 em 2 anos. Há muitos portugueses que só quando fazem 25 anos de casados é que vão ao teatro. Isto é uma tragédia.

Achas que o IVA do preço dos bilhetes está relacionado?
O problema não é o IVA. O cinema vende 3 vezes mais do que que os espetáculos ao vivo. Portanto, se o preço médio dos bilhetes é mais baixo, a primeira conclusão é o preço. Este país é assustador. Temos o 5º IVA da cultura mais alto da Europa. Na Noruega é zero.

Os subsídios para a cultura são uma coisa positiva?
Claro que é importante subsidiar a criação artística, mas se penalizamos a usufruição, então deve ser o Ministério do Trabalho a financiar. Criação artística significa dar a possibilidade aos portugueses de assistirem. Mas eles não assistem. Aliás, se ninguém fala em públicos é porque não existem. Para justificar um apoio, tinha que se dizer “cada vez tenho mais público, mas o dinheiro ainda não chega”. Há 10 milhões e 300 mil portugueses que têm rendas e despesas para pagar, por isso não pode ser um motivo. É importante apoiar a criação? É! Mas a forma como está é um subsídio de emprego.

A ruptura com a Música no Coração terá acontecido principalmente por divergências na visão do futuro. Que visão era essa? O caminho percorrido nestes últimos 11 anos foi ao encontro dela?
Sim, houve uma continuidade. No final de 1991 foi quando decidi ter uma estrutura empresarial para os espetáculos, fundámos a Música no Coração. Nós éramos sócios a 50/50, essas sociedades têm um problema, para o “não” basta um voto, para o “sim” é preciso dois. Basicamente tínhamos perspectivas diferentes sobre o negócio. Quando decidimos, cada um seguiu o seu caminho, não foi nenhuma zanga. Continuei o caminho, sempre acreditei na criação de públicos, tentar alargar as áreas de actuação, daí termos feito as exposições da Joana Vasconcelos. Tenho que procurar consumidores, foi o que aprendi quando estudei. Se estou no Mercado Único Europeu, não posso olhar para um mercado só como Portugal. Nós vendemos milhares de bilhetes no estrangeiro. É uma forma de irmos buscar mais consumidores, mais mercado, conseguir fazer mais espetáculos, ter público e também ajudar a economia. As pessoas primeiro fazem face às despesas fundamentais (casa, comida, roupa, estudos) e depois com o que sobra, compramos a Playboy, vamos a um concerto, a um restaurante, uma viagem, portanto andamos todos a dispor do dinheiro que sobra. Todos temos interesse em que a economia e o poder de compra dos portugueses aumente para podermos vender mais.

Ao fim de uma década e com o sucesso que o Alive tem, como é que não se cai na tentação de achar que já está tudo feito?
Quem pensa assim é ultrapassado pela concorrência. Temos de estar sempre à procura, sempre a tentar agradar aos nossos consumidores, o que não é fácil. O consumidor espera sempre outras coisas. Vamos atrás das temáticas que sejam mais interessantes, não desistimos. Não procuramos crescer porque achamos que estamos no modelo certo. Nós somos dos primeiros festivais dos grandes a esgotar pela terceira vez consecutiva. Num país de 10 milhões de pessoas é um milagre. É um trabalho muito árduo, só manter o sucesso a nível de vendas. Estamos sempre à procura de mais. Às vezes, o dinheiro não chega.

Em 2008, conseguiu-se um cartaz de luxo com os gigantes Bob Dylan, Neil Young e um concerto de Rage Against The Machine que 10 anos depois ainda ecoa. Como é que numa fase tão prematura da empresa se consegue uma façanha destas e ainda se repete?
Eu estou na origem dos festivais em Portugal, portanto é tudo uma continuidade. No fundo era um projecto que já estava na cabeça, depois de muitos anos de experiência deu para perceber que fazer um festival só para portugueses não chegava, era preciso que atraísse o público estrangeiro, para conseguir vender tudo, e conseguimos. É engraçado, agora estamos num ciclo diferente, em que os portugueses compram primeiro e a tendência é ter menos estrangeiros. E também tentamos posicionar, porque para conseguir um bom cartaz temos que ter um modelo internacional. Foi um projecto desenvolvido para estar no campeonato dos melhores festivais. Hoje os artistas querem estar no festival, foi um trabalho arrojado, mas acho que conseguimos. As pessoas não se apercebem, mas no meio da indústria todos querem vir ao NOS Alive, do mundo inteiro.

