1 - A one man band foi um truque que entretanto se gastou?
Não é que se tenha gasto, quer dizer, por um lado sim, gastou-se no sentido de, no True acho que levei a coisa um bocado longe demais na maluqueira do one man band e no que eu conseguiria fazer como one man band, e até o processo todo de composição, foi composto na sala de ensaios, e sempre muito tendo em vista o formato e tentando levar as fronteiras do formato do que o que é que eu conseguia fazer até um limite um bocado estúpido em que eu perdia mais tempo a ensaiar coisas técnicas do que propriamente a criar coisas novas. Acho que foi como o Paulo Segadães entrou a tocar bateria, uma coisa do género mesmo “Já estou farto de tocar sozinho, preciso de mudar um bocado disto”, depois o Cabrita foi também entrando, não foi uma coisa premeditada, ou seja, acho que me fartei mesmo do formato, por agora, pelo menos, e tinha necessidade de fazer outras coisas e fundamentalmente não estar limitado a esta coisa que fiz durante cinco álbuns, de só gravar o que conseguia tocar ao mesmo tempo. O que, apesar de ser uma limitação, era uma limitação muito fixe porque me criava um caminho, mas estava a precisar de fazer outras coisas.

2 - Não ponderaste acrescentar um “and the” qualquer coisa?
Tinha sempre uma estratégia que era trocar o “a” de Tigerman por um “e”, que é mais simples, mas ainda não estamos lá, acho eu, no sentido em que isto ainda não é exactamente uma banda. Eu continuo a fazer as canções, toda a gente dá obviamente dicas e dá ideias e dá um contributo super importante, mas ainda não chegámos lá.

3 - Por norma as coisas acontecem-te sem as planeares?
Sim, aliás, a maior parte das coisas importantes da minha vida às vezes até têm a ver com erros que depois se transformam em outras coisas, mas sim, acho que tu tens alguma tendência, quando o tempo passa e ficas mais velho, a intelectualizar um bocado as coisas. E eu tento contrariar, quer dizer, por um lado não tento contrariar e aceito isso e gosto dessa profundidade, por outro lado às vezes para compor as coisas que sejam mais no fio da navalha tens que deixar isso um bocado para trás, essa intelectualização, e tentar fazer as coisas muito rápido.

4 - Mas desta vez, começares por fazer um filme que inspirou um álbum que virias a gravar no deserto da Califórnia exigiu planeamento, correcto?
Exigiu, mas lá está, ao mesmo tempo que houve esse planeamento, acho que só agora à distância é que percebo exactamente o que é que quis fazer a mim mesmo. Na realidade escrevi o filme em rodagem, ou seja, todas as manhãs escrevia o diário do filme, o diário de cada entrada e à noite escrevia as canções, ou seja, o grosso disto tudo, apesar de na realidade depois haver, sei lá, um ano de trabalho antes e provavelmente um ano de trabalho depois, numa série de coisas, mas o grosso do filme e do disco foram escritos em 14 dias, o que nos remete outra vez para esta coisa de te obrigares a não pensar muito e a ser mais instintivo em relação às coisas que fazes. Só agora também olhando para trás é que percebo o enorme risco a que me propus, quando decidi fazer as coisas assim, na realidade se no primeiro dia de escrita as coisas tivessem corrido mal duvido muito que em duas semanas, ou que mesmo no ano a seguir conseguisse fazer alguma coisa de uma viagem de um filme mal sucedido, com composição mal sucedida numa série de coisas. Ou seja, acho que me coloquei um bocado deliberadamente no fio da navalha, parecendo que era uma coisa muito planeada, que exigia muito planeamento antes e depois, e no momento da criação foram duas semanas.

5 - Saiu tudo como querias?
Saiu, sim. Mais do que o que queria, acho eu. Quando fomos para o deserto a primeira vez, não esperava minimamente que fizéssemos uma longa-metragem e acabámos por fazer, pensei que faríamos uma curta, vá lá, uma média no máximo, uma coisa de 30 minutos, e de repente havia material para se fazer um filme. E com o disco acho que fiquei também muito contente, é um disco mais do que qualquer outra coisa de rock ’n’ roll, que acho que era o que estava a precisar e também era o que faria sentido, em contraponto também com o filme.

