01 - Fizeste 36 anos. Sentes-te a ficar adulto?

Por acaso sinto, o que me impede sempre de ser adulto é a minha profissão, não conheço nenhum humorista adulto. Mas em relação à parte mais pessoal da minha vida, nos últimos dois ou três anos mudou muita coisa, agora quase não saio à noite, tenho menos paciência para uma série de coisas, faço cada vez mais aquilo que me apetece, quando quero e como quero. É lixado: preciso disto, trazem-me; quero ir jantar aqui, marcam-me. Sou um bocado menino da mamã, e a minha namorada também “vá, vai lá jogar PlayStation”, pareço uma criancinha. Se comparar a vida dos meus amigos todos da minha idade, parecem os meus pais, casados, com filhos, empresas, levantam-se todos os dias com despertador. [risos] Eu nunca casei, não tenho filhos, nem quero ter tão depressa.

02 - Achas que podes fazer isto até que idade?

Até morrer. Não me passa pela cabeça reformar-me. Também não devo morrer muito velho, pela merda que já fiz ao meu organismo nos últimos 20 anos, isto não deve durar muito mais. Gostava de morrer como o Carlin ou como o Bill Hicks, a fazer stand-up.

03 - E gostas mesmo de andar assim vestido?

É normal, sinto-me bem assim. Gosto de estar sempre capaz de ir a qualquer lado, sem “epá, deixa-me ir só a casa meter um casaco”. Sempre gostei e o estilo de humorista que sou liga bem com isso. O meu gosto pessoal liga bem à persona, vá.

04 - És um produto do país onde nasceste e cresceste?

Totalmente, não sou muito diferente das coisas que critico, a maior parte delas também as faço. Uma das coisas mais giras de ser português é falarmos como se fossemos de outro país. Seja geograficamente, como o Gente da minha terra, seja agora em termos de tradições, no Very Typical, essas duas quase análises que fiz ao país foram sempre pelo ponto de vista negativo, porque é o que tem piada e nós temos tanta coisa errada.

05 - Foi fácil seleccionar os temas para o Very Typical?

Não, tanto que à partida vai haver segunda série. Enquanto o dinheiro não me entrar na conta não digo que está confirmado, mas eles querem, estamos em fase de aprovação de orçamento. Devemos fazer mais uma porque ficou de fora o sexo, que dá um episódio óptimo, o mercado de trabalho dá um episódio excelente, com os recibos verdes, as entrevistas de emprego, o chefe engraçadinho, há muito para explorar. Estes primeiros nove episódios foram os que achamos que seriam os temas mais abrangentes do que é Portugal, mais fáceis de satirizar e com que as pessoas se identificassem mais.

06 - Agora foi publicado em livro. Achas que as pessoas vão mesmo ler ou foi com medo disso que também incluíste desenhos?

O livro é muito giro, estou muito contente mesmo. Vale a pena porque há muita coisa que não está na série, tem coisas diferentes das que foram para a televisão, porque achámos que funcionavam melhor em livro. E tem coisas novas, acrescentámos imenso. Fizemos a adaptação os quatro, eu com o Manel, o Cruz e o Paulo, tem o dedo deles tal como o meu.

07 - O Manuel Cardoso, Rui Cruz e Paulo Almeida são a tua entourage?

Não, não tenho entourage. Isto é para aí o meu sétimo programa de televisão e só fiz dois com o Paulo e o Rui. E dificilmente volto a fazer o que quer que seja com mais alguém. Aqui juntou-se a nós o Manel, é uma peça fundamental, trouxe uma série de ideias novas. É natural, tem 21 anos, eu tenho 35, é uma diferença muito grande. Já não sabia bem o que é que a malta está a ouvir, como é que fala, onde é que sai à noite, esse tipo de cenas. Enquanto ele quiser vai estar sempre comigo. Fez o meu primeiro workshop de escrita de humor e é muito giro que venha quatro ou cinco anos depois escrever comigo, adoro isso. O Cruz e o Paulo já estão comigo há mais tempo mas não somos um grupo, até porque eles precisam da sua individualidade e estão a trabalhar por ela, às vezes também é injusto estarem sempre a ser associados ao meu nome.

08 - Chocar é fácil?