Quantos festivais europeus fazem parte dessa primeira divisão que disputa os principais artistas que andam na estrada?
Basta olhar para as tournées e começar a ver “Os Pearl Jam onde é que vão?”, “E Arctic Monkeys?” e é somar. Uns são mais rock, outros mais alternativos. Os espanhóis estavam a ser ultrapassados pelos portugueses e eles levam o turismo muito a sério, tanto que há um Ministério. Isto não é uma piada, é uma constatação. Acho inacreditável em Portugal o turismo não ter um Ministério. Na minha opinião, devia ser o Ministério da Cultura e Turismo, porque as áreas cruzam-se. Quem vem a um festival depois acaba por voltar de férias. Os espanhóis perceberam isso e já nos estão a dar 20 a 0. Não é que um festival não tenha apoios, estes programas que o Turismo de Portugal fez dão um apoio de 50% às campanhas no exterior. São campanhas de promoção do destino Portugal. Hoje o NOS Alive é capaz de ser o único produto português que faz publicidade no metro de Londres. É giro ver a malta a colocar nas redes sociais e os artistas que ainda não estão anunciados a reclamar que não estão lá.

E com um crescimento tão grande da marca Portugal, como é que em 2018 a cultura ainda não está acima de zero no Orçamento de Estado?
Quando se gasta dinheiro na criação e depois não há usufruição, isso não é apoiar a cultura, é apoiar a criação de emprego. Eu se fosse político pintava a cara de preto. Dizia-se muito que o Estado Novo queria as pessoas analfabetas, pouco cultas, para não questionarem. Passados 45 anos e com os níveis culturais neste estado, dá a sensação que há umas forças políticas obscuras, que são todas, da esquerda ou da direita, que não querem um povo culto. Se nós hoje tivéssemos, vamos imaginar, uma taxa de analfabetismo de 20%, tínhamos vergonha, porque tínhamos falhado as políticas de educação e as políticas sociais. Mas nós temos os números que temos na cultura e ninguém se questiona. Estamos a falar do quê? De uma tragédia. Ontem, nos três canais, só um é que tinha notícias de cultura. O futebol está sempre presente, a religião está sempre presente, nada mudou. Tudo o que vinha do Salazar, manteve-se. Cultura zero. Mas pronto, andamos todos contentes, o país até está uma maravilha, cada vez que um partido está no poder faz um congresso e de repente estamos num país diferente. Não é por mero acaso que nós pela primeira vez temos uma geração, que vai votar agora em 2019, e não tem opção política, não querem saber, não estão nem aí. Foi uma vitória do sistema. Criámos pessoas que não questionam e assim perpetua-se o poder nos mesmos. Voltando à questão do orçamento, os promotores criaram uma associação e temos falado com os grupos parlamentares, são todos muito simpáticos, mas as prioridades são outras, é o fast-food, agora é a eutanásia, depois é a mudança de sexo aos 16 anos. Temos um conceito de prioridades um bocado estranho. Os temas mais importantes, como a cultura, deviam ser o primeiro tema. Tentar eliminar a pobreza e a fome, devia ser um tema. Mas não, perdemos tempo a discutir coisas que para mim não são essenciais.

Tomas regularmente posições políticas. É uma área em que te podes vir a envolver directamente?
Não. A política está feita para as pessoas não se envolverem. Todas as pessoas já roubaram um chupa-chupa na faculdade ou no liceu. Tu vais para a política e a primeira coisa que te vão dizer é “Este passou um sinal vermelho”. Isto está tudo maluco.

Presidência, nem a do Benfica?
Não. Tenho uma actividade empresarial, estou muito ligado ao associativismo também, mas é muito difícil. Não se pode dizer que existe uma força empresarial independente em Portugal. Os empresários são muito dependentes do Estado, ou de subsídios ou do medo, porque o Estado tem várias PIDEs. O Estado, quando quer chatear alguém manda a ASAE, as Finanças, a ACT. São formas diferentes, mas os efeitos são os mesmos. Quando alguém incomoda ou está a chatear muito, enviam 20 fiscalizações que entram numa empresa ou num estabelecimento e a malta tem medo. O problema da política é que os políticos vivem no mundo da fantasia. Segundo o INE, vendo 8% dos bilhetes em Portugal e nunca fui chamado para uma discussão pública com o Ministério da Cultura. Eles quando fazem discussões é com os empregados, é o mesmo que dizer, “Concordam?”, “Sim, concordamos todos!”. Um Mosteiro dos Jerónimos, se passar de um milhão para um milhão e quinhentos visitantes tem que ter mais pessoas a trabalhar, mas a lei diz que não pode. Começamos a fazer um mau serviço, a prejudicar o país e depois o mais extraordinário é que há um aumento de receitas, que vão para as finanças. Portanto, a cultura paga, a economia e o turismo usufrui e as finanças ficam com o dinheiro. Isto são as políticas culturais neste país. O Estado não tem capacidade para gerir.