6 - Quem é este Misfit?
Este Misfit tem obviamente muito de mim, tem muito do Tigerman, ou seja, acho que há sempre estas coisas das máscaras e tu aproveitas para estar atrás das máscaras e a tentar dizer coisas que provavelmente não dirias sem máscaras, e acho que este Misfit numa primeira camada tem muito a ver com o Tigerman e com essa máscara que eu coloquei depois por trás, também estou eu, mas este Misfit também é tudo o que é a estrada americana e tudo o que tu encontras e tudo... E esse perigo já não sentes tanto na Europa, pelo menos eu não sinto, não há nenhum sítio em que sinta que ao virar da esquina alguma coisa, qualquer coisa maluca pode acontecer de bom ou de mau, ou o que quer que seja. Acho que isso existe muito na estrada norte-americana, e daí eu ter planeado esta viagem entre Los Angeles e Death Valley. E tem tudo isso, tem coisas que aconteceram comigo há 15 anos, tem coisas que aconteceram comigo ali na altura, tem ficção, tem muitas coisas que foram inspiradas por tudo o que sou e pela viagem.

7 - Com esta ligação toda à América, o disco também vai ser tocado por lá?
Nunca sabes exactamente o que é que vai acontecer. O último disco editado na América, fisicamente, foi o Masquerade, creio eu, e a última vez que toquei lá foi talvez há cinco anos. Curiosamente tudo parece indicar que este disco irá ter edição americana e consequentemente acho que irei fazer concertos lá.

8 - No entanto as primeiras datas após o lançamento são em França, país que te recebe bastante bem já desde os primeiros tempos dos Wraygunn. Consegues explicar essa espécie de relação especial?
Acho que por um lado França tem muita gente que gosta de rock ’n’ roll, e depois há uma coisa engraçada que me acontece desde o início nos meus concertos lá e que agora começa a acontecer um bocadinho cá: há muito tempo, quando comecei a tocar em França, havia muitas pessoas de 60 e muitos anos, 50 anos e putos e pessoas de 30, ou seja, parecia que havia várias gerações, uns que já ouviam rock ’n’ roll há 40 anos, outros que estavam a descobrir naquele momento. Acho que sempre houve um bocadinho esse espaço e depois não sei, estas coisas às vezes têm a ver com haver pessoas a acreditar no teu trabalho e ao longo dos anos a terem também trabalhado a minha música, no fundo, tem a ver com isso.

9 - E os Wraygunn, são definitivamente passado?
Não faço a mínima ideia, acho que estão assim num limbo. Acho que se fossemos um casal, era um casal de muita gente, mas diria que estamos a dar um tempo, nunca se sabe se voltaremos a ser felizes, não sei. Acho que é possível.

10 - Tudo o que venhas a fazer na música virá assinado The Legendary Tigerman, é isso?
Às vezes não, às vezes há assim umas coisas que escapam muito ao universo Tigerman e que assino como Paulo Furtado, mais como bandas-sonoras para cinema ou isso, mas normalmente, sim, acho que de certa forma isso tornou-se também mais reconhecível pelas pessoas do que Paulo Furtado. No fundo aproveito para me esconder atrás dele, acho eu.

Fotografia - Bernardo Coelho

11 - Fizeste agora 10 datas com os Linda Martini, porquê eles?
Nós estamos a trabalhar na mesma agência e com o mesmo management e foi uma ideia que partiu do management, uma belíssima ideia. Obviamente que surge também porque já existe um namoro, troca de elogios, de admiração e uma relação com os Linda Martini, que foi profundamente adensada com esta tournée e ficámos todos muito surpreendidos por ainda gostarmos mais da música uns dos outros e agora ainda nos conhecemos melhor. Parecendo que não, partilhar carrinha e espaço durante duas semanas é uma coisa bastante intensa e profunda. Acho que as coisas ficaram ainda mais fortes entre as duas bandas, ficámos com imensa pena quando o Coliseu acabou e percebemos que era o fim da coisa, por agora, pelo menos, e ficámos com vontade. Acho que vamos sempre arranjar algum pretexto para fazer alguma coisa juntos. Será uma tournée, discos, ou um projecto especial, isso não sei bem, acho que temos todos essa vontade que voltem a acontecer coisas.

