Skin despediu-se com um beijo a Trump: “Tiveste imensas mulheres, fodeste prostitutas, fizeste essa merda toda, mas estás-nos a dizer que não podemos fazer essa mesma merda?”

1 | Quando tudo começou, já tinham a visão bem delineada de ser uma banda ao vivo imbatível, ou sabiam que a vossa atitude transgressiva vos iria catapultar para o sucesso?

Skin Quando começámos, não tínhamos nenhuma dessas coisas na cabeça. Olhando para trás, podemos falar de variadas questões, mas não tínhamos nenhuma ideia do que ia acontecer. Sabíamos isto: queríamos que a música fosse a única coisa que precisávamos de fazer e queríamos ser bem-sucedidos – e uma coisa era dependente da outra. Nesses tempos, a vida corria a uma velocidade tão grande, as coisas avançavam tão rapidamente que não tínhamos tempo para reflectir. Estávamos num camião que seguia freneticamente rua abaixo. Agora, é mais como uma locomotiva a vapor. [risos]

2 | 25 anos depois, o encontro geracional com o público é um desafio ou um sítio de revelação pelas novas nuances que se pode dar às canções?

Ace Sempre que tocamos ao vivo, nunca nos sentimos nostálgicos. É sempre fresco e algo novo. Temos um novo público a erguer-se a cada concerto e tocamos as canções de modo diferente. Às vezes, mudamos os instrumentos ou acrescentamos novos arranjos. Há uma reconstrução, nunca é abrir a caixa e sacar uma performance. É uma entidade viva. Há 10 anos, o nosso espectáculo ao vivo não era o mesmo que é agora. É essa a nossa abordagem, estamos sempre a pensar como podemos apresentar as coisas velhas com uma nova roupagem.

3 | 25Live@25: Não é comum hoje em dia atribuir protagonismo a um disco neste formato. A vossa intenção foi conceptualizar a mística perdida dos grandes álbuns de rock ao vivo dos anos 70 (The Who Live at Leeds, Kiss Alive…) e fazer uma recriação quase cristalina da experiência de vos ver?

Skin Kiss Alive!!! [risos] Tocamos há tantos anos que somos realmente bons ao vivo. Ok, há uns quantos “pregos”, mas isso é o que nós gostamos da experiência. Desenhamos as canções juntos, é divertido, eu salto de um lado para o outro, ouve-se a respiração ofegante… E é isso que é interessante e cool, porque de certa forma estamos no pico e ninguém sabe a nossa evolução ao vivo, a menos que tivessem estado presentes nos concertos. Isso são os nossos 25 anos. Claro que estamos a ser um pouco nostálgicos, mas na realidade é a primeira vez que o estamos a ser. Porque, normalmente, somos uma banda muito racional, obcecada com o que vai acontecer a seguir. Portanto, foi um bom momento para pararmos e reflectirmos um pouco. E também nos permite repensar o que é que queremos fazer a seguir.

4 | Sempre idealizaram o álbum como orgânico e cru, ou pensaram em regravar certas partes para dar uma roupagem mais polida ao disco?

Skin Nós trouxemos outro membro connosco, tínhamos 5 pessoas em palco nessa tour. Ela faz coros, toca teclados e samples, coisas que não tínhamos conseguido antes. Se fossemos só nós os quatro, isso provavelmente não ia acontecer. A única coisa que não fazíamos muito ao vivo era tocar samples de cordas em algumas canções que foram gravadas com esses arranjos, e pela primeira vez fizemo-lo. “Que se lixe”, pensámos. Isto porque tivemos, a certa altura, uma orquestra em palco connosco, e chegámos à conclusão que era demasiado ruidosa para ser acompanhada por instrumentos acústicos. E isso foi, portanto, a única coisa que tínhamos em palco que quisemos manter neste álbum ao vivo. Charlie Big Potato precisa dessas cordas, portanto só as pusemos de volta, e soa melhor.

5 | Em 2000, disseram que um dia tinham de lançar um álbum de greatest hits e gravar o concerto ideal para um bom disco ao vivo: acabou por não ser um, mas vários concertos memoráveis, certo? Vão revelar quais ou querem manter o mistério como Guns N’ Roses fizeram com o Live Era?

Skin [risos] Na realidade, toda a gravação é de um só concerto. O que aconteceu foi que nesse espectáculo nós não tocámos a You´ll Follow Me Down, a Secretly, nem a Selling Jesus, que foi o nosso primeiro single e que tínhamos de incluir. O que nós fizemos foi gravar todas as noites da tour, mas acabou por ser o último concerto, em Gdansk, na Polónia, que teve a melhor energia. Tudo é retirado de um só concerto, com excepção de 4 canções, que pertencem a outros concertos.