Se dizes que um artista pode trabalhar 100, 120 dias por ano, e caso esteja na moda tem quatrocentas cidades a querê-lo, como é que conseguem trazê-lo para cá?
Isso é uma coisa que o sector conseguiu e que ninguém dá valor. Portugal, principalmente Lisboa e Porto, com predominância de Lisboa, está no mapa de todas as tournées. Isso tem um valor incalculável. Há cidades que metem dinheiro para conseguir estar no mapa. Nós, sem política cultural absolutamente nenhuma, estamos no mapa. Se for preciso ainda vem uma lei que proíbe a circulação de camiões para acabar com os concertos. Já houve, ao fim-de-semana os camiões não podiam circular e para conseguir fazer um concerto tinha que se ter uma autorização, era um pesadelo. Quando olhamos para o espaço da União Europeia, todas as cidades estão a 100 km umas das outras. Nós estamos a 600 km de Madrid, que mesmo assim também está longe. No dia que o leste europeu for ocidentalizado ainda vamos estar muito mais longe e tudo será muito mais difícil. Uma questão pertinente são os aeroportos. À noite estão fechados, mas às vezes os artistas precisam de ir embora para chegar a outra cidade logo a seguir ao espectáculo. Há uma grande diferença entre deitar-se às duas da manhã e acordar às cinco para apanhar um avião às seis, do que meter-se num avião, chegar às quatro a uma cidade e acordar às dez. Agora pedimos uma autorização e a resposta da ANAC foi que não demonstrámos interesse público. A música, apesar de ser uma actividade económica importantíssima, é o parente pobre da cultura e da economia. O único PDM que tem um espaço ao ar livre para eventos é o de Oeiras. Um país de turismo em que não se pensa em espaços ao ar livre para grandes eventos é um país que não tem gestão. Nós fizemos primeiro o Super Bock Super Rock na doca de Alcântara e deixaram-nos fazer porque era a inauguração das Docas. Na noite seguinte já era um problema, por causa dos contentores, e depois o homem da grua distrai-se. Deixaram-nos fazer aí, só percebemos depois, porque fizeram uma campanha de borla. Isto foi em 1995, em 1996 fomos para a Doca do Espanhol, que se chamava o Passeio Marítimo de Alcântara, esse edifício estava todo em obras, quase não havia árvores, nem havia estacionamento. No ano seguinte já não nos deixaram, aquilo já estava tudo ocupado. Ainda me lembro, tive uma reunião com o vereador do turismo de Lisboa e nunca mais me esqueço de me ter dito, “Pois, nós em Lisboa não temos espaço”, e eu respondi, “Mas assim o festival pode acabar ou vai ter que sair de Lisboa”. E ele, “Pois, paciência”. Ainda conseguimos furar e fazer as coisas. Que raio de país é este que há um evento no Parque da Bela Vista e por causa dos sindicatos o metro não pode estar aberto? Ainda por cima no metropolitano, não podemos dizer que as pessoas estejam a ganhar o salário mínimo nacional.

Foi por isso que os Guns N’ Roses e os AC/DC foram ali em Algés?
Tem a ver com as acessibilidades e as infraestruturas que ao longo dos anos fomos colocando no terreno. Eu gosto de fazer ali espetáculos. Tivemos o cuidado de não ultrapassar a meia-noite, não pode haver ali espetáculos todos os fins-de-semana. Também temos que saber viver, aquilo está dentro da cidade, tem que haver um ponto de equilíbrio.

Tem o tamanho certo para continuarem ali?
Sim, se nos deixarem. Provavelmente um dia alguém vai inventar que tem que pôr ali uma casinhota para ninguém usar. Vai acontecer isso. Quando falamos do NOS Alive, só para início de conversa, o Estado leva 3 ou 3 milhões e meio de euros. Entre IVA e retenção na fonte de não residentes, toma lá. Mas ninguém dá valor a isso.