12 - Também aparecestes no vídeo de Rap Consciente, do Valete. E esta ligação, vem de onde?
Vem de respeito, é a mesma coisa, vem de empatias e de uma profunda admiração que tenho pelo Valete e que creio que ele também deve ter por mim, para me ter convidado para o vídeo. Sempre tive muitas colaborações com pessoas que aparentemente não tinham muito a ver, ou pelo menos de fora, parecia que não tinham muito a ver. Com o Valete já gravei uma série de guitarras para beats dele, já desde há muitos anos, e às vezes há assim uma relações que estão um bocadinho por baixo da terra, que as pessoas não se apercebem mas elas existem.

13 - O que te levou a querer tocar em Junho no Super Bock Super Rock este novo álbum, que só chegaria em Janeiro?
Hoje em dia tem acontecido uma coisa que é muito chata, este disco está pronto, por exemplo, há um ano, muito provavelmente é quase a mesma razão porque de repente o disco saiu em Dezembro nas plataforma digitais em Portugal e só agora é que vai sair em formato físico. Antes os discos nasciam, tinham uma vida e depois havia assim alguma coisa e morriam uns meses ou anos depois. E ficava sempre o fantasma a pairar. Hoje em dia os discos saem e quase no dia a seguir morrem, ou seja, as pessoas andam cada vez mais a correr e com pouco tempo para poderem adensar discos, ou filmes, ou o que quer que seja. Então achei que era mais natural ir apresentando, irem acontecendo coisas diferentes e ir fazendo as coisas de maneira diferente, como tocar o Misfit, depois na mesma altura pusemos no Spotify uma espécie de uns teasers em que eu descrevia um bocado o modo como tinha sido gravado, o que é que eram as canções, e em Dezembro saiu o disco, agora sai finalmente em vinil e em duplo CD e DVD o Misfit físico, ou seja, acho que a parte fixe hoje em dia é que podes fazer as coisas de qualquer maneira, acho que isso funciona. O segundo cd são na realidade os temas mais calmos, chama-se Misfit Ballads, desta vez queria ser um bocadinho mais incisivo no disco, normalmente costumo ter discos com um bocadinho de tudo, desta vez decidi ter o Misfit como uma coisa mais incisiva em rock ’n’ roll e o Misfit Ballads como um disco claramente mais calmo e relaxado.

14 - E estava tudo composto quando chegaram lá ao Rancho?
Já estava tudo composto menos duas canções, que nenhuma delas está, quer no Misfit ou no Mistif Ballads, mas eventualmente irá sair ainda durante este ano. Quis manter tudo um bocadinho dentro da esfera do Misfit no sentido em que a maior parte das músicas, ou a quase totalidade das músicas, algumas coisas foram retocadas fora daquelas duas semanas, mas queria muito manter esta ideia e conceito de escrever pelos olhos do personagem do filme e não fazer muitas coisas fora disso. Essas estavam muito fora dessa esfera, daí ter mantido o conceito um bocadinho mais fechado.

15 - Tiveste que vender um rim para conseguir lá gravar?
Não tive mas ainda poderei ter que vender, aliás, se alguém tiver um que possa doar, para eu não ter que vender o meu, agradeço, podem-me contactar pelas redes sociais. Acho que valeu tudo a pena. Eu não sou assim tão maluco, quando fui filmar e compor na primeira volta de L.A. a Death Valley, fui visitar o estúdio, obviamente, e agradou-me imenso, mais do que qualquer outra coisa e mais do que sequer o aspecto técnico, aquela ideia de estar ali isolado e não ver absolutamente nada a não ser o Joshua Tree Saloon, que é uma espelunca onde não consegues ficar mais do que uma hora, ou duas, eventualmente, e estares ali 24 horas por dia, rodeado de deserto e de personagens e só com o foco na música, isso era o que eu procurava e que achava que isto precisava também.

