1 - Com tantas cartas no baralho, porquê Valete?
Isso é uma história antiga. Comecei a rimar com 16 anos e então o nome é desse tempo de adolescência. Lembro-me de ter visto um documentário sobre ilusionismo, onde disseram que quando um ilusionista te faz um truque de cartas se tu escolheres a carta do valete o truque não dá certo. Era como se o valete fosse a carta do azar para os ilusionistas. E eu gostei dessa cena, desse simbolismo, quase como se o valete não te deixasse cair em truques nem ilusões.

2 - Passaram onze anos desde o último álbum, que até já teve dois títulos anunciados e descartados. Depois de tanta espera não tens medo de desiludir?
Precisava mesmo de um tempo para mim, para crescer, precisava de ler muita coisa porque queria falar de certos assuntos e não estava preparado. Foi um tempo em que viajei muito também, conheci relativamente bem a Europa, alguns países africanos e pronto, precisava de ter esse crescimento para poder ser o MC que quero ser. As pessoas não podem condicionar este tempo que tens para fazer a tua maturação, era necessário e agora sinto-me preparado para escrever as rimas e os temas que sempre quis escrever. Se não funcionar tão bem, vou estar de consciência limpa porque era o caminho que queria seguir. Obviamente que quando chegas a muita gente queres continuar sempre com esse público, não queres descer de cem para dez, ninguém quer. Só que a qualidade da arte está em primeiro lugar. Se não conseguirem apreciar essa qualidade, esse crescimento, então é porque provavelmente não sou um artista das pessoas. É simples.

3 - Perguntam-te pelo álbum em quase todas as publicações que fazes no Facebook. Nunca começou a dar contigo em doido?
Não, porque ninguém quer lançar mais o álbum do que eu. Para mim tem um efeito contrário, faz-me sempre sentir que há pessoas que estão à espera e tu não lançando nada há 11 anos era relativamente normal que as pessoas esquecessem. Então o facto de saberes que ainda há pessoas que estão interessadas em saber quando é que sai, é fantástico. Eu gosto.

4 - Este ano lançaste duas músicas no mesmo dia que presumo que vão fazer parte do álbum, uma delas chamada Rap Consciente. Esse manifesto é dirigido a alguém em particular ou é contra um estilo?
Por acaso não vão entrar. Eu não sou da primeira geração de rappers em Portugal, sou de uma segunda ou terceira geração, mas no activo se calhar sou dos mais antigos. Sou de uma geração onde os rappers ainda vinham da cultura hip-hop. Hoje tens muitos rappers que gostam de fazer rimas, gostam de rap, mas não são da cultura hip-hop, nem sequer sabem o que é, não conhecem os valores, a matriz, não conhecem nada. Isto não é uma crítica, ok? Eu sendo da cultura hip-hop, sabendo o que ela é, qual é o caminho que ela tem de fazer, entendo que nesta altura ela está a ser muito agredida. Estamos a perder se calhar a premissa mais importante, que é o valor contra-cultural do hip-hop. O hip-hop não existe para reproduzir a cultura pop, existe para transformar. Estamos a perder isso e a ceder muito. Hoje muitos artistas de rap vão às rádios entregar singles, os directores dizem “Este single não funciona aqui” e eles voltam para o estúdio, fazem outra coisa. Isto é totalmente anti-hip-hop e está a acontecer cada vez mais. Estamos a ceder e não pode ser.

5 - E não tens mesmo previsão de lançamento ou tens e não a tornas pública?
Não a quero tornar pública para não falhar, mas posso dizer que neste momento estou praticamente todos os dias no estúdio e estou activo, já não vão sentir a minha ausência. Estamos para lançar outro single em breve, vou estar muito presente nos próximos tempos. Vou lançando singles, é uma coisa fixe, nesta era podes marcar a tua presença dessa forma. Até se calhar fazer alguma reflexão e tentar perceber o que é um álbum hoje em dia, qual é a importância de um álbum.

6 - Seguindo essa receita de ir lançando músicas soltas no YouTube dá para receber convites para tocar ao vivo e ir pagando as contas?
Acredito que muita gente faz isso, é um modus operandi válido, até porque o consumo de música hoje é muito mais rápido.
É a forma mais fácil de chegares às pessoas, por causa das redes sociais. E de repente estás a sentir uma coisa e rapidamente vais para o estúdio, gravas e pões cá fora. Na altura em que os músicos praticamente só lançavam álbuns era um processo muito mais demorado e burocrático, se calhar queres fazer uma letra sobre os incêndios e tem de sair já, então isso também é muito fixe. Para mim, porque estive a fazer este tempo de maturação, quando lanço o Rap Consciente e o outro som era quase como começar do zero e agora quero ir lançando músicas para mostrar às pessoas as coisas novas que tenho, o que estou a trazer de novo. É mais isso.