Há uma percepção real das proporções que atinge o mercado negro das revendas de bilhetes? É uma coisa que te tire o sono?
Tira-me o sono as autoridades não quererem agir. Se fores agora ao computador e escreveres “bilhetes NOS Alive” aparece publicidade a uma plataforma de mercado secundário que não é legal em Portugal. A Google está a vender publicidade num IP português, se a Google está em Portugal não devia ser permitida uma coisa destas. Já estamos fartos de reclamar com as autoridades e ninguém está muito preocupado com isso. Eles preferem ir às redes sociais combinar um encontro com um miúdo que não sabe que está a cometer um crime e apanhá-lo a vender um bilhete, levam o miúdo e prendem-no. O ano passado tivemos um problema grave, no dia dos Depeche Mode apareceram-nos 300 pessoas com bilhetes falsos que foram comprados em formas de mercado secundário. Grande parte acho que eram estrangeiros. A queixa segundo parece vai ser arquivada.

E a Everything is New não consegue tomar uma medida para tentar controlar isto?
Como? Nós não somos polícia. Não vamos entrar na sugestão do Big Brother. Vivemos num país livre, tenho o direito de comprar um bilhete para um espetáculo e oferecê-lo a quem quiser, ou não posso ir e dou. Não posso transformar isto num problema. Tem de ser uma boa experiência, mas em Portugal as autoridades têm muito medo de afrontar os estrangeiros, não sei porquê.

Em 2007, a Everything is New foi a responsável pela estreia de Nine Inch Nails em Portugal, com três datas num Coliseu recheado. Agora volta a presentear os fãs no Alive, e eis que surgem nesse mesmo dia uns novos cabeça de cartaz com menos longevidade, mas que estão muito em alta: Arctic Monkeys. Quais são os critérios que realmente definem o alinhamento dos artistas?
Não temos uma régua e esquadro, mas obviamente que temos uma linha, a nossa é a tendência actual. Não somos pop, mas de resto fazemos um alinhamento que seja bastante eclético. Um Ricky Martin, uma Shakira e um Enrique Iglesias nunca caberiam no NOS Alive.

Depois das honras de abertura no ainda Oeiras Alive, os Pearl Jam regressam em 2010 e contribuem para que pela primeira vez um festival esgote (e nos primeiros sintomas da crise)...
...Eu já passei por tanta crise. Nos anos 90 era impressionante, à quinta-feira a malta saía e voltava domingo à noite, iam para o Alentejo, Paris, Londres. Quando vem a crise deixam de fazer isso, o que é que fazem? Ficam na cidade. Em vez de gastarem mil ou dois mil euros num fim-de-semana, gastam duzentos. Não deixaram de ter, têm menos, portanto ficam cá, por isso é normal que os restaurantes estejam cheios. O espetáculo da Madonna, que acho que foi antes da crise, foi o espectáculo em nome próprio com mais bilhetes vendidos, 75 mil pessoas e vendemos aquilo em cinco dias. O fenómeno de crise claro que prejudica, mas quando é muito bom as pessoas fazem o sacrifício. São as tais opções.

Este ano a proeza repete-se, com o regresso dos Pearl Jam e o festival novamente esgotado: há de facto uma relação próxima com a banda?
Então não há? Qual é a música mais importante dos Pearl Jam?

Não restam dúvidas, portanto, de que o single Alive deu o nome ao maior evento do país.
Sim. Tivemos um festival, um conceito, estavam os Pearl Jam disponíveis, um nome. Alive. Politicamente correcto seria dizer que foi uma feliz coincidência, mas não. Os Pearl Jam são mesmo a cara do festival, um festival para a frente, positivo e diferente. Eles foram os grandes revolucionários dos Estados Unidos. Houve numa época que a Ticketmaster tinha o controlo total da venda de bilhetes, portanto a indústria toda, e os Pearl Jam fizeram uma tour só em salas onde não estava a Ticketmaster. E foi aí que o mercado se equilibrou. Tipo a greve dos camionistas para baixar o gasóleo. Eles marcam muito aquela coisa que no fundo inspira o NOS Alive. Não sendo fundamentalista, e seguindo um bocado os Pearl Jam, como é que podemos mudar o mundo? Continuando a vida como vivemos mas com comportamentos mais responsáveis.