É, o que é difícil é chocar algumas pessoas e depois ter milhares de outras a rir à gargalhada, e esta parte muita gente não percebe. O facto de se sentirem chocadas não quer dizer que essa piada tenha sido feita para chocar, não é para elas. Não ligo para a TVI a dizer para acabarem com um programa que acho uma desgraça. O facto de acharem uma piada de mau gosto, ou fora dos limites, não quer dizer que não haja milhares de pessoas a adorar e a querer mais dessas piadas.

Fotografia Bernardo Coelho

09 - Vêm ter contigo na rua para falar bem ou mal?

Mais bem, 99% bem e 1% mal. Na noite é para tirar fotos ou dizer palavras de incentivo, mal é muito raro, isso é mais para a Internet, para o campo dos cobardes e tal. Até porque não há nada para dizer, “ah, não gostei”. Ok, segue com a tua vida que eu faço o mesmo.

10 - Quando fazes um post que sabes que vai pegar fogo, consegues resistir a ficar a ver o que acontece?

Não ligo nada, ponho e sigo com a minha vida. Os elogios não me interessam muito, não vão mudar absolutamente nada e depois o contrário é lixo, também não vai mudar nada, obviamente, é tudo ruído. Claro que pessoas a dizer “ganda piada, ri-me bué”, fixe, toda a gente gosta disso. A outra parte não é o meu público. Custa-me muito mais ler “já fizeste piadas melhores”, ou “costumo gostar mas esta foi ao lado”, do que “és uma merda”. Isso é zero porque não é o meu público, não perdi nada com aquilo. Quando há estas polémicas eu nunca perco.

11 - E tens vontade de responder?

Nunca, se as pessoas fizessem ideia do quão não me conseguem tocar, ninguém escrevia nada. Eu já estou num restaurante, ou a jogar PlayStation, ou a beber copos, já estou noutra. Esta ideia de interação que as pessoas têm só é validada quando se responde. Porque é que eu hei-de responder a um contabilista com 42 anos do Cacém? Isto não tem lógica nenhuma, tu não respondes na rua a pessoas que não conheces. De vez em quando faço uma limpeza, claro, pessoas que estão ali a insultar-me deliberadamente, ou à minha família, ou às pessoas que estão na minha página, que é o que acontece mais, bloqueio na hora como é evidente.

12 - Um ano depois os Charlies já estão extintos?

Passado uma semana já estavam extintos, a única réstia de Charlie nas pessoas é se forem às fotos de perfil do Facebook, está lá uma cena a dizer “Je suis Charlie” mas elas nunca mais pensaram nisso, porque a maior parte das pessoas que pôs ou que disse que era Charlie não faz a mínima ideia do que é ser Charlie.Charlie é dar tudo o que se tem e acreditar a 100% na liberdade de expressão, só isso, não é mais nada.

13 - Sentes-te realizado depois de veres o teu nome em capas de jornais?

Isso é lixo, estar na capa do Correio da Manhã. Quando saiu, a primeira coisa que disse foi “nunca mais posso dar entrevistas a revistas de merda”, nem o meu target está aqui, nem isto interessa para nada porque as publicações não são sérias. E disse, “temos de dar à Playboy, à Visão e à Sábado”, e assim foi, são as entrevistas que me interessa dar porque são publicações sérias, que publicam o que eu disse. Sei que andaram na televisão a dar-me recados e a falar de mim, não vi, escolho não ver. Não tem interesse para mim, é ruído, é como estar a ver estática, não posso perder tempo.

14 - Quem é que recomendavas a alguém que nunca viu stand-up?

Recomendava o Louis C.K. e o Bill Burr dentro de um género, o Jimmy Carr e o Anthony Jeselnik dentro de outro género, depois o Jim Jefferies e Frankie Boyle. E dois clássicos, o Bill Hicks e o Carlin.

15 - Encheste o Coliseu dos Recreios. Nunca temeste ter dado um passo maior que a perna?

Não, estava à espera de encher. Se não enchesse também não havia mal, não podia era ter 400 pessoas mas isso à partida... quando fizemos a temporada no Villaret esgotámos cinco ou seis vezes e pelo buzz que estávamos a ter, sempre achei que ia conseguir. Mas não deixa de ser incrível. Não gostei muito, acho que não correu particularmente bem, e não gostei do espaço, nunca mais irei fazer no Coliseu. Senti que as pessoas não estavam a gostar tanto como gostariam se estivessem mais perto, também já vi stand-up em sítios grandes e não gostei tanto como quando vi em salas mais pequenas, é muita distância das pessoas. O Kevin Hart anda a fazer estádios de 40 mil, 50 mil pessoas, isso não é stand-up, é uma punheta. Stand-up é 500, 1000 pessoas, Pavilhão Atlântico já é masturbação mental. Quero divertir-me e que as pessoas gostem, prefiro trabalhar mais e em salas mais pequenas a partir de agora.