Ace Porque nós não gravámos a tour inteira, apenas metade. Mas o engraçado é que eu oiço o álbum e a Skin diz “obrigado” em polaco, várias vezes, portanto logo por aí se percebe que é tudo de uma só noite. [risos]

Skin Eu adoro, porque isso é o que acontece nos concertos de Skunk Anansie. Há muitos incidentes. Os primeiros vinte minutos dos concertos não têm qualquer interrupção, não há pausas para comunicar com o público. É melhor ser um só concerto, porque não teria a mesma fluidez. E além disso, nós temos um produtor incrível, mas sonicamente é muito difícil usar vários concertos e fazer com que tudo soe bem. Cada sala é muito diferente. A primeira parte da tour decorreu em salas grandes, o que tornava tudo mais difícil de captar.

6 | Ouvimos dizer que és tu, Skin, que costumas escolher a setlist dos concertos; para aqui, foram 3 músicas de cada álbum, excepto o Paranoid and Sunburnt (1995) e o Wonderlustre (2010), que tiveram direito a 6 cada. Qual foi o critério de selecção?

Skin Eu acho que para essa tour, coincidentemente, escolhemos canções que não tocávamos há muito tempo. O nosso segundo álbum foi o mais bem sucedido, mas tocámos mais do Paranoid and Sunburnt. Se tivéssemos um novo álbum, claro que teríamos tocado mais músicas do mesmo, mas acho que nessa tour nós só queríamos tocar algumas das canções “originais” e ver como soavam. A Intelectualize My Blackness, por exemplo, não tocávamos há 20 anos e agora é, sem dúvida, a minha música preferida ao vivo.

Ace Acabámos por tocar a Intelectualize My Blackness durante toda a tour, mas a Selling Jesus, pelo contrário, foi tocada uma única vez. Ensaiámo-la no soundcheck e a versão que está no álbum é essa mesmo, de um concerto na Alemanha. Mais tarde, apercebo-me que “há só uma versão!”, e não tivemos escolha. [risos] E soube bem, porque não a tocávamos há anos e anos.

7 | Os videoclips de Skunk Anansie sempre foram muito cinemáticos – reflexo de uns 90’s férteis em imaginação ou particular interesse em esculpir cada single sob as referências extra-musicais de cada um?

Skin Nos anos 90, nós fazíamos videoclips que chegavam a custar 150 mil libras. Isso nunca aconteceria agora, nunca. Eram cinemáticos, porque havia muito dinheiro envolvido. Tínhamos óptimos operadores de câmara, óptimos realizadores, etc; e agora temos apenas óptimas ideias. [risos] Os vídeos são muito mais pequenos, têm que ser adaptados para o Facebook, Instagram e afins. Nós temos imensas referências que adorávamos usar, os meios é que são outros.

8 | Tocaram no aniversário de Nelson Mandela, [Skin] partilhaste o palco com um dos teus ídolos, David Bowie, e até cantaste com o Pavarotti na presença do Dalai Lama. Com quem gostariam ainda de vir a colaborar?

Skin Ui… isso é uma longa lista! Eu estava a colaborar com o Lemmy antes de ele morrer. Teria sido incrível, mas não se conseguiu materializar. Não sei, é difícil, porque estas coisas surgem de modo tão orgânico, alguém tem uma ideia… Pessoalmente, adorava fazer algo com a Blondie. Foi ela que me inspirou a fazer tudo isto.

9 | Em 2000, disseram também que estavam a planear um novo álbum mais experimental e eis que se seguiu um hiato de cerca de 8 anos. Foi uma espécie de puzzle que precisava de ser montado no timing certo?

Skin Nós não tivemos tempo para descansar durante anos. Precisávamos apenas de nos tornar outras pessoas, sob variadas formas, por diferentes razões. Sem dramas. Raramente falamos disso. É como nas terapias de reconciliação para casais: a primeira coisa que aconselham é a não remexer no passado. [risos]

10 | Esse reencontro convosco mesmo foi urgente para produzir algo que voltasse a transpirar a dinâmica da banda?

Skin A dinâmica ficou exactamente a mesma, felizmente. Nós voltámos desse hiato como adultos, após termos reflectido sobre alguns dos nossos demónios. E não tínhamos problemas uns com os outros, só connosco próprios. O Mark estava a passar por problemas com álcool e drogas, todos tínhamos diferentes sombras que foram sendo resolvidas, ou uma tentativa séria disso.

11 | De que forma o que criaste durante a tua jornada a solo influenciou a sonoridade da banda no regresso?

Skin Creio que me tornei uma melhor compositora, tanto que passei a contribuir com muitas músicas minhas quando voltei à banda. Algo que fiz bastante nesses 8 anos foi, de facto, escrever canções.