O timing em que divulgam os artistas está relacionado com as assinaturas de contratos ou obedece simplesmente a um plano de marketing?
Tem que ver com os artistas, porque nós anunciávamos tudo em Setembro. Tudo não, porque depois aparece alguém no Natal com um disco porreiro, por isso convém ter margem. Já estamos a negociar artistas para 2019, temos artistas marcados, não muitos, mas já temos. Isto é um processo, não quer dizer que eles confirmem. Há aqui duas questões, o interesse do festival é diferente do interesse do artista. Há coisas que só podemos anunciar quando sair o disco. “Mas isto já está esgotado, isto vai esgotar, assim que metermos Pearl Jam esgota logo”. Quando lançamos o Jack White, estava tudo a chamar-me nomes.

Não se dava muita importância por cá aos palcos secundários. Era uma coisa onde os portugueses actuavam ali de lado e o Alive mudou isso drasticamente.
Sim, mas isso tem outra explicação. Tem que ver com o orçamento. Na realidade esses palcos eram importantes para promover a música portuguesa. Como o país é muito pequeno, tirando o caso dos Humanos que uma vez foram ao Sudoeste, fizemos três Coliseus e justificavam a venda de bilhetes. Os Xutos & Pontapés fazem 50 concertos, o Tiago Bettencourt também faz 40/50 concertos, não vais pagar 105 € para ver o Tiago Bettencourt. As pessoas vão ver o que é mais exclusivo. O NOS Alive foi um projecto diferente. Nós para sermos um dos melhores festivais do mundo não vivemos só de um artista por noite. Um festival vive da concorrência entre palcos. O português é uma língua tramada, palco secundário. Isto é complicadíssimo de gerir. Não são palcos secundários, são palcos de outra dimensão, nós tentamos tratá-los como palcos principais.

Ao início, as pessoas ficaram chateadas porque não conseguiam ver tudo.
Aí inspirei-me muito no conceito dos parques temáticos. Quando chegamos a um, olhamos para o mapa e dizemos, “Vou ver metade”. E sais de lá, só viste 25%. Isso muitas vezes cria-te a vontade de voltar. Depois temos que pensar uma coisa, quando tens 55 mil pessoas eles não gostam de todos de ver a mesma coisa, eu acho espectacular ter 10 mil pessoas no palco Sagres e 40 mil pessoas no palco NOS, aos saltos ao mesmo tempo.

Já há comparações do Alive com o Coachella, pelas tendências do novo público de festivais, em que muitos vão principalmente pelo ambiente e partilha no Instagram. O hype vai influenciar o futuro ou o cartaz será sempre a maior preocupação?
Eles vão primeiramente pela música. Nós temos uma assinatura, que é “O melhor cartaz. Sempre!”. É arrojado! O hype é bom para promover o festival, para solidificá-lo e para promover Portugal. A razão de cativarmos público estrangeiro foi exactamente vendermos a Grande Lisboa. O Eddie Vedder perguntou o que é que se podia fazer em Lisboa numa folga. E eu perguntei, “Queres ir surfar?” e ele, “Are you joking?”. Há bandas, como os Metallica, os Green Day, que já ficam em Cascais para ir surfar. Eles já sabem, vêm para cá dois ou três dias antes. Lisboa é a única capital da Europa que tem praia. A melhor forma de atrair é assim, de manhã podes ir para a praia, à tarde podes ir surfar, à hora do almoço podes ir conhecer o nosso património, oferta cultural e gastronómica. A música só começa às 17h e os mais afoitos podem ir para Lux ou para o Cais do Sodré. Portanto, quatro coisas diferentes. Se fores para Glastonbury tens que acampar, estar em péssimas condições, à chuva, a música começa as 10h ou às 12h, acaba à 00h e não fazes mais nada. Isto é completamente diferente.