Fotografia Bernardo Coelho

16 - São os espectáculos ao vivo que te ajudam principalmente a pagar as contas?

São. Os workshops e a SIC Radical também ajudam, felizmente. Mas tenho várias coisas, os DVDs, os livros, também gosto de diversificar, é sempre bom. Faço tudo porque curto, nada é exclusivamente por dinheiro. Mas o dinheiro que gosto mais de ganhar é dos espectáculos, são as pessoas que pegam em 15€ e dão-me. Depois vai para impostos, para o teatro, agenciamento, publicidade, se acham que me estão a dar esse dinheiro directamente eu agradeço imenso mas só um terço é que vem para mim, pronto, é assim a vida.

17 - Trocavas tudo pelo palco?

Tudo o que faço é para só fazer palco um dia. Se me dissessem “podes fazer quatro vezes por semana e tens sempre público” eu não fazia mais nada, desaparecia, desligava as redes sociais todas, ficava só com o Instagram, talvez. Preciso de trabalhar dez anos em tudo o resto para o poder fazer. É por andar pelo país que sinto que as coisas estão a mudar, as coisas só não mudam na Internet, mas a vida real é eu ir a Faro pela primeira vez e estarem lá 700 pessoas, num teatro que é raro encher daquela maneira, a aplaudirem o bit do cancro. Quando há estas polémicas, eu não imaginava que fosse dar problemas, não fiz aquilo com o tal alvo, é uma cena abstrata e tive cinco mil likes até o Facebook bloquear. Temos a PIDE digital neste momento em Portugal, a malta estava a curtir, recebi mensagens de pessoas com cancro e de gente que até sabe que a minha avó e a minha mãe também já tiveram cancro, ou seja, que não sou um palerma que falo de uma coisa que não sei o que é. E poderia falar, não preciso de sentir as coisas na pele para poder falar do que quer que seja. Quando há estas merdas tenho tipo três mil likes na página num dia e não fico nada contente, fico sempre à espera que seja lixo.

18 - Londres foi o primeiro passo para uma digressão pelas comunidades de emigrantes?

Foi uma ideia, não tenho nenhum plano diabólico para atacar as comunidades, até porque o meu humor não é para todos os emigrantes. Londres é uma cidade perfeita, onde os emigrantes informados e instruídos sabem o que é stand-up comedy, porque há lá 30 mil gajos mais agressivos do que eu. Não é que os outros emigrantes não prestem, nada disso, tem a ver com target, com sentidos de humor, com pessoas, não me interessa nada ir à festa do queijo da serra de Sion e estarem lá três mil portugueses, o público alvo do Portugal no Coração, a ver o meu stand-up, não vai correr bem, temos de ter consciência disso.

19 - Seres do Barcelona é uma escolha racional para um humorista, que assim pode gozar com os três grandes e ainda com o Cristiano Ronaldo?

Não, é já de há muito tempo, desde o Dream Team. Até começou um bocado antes, sempre adorei o Bakero e aqueles clássicos do Barcelona e depois quando foi aquela equipa do Stoichkov, Romário, antes do Ronaldo, Giovanni, Figo, desde aí. E agora é uma maravilha, é uma limpeza. É ridículo, é a melhor equipa da história do futebol, e estou com medo que isto vá acabar em breve, o Messi já tem 28 e nem sei o que é que vai ser o futebol depois disso... Também se dizia que a seguir ao Guardiola não ia ser possível fazer melhor e esta equipa é melhor.

20 - E já planeaste o que vais fazer a seguir à digressão de Je Suis Cordes?

Vou estrear o novo solo em Setembro, quero fazer para aí duas vezes todas as semanas, durante dois ou três meses. Estamos agora a ver de uma sala pequena que tenha o calendário que preciso. Se fizeres todas as semanas o público renova-se, “pá, tens de ir ver um gajo que eu fui ver ontem”. Como nunca fiz isso, vou fazer agora.

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