7 - Isso também faz com que, com excepções para ti, o Sam The Kid, Boss AC e pouco mais, os rappers cheguem a muita gente, mas essencialmente só falem para essa comunidade, sendo até desconhecidos para o resto da população. Em certos casos até parece existir alguma desconfiança em relação à comunicação social. Achas que isto vai acabar por mudar? Vamos começar a ver mais rappers a assinarem por grandes editoras e por aí fora?
O que eles estão a perder essencialmente é uma faixa etária, se calhar dos 25 anos para cima. Mas de 24 anos para baixo, o pessoal consome maioritariamente hip-hop e está a par desses fenómenos da Internet. Esses novos rappers se calhar têm dificuldade de chegar a um público mais velho. Mas o produto deles também não serve para um público mais velho, estás a ver? Hoje um rapper que tem alguma relevância na Internet consegue fazer um circuito de concertos importante. Já há promotores mais atentos. Antigamente se o artista não estava a aparecer na televisão ou na rádio, não existia. Viagens de finalistas, semanas académicas, recepções ao caloiro, todas as cidades fazem isto e esses rappers que gravitam só na Internet conseguem fazer esse circuito. Se trabalhares esse público consegues profissionalizar-te à vontade. Obviamente que tens de ter sucesso. E para as editoras é importante porque o rap tem custos muito baixos e actualmente tem esse público gigante.
E já estão a fazer isso. Está a começar.

8 - Em pouco mais de vinte anos, o rap tuga deixou de ser essencialmente de e para as comunidades negras dos subúrbios e de classes baixas. Além do público ter crescido, agora tens muitos brancos talvez da classe média a fazer rap. Qual é a tua visão sobre o porquê dessa mudança?
Acho que era inevitável. Aconteceu em quase todo lado. Ouves um disco, conheces o rapper quase a 100%, o que ele pensa sobre o aborto, se é materialista, então a identificação é muito mais forte. Até tinhas gajos, já não há muitos, que rimavam sobre a vida dos guetos e a certa altura era fascinante. Se és um gajo de classe média e vives em Alvalade, queres saber o que é que se passa no gueto, tinhas de ouvir aquele gajo. Não havia outra forma. Se calhar o único estilo que sobreviveu a esse registo em que o artista põe muito dele na música foi o rap. Quando faço o Rap Consciente estou a falar disso também. Nós se estivermos a caminhar para o registo mais pop, vamos perder isso. Vais ver é músicas estéreis em que não há nada do artista, é a música do Francisco mas podia ser do Manuel, podia ser do João. Não é pessoal. São hits para a rádio. Então é importante que o rap não perca isso, porque foi o que no fundo fascinou as pessoas.

9 - E ainda fazes isto só por amor?
Não, não. É engraçado que eu não tenho um álbum há 11 anos mas vivo da música desde 2011. Fui sempre dando concertos, graças a Deus. Para os rappers os concertos agora são bem pagos.

10 - No início da carreira não davas muitos concertos. O que é que te fez estar tanto tempo fora dos palcos e depois mudar de postura?
A decisão de não dar concertos é de um miúdo de 19/20 anos, coisas que eu tinha na cabeça, que não têm muito valor agora. Primeiro, senti que as pessoas queriam muito e depois a certa altura, quando a coisa muda a nível de indústria musical em relação ao hip-hop, senti que já era possível um rapper viver da música. Já havia alguns, mas eram excepções, se calhar o Boss AC e pouco mais. E eu trabalhava num escritório, asfixiado, num trabalho que odiava. Entre essa opção ou viver da música, claro, viver da música. Foi relativamente fácil, até porque mesmo sem discos ia sempre tendo convites para concertos, em Portugal e não só. Cheguei a ir a Angola, Moçambique, Brasil, e então pronto, a cena correu bem. É por amor, obviamente, mas agora sou um profissional disto.

Fotografia - Bernardo Coelho

11 - Na música portuguesa por alguma razão fazem-se poucas covers. O que é que sentes quando ouves um miúdo como o Slow J a cantar ao vivo esse refrão do Canal 115?
Gosto muito. Primeiro porque gosto dele, é um miúdo muito especial, representa tudo o que temos na cultura hip-hop, que é uma cena de arriscar, aquele espírito contra-cultural ele tem muito, quebrar barreiras. Depois é uma pessoa que conheço bem porque trabalhei com ele, era técnico de som no estúdio onde eu gravava. Então a certa altura ele era o meu técnico de som. Uma cena engraçada que nós tínhamos era que saíamos sempre muito tarde do estúdio, ele já não tinha comboio para ir para casa, vivia em Cascais e eu levava-o sempre de carro, 25/30 quilómetros. Então praticamente todos os dias fazia uma viagem de meia-hora com o Slow J no carro e tínhamos conversas incríveis. Conversas da vida familiar dele, conversas sobre música, conversas filosóficas. Ele estava timidamente a começar, já fazia umas cenas. Percebia-se alguma inexperiência, mas também uma necessidade especial de querer ser diferente. Já tinha muito isso, de querer trazer qualquer coisa nova. E as conversas que tivemos marcaram-me. Aprendi muito também, porque ele tem um cérebro especial. Estamos a falar aqui talvez de 2014/2015. Além da admiração, tenho uma relação bué próxima com ele, gosto mesmo dele.

