01 - A primeira vez que apareceste na TV foi numa reportagem sobre futebol. É uma paixão de infância?

Foi na SportTV, chamava-se O melhor jogador do mundo. O meu pai foi jogador de futebol e cresci naquele mundo, se calhar se tivesse outra sorte de ter nascido com pernas, tinha seguido essa área… Agora é um hobby, a representação é que se tornou uma paixão.

02 - À partida seria impensável jogares futebol, estás constantemente a testar limites?

Sim, até nas pequenas coisas, subir umas escadas para as pessoas ditas “normais” é algo banal, para mim por vezes são grandes vitórias, então aí também estou a testar os meus limites.

03 - E dá-te gozo conseguir completar todas essas tarefas que para os outros são banais, como fazer a barba?

Dá, porque antes falhei algumas vezes e o que me dá gozo é depois conseguir fazer, torno-me muito mais forte. Foi assim desde pequenino, comecei a falhar muitas vezes, até que uma só vitória superava esses dez falhanços.

04 - Há alguma coisa que consegues fazer mas não gostas?

Não gosto muito de cozinhar, de ir às compras, mas tenho que ir. Sou preguiçoso em algumas coisas. Olha, não gosto muito de fazer a barba, só faço quando tenho mesmo necessidade. Não gosto muito de andar a pé e tenho que andar, sei lá, tanta coisa.

05 - Atendes o telemóvel, envias mensagens escritas, à distância quem não te conhecer nem imagina que estás a superar um desafio. Adaptas-te facilmente?

Sabes que como cresci assim, aprendi a fazer as coisas. Agora se me pusesses mãos de repente é que entraria num mundo completamente estranho. Fui aprendendo naturalmente, a observar as outras pessoas e tentar fazer à minha maneira. Seria diferente se tivesse um acidente e ficasse limitado, eu sempre me vi assim, para mim é perfeitamente normal. Tenho um bocadinho mais de sensibilidade, o corpo adaptou-se às limitações.

06 - Tiraste a carta logo à primeira?

Tirei, demorei um mês e meio. Gosto de ouvir as pessoas dizer que não vou ser capaz. Não só para mim especificamente, por vezes quando as pessoas vêem que algo é difícil dizem que não, que é impossível mas não deixam a outra pessoa tentar e isso a nível profissional acontece-me muito. Na carta foi assim, diziam “não consegues tirar a carta, é impossível”. E eu dizia “pelo menos vou tentar, vou lá ver”. Passei a burocracia, testes psicotécnicos e tudo, depois na prática em si foi fácil, já tenho carta há dez anos.

Fotografia - Bernardo Coelho

07 - Por vezes ficas na dúvida se te estão a dar algo por mérito ou por pena?

Para a primeira personagem fiz três castings até ser escolhido, por isso acho que não foi dado por pena. Mas antes da reportagem Uma Vida Normal, da SIC, olhavam para mim com pena, cresci a ouvir dizer que mais valia não ter nascido. Os media têm a capacidade de mudar mentalidades, ainda mais num país tão pequeno. Passou num domingo e no dia seguinte as pessoas olhavam para mim e diziam “epá, é aquele rapaz que consegue fazer tudo”. Passou de pena a admiração num dia, a reportagem foi vista por 2 milhões e qualquer coisa e isso mudou logo, por isso acho que já não olham para mim com esse sentimento.

08 - Em alguma fase te sentiste revoltado?

Claro, houve alturas em que pensei que não teria sequer uma namorada, quanto mais uma família como tenho agora. O primeiro choque foi perceber em pequenino que não podia ser jogador de futebol. O meu maior receio foi a representação, comecei com 6 anos no teatro, foi algo que quase nasceu comigo. Estive muito tempo com essa vontade, com esse sentimento guardado com medo da rejeição, porque era a rejeição da minha vida. Tive rejeições, mas coisas banais, que superava com o apoio da família ou dos amigos, e a representação só tentei mais tarde, com 26 ou 27 anos, porque a televisão ainda é um mundo um bocado preconceituoso, prevalece mais o bonito que o talentoso e eu tinha um bocado de receio que me dissessem que não. Fui estudar, conhecer o mercado, fui preparar-me, tive workshops, cursos, para tentar chegar lá e valer pelo talento e formação, não cair de pára-quedas, sem estar preparado.

09 - Já cometeste excessos?

Claro, como todos. Fui rebelde, estive suspenso na escola, tentei sempre usufruir ao máximo da vida e que fosse perfeitamente normal, então houve excessos, claro que sim, um beber de copos, fumar, sair à noite, faz parte da aprendizagem. Bati várias vezes com a cabeça, cometi erros, só assim é que aprendemos.

10 - Quando sonhas, és como na realidade?

Sim, sonho totalmente como sou. Falo disso no meu livro, é engraçado, podia sonhar que tinha pernas e que corria ou voava, mas não. Às vezes sonho que estou a correr sem as pernas, como faço no dia-a-dia, vou a correr não sei para onde. É engraçado, talvez seja por nunca me ter visto de outra maneira.

11 - O que é que te levou a abandonar o curso de jornalismo?