12 | Colaboraram com o Tony Iommi no seu primeiro álbum a solo e também com os Sevendust, pouco tempo depois. Um projecto paralelo de heavy metal chegou a ser uma hipótese?

Skin Qual é que era a música com o Tony?

Ace [risos] Meat. [começa a cantar a música]. Quando terminámos a gravação desse tema, o Tony deu-nos umas cruzes com os nossos nomes, como uma prenda. Ainda no outro dia a usei, numa festa – faço questão de a usar sempre que estiver num ambiente onde possa captar energia. Um dia, quando conseguirmos ler objectos, essa cruz vai ser mesmo muito especial. [risos] É o meu pertence preferido. O melhor dessa colaboração foi podermos jantar com ele a seguir, que foi das coisas mais divertidas de sempre. Eu li o livro dele, que tem imensas histórias, e a verdade é que ele nos contou grande parte delas muito antes do livro ser publicado – e são verdade. [risos] Ouvi uma banda muito interessante no outro dia, Amaranthe. Eles têm uma vocalista muito boa e músicos incríveis. Eu não sabia que era capaz de gostar, mas agora acho que sim!

Skin [ouve a banda no Youtube] O mais “heavy” que quero fazer é o que já faço com Skunk Anansie. Estou mais interessada em coisas electrónicas. Gosto muito de techno. E tenho feito algumas coisas, como DJ. Nós somos uma das melhores bandas de rock que já existiu, na minha opinião, portanto não vale a pena explorar um estilo semelhante enquanto artista a solo.

13 | Em termos musicais, e na tua postura, foste passando por várias metamorfoses. Enquanto camaleão nesta indústria, qual é a skin [pele] em que te revês mais?

Skin Skunk Anansie é o primeiro amor. Mas tu não vives a tua vida tendo sexo apenas uma vez. [risos] Eu gosto de fazer imensas outras coisas – já representei um pouco, já escrevi para televisão; gosto de música techno, gosto de ser DJ, e acho que todas essas coisas são o que dá vida aos Skunk Anansie, e não nos torna apenas uma banda nostálgica. Toda a gente aqui faz outras coisas, daí também o som ser tão bom. O contraste é óptimo, a ideia de ter algo fresco em mente faz-te tocar as canções antigas de modo muito mas divertido. Se se tratasse apenas de revisitar o passado, os Skunk Anansie teriam acabado de vez.

14 | Numa altura em que as mulheres estão finalmente a vencer batalhas na conquista do poder, e tu enquanto líder de uma banda que sempre lutou para romper as convenções…

Skin Exacto! O que é que estás tu a fazer quanto a isso, Play’BOY’? [risos] As mulheres têm o poder! A Playboy começou como uma revista pautada por um sexismo terrível, mas sempre teve outros artigos. O alvo não são só homens. Têm mulheres poderosas a trabalhar na Playboy. É assim que o mundo funciona – e se não seguirem isso, vão morrer.

15 | Sentes a vontade de um renascimento ainda mais radical no vosso rumo?

Skin Nós aparecemos numa era diferente. Eu não vou estar sempre a mudar a cada álbum, não sou obcecada com a mudança. Enquanto pessoas, creio que nos desenvolvemos à medida que avançamos na vida, e tem de haver abertura para aceitar isso. Novas tecnologias, novas ideias, novas filosofias. Recentemente, a Music Week elegeu-me como uma mulher inspiradora, e uma das coisas mais incríveis que absorvi dessa experiência foi que os Rolling Stones têm uma mulher como manager, e ela diz que, nos tempos que correm, se entrares numa sala do Conselho Directivo de qualquer empresa e te deparares apenas com homens brancos, mais vale saíres novamente – porque o que isso mostra são pessoas que não estão em contacto com o futuro, com os sinais dos tempos. E é por isso que a Playboy tem de continuar a mudar, assim como os Skunk Anansie. Porque ou tu alinhas e adaptas-te, ou morres e tornas-te um monumento do passado.

16 | E o actual clima político na sombra de Trump tem servido de inspiração para compor um novo álbum?