12 - E esse nome do Canal 115, de onde veio?
Foi o meu primeiro grupo, é mais uma crew. Era um grupo de amigos que fazia rap, mas não era necessariamente uma banda. Podíamos estar a fazer as nossas cenas a solo, só que representávamos sempre o Canal 115. Isto surgiu na altura em que apareceu o Valete, tinha 16 anos, e a ideia, coisas de miúdos, era tipo: “Vamos construir aqui um canal”. O 115 era o número da urgência na altura, antes de 2000, “isto é o canal da urgência, as pessoas obrigatoriamente têm de passar por aqui”, aquelas merdas. E era Canal 115 por causa disso.

13 - O sucesso que tiveste logo tão cedo podia ter feito de ti o Fábio Paim do rap?
Podia, mas tive algumas vantagens. Quando lanço o meu primeiro álbum, teve sucesso mas como era uma edição de autor não tive airplay da rádio, dava sempre impressão que era uma cena underground, nunca pareceu tipo Da Weasel, gigante.
A comunidade hip-hop estava a ouvir, era um sucesso, a música furava, mas como não havia muita exposição, nunca foi uma cena excessiva. Também porque não tinha videoclips, isso também me ajudou muito, porque se calhar se tivesse isso tudo, primeiro ia-me afectar a mim, que tinha 19/20 anos e podia seguir outros caminhos, podia ser difícil. Como também não ganhei muito dinheiro, eu próprio não dava concertos, então a forma como me chegava também era muito moderada. A Internet era uma cena muito residual na altura, nem conseguia perceber bem o feedback. No segundo álbum já há MySpace, tem mais projecção, já sentia nas ruas, na Internet havia assim um falatório, mas como também não teve airplay, não chegou a toda a gente. Nunca foi uma coisa incontrolável. Creio que isso me ajudou a ficar mais contido, mais moderado também.

14 - Se existirem coisas antigas que escreveste e com as quais já não te identificas, custa-te cantá-las hoje ao vivo?
Custa mais ensaiar. Como não tenho público, estares a cantar coisas que algumas até achas abomináveis, custa. No concerto, vejo quase como tu e público a celebrar um momento da tua vida. Se calhar um momento com alguma ingenuidade, se calhar um momento com alguma impreparação, mas é um momento da tua adolescência artística, que também conta, e as pessoas conseguem ver beleza nesses momentos. “O gajo aqui tinha 20 anos, fez esta cena, isto está meio atabalhoado mas tinha alguma pureza”, é mais a celebração disso. No concerto gosto, no ensaio custa mesmo bué.

15 - E agora que a Esquerda está toda no Governo é que tu te afastas dela nas letras?
Estou a gostar do Governo, até surpreendido, não esperava que durasse tanto tempo, que fosse tão harmoniosa a solução. Mas os partidos políticos têm um capital humano incrível, desde advogados, sociólogos, cientistas políticos, economistas, acho que o têm de pôr ao serviço das pessoas. Isso vê-se pouco em Portugal, ou seja, preciso aqui na Damaia, na minha freguesia, de uma sede activa do Bloco de Esquerda ou do Partido Socialista, de apoio à comunidade. Eu se tiver um problema com as Finanças e tenho a casa penhorada, onde é que me vou dirigir? Tenho de dirigir-me às Finanças, que nesta altura é o meu agressor. As pessoas precisam desse apoio, de uma plataforma que as ajude, faça a mediação. Tu queres abrir um negócio, não sabes a burocracia que é preciso, as pessoas ficam perdidas. É muito importante esta representação comunitária e então percebendo que esta amostra de Esquerda que temos agora está a funcionar, acho que devemos dar um outro passo. Seria este na minha opinião.