16 - Já fizeste várias bandas-sonoras, é trabalho ou paixão?
É trabalho, quer dizer, é sempre paixão, senão não faria música, mas é cada vez mais uma parte muito importante do meu trabalho. Sei lá, acho que todos os anos faço pelo menos duas longas e duas/três curtas, é uma coisa que cada vez mais quero fazer e cada vez mais faço, nacional ou internacional, é uma coisa que me vejo cada vez mais no futuro a fazer, um bocadinho em contraponto de estar tanto tempo em tournée.

17 - O teu bigode nasceu por causa de um desses trabalhos, para o filme Ruth, em que passas para a frente das câmaras para fazer de pai do Eusébio. Como é que se dá esse salto lógico?
Isso acabou por ser um grande desafio, primeiro tentei demover o realizador, a tentar-lhe explicar que não era actor, já tinha tido algumas experiências que não tinham corrido assim tão bem. Curiosamente esta até correu bem, acho que dei um digno pai do Eusébio, pelo menos, e foi uma experiência muito engraçada, também fiz a banda-sonora do filme, e desta vez comecei com a parte de representação, ainda por cima em Maputo, que foi onde nasci e onde nunca tinha voltado, foi uma experiência muito interessante estar lá. E gravámos umas músicas, fizemos um casting a vários músicos da Mafalala, havia uma parte da banda-sonora que teria que ser lá e faria sentido escolher músicos de lá. Esse processo foi incrível, também as próprias gravações que depois fizemos no local, e essa banda-sonora, além de me ter deixado muito feliz e estar também ansioso para que isso saia, curiosamente acho que não sou assim tão mau actor, afinal. Se calhar foi o bigode que ajudou.

18 - Vai durar até ao próximo álbum?
Não faço ideia, sabes que este bigode, uma vez chegado o Verão... não se pode cortar os bigodes no Verão, porque depois a parte por baixo do bigode fica branca e o resto fica bronzeado. Como tal ele sobreviveu o Verão, não era o meu plano e agora não sei, para já vai ficar.

19 - A realização também te apaixona?
Sim, se bem que acho que a minha primeira grande experiência de realização acabou de começar há cerca de um mês, há mais ou menos dois anos concorri ao ICA pela primeira vez, com uma curta-metragem que não tem nada a ver com o universo da música, também pela primeira vez, e ganhei, portanto tenho que fazer o filme. E filmar em 16mm é uma coisa bastante diferente de filmar em Super 8 e com muito mais responsabilidade. De certa forma, acho que só agora é que estou verdadeiramente a entrar dentro desse processo, cada vez mais apaixonado pela realização e pelo que implica. Os processos de criação são muito diferentes da música mas há muitas coisas que se tocam, a parte de teres que te preparar o melhor possível, como faço música para qualquer coisa, mas estar sempre um bocadinho aberto a ter que de repente improvisar porque há uma nuvem que não sai da frente do sol ou porque de repente há uma coisa qualquer que não funciona, quando deveria funcionar, e eu acho que essa resposta instantânea, um bocadinho no fio da navalha também é uma coisa que funciona no cinema e que acho que terá muito a ver com o meu cinema. Deve estar pronta no Verão, creio eu. Deverá estrear em festival, ou no final do ano ou no início do próximo.

20 - E o Paulo Furtado ainda existe no meio disto tudo?
O Paulo Furtado agora se calhar existe mais claramente por trás das câmaras, na realização, porque aí ainda tenho que estar muito consciente do que estou a fazer, não sei se faz muito sentido o que estou a dizer, mas em tudo o resto é muito mais fluído e as coisas estão mais definidas em relação ao que sou, por exemplo, como Tigerman ou como parte de Wraygunn, ou como o Tigerman faz uma banda-sonora e está ao serviço de um realizador. Esta parte de realização estou agora a formá-la, a decidir exactamente. O Rodrigo Areias, que é o meu produtor no cinema, fez-me uma pergunta há uns cinco ou seis anos, que realizador é que eu queria ser e isso fez-me pensar muito, até este momento em que estou aqui. Mas isso, de certa forma, é uma coisa em que estou mais consciente e que estou a definir.

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