Skin Absolutamente! [risos] Não gosto que sejamos rotulados como uma banda política, porque não escrevemos apenas sobre política, mas meu Deus, há tanta coisa para escrever sobre isso agora! Nós vivemos num mundo Trumpeano, cujas acções inflamaram a direita política. Se por um lado a esquerda permitiu uma expansão sexual e mental, por outro temos conservadores que nos tentam colocar numa caixa, apenas por sermos pessoas liberais e abertas. Creio que à medida que o pensamento liberal continua a crescer, haverá sempre pessoas que não se sentem confortáveis consigo próprias e que nos vão tentar puxar para baixo, procurando impingir-nos a sua moral hipócrita. O Trump prega valores conservadores, mas estamos a falar de um gajo que foi casado três vezes com mulheres não-americanas, todas emigrantes, e que tem um historial com prostitutas, etc. – com o qual eu não tenho nenhum problema, excepto o facto de ele desmentir e deturpar a realidade, como se fosse alguém moralmente inatacável, um exemplo a seguir. Só lhe queria dizer: “tu tiveste imensas mulheres, fodeste prostitutas, fizeste essa merda toda, mas estás-nos a dizer que não podemos fazer essa mesma merda”. Estamos a falar de alguém que empregou pessoas negras durante toda a sua vida, mas agora coloca-se do lado dos supremacistas brancos, porque é aí que os votos estão. Portanto, eu acho que a hipocrisia é de loucos, e tende a ser igual para as pessoas conservadoras em geral – esta ideia de que tens de te apresentar à sociedade como uma pessoa perfeita, ou algo do género, é uma mentira. Parem de nos tentar mudar a nós, quando são vocês próprios que têm que mudar. É por isso tudo que temos que continuar a lutar, a lutar e a lutar.

17 | Em paralelo com a ascensão do hip-hop e da música electrónica, concordas que o rock está em declínio e a extinção das bandas guitar-driven é inevitável?

Ace Outra geração vai pegar no rock. A música cria conexão com as pessoas. Seja techno, rock, pop, essa conexão nunca desaparece e, por isso, o rock nunca irá morrer.

Skin Eu acho que o tipo de rock com que crescemos já desapareceu, assim como a música dos anos 90. O que não morre é as pessoas continuarem a adorar ouvir e ver bandas ao vivo. Eu acho que as coisas aparecem como ondas, e este não é o momento ideal para o rock fluir. Mas pode bem voltar a ser dentro de uns cinco anos, porque as pessoas ficam cansadas de uma coisa, e depois olham sempre para o passado para serem inspiradas por outras coisas. Portanto, o que está a acontecer agora é termos imensos miúdos a reinventarem-se, porque tiveram música electrónica a vida inteira e estão um pouco fartos. Por isso, ao olharem para o rock, vão trazer esse género de volta com novas nuances. O que morre é a mentalidade do que é que era a música nos anos 90, isso claro que já entrou em declínio. Por isso, se continuares nessa mentalidade, vais continuar a fazer o mesmo rock de merda que já fizeste. Se vires os miúdos a fazerem rock hoje, percebes que fazem coisas inspiradoras, com diferentes elementos adicionados.

18 | Numa era tão descartável e de rápido consumo, o futuro pode estar mesmo no que apelidavas de “clit-rock” ou em outsiders como os Skunk Anansie, que ainda ocupam um espaço vazio?

Skin Vê desta forma: se tocares música a vida inteira, vais encontrar a porra de um caminho. E ninguém te vai parar.
E vais encontrar uma nova forma de o fazer. Porque vai haver sempre pessoas a fazer e a ouvir música, isso não vai morrer. É apenas tudo o resto que muda. Dito isto, eu estou bastante entusiasmada com os artistas que vão aparecer e que vão ser inspirados por bandas como nós, tal como nós fomos há mais de 20 anos pelos Led Zeppelin, etc. Os miúdos agora são inspirados por Skunk Anansie, mas reinventaram o nosso som.
É como a moda. Portanto, não acho que o rock esteja em declínio, acho que vai e vem, como as ondas.

19 | E quase 20 anos depois, regressam ao festival Vilar de Mouros em Agosto. Com uma relação tão umbilical com o público português, com quem até celebraram o penúltimo aniversário, o que é que reservaram para este concerto?

Skin Acho que não vão ter um tipo de concerto nostálgico. Nós fazemos uma retrospectiva dos últimos 25 anos porque estamos orgulhosos e entusiasmados com isso, mas vou ter de informar agora: vamos apresentar novas músicas e vamos tocar outras que nunca tocámos ao vivo, do tempo em que ainda nem dávamos concertos. Portanto, vamos ter uma abordagem fresca e contemporânea, e mesmo o espectáculo em si vai transformar o palco num lugar contemporaneamente vintage. Tudo o que já fizemos não vamos fazer de novo.

20 | A tour do 25Live@25 já tem datas anunciadas para outros festivais e concertos em nome próprio. Mas qual dos formatos é que consegue realmente traduzir a vossa performance?

Ace Esta tour vai ser muito equilibrada.

Skin Eu gosto tanto de tocar em festivais como em nome próprio. Não consigo cingir-me apenas a um formato, fico aborrecida. Se apenas fizermos concertos em nome próprio, parece que nos limitamos a pregar aos crentes. Com os festivais, ganhas novos fãs e arrasas os cabeças de cartaz, embora chegue uma altura em que já te apetece voltar a ter o teu próprio público e maior conforto. No final do dia, queres o melhor dos dois mundos.

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