16 - Já assumiste que sonhas ser presidente da Junta da Damaia. Não ponderaste ir preso primeiro? Aí talvez possas concorrer logo à Câmara da Amadora.
À Câmara da Amadora acho que é muita responsabilidade mas gostava de ser Presidente da Junta da Damaia. É uma coisa longínqua, até porque ainda quero fazer muitas coisas na música. Mas tenho muito amor pela Damaia, sei que é possível fazer-se muita coisa. Não há nenhuma actividade cultural, é uma zona abandonada, mesmo na cidade da Amadora, completamente ostracizada e eu gostava que os próximos presidentes da Junta libertassem a Damaia desse estigma de zona indesejável, de pessoas de terceira, criminosos. E dar o que as pessoas têm noutros sítios. Em Benfica este ano fui ver um concerto espectacular com o Zambujo, o Virgul, as pessoas todas reunidas ali ao pé do Califa, fantástico. Nunca vi isso na Damaia, moro aqui há 20 anos. Nunca houve um concerto. Não há teatro, não há cinema, nada. Acho que as pessoas merecem mais.

17 - Tens-te manifestado contra o machismo. Achas que a defesa dos direitos das mulheres ainda é levada pouco a sério?
Eu não saberei falar de machismo com a qualidade que é precisa para este tema. O que posso dizer é que sendo homem, em 2017, com os milénios de machismo que temos, é quase impossível eu não ser machista. A sociedade é patriarcal e propaga o machismo por todos os poros e isso obviamente que me afecta a mim. A crítica que faço a quem faz essa defesa é que eu sou sexista, entendo que tenho essa doença social, estou à procura de curar-me, mas não quero ser visto como um vilão. Os machistas não são vilões, são vítimas, levámos com milénios disto, as nossas mães passam-nos isto, as escolas, então não pode ser uma guerra de feministas contra machistas, parece-me que não é solução. É perceber que temos esta doença e temos de nos curar, com a ajuda das feministas que estão na vanguarda da luta, mas não a tratar os machistas, a não ser que seja uma coisa muito extremada, como neonazis.

18 - O Rui Sinel de Cordes diz que tu és o poeta preferido dele. E tu, quem é que admiras por cá nas outras artes?
Li um livro que adorei do Valter Hugo Mãe, O Remorso de Baltazar Serapião. Fascinou-me mesmo. Depois decidi que ia começar a ler as cenas dele, acabei por não ler até porque perdi muito do ritmo de leitura que tinha. Mais pessoas… Sou completamente vidrado na Carminho e na Gisela João. Nunca tive grande relação com o fado, mas a garra, o espírito que elas têm ao vivo, quem é hip-hopper identifica-se bué. E soube isto depois da admiração, elas cresceram a ouvir hip-hop. Acredito que muito do que têm na atitude, no swing, no carisma, tem muito a ver com o hip-hop. Também cresci a adorar o Herman José, faz bué parte da minha adolescência, é uma referência única na cultura portuguesa e tenho algum medo que a certa altura gerações mais novas negligenciem a importância dele. Ainda sou um grande fã. E tenho de dizer o Sam The Kid. É um amigo de longa data, a relação que tenho com ele é muito forte, é um gajo que vi a crescer. Conheci o Sam com 17 anos, vi todo o esforço que ele fez, as decisões difíceis que teve de tomar. Ele abandonou muitas coisas para se dedicar à música a cem por cento. Vi a forma como foi negligenciado e acreditou sozinho. Já fazia coisas geniais e as pessoas não valorizavam.

19 - Ele há tempos disse que fez um disco de remisturas de músicas tuas. Já te mostrou isso alguma vez?
Chegou a mostrar-me alguma coisa, acho que não na totalidade. Mas eu até ia pedir para ele nunca lançar isso. Ia pedir mesmo, porque ele pegou em rimas que eu hoje já não sinto. Gostava de ver uma roupagem de Sam The Kid em músicas de que eu gosto. Não é o caso, aquilo são sons com que não tenho nenhuma relação, tenho mesmo dificuldade em ouvi-los.
É como um gajo querer fazer uma exposição com fotografias tuas de 2002. Vou pedir ao Sam para não lançar isso porque tenho bué vergonha dessas músicas, bué vergonha mesmo.

20 - Este ano fazes vinte anos de carreira. Tens alguma coisa especial preparada para o concerto no Vodafone Mexefest?
As pessoas consideram uma cena oficial com o primeiro álbum, assim seriam quinze, mas desde que comecei a rimar, sim, são vinte anos. Mas nunca comemoraria, até porque considero os meus primeiros dois álbuns amadores, aquilo para mim são demos. O concerto do Mexefest é obviamente de celebração do passado mas é mais um concerto de regresso. Como estive algum tempo afastado quero mostrar às pessoas o que é que vai ser Valete daqui para a frente. Vou ter uma ou outra coisa que as pessoas não ouviram, gosto sempre de fazer isso nos concertos e celebrar coisas antigas, mas se calhar algumas com roupagens diferentes. Estou a preparar um concerto onde há uma interação minha no palco com o vídeo e quero também perceber como é que as pessoas vão reagir. Ou seja, o concerto do Mexefest vai ser quase a apresentação do que vem de Valete para os próximos tempos.

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