Um festival basta?
Tenho saudades de fazer todos. Houve uma altura em que fazíamos a Queima das Fitas de Coimbra, do Porto e foi aqui que começaram os festivais. Nós, digamos, ajudámos, principalmente a de Coimbra, tornámo-la numa grande indústria com as Noites no Parque. No primeiro ano, quando fomos candidatos, cheguei lá e perguntei “Onde é que é?”, “É aqui no meio das árvores, é giro”. Olhei para aquilo e nem quis acreditar, assustador. Isto foi em 1991 ou 1992. Lembro-me que era uma programação portuguesa, low budget, eles tinham dívidas por todo lado, nem tinham crédito nos hotéis e nesse ano pagaram as dúvidas todas e ainda compraram uma camioneta. A partir daí foi um sucesso. Foi aí que percebi que as bebidas brancas eram um problema. As cervejeiras pagavam a conta e depois eram destruídas nos jornais, 140 atendidos no hospital em coma alcoólico e era sobretudo pelas bebidas brancas, não era a cerveja. Por isso é que começou a auto-regulação nos festivais, não foram as cervejeiras que nos obrigaram.

Depois da estreia dos Kiss em 83 no Dramático de Cascais, eis que a Everything Is New os traz de volta – desta vez com maquilhagem – para o Legends of Rock. Será uma nova espécie de festival a instituir anualmente?
É procurar conceitos. Com os artistas disponíveis para duas datas seguidas, é mais fácil promover criando um conceito, que é o Legends of Rock.

Podemos aguardar então uma renovação da loucura dos concertos de Estádio ou são cada vez mais uma coisa do passado?
O futebol sobrepõe-se à organização de concertos, portanto o espaço que nos dão é muito limitado nos grandes estádios. Os Guns N’ Roses ou AC/DC podiam ser feitos num estádio, mas as datas não davam. Em 2012, fizemos Coldplay no Dragão, em 2013, Muse e 2014, One Direction. Em 2015 e 2016 não fizemos e o telefone não tocou.

Disseste em tempos que tinham planos para suprir o gap entre o Coliseu e a agora Altice Arena. Esse projecto mantém-se?
Está na fase de finalização de licenciamentos. Portanto, agora enquanto não estiver licenciado não há nada. Em Portugal é tudo muito lento.

2018 é um ano dourado para o rock, com Bob Dylan, Ozzy Osbourne, Kiss, mas já faltou mais para esse panteão ficar despido com a extinção destes dinossauros. Como é que vês a indústria musical dentro de 15 anos e que peso terá no conceito de festival para estas gerações?
Isso vem na sequência das políticas culturais. A sociedade nestes últimos anos, não só a portuguesa, mas em Portugal então é uma desgraça, se não investimos no ensino artístico, não temos talento. No futebol, a sociedade civil organizou-se há muitos anos e criaram as Academias de Futebol. Depois de uma forma natural isto funcionou em pirâmide, os clubes intermédios vinham buscar os melhores, os clubes grandes os melhores dos melhores dos melhores. E hoje temos o Cristiano Ronaldo. E eu pergunto: não podíamos ter isso no ensino artístico? Podíamos e devíamos, temos que fazer. Mas a verdade é que não temos um pintor, um pianista, um violoncelista, um escultor, ninguém. É tudo gerações mais velhas. Até os artistas portugueses, aqueles que continuam a ter muito público são os mais velhos, os do início. Depois claro, que aparecem os Capitão Fausto, Legendary Tigerman, mas são todos autodidatas. Mais de 50% dos músicos portugueses não sabem música. No fundo o que temos de bom são os artistas de arte urbana, são os selvagens e o fado. A nossa geração mais nova com carreira internacional é a geração selvagem. É a da rua. É como o futebol era antigamente, os meninos a jogar descalços. O fado que vem dos bairros e a arte urbana, os graffitis. Tudo da rua. Mas o Estado anda aqui a fazer o quê? Zero. Metade das figuras mundiais são da rua.

Temos no ADN português Fado, Futebol, Fátima e agora um 4º F com Festivais. É cada vez maior o desafio para corresponder às expectativas e superar a mobilização do país como numa Eurovisão?
Quando foi os 25 anos da Eurovisão convidaram-me para um debate com o antigo Secretário de Estado do Turismo e depois vem a tal conversa se havia turistas a mais ou a menos, que é uma coisa extraordinária, não estamos a morrer à fome graças aos turistas e já andamos a dizer que há turistas a mais. Dei os parabéns ao Adolfo Mesquita Nunes, porque ele teve duas decisões que mudaram completamente a actividade económica do turismo e deram a oportunidade a todos os portugueses de comerem uma fatia do bolo de uma indústria florescente: a lei do alojamento local e a lei das empresas de animação turística. Só é possível ter estes turistas todos porque há alojamento e passeios a pé, de bicicleta, tuk-tuks. Os turistas vinham para cá fazer o quê? Uma fila de quatro horas para os pastéis de Belém e outra de quatro horas para a ginjinha, depois não havia mais nada para fazer. Foi uma forma democrática de dar aos que têm menos a possibilidade de entrarem no negócio. O que é curioso num governo de direita. Agora estão os de esquerda já a pensar como é que vamos complicar isto. Eu continuo na mesma, temos que nos preocupar com os conteúdos. Em Lisboa estão esgotados, temos cinco principais: Torre de Belém, Jerónimos, Pastéis de Belém, Castelo de São Jorge e Oceanário. Está tudo no limite, são filas. Temos que criar mais. Claro que isto é uma metáfora, mas por cada três hotéis, um teatro, mais três hotéis, uma galeria de exposições temporárias, mais três hotéis, um museu...

