1 | Usas este nome desde a adolescência. Na altura não era algo convencido intitulares-te professor?

Era, mas acho que é um bocado o próprio ego do MC. Não sei se é uma condição necessária para te tornares MC, já o teres, eu já o tinha de certa maneira e nasceu um bocado de ver o Dr. Dre. “Se isto dá para ser doutor, eu posso ser professor. Vou ensinar como é que se rima, ensinar umas coisas." Mas sim, claro que era convencido.

2 | Não seres do bairro era um problema quando começaste?

O hip-hop era associado realmente a essa parte de classes mais baixas, mas também sofria um bocado do outro lado, gozavam comigo por ser bué yo, não encaixava, estava ali um bocado numa grey zone. Nunca levei com a cena do não podes fazer hip-hop por não seres do bairro, até porque o meu conteúdo nuncafoi esse. Acho que isso acontece quanto te apresentas a falar da realidade das ruas, nunca fiz isso. Sempre foi pelo skill, o que queria era rimar bem, criar o meu mundo, a minha personagem, e não propriamente usar isto como credibilidade da rua.

3 | Porquê só o primeiro álbum agora, aos 27?

É uma questão mesmo de valorização do álbum. Eu fazia muito aquela produção de Internet, ia buscar um beat, às vezes sem licença, sem nada, gravar por cima, sem mistura quase e pôr na Internet. Então sempre tive essa noção, “Não vou chamar um álbum a coisas de beats de outros álbuns”. Cheguei à conclusão que para fazer um álbum tem que ser com as condições necessárias, seja a nível financeiro, a nível também da estrutura à volta e estes anos todos costumava dizer, “Só vou fazer um álbum quando tiver 50 mil euros”. Não é que esse seja o valor do álbum, mas era o que eu punha na cabeça. Vou construir a cama para poder fazer um álbum, porque queria ter realmente tudo. A parte visual, a parte instrumental, tudo no melhor que conseguisse na realidade portuguesa, sempre me guiei por isso. Lá fora, quando há um rollout de um álbum, os visuals, a parte musical está toda ligada e isso tem custos. Simplesmente achava que ainda não tinha condições. Claro que isto não é dizer que só um álbum com budget é que é um álbum, eu é que tinha essa ambição. Para chamar um álbum, vou fazer o melhor que conseguir. Até lá fiz mixtapes. Sempre fui mais ligado à cena das mixtapes, porque achava que aí o que interessava mesmo era o skill. Se calhar foi por isso que fui maturando o meu estilo, para onde é que queria ir, até definir mesmo o que é um álbum. Tenho a minha sonoridade, vou empacotar como um álbum. Surgiu agora, 11 anos depois de fazer o meu primeiro som, basicamente.

4 | Foste estudar música, estavas a apostar tudo nesta área desde cedo. E se corresse mal, tinhas um backup plan?

Na verdade a música era mais uma fantasia. Até certa altura nunca pensei que as pessoas fossem apoiar, foi uma boa surpresa, o meu plano era tirar Engenharia Informática. Estava no Técnico, entrei em 2009, e acabei por desistir porque a música foi começando a mexer levemente e senti que havia uma parte de mim que ia ficar um bocado triste se não tentasse. Queria tirar um curso de produção de áudio em Madrid, seis meses, e a minha mãe insistiu para eu tirar uma cena mais extensiva e então aí sim, era a coisa de “Vou tentar a minha música” e de backup plan tenho conhecimento de áudio para ajudar as pessoas a fazerem música delas. Mas era sempre um “Era fixe”, simplesmente quando a oportunidade surgiu foi tipo, “Vais agarrar, ou não?”. Nunca trabalhei para a ter, ela foi surgindo e depois de surgir já foi essa questão de, “é a informática que vamos 100% ou vamos tentar a música?”. Optei pela música, mais para se falhasse, podia dizer que tentei. Falhar em termos de sustento. Iria sempre fazer mas não conseguiria pô-la num nível que agora consigo, porque tenho uma editora, envolve um trabalho diário, que não dava para fazer em part-time ou mesmo em pós-laboral. Estou aqui agora, está a correr bem. Claro que nada dura para sempre, como dizem os Dealema e não é esse o meu objectivo. Enquanto der, deu e está fixe.

5 | O que te levou a lançar a tua própria editora, a Think Music Records?

Foi muito a questão da label, não tanto a parte do business. Cresci a ouvir lançamentos de rappers e todos tinham um label associada, a Death Row, Roc-A-Fella, então sempre gostei bué dessa parte de trás, dessas pessoas que estão a estruturar o plano de lançamento, o conceito, a parte toda de produção executiva, quem é que vai para o estúdio com quem, etc... Comecei num projecto, que era a ASTROrecords, a certa altura saí e decidi “Não vou ficar ‘unsigned’”. Então criei a minha label, juntamente com o meu manager e ensinei-me a mim próprio, seguindo os passos do Jay-Z com a Roc-A-Fella, o Kanye West com a Good Music, o Drake com a OVO, o Lil Wayne com a Young Money, embora todas elas acabam por ser sucursais de majors. Para ser um “gajo completo”, um “rapper completo” tenho que ter esse side também, mas inicialmente foi apenas pelo carimbo.

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