Não gostei. Fui um bocadinho pressionado pela família para ir para a universidade, como é hábito, temos que ter um curso universitário, mas não era aquilo que eu queria. E não podia aguentar mais, porque o tempo ia passando e as oportunidades iam fugindo. Trabalhava no escritório de uma empresa de camiões, porque o curso era pago e eu e a minha família não tínhamos dinheiro. Despedi-me, virei-me para o meu patrão e disse-lhe “olha, vou ser actor”. E ele “não, os actores passam fome, se fores embora já não te dou mais trabalho”. Depois fiz a primeira novela e mandei-lhe o meu livro de oferta. Ele ligou-me e disse “conseguiste”.

12 - Quando dizes o nome ao telefone, já te confundiram com o filho do Belmiro?

Não, mas era fixe, pelo menos na carteira. É engraçado, se fores ao Google aparecemos os dois nas fotografias, é giro.

13 - Qual foi o papel que gostaste mais de fazer?

Todos foram especiais, mas o primeiro foi o concretizar de um sonho. Antes tive vários personagens em teatro, fiz teatro a vida toda, mas o Raimundo, na primeira novela, foi muito especial, era uma das personagens principais da novela. Depois tive a personagem do filme Nirvana, que era completamente alucinada, um psicopata, onde eu aparecia também sem as próteses. Fugiu muito à minha realidade, isso é bom, foi o primeiro vilão que fiz, deu mais gozo, foi um desafio maior e pude puxar mais por mim.

Fotografia - Bernardo Coelho

14 - Se pudesses mandar fazer um remake de qualquer filme, qual era o papel que gostavas de fazer?

Olha, gostava de fazer o Nascido a 4 de Julho, mas eu com as próteses, o Tom Cruise fez de cadeira de rodas. Ao longo da nossa vida sentimos muita revolta, não fui só os sorrisos que vês. Agora sou. Passei por aquilo que ele passou, e se calhar se fizesse esse remake ganhava um Óscar, ou no cinema português um Globo de Ouro. Nunca tinha pensado nisso, mas era giro.

15 - E aqui, estás a representar um papel ou és só o Paulo?

Sou eu. Não represento no dia-a-dia, sou como sou. Muitas vezes nas personagens também, meto um bocadinho de mim, acho que a personagem tem que ter o teu cunho pessoal.

16 - O teu palminho de cara na adolescência fazia sucesso entre as mulheres?

Acho que nem era o palminho de cara, era mais o humor que usava. Dizia que vinha de Marte, ou que tinha unhas encravadas, ou pisavas-me e queixava-me. A professora “querem falar, põem o dedo no ar” e eu “olhe, desculpe, mas está-me a excluir?”. Demonstrava um bocadinho que era bem resolvido comigo próprio, e sempre fui, foi a minha família que me incutiu esse espírito. Sabia que era diferente mas não era sinónimo de ser inferior. Todos somos diferentes. Olha, como dizia o Nuno Santos, quando era diretor da RTP, eu contava-lhe que gostava de trabalhar mais, mas as pessoas esquecem-se de mim. E ele “não, de ti não se esquecem de certeza”. É uma característica boa, no meio da infelicidade.

17 - Foi complicado despires-te pela primeira vez à frente de uma mulher?

Não, porque gosto muito de mim como sou. Gosto do meu corpo. Às vezes as pessoas com problemas ou deficiências recorrem a mim e a pessoas como eu, que têm limitações e demonstram ultrapassá-las. Digo a toda a gente que, tenhas limitações ou não, o primeiro passo é gostares de ti como és, se te sentires bem contigo próprio e no teu corpo, tens auto-confiança e isso cativa as pessoas, a energia positiva. Não é ser egocêntrico, se me sentisse mal no meu corpo era muito complicado viver nesta situação, era infeliz, entrava em depressões, suicidava-me… Mesmo isso era complicado, porque não tenho pulsos para cortar, também não consigo dar o nó na corda… Estou a brincar. Não te vou mentir, pensei muitas vezes “como é que eu me vou despir à frente de alguém?”. Se calhar ao longo da vida também tive sorte por as pessoas que estiveram comigo terem uma mentalidade mais aberta e aceitarem-me como sou. Mas tive ex-namoradas que pensaram que eu não tinha sequer um órgão sexual, o que é legítimo. Se te aceitares, quem tiver de gostar de ti gosta, quem não tiver que se foda.

18 - Conseguiste recentemente levantar 100 quilos. Qual é a próxima meta?

Foi lá no ginásio. Já percebi que não é a levantar muito peso que um gajo vai ao sítio, é com uma boa alimentação. A próxima meta é ser totalmente independente, é uma meta a longo prazo. Claro que não te vou esconder que quero trabalhar, na minha área ou noutra, desde que consiga sustentar o meu filho e a minha família. Mas é ser independente em cima das minhas próteses. Conseguir fazer a minha vida normal, se estiver bem luto pelo resto, trabalho procura-se.

19 - Já escreveste um livro, tiveste recentemente um filho e provavelmente já plantaste árvores. Sentes-te realizado?

Sinto, porque sou feliz. Ainda me faltam fazer muitas coisas a nível profissional, mas a nível pessoal sim. Podia-me calhar o Euro Milhões, ou ser filho do Belmiro de Azevedo, mas sou feliz como sou.

20 - Tens algum sonho por cumprir?

O meu avô é o homem da minha vida e ainda não olha para a minha profissão com muito bons olhos, porque é instável. Se um dia receber um prémio por uma personagem que fiz, é para ele totalmente. E aí, às pessoas que me viam ao colo da minha mãe e diziam “coitadinho, mais valia não ter nascido”, direi “se calhar valeu”.

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