Sem dar pérolas à concorrência, qual é aquele concerto que ainda sonhas conseguir e aquele que mais orgulho tens de ter conseguido?
Seria aquele que nunca veio cá, o Tom Waits. Uma vez ele só estava a fazer espetáculos em salas de ópera, mas o São Carlos estava em obras. Foi pena. Em relação à segunda pergunta, é muito difícil, são tantos. Bandas como os Coldplay, que levámos a Paredes de Coura e ninguém os conhecia, mas foi aquela coisa de “Isto vai ser uma grande banda”, e foi! Radiohead em 1993, fazia primeira parte dos James. Por acaso há um vídeo da Creep gravado, alguém conseguiu filmar isso dentro do pavilhão do Belenenses. Eles existem por causa deste concerto. Uma banda para fazer a primeira parte paga as despesas, está a investir para tocar. Os Radiohead tinham decidido que quando acabasse a tour se separariam, pagavam as dívidas e cada um seguia o seu caminho. Chegaram a Lisboa e a malta cantou da primeira até à última música. Ficaram loucos, isso deu-lhes um ânimo. Eles vieram cá uma vez aos prémios Blitz e falei com o Ed O’Brien, o mais alto, perguntei-lhe, “Explica-me uma coisa, esta história não é verdadeira?” e ele “É!”,“Então porque é que vocês nunca vêm a Portugal?” e o tipo começou a chorar, porque de facto os gajos existem por causa de Portugal. O que é certo é que depois fizeram uma tour, estavam a preparar um disco novo e quiseram experimentar, fizeram dois concertos, um em Portugal e um em Espanha. Só nos Estados Unidos vendemos 800 bilhetes. Radiohead a vender bilhetes lá fora é espetacular. A Madonna, no Parque da Bela Vista, ter um espetáculo que é o maior em nome próprio é muito bom, mas não é o meu preferido. Preferidos, Leonard Cohen, Chico Buarque, Pearl Jam, Radiohead, Coldplay...

Sabe-se também que muitas vezes não chegas a conhecer os artistas. Não tens essa curiosidade?
Não. Sou reservado. Um individuo que toque duas horas, acaba o concerto, vai para o hotel ou mete-se num autocarro e vai a dormir até Madrid, acorda, toma banho, dá umas entrevistas, faz um ensaio, toca outra vez, volta para tomar banho, vai para o autocarro, dorme e acorda em Paris, chegar a todas as cidades e, de repente, “Olá eu sou o promotor”. Acima de tudo é dar espaço às pessoas, os nossos backstages não têm nada a ver com os lá de fora. No NOS Alive, a não ser que haja cargas e descargas, aquilo parece que não está a acontecer ali nada. É um sítio recatado, para estarem em paz e acho que com isso ganhamos o respeito deles e gostam de trabalhar connosco. É diferente de sair do palco, chega ao camarim e está lá o Presidente da Câmara, o Presidente da República e as famílias a pedir fotografias e um abraço, o artista está suado e nem queria. Lembro-me de o Ben Harper, uma vez fizemos o Pavilhão Atlântico, e no fim do concerto eu ia a passar e ele chama-me. Deu-me um abraço e disse obrigado, e eu perguntei, “Obrigado porquê?”, e ele disse “Lembras-te do primeiro concerto? Tínhamos 50 pessoas e hoje tivemos 19 mil”.

E um regresso aos nossos palcos da vizinha Madonna?
Não faço ideia. Isto hoje em dia tudo depende muito das canções. Não sei se ela vai voltar, não faço ideia.

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